A crise do imperialismo é a crise da divisão internacional do trabalho

Queremos apresentar aqui, de forma sumária e esquemática, um conjunto de teses que vimos discutindo sobre a conjuntura da luta de classes na crise do imperialismo, teses que nos propomos coletivamente a desenvolver, precisar e retificar. Conclamamos a todos os camaradas que participam de nosso trabalho coletivo a contribuir nesse processo.

A tese que queremos levantar é:

    1. O imperialismo vive uma crise de qualidade e profundidade novas, a crise de uma nova divisão internacional do trabalho.
    2. A atual crise do imperialismo tende, a agravar a luta de classes por todo o mundo.
    3. A lógica intrínseca à reprodução do capital, desenvolvimento e crise, implica que a cada fase de desenvolvimento se anteponha obstáculos, barreiras, cada vez maiores e, como dizia Marx, “e em escala mais poderosa” a valorização do capital, para ser superado pela nova crise.
    4. As seguidas crises dos anos 1970, (1973-1975, 1978) impuseram à reprodução do capital barreira de tamanha monta que não conseguiu ser superada nem pela política de empréstimos dos anos 1970 nem pela política neoliberal que se seguiu.
    5. O Capital para superar sua crise (as crises dos anos 70 – 1973-1975, 1978) a partir de meados dos anos 80, começa a engendrar uma nova divisão internacional do trabalho respondendo a necessidade de sua reprodução, de sua valorização: manter a taxa de lucro.
    6. A nova divisão do trabalho na economia mundial se expressou:

a) no rompimento com as sucessivas transformações/desdobramentos da divisão internacional do trabalho entre dominantes e dominados porque passou a divisão do trabalho desde o processo de formação das condições de surgimento do capitalismo, desde a formação do antigo sistema colonial, e que se fez primeiro, entre metrópoles e colônias, depois entre países dominantes/paises imperialistas, e países dominados.

b) na produção de uma nova divisão internacional do trabalho que vai se dar sob a simbiose das economias dos EUA/China, principalmente, e que vai parquear a economia mundial, determinar novas posições na economia mundial as diversas formações econômico-sociais.

  1. Essa nova divisão do trabalho ainda se caracteriza:
    1. na tendência crescente de transferência da indústria dos países dominantes, principalmente dos Estados Unidos e mesmo de países dominados que haviam atingido um determinado nível de industrialização, para a Ásia, principalmente para a China a busca de contrarrestar a queda da taxa de lucro.
    2. na constituição de um mercado consumidor (meios de produção, matérias primas e bens de consumo, inclusive e principalmente, para garantir a reprodução da força de trabalho) compreendido pela construção de um novo setor industrial na Ásia, particularmente na China, e de um novo mercado mundial – exatamente nos países dominantes, principalmente os EUA, assim como países dominados capazes de realizar bens de consumo de media e alta tecnologia, que estavam transferindo sua indústria, se “desindustrializando” no processo, o que quer dizer, aumentando o desemprego e reduzindo a base de consumo – para os bens de consumo produzidos crescentemente na Ásia.
    3. na constituição de uma “esfera” financeira [1] capaz de absorver e aplicar a crescente massa de capitais gerados pela industrialização crescente da Ásia, e principalmente da China, em cima de uma taxa de lucro extremamente elevada nas novas condições de produção. Tanto capaz de financiar (criar credito) não só o processo de transferência da indústria para a Ásia, como de criar credito para garantir a realização desta produção, o consumo crescente de uma produção crescente. Essa mesma esfera financeira também permite, no mesmo processo, a valorização fictícia de capitais.
  2. O processo de valorização do capital a taxa de lucro conveniente dentro da nova divisão internacional do trabalho encontrou o seu limite, o seu obstáculo. A crise é a impossibilidade de continuar valorizando o capital à mesma taxa de lucro, “à medida que a taxa de valorização do capital global, a taxa de lucro, é o aguilhão da produção capitalista (assim como a valorização do capital é sua única finalidade),…” (Marx, K. O Capital. Volume IV. Livro Terceiro. Tomo 1. Nova Cultural. 1986, p. 183).
  3. O obstáculo levantado por essa fase da reprodução do capital expresso na atual crise tende a não ser superado com o desdobramento da mesma divisão internacional do trabalho.
  4. Portanto, a tendência é a de que, diante da reação mais ou menos coordenada dos Estados capitalistas a serviço do capital, tentando frear a crise, que esta vá se aprofundando gradualmente e perdure por um largo período de tempo e de que o capital sob o aguilhão da taxa de lucro lute por buscar melhores condições de produção por todo o mundo, e em especial, a baixar o valor da força de trabalho para manter a taxa de lucro.
  5. Portanto a conjuntura na qual a crise vem se desenvolvendo tende a:
    1. agravar a luta de classes na maioria das formações econômico-sociais que compõem o sistema imperialista, agravando a contradição antagônica fundamental do capitalismo – a contradição burguesia/proletariado – porque força o agravamento da luta da classe dominante para rebaixar o preço da força de trabalho, tanto nos países imperialistas quanto nos países dominados, para permitir, primeiro, as condições de valorização do capital em todo o mundo; segundo, condições ao capital (a produção), nesses países, de concorrer com o capital que se deslocou (a produção) para a Ásia ou Europa Oriental – neste último caso, principalmente os países imperialistas da Europa, etc. – e porque força o agravamento da luta da classe dominada para resistir a este rebaixamento do valor da força de trabalho;
    2. gerar novas condições de concorrência entre capitais na economia mundial, forçar os capitais a buscar novas condições de valorização. Gerar novas condições de concorrência entre as novas frações nas classes dominantes (frações do capital), e contradições entre elas, especificamente a concorrência direta entre o capital que participou/participa do movimento/processo de reconfiguração da divisão internacional do trabalho e os setores/frações que restaram com suas indústrias em seus países de origem, tanto imperialistas quanto dos dominados, ainda que de forma diferente nuns e noutros, isto é, contradições entre frações de classe que deslocaram sua indústria ou parte dela, e as frações que continuam produzindo nas condições anteriores. Frações que passam a disputar o Estado em seu benefício. Aqui estamos tratando não só da contradição que se estabelece dentro de um mesmo ramo de produção como também da contradição no geral que se estabelece pela concorrência entre duas frações do capital, disputando o mesmo mercado, produzindo a taxas de lucro diferentes;
    3. gerar o agravamento das contradições interimperialistas tendo em vista que países, ou trustes e cartéis, que conseguiram se adiantar à tendência e passaram a produzir em novas condições aumentam suas vantagens sobre outros países ou empresas. O fato de que países ou cartéis e trustes estão produzindo com maior taxa de lucro tende a acirrar a concorrência, a disputa por mercados e fontes de matérias-primas.
  6. Como demonstrou a classe dominada, na luta de classes, a crise não a abateu, ao contrário, ela se lança em ações cada vez mais amplas. É verdade que à maioria dos países falta um partido revolucionário o que vem limitando a capacidade de luta das classes dominadas e é verdade também que ainda não saímos, inteiramente, do período de defensiva da classe operária na luta de classes, diante da crise de sua teoria, crise teórica e prática. Portanto, o que nos cabe fazer é retomar a teoria e a prática do proletariado.

1 É necessário criticar a visão que vê na “esfera” financeira uma esfera independente da esfera produtiva. O que Lenin constata no início do século passado, em “O Imperialismo, Etapa Superior do Capitalismo” é exatamente o maior entrelaçamento dessas esferas do capital, sua fusão.