Contra o muro, contra o imperialismo… Para confrontar a política imperialista de Trump: nem submissão, nem “unidade nacional”.

Reproduzimos abaixo, traduzido, artigo do Partido Comunista do México (PCM), que trata da iniciativa do presidente norte-americano Donald Trump de construir um muro entre o México e os EUA. Consideramos importante a leitura desse material pois, além da denúncia sobre as intenções capitalistas por trás dessa iniciativa, o artigo apresenta também uma crítica correta à tese da “unidade nacional” na oposição à iniciativa de Trump. O original pode ser acessado aqui.

Como está dito no texto do PCM a história nos ensina como ao longo do século XX, nas ocasiões em que a classe operária adotou a ‘unidade nacional’, hipotecou a sua independência como classe subordinando-se aos interesses da burguesia, a qual aproveitou para maximizar os seus lucros e afirmar a sua dominação.”

No Brasil sabemos bem os males que as teses de “unidade nacional” causaram à luta da classe operária e dos trabalhadores, nos colocando a reboque de uma pretensa burguesia “nacional” na luta contra o capital estrangeiro, o imperialismo etc. Hoje, essas teses, requentadas, são apresentadas novamente a partir da indicação aos trabalhadores brasileiros a apoiarem uma aliança com um pretenso setor “desenvolvimentista” do capital em contradição contra um suposto setor puramente “especulativo”. Lenin já mostrava há mais de 100 anos que o capital financeiro é a fusão do capital bancário com o capital produtivo…

Já publicamos também em nosso blog uma aprofundada crítica a essa tese, exposta no livro O Anti-Dimitrov, do dirigente comunista português Francisco Martins Rodrigues, que pode ser acessada aqui.

Essa posição burguesa no seio da classe operária e dos trabalhadores enfraquece nossa capacidade e necessidade de organizar a resistência contra a ofensiva do capital monopolista (especulativo e produtivo), principalmente com o aprofundamento da crise do imperialismo. Lutar contra a ilusão burguesa da “unidade nacional”, denunciando-a e expondo sua real intenção é parte do caminho necessário à luta e organização de nossa classe.

Cem Flores.

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Contra o muro, contra o imperialismo…

Para confrontar a política imperialista de Trump: nem submissão, nem “unidade nacional”.

01/02/2017

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Tal como anunciou na sua campanha, o Presidente dos EEUU, Donald Trump, assinou uma ordem executiva para a construção do muro na fronteira entre o seu país e o nosso, com o propósito expresso de conter a migração de trabalhadores mexicanos e de outras nacionalidades que nutrem a força de trabalho nos distintos ramos da produção e os serviços nessa nação norte-americana.

Sem mediações diplomáticas, Trump assegurou que a construção de tal muro -ao longo dos 3.185 quilómetros de fronteira– será paga pelo México, num custo que se avalia entre os 15 e 20 bilhões de dólares. Condicionou a anunciada reunião com Enrique Peña Nieto, Presidente do México, ao compromisso deste com tal pagamento. Adicionalmente, o presidente norte-americano adota a medida de impor um imposto de 20% aos produtos mexicanos que ingressam aos EUA para financiar a construção do muro, o que conclui de fato com os acordos alfandegários incluídos no TLCAN, que pretende revisar na procura de condições ainda mais vantajosas para os monopólios que representa.

O Partido Comunista do México condena a construção de tal muro fronteiriço e apresenta os seus pontos de vista sobre a maneira que os trabalhadores devem confrontar a agressividade imperialista, anti-operária, anti-imigrante e racista.

Em primeiro lugar, é falso que os trabalhadores migrantes mexicanos, centro-americanos, latino-americanos, haitianos ou de qualquer outra nacionalidade sejam responsáveis pela miséria e as condições de vida paupérrimas da classe trabalhadora norte-americana. Este argumento demagógico foi proferido já na Alemanha dos anos 30, contra os trabalhadores de origem judia e do leste europeu, e atualmente se escuta na União Europeia contra os trabalhadores migrantes de origem árabe e africana. O desemprego e a desvalorização da força de trabalho são parte da natureza do capitalismo como modo de produção. Com o racismo e os discursos reacionários, pretende-se distrair os trabalhadores dos EUA das principais causas que estão na base dos seus problemas, entre as que se destaca a crise de sobreprodução e sobreacumulação, que iniciou em 2009 e tem o seu epicentro nos EUA, e que no seu oitavo ano continua desvalorizando a força de trabalho, golpeando os direitos sociais e laborais. A classe operária multinacional que conforma o proletariado norte-americano é além disso tão explorada como a classe operária de outros países, com o objetivo de ampliar os superlucros dos monopólios, e a relocalização da indústria que devasta as outrora importantes cidades como Detroit, Cleveland, Pittsburg, Minneapolis, tem como motivo fundamental a maximização do lucro dos monopólios dos diferentes ramos da indústria.

É igualmente falso que o ataque aos trabalhadores migrantes e as medidas protecionistas que promove Trump vão pôr fim à crise da economia capitalista. O aprofundamento desta crise está em curso e por consequência um maior ataque contra o conjunto da classe operária e de todos os trabalhadores dos EUA, o que de imediato significará brutais cortes aos serviços de saúde e ao chamado welfare, maiores cortes a orçamentos públicos para sustentar ganhos de capital e resgate das indústrias em quebra.

O ataque racista aos trabalhadores, intrínseco à dominação burguesa, amplia-se em tempos de crise, e também deve incrementar-se a resposta classista. A única resposta à crise capitalista -que já manifesta os limites históricos da propriedade privada dos meios de produção e de troca- é lutar pela unidade da classe operária e por suas reivindicações políticas, em primeiro lugar o poder operário e o socialismo-comunismo; não há termos médios nem estações prévias e, quem diga isso, na realidade estará procurando prolongar a agonia e, em consequência, as calamidades que padecem cotidianamente a classe operária e a família trabalhadora, assim como os setores populares e os povos do Mundo.

Não queremos o muro fronteiriço, nem o muro de Israel contra o povo palestino, nem os campos de concentração contra os migrantes africanos e árabes na UE, nem as abusivas medidas racistas da polícia migratória mexicana contra os nossos irmãos trabalhadores hondurenhos, salvadorenhos, guatemaltecos, haitianos. O sofrimento do proletariado, que em muitos casos encontra a morte em mares e desertos, leva-nos a formular que não é com nacionalismos nem com retórica populista sobre a soberania nacional que se haverá de confrontar o imperialismo, senão com o internacionalismo proletário.

Os comunistas, sabendo que não é uma tarefa simples, fácil, nem instantânea, trabalharemos pela unidade da classe operária do México e dos EUA, mas também dos trabalhadores migrantes de outras nacionalidades contra os monopólios que nos exploram e oprimem mancomunadamente.

A mão de obra imigrante é e foi sempre um componente essencial da acumulação pois tanto é maior a sobre-exploração como a extração de mais-valia derivada daquela. Propalando o racismo contra os trabalhadores migrantes, a burguesia procura antagonizar e criar conflitos entre os diversos setores da classe operária para poder reduzir o valor da sua força de trabalho. Só a unidade dos trabalhadores, reiteramos, abrirá um caminho certo, sem chauvinismos, sem nacionalismos.

A luta contra Trump e o imperialismo norte-americano está ligada à luta contra os monopólios e o capitalismo no México, por isso é falsa a velha fórmula burguesa proclamada com veemência nos últimos dias: a “unidade nacional”.

A soberania popular não está no interesse dos monopólios, pois a sua única pátria é o lucro. Só quando o capitalismo for derrocado e se ache triunfante o poder operário, os interesses soberanos sobre a energia, terras, indústria, recursos naturais, mares, fronteiras, serão garantidos. Isto é possível no contexto da construção do socialismo-comunismo no nosso país. Há condições que amadurecem para que essa obra frutifique.

A história nos ensina como ao longo do século XX, nas ocasiões em que a classe operária adotou a “unidade nacional”, hipotecou a sua independência como classe subordinando-se aos interesses da burguesia, a qual aproveitou para maximizar os seus lucros e afirmar a sua dominação. Com a “unidade nacional”, assinaram-se uma e outra vez pactos operário-patronais em que se desvalorizou a força de trabalho, aceitaram-se sem reparo medidas de austeridade, restringiram-se liberdades e direitos democráticos e laborais. Os pactos interclassistas sempre tem sido em prejuízo dos trabalhadores; no México, afiançaram gestões populistas que avançaram na concentração e centralização do capital e produziram um período de estabilização que favoreceu à classe dominante.

A retórica “anti-imperialista”, pragada de um discurso anti-norteamericano, disfarçou os laços de interdependência que se teciam entre os monopólios de ambas nações, e que se fortaleceram com a assinatura do TLCAN em 1994, tanto que a ideologia da “unidade nacional” se arquivava para outros tempos.

Mas hoje a classe dominante considerou útil desarquivar essa política de “unidade nacional”, com vários objetivos, em primeiro lugar logrando a unidade da própria burguesia e as suas expressões políticas, da direita e o liberalismo até a social-democracia e a nova social-democracia.

No seu discurso na Cidade Acuña, Coahuila, López Obrador apela imediatamente a cerrar fileiras com Peña Nieto, esquecendo sem rubor que o considerava um presidente ilegítimo, já que ele era, por suposto, o presidente legítimo do México. Nele apresentou uma série de medidas que poucos dias após Enrique Peña Nieto adotou. Na mesma direção alinharam-se rapidamente todas as câmaras patronais, os partidos registrados, o poder legislativo, os meios de comunicação, os intelectuais orgânicos do sistema. Em toda a classe dominante existe o consenso sobre a “unidade nacional”, e o maior representante é Carlos Slim, cabeça de um dos monopólios que mais superlucros obtém.

As medidas que impulsionam são falsas saídas, placebos, palavrório, demagogia. Enganos, numa palavra.

No meio dessa febre de chauvinismo, os monopólios encontraram a forma de negociar com Trump e o imperialismo novas regras que os favoreçam, acordos que se pode prever terão um caráter secreto e de costas a ambos povos. Além disso, estão plainando o caminho para que a gestão da nova social-democracia de MORENA e López Obrador, ao que nestes dias se tem somado o monopólio de TV Azteca e o ex Secretário de Governo Esteban Moctezuma, conquistem a Presidência em 2018.

Mas inclusive por cima desses objetivos, está sobretudo atenuar a luta de classes no nosso país -que se acentuou no início de 2017, após os efeitos da crise capitalista que se recarga na economia popular, nos bolsos dos trabalhadores, com o “gasolinazo”, a carestia, o aumento selvagem dos custos dos produtos básicos, o transporte, os serviços-, e as ondas de protestos, que embora espontâneas por agora, exprimem o potencial de luta da classe operária e os setores populares contra o poder dos monopólios.

O Partido Comunista do México apela aos trabalhadores a não cair na armadilha da “unidade nacional”, a não cair na lógica dos acordos interclassistas, nem na conciliação de classes, e a intensificar a luta consequente contra o imperialismo que é em primeiro lugar a luta contra os monopólios no México.

O Partido Comunista do México apela à luta para romper com os acordos interestatais como o TLCAN, e as novas formas que adquira depois das previsíveis modificações na porta à sua arquitetura.

O Partido Comunista do México apela à organização dos trabalhadores migrantes na fronteira norte, além das fronteiras nas grandes cidades dos EUA, e também na fronteira Sul do nosso país, onde os nossos irmãos proletários centro-americanos sofrem da Polícia Migratória mexicana similares vexações às que se vivem por parte da US Border Patrol.

O nosso apelo é ao internacionalismo, não ao nacionalismo; o nosso apelo é a posições classistas, não à “unidade nacional”. O nosso apelo é à unidade com os trabalhadores norte-americanos, e não com os nossos carrascos, os nossos exploradores que são a classe dos burgueses, cujas políticas de fome e miséria forçam milhões de trabalhadores do nosso país a procurar na emigração laboral melhores condições de vida; esses burgueses que constroem muros de exclusão e injustiça social nas nossas cidades e povos, em volta das suas luxuosas zonas residenciais e centros comerciais, enquanto a imensa maioria explorada sobrevive com o indispensável.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Buró Político do Comité Central

Partido Comunista do México

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