O agravamento das contradições interimperialistas e a recente agressão imperialista à Síria

Na noite da última sexta-feira, dia 13 de abril, o pulha que é o gerente de plantão da maior nação imperialista do globo, Donald Trump, anunciou via Twitter mais um bombardeio à Síria[1]. Ao seu lado em mais essa agressão a primeira-ministra britânica Theresa May e o presidente francês Emmanuel Macron. Dessa vez, a justificativa para a chuva de mais de uma centena de mísseis em Homs e Damasco foi atingir supostos centros de pesquisa e armazenagem de armas químicas como retaliação de um improvável ataque com essas armas a um reduto rebelde (aliado aos EUA) praticamente derrotado[2]. Há controvérsias se realmente houve o ataque com armas químicas e de quantos mísseis americanos conseguiram ser interceptados pela defesa antiaérea russa em ação na Síria, mas o fato é que alvos como o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Barzah, foram devastados, como foi divulgado na imprensa a partir de fotos de satélite.

A mais nova da série de agressões “humanitárias” e “democráticas” (sic!) do imperialismo custou mais de 100 milhões de dólares[3] apenas aos EUA, ao mesmo tempo em que ampliou em 5 bilhões de dólares o valor em ações das empresas produtoras dos mísseis[4].  A agressão contou, além do auxílio britânico e francês, com o apoio de várias nações ocidentais e da OTAN.

Por detrás dessa velha e gasta narrativa de “guardiões das normas internacionais”, que desde o início da macabra “guerra ao terror” só vem trazendo destruição de países dominados e de seus povos, o que vemos é a continuidade e o agravamento das contradições e tensões interimperialistas, que em situação de crise tendem a se avolumar e explodir em conflitos mais diretos. Este é o pano de fundo explicativo das ações das nações líderes dos blocos imperialistas existentes (do Ocidente ao Oriente!), e não sua preocupação com o povo sírio ou com os propagados valores de democracia ou soberania.

Essa é também uma característica estrutural da fase imperialista do capitalismo: a tendência permanente a agressões bélicas das nações dominantes às dominadas, defendendo suas zonas de influência ou atacando as das demais nações imperialistas, além das tensões e conflitos diversos e mesmo guerras entre as nações dominantes, tudo pela “partilha do mundo”, como demonstrou Lenin.

A expansão econômica e militar da China e da Rússia, com a consequente pressão de seus capitais por garantir mercados, fontes de matéria-prima, rotas e posições geoestratégicas, aliada à decadência relativa dos EUA, tudo isso no contexto da crise aberta na economia mundial, acirrou ainda mais as contradições existentes, levando a um confronto cada vez maior entre essas potencias imperialistas a exemplo do que aconteceu no Iraque, na Líbia e na Ucrânia em anos passados.

Ainda em 2009[5], antes mesmo da guerra na Síria e no ainda início da recente grande crise do imperialismo, afirmamos haver uma tendência, em qualquer crise imperialista, de se “gerar o agravamento das contradições interimperialistas tendo em vista que países, ou trustes e cartéis, que conseguiram se adiantar à tendência [de queda da taxa de lucro] e passaram a produzir em novas condições aumentam suas vantagens sobre outros países ou empresas. O fato de que países ou cartéis e trustes estão produzindo com maior taxa de lucro tende a acirrar a concorrência, a disputa por mercados e fontes de matérias-primas.

No texto “A Crise do Imperialismo ‘Globaliza’ o Acirramento da Luta de Classes[6], de 2014, afirmamos que a crise do imperialismo tanto questiona as zonas de influência / dominação dos países imperialistas, conforme sua partilha anterior, quanto, de forma contraditória, impulsiona / fortalece novos acordos / alianças interimperialistas. Afirmamos então que “as principais potências imperialistas buscam fortalecer suas zonas de influência e conquistar novas (em detrimento das demais potências) em antagonismo crescente com todos os demais blocos imperialistas, principalmente com o imperialismo dos EUA, dado este ser a principal potência dominante”.

Em recente comentário a um discurso do KKE sobre o imperialismo[7], dissemos: “a crise do imperialismo, de fato, tem intensificado as contradições interimperialistas – como nos ensina Marx, a crise agrava todas as contradições do sistema – tanto em termos econômicos quanto políticos e, ainda, militares. Neste caso, tratam-se tanto das guerras atualmente em curso, como na Síria, na qual potências imperialistas apoiam lados opostos do conflito, quanto na preparação para as próximas.”

A força dessa tendência fica explícita na atual agressão à Síria. Em primeiro lugar, como é sabido, a Síria é acima de tudo uma região estratégica em diversos sentidos. Trata-se hoje de um regime que não se alinha aos interesses norte-americanos e sionistas para o mundo árabe, além de ser importante porto no Mediterrâneo, e aliado comercial e militar de outras potências imperialistas, como a Rússia e a China. Assim, há anos os EUA e seus aliados, enquanto representantes de seus capitais, investem de diversas formas na desestabilização do país.

Do outro lado, os capitais russos já fazem a conta da reconstrução da Síria (como fizeram os capitais ocidentais, principalmente dos EUA, lucrando com a reconstrução do Iraque). Conforme divulgado por parlamentares russos em visita à Síria após o bombardeio, “Assad calcula em US$ 400 bilhões a conta para reconstruir o país árabe depois da guerra. Segundo Sablin (deputado russo), Assad prometeu dar preferências às empresas russas na reconstrução da Síria e vetar a participação de companhias ocidentais[8].

A crescente derrota dos mercenários financiados pelos Estados Unidos na região, e o avanço do regime de Assad em conjunto com o de Putin, fez com que os EUA e seus aliados decidissem intervir de forma mais direta na disputa desde o ano passado. Daí mais um e maior bombardeio, a elevação de tom do Pentágono, e o auxílio direto de outras nações. Isso, inclusive sob um presidente americano eleito com a promessa de não intervenção estrangeira, e alvo de “simpatia” pelos russos. Aliás, ridiculamente, uma parte da “esquerda” comemorou a vitória de Trump, como se eleições definissem sobremaneira os rumos das relações internacionais no imperialismo. Ledo engano: Trump eleito rapidamente alinhou os ponteiros com as frações dominantes nos EUA e assumiu responsabilidade frente ao seu bloco imperialista como um todo e seus capitais. A cena política, e suas ridículas alianças, como o “jovem e moderno” Macron e Trump, mais uma vez, possuem explicação, em última instância, a partir das determinações econômicas do sistema imperialista[9].

Apesar do falastrão Trump ter anunciado logo em seguida ao bombardeio que a missão foi cumprida, não há nenhuma evidência hoje de uma diminuição dos conflitos interimperialistas, seja na Síria ou outra região. De tempos em tempos, novas peças do tabuleiro geopolítico tem se movido, os conflitos armados já se encontram a um nível a gerar deslocamentos humanos semelhantes à segunda guerra mundial[10], e os discursos e gastos bélicos só crescem[11].

É dever dos comunistas denunciar e lutar contra toda agressão imperialista, mas não escolhendo um bloco imperialista “menos pior”: tornar a guerra imperialista em guerra anti-imperialista, popular, buscando a direção proletária do processo, como ressaltava Lenin.

Eis a única postura justa, mesmo que ainda frágil. E também a única solução para sair dessa barbárie.


[1] Em abril de 2017, 59 mísseis Tomahawks já haviam sido lançados contra a Síria. https://g1.globo.com/mundo/noticia/eua-lancam-misseis-na-siria.ghtml.

[2] http://mundialissimo.blogfolha.uol.com.br/2018/04/18/5-perguntas-sobre-o-suposto-ataque-quimico-na-siria/.

[3] https://oglobo.globo.com/mundo/so-em-misseis-no-ataque-siria-eua-gastaram-ao-menos-us-119-milhoes-22598389.

[4] http://fortune.com/2017/04/07/syria-airstrikes-tomahawk-missile-boeing-raytheon-stock/.

[5] http://cemflores.blogspot.com.br/2009/06/crise-do-imperialismo-e-crise-da.html.

[6] http://cemflores.org/index.php/2014/01/05/a-crise-do-imperialismo-globaliza-o-acirramento-da-luta-de-classes/.

[7] http://cemflores.blogspot.com.br/2016/11/100-anos-de-imperialismo-fase-superior.html.

[8] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2018/04/15/defesa-antiaerea-sovietica-usada-pela-siria-derrubou-70-misseis-diz-assad.htm.

[9] A sagrada democracia é deixada de lado até no pomposo Reino Unido quando se trata se assuntos sérios (ao capital): na agressão, Theresa May, primeira-ministra britânica, nem pediu autorização o parlamento para tal feito.

[10] https://epoca.globo.com/tempo/noticia/2015/09/numero-de-refugiados-e-o-maior-desde-segunda-guerra-mundial.html.

[11] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39721464.

 

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