Por que razão discutir a crise do Marxismo?

Todo julgamento da crítica científica será bem vindo. Quanto ao preconceito da assim chamada opinião pública, à qual nunca fiz concessões, tomo por divisa o lema do grande florentino: Segui Il tuo corso, e lascia dir le genti. (Marx, 1983, Editora Abril, prefácio à primeira edição de O Capital).

Por todas as razões acreditamos que devemos expor os motivos porque decidimos discutir a crise do marxismo. Crise na teoria e na prática, como não poderia deixar de ser. As razões políticas, teóricas e práticas colocadas pela luta de classes.

Razões políticas que – depois de uma longa militância buscando encontrar uma organização que com sua teoria e prática concretizasse um processo de mudanças nas relações sociais que há muito está maduro: o socialismo – nos fez perceber que se tornava necessário outro tipo de intervenção.

Na verdade, o 26 de dezembro de 1991 quando o parlamento soviético declarou a dissolução da URSS já nos vinha fazendo pensar que os problemas do movimento comunista eram muito maiores e diferentes do que pareciam. E assim, fomos levados a lembrar à afirmação de Lenin, tantas vezes repetida e pouco assimilada, ecoando a posição de Marx e Engels, reafirmada insistentemente por Mao, a tese da unidade teoria e prática: “Sem teoria revolucionária, não há prática revolucionária”.

Percebemos que muito mais do que uma discussão sobre organização, tática ou estratégia, o que necessitamos é discutir a situação, o estado da teoria marxista, sua crise escancarada após o XX Congresso do PCUS e a cisão do movimento comunista em 1963, a necessidade urgente e incontornável de tomá-la a sério e perguntarmos por suas causas. Perguntar as causas da crise que desembocou em Kruschev, no rompimento da URSS com a China, cisão na teoria e na prática, e no desmanche das experiências de construção do socialismo, principalmente na URSS e na China por seu papel de exemplo.

A crise do movimento comunista não pode ser somente o resultado dos erros cometidos pelos partidos comunistas em sua prática na luta de classes, resultado de uma conjuntura, nem da ação dos inimigos de sempre e, que desde sempre, se uniram contra ele na luta de classes, se fossem esses os motivos da crise do movimento comunista teríamos de perguntar por que razão tornou-se possível o triunfo da conjuntura, dos acontecimentos sobre uma teoria cuja “onipotência” (numa expressão que se tornou clássica por Mao) deriva da verdade inquestionável dos conceitos que a articulam.

O movimento comunista não foi derrotado por seus inimigos de sempre. Fomos derrotados ao não sermos capazes depois de Marx, Engels, Lenin, Stalin e Mao de desenvolver a teoria de forma a iluminar de maneira justa nossa prática revolucionária.

Repetimos: a crise do Marxismo é uma crise teórica e prática e a luta de classes nos coloca a urgência de superá-la.

Mas Marx já não nos alertava, não nos chamava a atenção – ao afirmar no O Capital que ali se constituía uma ciência – para o fato de que o Marxismo, como toda ciência, não é espontaneamente conhecido? E de que a luta de classes coloca diante do movimento comunista a exigência de enfrentar todas as dificuldades de uma teoria radicalmente nova? A necessidade imperiosa de “chegar aos seus cimos luminosos”? De dominar, o que significa, ao mesmo tempo, praticar o Marxismo?

Não há estrada já aberta para a ciência e só aqueles que não temem a fadiga de galgar suas escarpas abruptas é que tem a chance de chegar a seus cimos luminosos (Marx, O Capital, v. I, Abril Cultural, 1983, p. 23. Prefácio da Edição Francesa).

Desde o prefácio à primeira edição de O Capital Marx não reclamava de que necessitava de leitores capazes de “pensar por conta própria”?

Pressuponho, naturalmente, leitores que queiram aprender algo de novo e queiram, portanto, também pensar por conta própria (Marx, O Capital, v. I, Abril Cultural, 1983, p. 12. Prefácio da primeira edição).

E não constatava que fora “pouco entendido”?

O método aplicado em O Capital foi pouco entendido, como já o demonstram as interpretações contraditórias do mesmo (Marx, O Capital, v. I, Abril Cultural, 1983, p. 18. Posfácio da segunda edição).

E não é Kautsky – após a morte de Friedrich Engels em 1895, o “herdeiro teórico” de Marx e Engels que vai editar o quarto volume do O Capital, ou melhor, as “Teorias da Mais-Valia” – que pelas suas posições revisionistas, reformistas e antirrevolucionárias, acabou por ser denunciado como renegado por Lenin?

Toda a experiência da luta de classes não só nos ensina sobre a ameaça sempre presente do revisionismo, do reformismo, do esquerdismo, como, também, nos apela para a tarefa incontornável de praticar o marxismo-leninismo. Precisamos avançar com todos os camaradas na discussão da crise do marxismo, avançando na sua compreensão, em sua formulação, até escoimá-la de toda e qualquer aderência idealista; avançar na teoria marxista até situá-la integralmente em outro terreno, no terreno do materialismo, como quer Lenin, materialismo até o teto, avançar até o terreno da dialética materialista, até o ponto onde cada camarada se vê diante do dilema de trocar de pele, lutar para avançar sem nenhuma concessão, conquista que só a mais rigorosa luta de classes no campo da teoria pode nos trazer.

Marx, Engels e J. Dietzgen entraram para a carreira filosófica numa época em que o materialismo reinava entre os intelectuais avançados em geral e nos meios operários em particular. Marx e Engels deram, pois, muito naturalmente, uma atenção contínua não à repetição daquilo que já tinha sido dito, mas ao «desenvolvimento» teórico sério do materialismo, à sua aplicação à história, quer dizer, ao acabamento até o teto do edifício da filosofia materialista. (…) a sublinhar «sobretudo» o que faltava àqueles escritores mais populares e mais escutados nos meios operários, ou seja, a dialética (Lenin, Materialismo e Empirocriticismo, Edições Mandacaru, 1990, p. 217).

É para a necessidade da mais rigorosa luta teórica que Lenin nos alerta quando mostra que “o idealismo subsiste ‘em cima’, no domínio da ciência social; incompreensão do materialismo histórico.”.

É isto e só isto, que lhes censura [Engels em relação à Büchner e consortes]; não os censura por serem materialistas, como imaginam os ignorantes, mas por não terem feito progredir o materialismo, por «não terem sequer pensado em desenvolver a sua teoria». (…) o idealismo subsiste «em cima», no domínio da ciência social; incompreensão do materialismo histórico (Lenin, Materialismo e Empirocriticismo, Edições Mandacaru, 1990, p. 215).

E é exatamente esta a lição de Marx, Engels, Lenin, Stalin e Mao, a prática da mais rigorosa luta de classes no campo da teoria. Posição que é exatamente o contrário da intenção demagógica de agradar e/ou encobrir as contradições. A lição que nos faz buscar com nossos camaradas, sem concessão, a verdade do marxismo-leninismo, servindo-nos para isto do conhecimento que só a prática da mais rigorosa, intransigente, precisa e justa luta de classes na teoria pode trazer.

Trabalhar, para retomar a teoria revolucionária como instrumento para a construção da revolução, do socialismo e do comunismo. Perceber a imensa revolução teórica representada pelo marxismo. Não se trata mais, como diz Marx, de interpretar o mundo de diversas maneiras, mas de transformá-lo. Tomar a teoria como arma do proletariado na luta de classe, arma que possibilita a ele e demais classes dominadas a ter uma prática revolucionária, elaborar a linha justa na luta de classes.

Como diz a citação de Marx com a qual iniciamos nosso trabalho, esperamos dos camaradas a crítica mais rigorosa, crítica científica, marxista-leninista, porque vamos trabalhar procurando nos situar rigorosamente no campo do marxismo-leninismo. Quanto às críticas burguesas de todas as matizes dizemos com Marx, “segue teu curso e deixa a gentalha falar”.

Praticar o marxismo, não o reformismo/revisionismo.

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