Correspondências

Cem Flores recebeu da camarada Ana Barradas, em setembro passado, a carta intitulada Aprender a Sobreviver no Deserto. Nessa carta a camarada relata a crise que vive o marxismo no mundo, o deserto a atravessar, e afirma: Há que fazer a travessia do deserto, mas é o único caminho, não há outro”. O objetivo “dos proletários de todo o mundo unidos para instaurar a sua ordem contra quem os oprime é a meta a alcançar”.

Após um diálogo travado com um camarada do Cem Flores, Ana desenvolve sua análise em uma segunda carta enviada a esse companheiro.

Reproduzimos abaixo as duas cartas por considerarmos que contribuem para entender a crise que atravessa o marxismo, auxiliando na tarefa imprescindível de retomá-lo, teoricamente e na prática, para reconstruir o partido comunista e impulsionar a revolução proletária.

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APRENDER A SOBREVIVER NO DESERTO

Nos nossos dias, muitos aqueles que se designam a si próprios como marxistas-leninistas ou comunistas alinham com forças reformistas sem se porem questões sobre os resultados e estratégicos dessas alianças.

Acham graça a todas as inovações pseudomarxistas que puxam a classe operária mais para baixo e a pequena burguesia mais para cima. Alinham com a domesticação e institucionalização das organizações operárias, sem se indignaram com a sua criminalização e submissão à legislação capitalista que os sindicatos reformistas procuram dirimir, em vão. As “luminárias” marxistas dos dias de hoje desconhecem ou não se interessam pelas lutas nas fábricas, reduzidas à sua ínfima expressão pelo isolamento em que foram deixadas cair.

Esses pseudomarxistas pensam que os trabalhadores da produção, os proletários, já não são a classe a quem verdadeiramente interessa a revolução, a única que pode dirigi-la, e vêem nela sinais de  aburguesamento, de iliteracia política, de afastamento das doutrinas que os intelectuais – sem nunca terem trabalhado na fábrica – hoje fabricam e que querem ver adoptadas pela massas dos trabalhadores, sem distinção de classe, para assim os “reeducar” para a sua estratégica anti-revolucionária. Dizem: “O operariado está adormecido, não tem consciência de classe, não quer a revolução, não há maneira de o acordar.”

Esquecem-se esses doutrinários que a obrigação de qualquer revolucionário esclarecido é precisamente centrar a acção e o pensamento nas dificuldades da massa proletária alienada pelo capitalismo e contribuir para ela se elevar acima da submissão ao sistema económico que a explora.

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O COMUNISMO VAI ACABAR?

Depois há os que resistem e não se rendem, os últimos mohicanos do comunismo, tribo em extinção que cada vez mais encontra dificuldade em se afirmar.

O comunismo não vai acabar, mas está moribundo. A esmagadora maioria dos “velhos” abandonou a luta durante estes últimos anos de reacção. Contam-se pelos dedos da mão aqueles que procuram linhas de demarcação política, definição de ideias, planos estratégicos. Os jovens não sentem o poder de atracção do marxismo e da luta pela revolução, não há passagem de testemunho para a geração mais nova. Fica sem futuro uma teoria, por mais bela que seja, que não encontra a sua aplicação e rejuvenescimento na prática da luta anticapitalista da classe operária para impor a sua ditadura sobre os exploradores. Corremos esse risco de ver submergir todo o património de quase 150 anos. A ideia comunista poderá emergir de novo mais tarde, mas hoje está desaparecendo. Não ajuda a ninguém fechar os olhos, ignorar a gravidade dos factos e procurar falsas alianças com parceiros reformistas.

Apesar de todos os defeitos que se podem apontar aos partidos comunistas antes de 1935, a verdade é que eles esforçavam-se por educar para o comunismo os operários mais valorosos na luta anticapitalista a fim de os chamar à liderança como os mais aptos para a exercerem. A regra da maioria operária nos órgãos de direcção, instituída pela 2ª Internacional ainda no tempo de Lenine, era mesmo para cumprir. Foi assim que no Partido Comunista Português se destacaram dirigentes como o metalúrgico e secretário-geral Bento Gonçalves nos anos 20-30; o operário vidreiro José Gregório, que teve um papel decisivo na revolta da Marinha Grande em 1934; Militão Ribeiro, operário têxtil que dirigiu inúmeras greves e morreu às mãos da PIDE em 1950; Chico Miguel, antigo sapateiro que nas cadeias fascistas ministrava cursos de marxismo aos seus companheiros de prisão; o jovem Alfredo Diniz (Alex), operário metalúrgico, organizador de lutas reivindicativas assassinado pela polícia política em 1945, etc.

Essa tradição perdeu-se quando foi inflectida a linha dos partidos comunistas para englobar nas suas lutas todas as aspirações das classes que constituíram as frentes antifascistas. É assim que hoje, dentro dessa abordagem interclassista, são eleitos para as direcções uma maioria de pequeno-burgueses e surgem, como teóricos ditos marxistas, professores universitários e outros intelectuais.

Vê-se muito isolado quem se queira desligar das correntes intermédias que interpretam os anseios da pequena burguesia em nome da luta pelo socialismo. Com poucos ou nenhuns apoios, afasta-se da grande massa dos que embandeiram em arco com as supostas potencialidades revolucionárias da colaboração de classes para se encontrar num deserto em que faltam militantes convictos e prontos para a dureza da travessia, operários ganhos para a perspectiva da organização do partido comunista, para a conquista do poder proletário, massas semiproletárias intermédias decididas a pôr-se ao serviço desta causa.

É esta a situação real. Não há que iludir-nos. Nada mais podemos oferecer. Mete medo enquanto formos muito poucos. Há que fazer a travessia do deserto, mas é o único caminho, não há outro. A bela utopia dos proletários de todo o mundo unidos para instaurar a sua ordem contra quem os oprime é a meta a alcançar.

Ana Barradas

Set 2016

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Após um diálogo com um camarada acerca dessa carta, Ana Barradas enviou uma segunda aprofundando sua análise.


Querido C.,

Compreendo e agradeço emocionada a tua preocupação em fazer-me sentir que sois a minha família política, que não estou só no deserto e que, olhando ao redor, nem tudo é negativo, já que por esse mundo fora se luta sem vacilar contra os poderes que nos oprimem. Como muito bem dizes, as revoluções não só não são instantâneas como levam muito tempo a processar-se vitoriosamente, devendo passar por sucessivos ensaios que às vezes se prolongam por séculos.

Tudo isso é verdade, tens razão. Só que eu também tenho. Se não ponho o acento no lado positivo das coisas, não se pense que me desmoralizo ou subestimo a permanente e insondável capacidade das massas para a luta pela sua libertação, a energia inesgotável de quem não tem outra alternativa que não seja combater por todos os meios as forças que fazem perigar a sua sobrevivência. O ressurgimento constante da luta de classes é um imparável movimento objectivo do processo histórico. A sua energia, propagando-se através dos tempos, repercute-se na nossa actualidade e projecta-se sobre o nosso futuro. A escola avançada que desde cedo me educou moldou a minha personalidade revolucionária de forma a que essa constante nunca me saia do pensamento. Essa é uma das poucas coisas sobre as quais não tenho dúvidas.

Acontece porém que a minha motivação é outra: tenho querido chamar a atenção de quem me escuta para um lado mais negativo dos combates dos nossos dias, um problema de fundo que é subjacente a todas as situações objectivas actuais e que muitos procuram ocultar: a responsabilidade dos comunistas na luta de classes em todo o mundo está posta em causa quando eles deixam cair a bandeira vermelha e se acomodam às derrotas retumbantes que a sua causa tem sofrido desde há décadas.

O meu sentimento de orfandade relativamente ao meu país baseia-se na análise da situação objectiva e na minha dificuldade em ultrapassá-la sem apoio. Mas olhando ao redor, não posso ignorar que o mesmo se passa bem perto de mim e em muitos pontos do mundo onde os comunistas se debatem com derrotas e impasses para os quais não têm encontrado soluções. Há um denominador comum em toda a parte: ele radica na debilidade revolucionária dos movimentos em que os comunistas participam, no abastardar dos princípios marxistas, na promiscuidade ideológica com correntes pseudo-revolucionárias, no atraso crónico da elaboração teórica face a novas conjunturas, na autocomplacência e ausência de autocrítica diante dos fracassos, na falta de clareza política quando se trata de analisar acidentes de percurso.

A pergunta tem de se colocar: se o sistema capitalista já não consegue superar as suas contradições e, cada vez mais incapaz, se aproxima historicamente do seu fim, então por que é que as forças que lutam por um novo sistema não se fortalecem com essa fraqueza do inimigo, não aceleram o processo de decomposição para sobre ele construir uma nova hegemonia? Milhões de vidas, esforços inauditos, abnegação total dos militantes são perdidos em desenlaces que se saldam em desastres. Se há focos de lutas aguerridas combatendo a reacção, então por que é que elas não redundam em vitórias, mas terminam nas mais das vezes em capitulações e acordos que acabam por reproduzir o mesmo sistema de poder e exploração? Há uma resposta: porque a prática do marxismo está de rastos, porque os comunistas não estão a cumprir o seu papel, porque entregaram a condução do pelotão da frente aos seus aliados, porque não deram coerência revolucionária, com a sua presença autónoma, ao sentido das lutas, porque “entregaram o ouro ao bandido”.

Exemplos:

  1. As críticas que a corrente bolivariana faz aos acordos assinados pelas FARC com o governo colombiano surgem tardia e cautelosamente, vários anos passados sobre o início das negociações e quando já todo o desastre está consumado. Ninguém se atreve a dizer que é de há muito conhecida a pressão que Cuba tem exercido para se chegar a esta situação. Por contraste, vale a pena referir que o Nouvelle Turquie, pela mão de Christophe Kistler, fez sem contemplações uma dura análise de princípios à situação[1].
  2. A lamentável entrega de Cuba à economia de mercado sob a batuta norte-americana – que nem sequer lhes valeu o levantamento das sanções económicas – estava há muito anunciada, dadas as medidas de transição tomadas ainda na vigência da governação de Fidel. Foram ignoradas todas as vozes que nessa altura e mesmo depois alertaram contra o descalabro que se seguiria (a Política Operária publicou vários artigos[2] e as edições Dinossauro editaram o livro Cuba, a transição). Mesmo assim, e consumada a rendição, aqueles que sempre apoiaram esse processo – ou o criticaram em privado sem nunca virem a público, o que equivale a apoiá-lo – continuam a celebrar as conquistas introduzidas por Fidel e Guevara (muito respeitáveis, sem dúvida, não é essa a questão), preferindo viver de um passado glorioso, em vez de corrigirem as suas posições conciliatórias, que nada têm de louvável, já que não põem a nu o essencial: o processo cubano não vingou porque a sua direcção, socorrendo-se embora de noções marxistas, sempre adoptou uma linha intermédia que nunca conduziria ao socialismo.

E poderia continuar a citar outros casos desastrosos nos quais muitos comunistas tiveram uma grande fezada, sem o espírito crítico de que deviam estar armados perante forças políticas dirigentes que não são marxistas e portanto não podem produzir revoluções socialistas, por mais heróicos e valorosos que sejam os seus combatentes: Palestina, Venezuela (reparaste que já ninguém fala do “socialismo do século XXI”, tão aclamado e sancionado com selo de autenticidade por eminentes teóricos marxólogos vindos de todo o mundo para montarem toda uma salada ideológica, num país que agora se aproxima de um desenlace muito infeliz, com eles já a salvo nos seus respectivos países?), País Basco (com os marxistas a demarcarem-se agora de um deslizamento reformista da direcção pequeno-burguesa), Tigres Tâmiles (massacrados em verdadeiro genocídio e praticamente extintos), Nepal (agora com os “comunistas” a tomar conta do poder burguês), Filipinas (começaram as negociações da guerrilha maoísta), Índia (um dia destes vamos saber que começaram as negociações da guerrilha maoísta), etc.

A propósito da desproporção entre as forças contrárias que se defrontam por todo o mundo, que nos é muito desfavorável, falo-te agora de uma experiência recente que vivi no Níger, onde estive há duas semanas. Numa região do sul do país em cujos limites mais meridionais já se faz sentir a acção do Boko Haram – movimento fundamentalista islâmico com origem no norte da Nigéria e já a alastrar mais para norte, para o Níger e Camarões – o mais impressionante é a extrema miséria, a ausência de recursos para as populações terem garantidas condições decentes de sobrevivência, o abandono e isolamento em que vivem e a consequente desesperança dessa gente, que apenas se esforça por não cair na fome total.

No entanto, no regresso a Niamey cruzámo-nos na estrada principal com uma coluna militar estendendo-se por vários quilómetros, composta de tanques, jipes, canhões, carros blindados, veículos fechados que certamente transportavam armas e munições, toda uma panóplia de quem se prepara para um conflito armado de dimensões e duração ilimitada, dirigindo-se para a fronteira sul com a Nigéria, onde foram instalados campos de acolhimento de refugiados que fogem dos saques e roubos do Boko Haram. Esse armamento comprado pelas forças armadas do Níger era todo francês. O Boko Haram também usa, entre outros, armamento francês. Preparam-se mais operações militares, com apoio francês, para combater outro grupo fundamentalista rebelde que transpôs já a fronteira do Mali para actuar no noroeste do Níger.

A conquista colonial deu aos europeus e outros imperialistas a convicção do direito “preferencial” à riqueza de outras regiões, com base na crença da desigualdade das “raças”. Assim, ainda hoje, no Sul, a maioria dos cidadãos são vítimas de um sistema global em que os do Norte são os beneficiários. A França, por exemplo, tem um interesse particular no Níger, onde explora minas de urânio que fornecem 30 por cento das suas necessidades em energia nuclear.

Acontece que as revoltas em África, quando se radicalizam, enfrentam os desafios do subdesenvolvimento, isto é, tanto podem afundar ainda mais os povos como podem levá-los a um nível de luta mais avançado. Ora o capitalismo é um sistema global e não a soma de sistemas capitalistas nacionais. Assim, as lutas políticas e sociais, para serem eficazes, devem ter repercussão simultaneamente no plano nacional e internacional. Na Europa qualquer iniciado compreendia isto nos anos 60-70 quando mobilizava solidariedades com as lutas de libertação nacional das colónias ou protestos contra a guerra ao Vietname, ou nos anos 80-90 quando aclamava a luta dos sul-africanos contra o opressivo apartheid.

Hoje, com a mundialização, o problema da emancipação é ainda mais global, a sua solução é sempre o produto avançado da desigualdade entre países: passa pela destruição em comum de todo o sistema, que, em seguida, permite a construção de outro sistema em novas bases. Enquanto as classes dominantes do Sul aceitam submeter-se às exigências da globalização para dela beneficiarem, a libertação dos povos do Sul permanece inseparável da construção de uma perspectiva socialista, a passagem do capitalismo para o socialismo mundial.

Àqueles que pensam que é impossível o socialismo em toda a parte, há que recordar que o capitalismo não surgiu de repente; foram precisos mais de dois séculos para ele se impor. E, após mais dois séculos de crescimento, acabou por abranger todos os cantos do planeta. Na actualidade, é impossível saber como se vão moldar os avanços desiguais produzidos pelas lutas no Sul e no Norte. O Sul está em convulsão, mas a prossecução dos seus objectivos de libertação é irreversível. Será necessário que os comunistas apoiem esta perspectiva e a associem à estratégia para a construção do socialismo.

O sistema imperialista é na verdade a pluralidade de imperialismos em conflito permanente e concorrencial. Todavia o capitalismo não vai morrer de morte natural; a tendência da globalização é esmagar ainda mais o Sul, torná-lo descartável ou fazer dele campo de tiro para as suas disputas. Não é do interesse dos povos dos países imperialistas ou com pretensões hegemónicas aliar-se a esse plano criminoso das suas classes dominantes. Mas crescem no mundo desenvolvido a xenofobia, a islamofobia, o apoio aos partidos de extrema-direita que querem uma guerra santa contra os imigrantes, contra os esfomeados do Sul que escalam os muros ou batem à porta das fortalezas ricas da América ou Europa.

O marxismo simplificado e eurocêntrico de muitos segmentos da extrema-esquerda europeia estigmatiza apenas a exploração capitalista e a globalização sem a preocupação de desenvolver estratégias de luta articuladas com as culturas políticas concretas dos povos interessados. Nem sequer se dá conta da sua contaminação ideológica pelas metrópoles imperialistas. Perdeu de todo a perspectiva do internacionalismo proletário.

Estou em crer que a humanidade só vai empenhar-se seriamente na construção de uma alternativa socialista ao capitalismo se as coisas mudarem no Ocidente desenvolvido. Os povos dos países periféricos não vão pôr-se à espera dessa mudança. Pelo contrário, o mais provável é que, na medida em que as coisas começam a mudar nas periferias, para o bem ou para o mal, as forças políticas mais avançadas das sociedades do Ocidente sejam forçadas a mover-se numa qualquer direcção, esperemos que do progresso da luta pelo socialismo. Falhando isso, temos como mais provável a barbárie e o suicídio da civilização humana.

Se, na melhor das hipóteses, o proletariado ocidental vitorioso apoiar decididamente os povos oprimidos na sua luta nacional revolucionária, talvez não seja inevitável passarem estes pelo estágio de desenvolvimento capitalista avançado. Nessa altura fará sentido uma propaganda imediata em favor da criação de sovietes camponeses, tentando adaptar o movimento revolucionário às condições pré-capitalistas. Isto é: os países atrasados, com a ajuda do proletariado dos países avançados, poderiam passar logo ao regime soviético, contornando a etapa capitalista. (O estalinismo excomungou da teoria o “modo de produção asiático” que aparece na obra de Marx, teorizando a passagem obrigatória por diversas fases na história de cada povo, contribuindo assim para o empobrecimento do marxismo.)

Ora a ideia dos sovietes vai de encontro às aspirações das massas em aldeias remotas num regime social pré-capitalista, com as suas formas tradicionais de organização e resistência. Já em 1902 Lenine reconhecia a prática e teoria desenvolvidas pelo povo russo na sua longa história de luta contra o czarismo. Mao fez o mesmo: recuperou a tradição subversiva (“o velho que removeu montanhas”) do vasto campesinato chinês. Na América Central, faz parte da cultura tradicional o processo colectivo na tomada de decisões, a autogovernação participativa. Como dizia a carta de um soldado russo escrita no final do Verão de 1917: “Caro compadre, certamente já ouviu falar dos bolcheviques, mencheviques, social-revolucionários. Bem, compadre, vou explicar quem são os bolcheviques. Os bolcheviques, compadre, somos nós, o proletariado mais explorado, simplesmente nós, os operários e os camponeses mais pobres. Este é o seu programa: há que dar todo o poder aos deputados operários, camponeses e soldados; mandar todos os burgueses para o serviço militar; todas as fábricas e a terra para o povo. Então, nós, no nosso pelotão, somos por este programa.”

Se a agitprop comunista chegasse a uma qualquer aldeia do Níger com este programa, a revolução estaria ganha.

Toda esta incursão africana serve para te dizer, caro C., que as minhas reflexões sobre a nossa pequenez e falta de visão revolucionária também se dirigem para essas outras realidades que estão longe dos nossos horizontes e que no entanto não poderão deixar de ser tidas em conta quando pensamos preparar a revolução mundial. É que, nos nossos tempos de globalização total, creio que a revolução tem de ser mundial, ou não será.

A continuarmos ao ritmo a que vamos, estamos a uma distância incomensurável desse objectivo. Não se vê nenhuma acumulação de forças, por mais heróicas que sejam as lutas surgidas e em curso. Pelo contrário, o que há é desperdício de energias preciosas. Há que reconhecer esta dura insuficiência nossa como factor principal, recorrente em todos os contextos mundiais, e procurar-lhe solução. Sem esse debate, não vamos longe. Já basta de nos contentarmos com o que temos como bagagem revolucionária, que é quase nada. Sendo nós da mesma família política, como bem lembras, então como bons parentes vamos pôr-nos ao trabalho.

Camarada C., recebe entretanto as minhas calorosas saudações comunistas.

Ana

28/9/2016, quase 100 anos depois da Revolução Russa

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[1] http://www.nouvelleturquie.com/en/internationalism/a-war-lasting-more-than-50-years-in-colombia/. Traduzo um dos parágrafos: “Os acordos feitos deixam o povo indefeso e desarmado em face do imperialismo. As FARC devem apontar as suas armas para a burguesia em todo o mundo, não podem aceitar entregá-las a uma ONU que tem sido um parceiro nos massacres! Nós dizemos que não vamos ser as vítimas do imperialismo, seremos os seus executores. Mas a paz virá com a vitória, quando os imperialistas e os seus colaboradores forem expulsos e eliminados. O nosso apelo a todos os povos do mundo e às organizações marxistas em combate é: estamos com a razão e vamos vencer. A vitória só pertence àqueles que não se rendem. Virem-se e vejam os povos que resistem no Médio Oriente e na Ásia que não se renderam e as guerras populares que estabeleceram o socialismo no curso da nossa história. Vereis que nenhuma vitória foi estabelecida facilmente. Nós também podemos morrer, em sete anos de resistência morremos no dia-a-dia, demos 122 mártires, mas a oligarquia foi quem se rendeu, não fomos nós. O Partido-Frente de Libertação Popular da Turquia (THKP-C) perdeu todos os seus quadros em 30 de Março de 1972 numa operação lançada pela oligarquia, foi destruído como organização e os imperialistas ficaram encantados. Mas os pensamentos e a herança que eles criaram fizeram-nos lutar e vão sobreviver. As FARC também devem olhar para a sua própria história, e devem seguir o exemplo dos comandantes que não se renderam e dos seus mártires! Sentar-se à mesa com o imperialismo não trará paz e vitória, mas mais massacres!”

[2] Por exemplo, artigo “Cuba entregue às feras” de 2003, publicado em https://franciscomartinsrodrigues.wordpress.com/2016/03/20/cuba-entregue-as-feras/ ver extracto: “Censuravam a nossa falta de solidariedade com o “socialismo cubano” mas agora, na hora da verdade, quando se trata simplesmente de apoiar um pequeno país (não decerto socialista, mas com tanto direito à existência como qualquer outro) ameaçado pelos B-52 ianques, juntam se ao coro da burguesia. Pela nossa parte, nunca alinhámos no campo dos entusiastas do ‘socialismo’ cubano e dos seus métodos de governo. Nunca alimentámos ilusões absurdas sobre esse regime, fruto de uma grande revolução popular que não pôde ir além dos marcos do capitalismo nacional. Isso, todavia, não nos impede de defender o direito de Cuba à independência, de aplaudir a sua resistência exemplar às maquinações do imperialismo, e de denunciar com desprezo a campanha que execra o governo de Cuba como ‘regime ditatorial e opressor que não respeita os direitos humanos’.”

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