100 Anos de “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”

19-Lenin

Um Discurso do Partido Comunista da Grécia (KKE) sobre O Imperialismo

Cem Flores

02.11.2016

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No final do mês de outubro passado, o Blog Cem Flores publicou trechos do livro de Lênin, “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo”, precedido de uma pequena apresentação (aqui). Nela, destacamos a atualidade da análise leninista do imperialismo, bem como seu caráter necessário para o debate comunista sobre a crise e o movimento operário atuais, e sugerimos alguns pontos para o aprofundamento do estudo do tema e para a discussão entre camaradas e leitores.

Achamos que é preciso continuar essa discussão. Trazemos agora para o debate um recente discurso de um dirigente do Partido Comunista da Grécia (KKE) sobre o tema do Imperialismo, também por ocasião do centenário de publicação do livro de Lênin. Da mesma maneira que no post anterior, também preparamos uma pequena introdução na qual buscamos levantar alguns pontos do texto que achamos principais para o nosso debate comunista.

Para apresentar esses temas de uma forma mais organizada, buscamos agregá-los em três tópicos principais: o resgate de princípios comunistas, as formulações próprias do KKE e os pontos atuais que é preciso desenvolver.

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Resgate de Princípios Comunistas

A classe operária e os comunistas vivem, faz várias décadas, “em tempos de maré baixa” – para emprestarmos uma expressão do dirigente comunista Francisco Martins Rodrigues. Nesse período vimos o reformismo e o oportunismo sobrepujarem a linha revolucionária nos partidos comunistas; a ação revolucionária das massas proletárias praticamente desaparecer; a luta sindical converter-se, em sua absoluta maioria, em um jogo de cena entre pelegos e patrões; e o horizonte da ação política da classe operária se reduzir aos seus limites mais miseráveis, meras mobilizações institucionais ou campanhas eleitorais.

Nessa conjuntura, os princípios comunistas estão praticamente esquecidos pela quase totalidade da classe operária e mesmo pela maioria absoluta dos operários de vanguarda e militantes honestos e sinceros. O resgate e a afirmação desses princípios comunistas, portanto, não só é necessário como nos parece indispensável.

O primeiro desses princípios comunistas a destacar no texto do KKE é a independência da classe operária e do seu partido comunista. Isso significa que o objetivo final do proletariado é a conquista do poder político, a derrubada da burguesia e a construção do socialismo, mediante a sua ditadura de classe, em substituição à ditadura burguesa. Isso significa que a luta revolucionária do proletariado não pode estar subordinada a posições burguesas e oportunistas, reformistas. Subordinação essa que pode se dar, por exemplo, tanto na “preferência” por uma ou outra facção burguesa “doméstica” (no caso, PT ou PSDB), por uma ou outra fração do capital (produtivo x financeiro), seja “nacional” ou imperialista, ou por uma burguesia ou outra na arena internacional (EUA ou China). Como afirma o dirigente do KKE, usando uma expressão de Lênin, o proletariado não pode lutar “sob bandeira alheia”.

Uma tese leninista importante que aparece no texto do KKE é que o imperialismo é o capitalismo de nossa época. Esta tese se opõe radicalmente às teses revisionistas e oportunistas, inicialmente defendidas por Kautsky e atualmente abraçadas por um amplo leque de organizações, movimentos e partidos, que, distorcendo o conceito de imperialismo, o reduzem a uma (mera) “política”. Para esses revisionistas, reformistas, o imperialismo seria, portanto, a “política preferida pelo capital financeiro” (nos termos da crítica de Lênin) ou a “política externa agressiva” (na do KKE), militarizada e invasora das grandes potências, especialmente os EUA, mas também França, Inglaterra, Rússia. Ora, se o imperialismo fosse apenas uma política, bastaria mudar de política para resolver o problema, não? A posição revisionista sobre o imperialismo não adota, portanto, o ponto de vista revolucionário do proletariado e serve para enganar a classe na ilusão de mudanças dentro do sistema.

Dessa tese deriva-se outro princípio comunista fundamental, também presente no texto que reproduzimos a seguir: a luta contra o oportunismo é um elemento essencial da luta contra o imperialismo. Essa tese leninista é crucial para a luta revolucionária do proletariado nos dias atuais, nos quais há um domínio absoluto de posições oportunistas burguesas no seio da classe operária, uma ausência quase que completa das posições revolucionárias. O combate comunista radical e sem tréguas a essas visões, hoje dominantes, é indispensável à tarefa de reconstruir a posição comunista entre a classe e seu Partido.

Por fim, mas não menos importante, o KKE resgata o princípio comunista de estudar a realidade concreta para basear a atuação revolucionária. Nas suas próprias palavras: “Uma tarefa permanente dos comunistas é estudar o desenvolvimento do sistema imperialista-capitalista e seus componentes, os estados capitalistas, a avaliação precisa da posição de cada estado no sistema imperialista, para que a formulação da estratégia e da táctica revolucionárias seja baseada nos dados reais e objetivos”.

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Formulações Próprias do KKE

O texto também apresenta algumas formulações próprias do KKE sobre o imperialismo, que expressam a visão daquele partido sobre o sistema imperialista nos dias atuais, buscando desenvolver e aplicar a teoria leninista a situações concretas. Isso nos parece de acordo com o parágrafo com o qual finalizamos nossa apresentação aos trechos do Imperialismo no post anterior: “A tarefa é se apropriar desse ‘esboço popular’ para buscar desenvolvê-lo, e atualizá-lo, aplicando às condições atuais para poder efetivar a característica viva do marxismo: analisar concretamente uma situação concreta”. Achamos que devemos, portanto, debater essas formulações do KKE.

A primeira delas diz respeito à definição de países imperialistas e à configuração do sistema imperialista mundial. A partir da definição sintética de Lênin, de que “o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo”, o KKE conceitua como imperialistas todos “os países capitalistas … que têm uma base econômica monopolista”, “participam no sistema imperialista”. Em função disso, o KKE vê “o sistema imperialista (capitalista) como uma totalidade”, formado por estados que não são idênticos nem iguais, mas cujo sistema formaria uma “pirâmide imperialista”, na topologia adotada.

Para o debate comunista que estamos propondo, podemos dirigir algumas questões às definições acima resumidas, não sem antes lembrar que as posições do KKE são mais aprofundadas e detalhadas em teses, resoluções e outros documentos e discursos que podem ser encontrados no seu sítio.

Com a evolução do capitalismo no século XX e neste começo de século XXI, e após a derrocada das experiências de construção do socialismo na URSS, no Leste Europeu, na China e em outros países, podemos afirmar que o capitalismo é o modo de produção dominante em todos os países do mundo, configurando de fato a “totalidade” afirmada pelo KKE? Além disso, a tendência à concentração e à centralização do capital, que levaram ao monopólio, já atingiu um nível no qual em praticamente todos os países e em todos os setores econômicos mais importantes, o capital monopolista constitui o elemento dominante na acumulação?

Mesmo admitindo que o debate avance no sentido de ratificar, ainda que precisando, essas questões, temos, ao menos, outras duas formulações para discutir. A primeira é a da configuração do sistema imperialista. A topologia da “pirâmide” imperialista pode bem retratar as contradições desse todo, ou seja, a contradição entre burguesia e proletariado dentro de cada país, as contradições entre os capitais desses países e as existentes entre dominantes e dominados e as intra-dominantes?

Por fim, a conceituação de “países imperialistas” é própria às grandes potências, aos países dominantes no sistema mundial ou pode/deve compreender todos os países nos quais se identifique a existência ou o predomínio do capital monopolista nos principais setores econômicos? Esse é, indubitavelmente, o caso do Brasil. Devemos considerá-lo país imperialista, ainda que, eventualmente, em “posição intermédia na pirâmide imperialista internacional”?

A segunda formulação que destacamos do texto é a da necessidade do socialismo. Possivelmente partindo das teses expostas por Marx no Prefácio de 1859, bem como da tese de Lênin sobre o imperialismo como fase superior e final, antecâmara do socialismo, o KKE apresenta a necessidade do socialismo como mais premente nos dias atuais em função de que “o capitalismo se desenvolveu muito e formou uma base econômica (monopolista) forte, com infraestrutura de alto nível, meios tecnológicos que permitem o aumento da produtividade do trabalho”.

Ou seja, trata-se aqui do “amadurecimento das condições materiais”, portanto do desenvolvimento das forças produtivas, como determinante da “natureza de nossa época como a era de transição do capitalismo ao socialismo”.

É, de fato, o desenvolvimento das forças produtivas que demanda/possibilita a superação do capitalismo ou é a exploração da classe operária e demais classes dominadas, sua miséria progressiva que criam uma força revolucionária capaz de abolir a exploração de classe?

Por fim, o KKE tem uma formulação muito clara sobre a relação entre imperialismo e revolução. Para eles, no estado atual do sistema imperialista mundial, não se trata mais (se é que se tratou um dia) da “utópica procura de estratégias de recuperação da soberania e independência dentro do capitalismo”. Isso leva a políticas de “apoio dos interesses da burguesia ‘do nosso país’, desarmando a classe operária, condenando-a a mover-se ‘sob bandeira alheia’”. Isso é um dos fatores que os levam a definir que a mudança revolucionária, na Grécia, será socialista.

Para nos restringirmos ao caso do Brasil, qual a correta avaliação revolucionária a ser feita? Ou mesmo, podemos adotar uma definição precisa da situação revolucionária na ausência de um movimento revolucionário, de um Partido Comunista? Ou isso seria um apriorismo?

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Pontos Atuais que É Preciso Desenvolver

Por fim, o texto do KKE menciona, de passagem, que a crise do imperialismo, a partir de 2008, “contribuiu para a intensificação das contradições interimperialistas (que são a base para as guerras imperialistas), para alterações na correlação de forças e reposicionamentos na pirâmide imperialista internacional”.

Este nos parece um tema fundamental para a correta avaliação concreta da conjuntura mundial e brasileira.

A crise do imperialismo, de fato, tem intensificado as contradições interimperialistas – como nos ensina Marx, a crise agrava todas as contradições do sistema – tanto em termos econômicos quanto políticos e, ainda, militares. Neste caso, tratam-se tanto das guerras atualmente em curso, como na Síria, na qual potências imperialistas apoiam lados opostos do conflito, quanto na preparação para as próximas.

As distintas formas de reação à crise também contribuíram para mudanças na divisão internacional do trabalho e atualmente buscam ou forçam reconfigurações no sistema imperialista, algumas das quais apontamos no post anterior. Isso tudo sem esquecer o principal: a crise do imperialismo significa uma intensificação, em todos os aspectos, da ofensiva da burguesia contra a classe operária, demandando a resistência e posterior contra-ataque revolucionário.

A quantidade das questões dá uma boa ideia da importância do seu debate comunista. Que Cem Flores Desabrochem! Que Cem Escolas de Pensamento Rivalizem!


A Teoria Leninista Sobre o Imperialismo – O guia para a luta dos Comunistas

Alguns temas relacionados do trabalho de Lênin “Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo” na ocasião de seu 100º aniversário neste ano

Artigo de Giorgos Marinos*[i]

01.09.2016

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A cada dia que passa confirma-se que a complexidade dos desenvolvimentos econômicos e políticos, a nível internacional e nacional, requer um esforço mais sério e sistemático de desenvolvimento do trabalho teórico por cada partido comunista e a formação de uma forte infraestrutura, com capacidade para apoiar a luta ideológica e política independente dos comunistas, a luta dentro dos sindicatos, dentro do movimento operário e popular.

Uma tarefa permanente dos comunistas é estudar o desenvolvimento do sistema imperialista-capitalista e seus componentes, os estados capitalistas, a avaliação precisa da posição de cada estado no sistema imperialista, para que a formulação da estratégia e da táctica revolucionárias seja baseada nos dados reais e objetivos que ressaltam que a nossa época é a época de transição do capitalismo ao socialismo.

Os Partidos Comunistas gozam de uma enorme vantagem, têm em suas mãos a obra insubstituível de Marx, Engels e Lênin e são guiados pela visão de mundo Marxista-Leninista.

Um desses recursos valiosos é a obra de Lênin «O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo» escrita em 1916, dois anos depois de rebentar a 1ª Guerra Mundial Imperialista, que fazia uso de uma grande quantidade de dados sobre a trajetória do capitalismo e as suas contradições, das alterações provocadas pelo seu desenvolvimento. Especialmente as alterações provocadas pela crise de 1873 na concentração do capital e na criação de uma unidade econômica superior, o monopólio, que levaram Lênin às conclusões científicas de que se havia entrado em um novo período do capitalismo, a sua fase imperialista.

Com sua precisão científica, Lênin estudou questões políticas que surgem e prestou atenção à posição histórica do capitalismo na sua última fase imperialista, ensinando a necessária conexão da economia com a política, dando aos Partidos Comunistas e à classe operária recursos preciosos.

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O QUE É O IMPERIALISMO?

Em primeiro lugar, o imperialismo é o capitalismo na época histórica que começou no final do século XIX, princípios do século XX e de acordo com a breve definição dada por breve dada por Lênin: «O imperialismo é a etapa monopolista do capitalismo», sublinhando que esta definição não é suficiente para dar uma resposta a todo o seu conteúdo.

Na sua obra «Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo», Lênin deu uma definição abrangente, destacando suas cinco características econômicas básicas [Utiliza-se a tradução destes pontos das Obras Escolhidas em 6 volumes, Editorial Avante, Lisboa 1984]:

«1) Concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida económica;

2) a fusão do capital financeiro com o capital industrial e a criação, baseada nesse «capital financeiro», da oligarquia financeira»;

3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande;

4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas que partilham o mundo entre si:

5) o termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu marcada importância a exportação de capitais, começou a partilha do mundo pelos trusts internacionais e terminou a partilha de toda a Terra entre os países capitalistas mais importantes.»

Sobre esse tema crucial, o que é o imperialismo?, há uma intensa luta ideológica no movimento comunista. No quadro do retrocesso ideológico e da forte influência de concepções burguesas e oportunistas, uma série de Partidos Comunistas entendem o imperialismo apenas como a postura agressiva dos Estados Unidos e outros estados capitalistas poderosos contra outros estados com posições subordinadas no sistema imperialista-capitalista, utilizando meios econômicos, políticos e militares.

Trata-se de um problema muito sério que leva partidos comunistas à incapacidade de analisar os desenvolvimentos com dados reais já que o sistema capitalista e as suas leis, na nova e final fase imperialista, são tratados como apenas por um elemento, apenas como política externa agressiva de estados capitalistas poderosos que – como dizem – conduz ao debilitamento ou à perda da soberania dos estados menores, à perda da independência.

Esta abordagem, que é incapaz de ver o sistema imperialista (capitalista) como uma totalidade feita por estados capitalistas que não são «idênticos» nem «iguais», devido à desigualdade de seu poder econômico, militar e político tem uma posição diferente – no sistema – na pirâmide imperialista, não pode compreender a questão básica: que os países capitalistas na época do imperialismo, os que têm uma base econômica monopolista se encontram na etapa imperialista.

Isto não quer dizer que a Grécia seja o mesmo que a Alemanha, nem que o México seja o mesmo que os EUA. Tampouco significa uma identificação de objetivos políticos de cada estado e aliança capitalista e que cancela manobras, compromissos que se podem fazer num ou noutro momento histórico, sempre com um objetivo permanente que é a promoção dos interesses dos monopólios.

A desigualdade capitalista e a desigualdade nas relações económico-políticas são leis básicas do capitalismo e cada estado burguês serve os interesses dos monopólios tanto faz se estão numa posição mais elevada no sistema ou numa posição baixa e subordinada.

Além disso, a própria burguesia elege o caminho da cessão de direitos de soberania, por exemplo, numa aliança imperialista, seja a UE ou a OTAN, ou inclusivamente nas relações interestatais para salvaguarda dos seus interesses mais gerais de classe, para encontrar apoios e perpetuar o seu poder. É por isso que as «questões de soberania» têm uma base de classe e a sua solução está ligada à eliminação das causas que as geram, com o derrube do poder burguês.

A identificação do imperialismo apenas pela política externa agressiva dos estados capitalistas fortes e o desvincular o político do econômico (a dominação da economia pelos monopólios) conduz à profundamente errada separação da luta anti-imperialista da luta anticapitalista.

Leva ainda ao «embelezamento» do papel da burguesia dos «estados menores».

O problema mais grave é o da mudança de objetivo dos Partidos Comunistas. Em vez da luta pelo derrube do capitalismo-imperialismo, a utópica procura de estratégias de recuperação da soberania e independência dentro do capitalismo. Isso é acompanhado de formações políticas transitórias, chamadas governos «de esquerda», «progressistas», de gestão do sistema burguês, com consequências negativas para o progresso da luta de classes e levando ao fortalecimento do campo capitalista.

O exemplo dos estados da América Latina é característico e a análise do Partido Comunista do México em relação ao estrago causado pelos chamados «progressismo» e o chamado «socialismo do século XXI» é uma importante contribuição para a luta do movimento comunista. Essas abordagens operam no campo do capitalismo, conservam o poder burguês, a propriedade capitalista dos meios de produção, a lei do lucro dos monopólios, a anarquia capitalista que conduz às crises.

Tendo em conta a gravidade do problema, Lênin enfaticamente alertava que: «Se as raízes económicas deste fenómeno (do imperialismo) não forem compreendidas, se não se avalia a sua importância política e social, não se pode avançar nenhum passo no sentido da solução das tarefas práticas do movimento comunista e na iminente revolução social».

Em segundo lugar, Lênin estudou e revelou, sobre a base da essência económica e das contradições que permeiam o imperialismo, as suas características políticas, demonstrando que o imperialismo é a última fase do capitalismo, à beira da revolução socialista.

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A IMPORTÂNCIA DECISIVA DA SOCIALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO E DO TRABALHO

Lenine assinalou em 1916 que: «O capitalismo na sua fase imperialista conduz diretamente à socialização mais abrangente da produção… A produção torna-se social, mas a apropriação continua a ser privada…Quando a grande empresa se torna enorme e organiza de forma planificada, segundo o cálculo preciso de uma enorme quantidade de dados, o fornecimento de matéria-prima em dimensões de 2/3 ou 3/4 da quantidade total necessária para dezenas de milhões de pessoas»
Quando se organiza sistematicamente o transporte desta matéria-prima para os pontos mais adequados para a produção, que podem estar distantes uns dos outros centenas e milhares de quilómetros. Quando da partir de um centro se dirigem todas as etapas de tratamento sequencial da matéria-prima até à produção de uma ampla gama de diferentes produtos finais. Quando a distribuição destes produtos assenta num plano para dezenas e centenas de milhões de consumidores (venda de petróleo nos Estados Unidos e Alemanha pelo “Trust do Petróleo dos Estados Unidos”). Então, torna-se evidente que nos encontramos perante uma socialização da produção” (Obras completas, vol. 27, págs. 327 e 432)
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Na base do anteriormente dito, vale a pena examinar a metodologia leninista concentrando o nosso pensamento nos anos desde 1916 até hoje, em que a socialização da produção e do trabalho cresceram exponencialmente.

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AS TAREFAS POLÍTICAS DOS PARTIDOS COMUNISTAS

“O imperialismo é a antecâmara da revolução social do proletariado. De 1917 para a frente isto confirmou-se em todo o mundo“ (do prefácio das edições em francês e alemão da obra de V. I. Lênin “O imperialismo, fase superior do capitalismo”).

Qual é a questão chave que justifica esta grande verdade e permite aos partidos comunistas a dar um valente passo em frente, desbloquear-se das decisões estratégicas que não só não se confirmaram como remetem para períodos históricos passados, em que a burguesia era a força social de vanguarda contra o feudalismo?

A Grande Revolução de Outubro mostra o caminho. É a revolução socialista em princípios do século 20 num país agrário relativamente atrasado em que (entretanto) se tinham criado as pré-condições materiais para a construção da nova sociedade socialista.

A necessidade do socialismo se intensificou drasticamente em nosso período, uma vez que o capitalismo se desenvolveu muito e formou uma base econômica (monopolista) forte, com infraestrutura de alto nível, meios tecnológicos que permitem o aumento da produtividade do trabalho.

Amadurecimento das condições materiais. Esta é a questão básica que o desenvolvimento do capitalismo na etapa imperialista resolveu e que determina a natureza de nossa época como a era de transição do capitalismo ao socialismo.

O estudo dos desenvolvimentos e o efetivo debate que teve lugar no 19º Congresso do KKE (primavera de 2013) fundamentaram que a Grécia está numa posição intermédia na pirâmide imperialista internacional, com dependências em relação aos EUA e à UE.

No programa do KKE, que foi aprovado no 19º Congresso refere-se que: “O povo grego libertar-se-á das cadeias da exploração capitalista e das uniões imperialistas quando a classe operária com os seus aliados leve a cabo a revolução socialista e avance na construção do socialismo-comunismo.

O objetivo estratégico do KKE é a conquista do poder operário revolucionário, ou seja, a ditadura do proletariado, para a construção socialista como fase imatura da sociedade comunista.

A mudança revolucionária na Grécia será socialista”.

O nosso partido não se limita a proclamar a necessidade do socialismo, mas sobre a base do estudo dos desenvolvimentos econômicos e sociais enfatiza que o socialismo é a única alternativa, é necessário e muito atual.

Os problemas crônicos, não resolvidos e em agravamento que a classe operária enfrenta surgem do domínio, fortalecimento expansão do capital monopolista em todos os sectores da economia e da vida social. É inaudita a acumulação de capital, é grande o aumento da produtividade do trabalho.

A eclosão da crise econômica capitalista em 2008 pôs ainda mais em evidência a natureza historicamente ultrapassada e bárbara do sistema capitalista, a atualidade e a necessidade do socialismo, a necessidade de reagrupamento do movimento comunista internacional, da emancipação do movimento operário e popular.

Contribuiu para a intensificação das contradições interimperialistas (que são a base para as guerras imperialistas), para alterações na correlação de forças e reposicionamentos na pirâmide imperialista internacional.

O nosso partido concentra-se no fortalecimento do reagrupamento do movimento operário e na construção de uma aliança popular-social que expressa os interesses da classe operária, dos semiproletários, dos autónomos e agricultores pobres, dos jovens e das mulheres da classe operária e das camadas populares na luta contra os monopólios e a propriedade capitalista, contra a integração do país nas uniões imperialistas, por exemplo, na UE na OTAN.

No programa do KKE declara-se que: “O agrupamento da maioria da classe operária com o KKE e a atração das secções avançadas dos sectores populares passará por várias fases. O movimento operário, os movimentos dos trabalhadores autónomos nas cidades e dos camponeses e a forma de expressão da sua aliança (a Aliança Popular) com objetivos antimonopolistas-anticapitalistas, com a atividade de vanguarda das forças do KKE em condições não revolucionárias, constituem a primeira forma da criação de uma frente operária e popular revolucionária em condições não revolucionárias.”.

“Em condições de situação revolucionária, a frente operária e popular revolucionária, utilizando todas as formas de atividade, pode converter-se no centro do levantamento popular contra o poder capitalista….”.

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SOBRE A DECOMPOSIÇÃO DO CAPITALISMO

Da experiência acumulada nos estados capitalistas confirma-se a posição leninista sobre a decomposição do capitalismo na etapa imperialista. Os fenômenos de decomposição, escândalos etc. proliferam, mas é necessária atenção uma vez que é obvio que a decomposição não conduz diretamente ao colapso do capitalismo, o sistema defende o seu poder por todos os meios E portanto é necessário intensificar os esforços dos Partidos Comunistas para o fortalecimento da luta ideológica, política e de massas, para a formação da consciência de classe da classe operária com uma estratégia que favoreça o desenvolvimento da luta antimonopolista-anticapitalista para que, sobre uma base forte se faça um esforço sistemático de concentração e preparação de forças operarias e populares numa direção de ruptura e derrubamento.

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CRÍTICA DE LÊNIN AO RENEGADO KAUTSKY

Lênin comprovou na prática que a luta contra o oportunismo é um elemento essencial da luta contra o imperialismo-capitalismo, para o seu derrubamento.

É muito importante deste ponto de vista revelar as posições errôneas do renegado Kautsky que argumentou que: “O imperialismo é produto do capitalismo industrial altamente desenvolvido. Consiste na tendência de cada nação industrial capitalista para incorporar ou submeter mais e mais extensas zonas rurais (sublinhado de Kautsky), independentemente das nações que as habitam”.

A Primeira Guerra Mundial foi imperialista de ambos os lados, do lado da Entente (Inglaterra, França, Rússia, etc.) e da aliança da Alemanha, foi uma guerra entre duas coligações de estados capitalistas pela repartição territorial do mundo, e as posiciones dos oportunistas desvinculavam a política da economia viam o imperialismo como política de anexação de territórios por parte dos estados capitalistas poderosos.

Lênin acentuou que a definição de Kautsky “não serve absolutamente para nada, posto que é unilateral, ou seja arbitraria e destaca tão só o problema nacional (se bem que da maior importância, tanto em si como na sua relação com o imperialismo), enlaçando-o arbitraria e erroneamente apenas com o capital industrial dos países que anexam outras nações, colocando em primeiro lugar, da mesma forma arbitraria e errónea, a anexação das regiões agrarias. O imperialismo é uma tendência para as anexações: a isso se reduz a parte política da definição de Kautsky”.

Uma vez que há debate e divergência no movimento comunista, queremos assinalar que Lênin falou, evidentemente, em princípios do século XX, de um pequeno grupo de países que tinha uma posição de liderança no mercado mundial graças aos trusts, aos cartéis, às colônias, às relações transnacionais de estados-credores e estados-devedores.

O próprio Lênin mesmo, contudo, ensina-nos que o capitalismo se desenvolve, que a assimetria capitalista conduziu e conduz a alterações significativas na posição dos estados capitalistas no sistema imperialista.

A realidade demonstrou que, com a luta dos povos e o contributo da União Soviética, foi derrubado o regime colonial e as antigas colônias conquistaram a sua independência como estados.

Tomando em conta esta realidade, cremos que o que expressa corretamente o movimento no nosso tempo pode condensar-se na análise que acentua que todos os Estados capitalistas, nos quais desde há muito se desenvolveu o capitalismo monopolista, participam no sistema imperialista. A interdependência desigual é predominante nas relações entre esses estados e a influência de cada país é determinada pelo seu poder econômico, político e militar, e cada um busca representar e avançar os interesses “dos seus próprios” monopólios.

Estas características permitem-nos interpretar com um critério de classe o papel de cada estado e aliança, permitem posicionar-nos sobre o papel da aliança de estados capitalistas, por exemplo da UE e dos BRICS, a postura por exemplo de Rússia e China, que cumprem a sua função em nome dos monopólios russos e chineses na concorrência internacional com os Estados Unidos, a UE, Japão e outros, pelo controle dos mercados e dos recursos naturais e muito mais hoje em dia pelo gás natural, o petróleo, a energia.

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CONCLUSÕES

Cremos que os partidos comunistas devem estudar os desenvolvimentos usando todas as características (unificadas) Leninistas do imperialismo, e elaborar suas estratégias sobre a base da grande verdade de que o imperialismo é o capitalismo em decomposição e que a nossa época é a época de transição do capitalismo ao socialismo.

Armados com a obra de Lênin podemos superar as dificuldades e tomar posições de princípios contra as guerras imperialistas resultantes da agudização das contradições e competição interimperialistas e combater a pressão das forças burguesas e oportunistas que conduz ao apoio dos interesses da burguesia “do nosso país”, desarmando a classe operária, condenando-a a mover-se “sob bandeira alheia”, a escolher um país imperialista ou uma aliança imperialista.

Estas posições não têm só que ver com a postura dos comunistas ante a guerra imperialista, mas também com a sua postura face às alianças imperialistas e muitos outros temas da luta política.

Recentemente o KKE, posicionando-se sobre o referendo na Grã Bretanha e a decisão sobre o BREXIT refere que:

“O resultado demonstra o descontentamento acrescido das forças operárias e populares em relação à UE e às políticas antipopulares”, e sublinha que este descontentamento deve libertar-se das opções de parcelas e forças políticas da burguesia e alcançar características anticapitalistas radicais.

O resultado reflete a frustração das expectativas, que todos os partidos burgueses – também na Grécia – desde há anos cultivavam, juntamente com os grupos da UE, de que supostamente os povos poderiam prosperar dentro da UE.

A necessária condenação da aliança de lobos do capital, a UE, a luta pela libertação desta por parte de cada país, para que sejam eficazes devem estar articuladas com a necessidade de derrubar o poder do capital, com o poder operário-popular. A aliança social da classe operária e de outros setores populares, o reagrupamento e o fortalecimento do movimento comunista internacional são condições para abrir este prometedor caminho“.

Esta conclusão, esta orientação realmente ilumina o caminho do derrubamento do sistema e não as posições que estão constantemente em busca de “passos” e “etapas” no terreno do capitalismo, projetando vários substitutos, colocando obstáculos na luta anticapitalista necessária para o derrubamento da barbárie capitalista.

A experiência do movimento comunista mostra que a independência político-ideológica e organizativa dos partidos comunistas é um princípio de grande importância, que quando é violado conduz a desvios e mutações oportunistas.

A independência ideológica e organizativa como estratégia que responde às exigências atuais da luta de classes no sentido da concentração de forças para o derrubamento do capitalismo e não o enredamento na lógica das etapas intermédias de gestão do capitalismo são ferramentas muito importantes para a luta dos Partidos Comunistas e o reagrupamento do movimento comunista.

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*[i] Giorgos Marinos é membro da Comissão Política do Comitê Central do Partido Comunista da Grécia (KKE).

Este texto foi escrito para El Machete, revista teórica do Partido Comunista do México.

Tradução de José Paulo Gascão para O Diário (aqui), revisada a partir da versão em inglês pelo Blog Cem Flores.

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