Cadê o(s) Amarildo(s)?

 

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Em julho de 2013, no mês seguinte às grandes manifestações de massa no Brasil inteiro, o pedreiro Amarildo de Souza foi retirado de sua casa, na comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, por dois policiais militares. Levado até o ponto onde estava o restante da guarnição ele foi colocado, algemado, em um carro da PM sob os gritos de sua esposa Beth para ilegal e supostamente ser levado para “averiguações” na Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. Nunca mais foi visto.

Com vários nomes, em várias periferias diferentes por todo o Brasil, centenas e milhares de Amarildos – homens e mulheres; mulatos, pardos ou pretos em sua maioria; todos compartilhando a mesma rotina de pobreza e exploração – são mortos, torturados, agredidos, ameaçados, roubados, como parte da ação dos Aparelhos Repressivos do Estado Capitalista. Como parte da ação de controle violento das classes dominadas no regime de opressão capitalista.

A revista Piauí n. 83, de agosto último, publicou a reportagem “Os Invisíveis” sobre mais uma das já incontáveis chacinas policiais contra a população trabalhadora pobre da periferia. Desta vez, sobre a chacina policial de 24/25 de junho na favela da Maré, na cidade do Rio de Janeiro [1]. Consuelo Dieguez, autora da reportagem, busca dar voz aos trabalhadores e familiares dos mortos ou sobreviventes do terror de Estado empreendido pelo Bope. Mesmo com muitos limites ideológicos, a reportagem possibilitou uma impressionante riqueza de detalhes na descrição dos fatos e uma aproximação a perspectiva dos moradores.

A reportagem também traz depoimentos de agentes do aparelho de repressão do Estado: Ibis Silva Pereira, comandante da Academia de Formação de Oficiais da Polícia Militar, e o coronel Mario Sérgio Duarte, ex-comandante do Bope e do 22o Batalhão da Maré. Mas a autora dá voz ao comando da PM sem confrontar suas falas aos fatos e a realidade da vida nas favelas, sem criticá-las, portanto. É assim que a “pacificação” pelas UPPs aparece na reportagem como “alternativa” à barbárie policial na Maré

Para a Piauí, os trabalhadores e seus familiares, moradores dessas comunidades, devem resignar-se a “pacificação” da UPP, o que não quer dizer, na realidade, outra coisa senão viver em um “estado de exceção declarado” como afirmou Maria Helena Moreira Alves em entrevista na Folha de São Paulo. [2]

O mito da imparcialidade da informação da revista, uma ideologia de Estado da ditadura da burguesia em tempo de capital monopolista, obstrui a circulação da crítica por meio da manipulação interessada da realidade. Trata-se, neste caso, da manipulação pela ocultação das UPPs como invasão e cerco militar permanente aos trabalhadores e à população pobre e majoritariamente negra nas comunidades em que vários direitos civis são suspensos: as pessoas são constantemente revistadas, agredidas e humilhadas, a violência policial sobre as mulheres é ainda mais brutal, com frequentes casos de assedio e estupro, policiais invadem as casas sem qualquer autorização judicial ou levam pessoas como suspeitas a qualquer hora sem direito a advogado, a exemplo do caso do pedreiro Amarildo de Souza na Rocinha no Rio de Janeiro, simplesmente omitido pela reportagem de Piauí

Em lugar desses fatos, as UPPs aparecem como promotoras da redução dos homicídios, uma das alegações expressas na página no Facebook “A pacificação é nossa: deixem o Rio em paz”, para tentar legitimar o estado de exceção via UPP. Trata-se, no entanto, de uma fabricação, de uma manipulação dos dados. Como mostrou Daniel Cerqueira, pesquisador do IPEA, na segunda metade dos anos 2000, a redução das taxas de homicídios dolosos (quando há intenção de matar), no estado do Rio de Janeiro, veio acompanhada de uma significativa elevação nas de mortes indeterminadas: em 2007, na comparação com o ano anterior, a taxa de homicídios dolosos caiu de 36,7 para 35 por 100 mil habitantes, enquanto a taxa de mortes consideradas indeterminadas subiu de 10,9 para 20,3. O número de homicídios dolosos caiu de 5.994 casos, em 2005, para 5.318, em 2009. No mesmo período, a quantidade de óbitos indeterminados aumentou de 2.049 para 3.626.[3]

A denúncia da manipulação dos números também está nas ruas. As manifestações populares ao evocar “Cadê o Amarildo?” confrontam o terrorismo de Estado atualizado na modalidade UPP. Esse terrorismo de Estado se estende a todos os Amarildos pelo país, majoritariamente trabalhadores pobres, negros, mas também todos aqueles que lutam e se insurgem contra a exploração e a opressão capitalista

Assim, sugerimos assistir o documentário “Eu, um Amarildo” (2013), direção de Rômulo Cyríaco. O filme traz depoimentos dos familiares do pedreiro Amarildo de Souza, morador da Rocinha e pode ser assistido em http://vimeo.com/72932647.

As condições concretas de vida das massas populares, a revolta crescente contra estas condições, a indignação e o ódio de classe contra a violência e à exploração cotidiana, tudo isso são as contradições objetivas que levam e levarão cada vez mais as classes dominadas a perceber que elas não têm nada a perder senão as suas algemas, os seus grilhões. E que elas têm, por outro lado, uma mundo inteiro a ganhar, a libertar, a construir

Proletários de todos os países, uni-vos!

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[1] Os Invisíveis. Revista Piauí n. 83, agosto de 2013.

[2] Favela com UPP vive estado de exceção. Folha de São Paulo, 25 de agosto de 2013.

[3] Buraco nos números. Carta Capital n. 763, 28 de agosto de 2013, p. 38-39.