A dinâmica do capitalismo hoje é exatamente a que Karl Marx previu

Reproduzimos abaixo boletim publicado pelo Banco Natixis em 02 de fevereiro de 2018. O original pode ser acessado aqui.

Nos países da OCDE hoje observamos a sucessão de desenvolvimentos que Karl Marx havia previsto:
1- o declínio na eficiência das empresas (desaceleração da Produtividade Global dos Fatores), sendo todas as coisas iguais, implica uma diminuição do retorno do capital das empresas;
2- as empresas reagem a esse desenvolvimento reduzindo os salários (distorcendo a participação na renda em favor dos lucros);
3- mas essa estratégia tem um limite, alcançado quando os baixos salários se tornam muito baixos (igual ao salário de subsistência) e os “capitalistas”, então se lançam em atividades especulativas que parecem crises financeiras.

Etapa 1 da dinâmica do capitalismo: o declínio na eficiência das empresas nos países da OCDE


Consideramos toda a OCDE, considerada para simplificar como Estados Unidos + Reino Unido + Zona Euro + Japão.
O declínio na eficiência das empresas nos países da OCDE reflete-se no declínio do crescimento da Produtividade Global de Fatores (Gráfico 1A), o declínio da produtividade do capital (Gráfico 1B, relação capital/PIB).

Todo o resto sendo igual, o declínio na Produtividade Global de Fatores ou a produtividade do capital levaria a uma queda no retorno do capital (Gráfico 2). Mas, pelo contrário, vemos que o retorno do capital aumentou.

Etapa 2 da dinâmica do capitalismo: a compressão dos salários


Para responder ao risco de queda no retorno do capital corporativo, as empresas dos países da OCDE melhoram a sua rentabilidade (Gráfico 3), reduzindo os salários, ou seja, distorcendo o compartilhamento de renda em detrimento dos empregados. (Gráfico 4).

Isto é conseguido pelo declínio do poder de barganha dos funcionários, pelo aumento da flexibilidade do mercado de trabalho.


Etapa 3 da dinâmica do capitalismo: atividades especulativas


Mas a compressão dos salários e o aumento induzido nos lucros têm um limite, que é a impossibilidade de reduzir os salários abaixo de um certo nível (o “salário vivo”). Por exemplo, hoje os países da OCDE estão vendo salários mínimos crescentes ou novos (Tabela 1).

Para apoiar o retorno do capital, os “capitalistas” usam atividades especulativas, por exemplo:
– recompra de ações pelas empresas (Gráfico 5), que elevam os preços das ações;

– especulação imobiliária (Gráfico 6);

– compartilhar compras, especialmente empresas de Novas Tecnologias (Gráfico 7), compras de todo tipo de ativos especulativos (commodities raras, bitcoin …), o desenvolvimento de LBOs (Tabela 2) em avaliações crescentes…

Síntese: a lógica dessa dinâmica do capitalismo é bastante implacável


Os desenvolvimentos recentes mostram a dinâmica do capitalismo descrita por K. Marx:
– declínio na eficiência corporativa que poderia reduzir o retorno sobre o capital;
– uma reação descendente ao retorno do capital através da distorção da participação na renda em lucros e em detrimento dos empregados;
– quando essa distorção atinge seu limite, o uso de atividades especulativas para aumentar a rentabilidade do capital.
Esta dinâmica conduz necessariamente, por um lado, à crescente desigualdade de renda e, por outro lado, a crises financeiras.

3 comentários

  • Hector Benoit (Professor Livre-Docente da Unicamp, Deptº de Filosofia)

    Sim, concordo em linhas gerais com a análise, economistas, sociólogos ou filósofos, que procuram “lacunas” em Marx, ou “inovações não previstas” pelo Das Kapital, não compreenderam propriamente a obra de Marx, no sentido dialético mais amplo, fixando-se em elementos empíricos-jornalísticos, ou em frágeis inovações conceituais das chamadas “Ciências Humanas” burguesas.
    Considero que as forças produtivas como um todo pararam de crescer desde a década de 30, e o capitalismo entrou numa fase de declínio e crise estrutural permanente, interrompida por ciclos conjunturais de crescimento aparente. O caso mais sintomático foi o período de “crescimento” do pós-guerra que durou até meados dos anos 60. Na verdade, ocorria a reposição das forças produtivas destruídas durante a 2ª guerra, só a reconstrução da Europa, foi um grande falso desenvolvimento capitalista, que levou aos erros de vários economistas ditos “marxistas”, como Mandel e outros, que viram nessa reposição um novo desenvolvimento das forças produtivas e do capitalismo como um todo. Ora, todo esse otimismo eram bolhas de sabão.
    O desenvolvimento tecnológico, como por exemplo, a chamada “4ª revolução industrial” ou “indústria 4.0”, é o último grande blefe. Nada mais é do que um desenvolvimento dos meios de produção, mas que carrega em si a negatividade imensa de destruição e desperdício de uma imensa massa de forças produtivas, aquelas constituídas pela força de trabalho. Segundo relatório recente, essa “indústria 4.0” conduzirá ao desaparecimento de mais de 50 milhões de empregos. Portanto, o desenvolvimento dos meios de produção enquanto parte das forças produtivas, como dizia Marx, carrega em si a sua negação, a destruição de forças produtivas, capital variável, força de trabalho. Essa negação é a negação da negação. As forças produtivas como um todo somente poderão voltar a crescer quando implodirem as atuais relações de produção que as encarceram na apropriação privada dos meios de produção. Nunca ocorreu tal concentração de renda como no mundo atual, como se noticiou estes dias, no Brasil, 5 indivíduos mais ricos possuem uma renda equivalente a 100 milhões de brasileiros, e à escala mundial, parece-me que 8 indivíduos detém uma renda equivalente a 3,6 bilhões de pessoas, ou seja, cerca de metade da humanidade.

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  • Hector Benoit (Professor Livre-Docente da Unicamp, Deptº de Filosofia)

    O comentário acima não é o mesmo, mas, se já o fiz neste site, é o que penso, e realmente constitui a síntese daquilo que considero correto.

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  • Carlos Malê

    Muito bom o texto e os comentários do Prof. Hecto Benoit, mas a questão central é sabermos como tudo isso reflete na consciência dos operários em particular e dos explorados em geral? Que conclusões políticas, que orientações para a prática se pode extrair dessas análises estruturais e como levar tais conhecimentos à massa dos explorados? Como transformar esse conhecimento em um programa político e em agitação e propaganda. Penso aqui em como Lênin, nas “Teses de Abril”, transformou os conhecimentos que havia desenvolvido sobre o imperialismo e o caráter imperialista da I GM em orientações para a ação, para a agitação do partido bolchevique, como todo aquele conhecimento teórico foi transformado em orientações para a prática política da militância bolchevique.

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