A Greve dos Caminhoneiros e a Luta de Classes no Brasil

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/24/album/1527180891_038789.html

Os caminhoneiros entraram em greve no dia 21 de maio, exatamente uma semana atrás. Na semana passada, sob vários aspectos, o Brasil parou. Mais de 1.000 pontos de bloqueio em estradas em todo o país, dezenas de milhares de caminhões parados. Falta de combustível disseminada (com donos de postos aproveitando para lucrar e dobrando o preço da gasolina que restava). Relatos de escassez de hortifrutigranjeiros em Ceasas, principalmente no Sudeste. Suspensão de aulas em escolas públicas. Paralização na produção de automóveis anunciada pela associação patronal[1].

Em função da greve, a Petrobrás primeiro anunciou desconto de 10% no preço do diesel por 15 dias[2]. Não adiantou. O governo, em seguida, mentiu ter feito um acordo fajuto, com líderes pelegos, o que fortaleceu a greve. Depois, chamou todo o seu aparelho de repressão para atacar os grevistas, ameaçando prendê-los, e desobstruir as rodovias. Os grevistas deixaram passar os veículos leves e de primeira necessidade. Por fim, na noite de domingo (27.5), o governo capitulou e prometeu baixar o diesel em 46 centavos (mais ou menos 12%), por 60 dias. Depois desse período, os reajustes passariam a ser mensais. Anunciou também a isenção de cobrança de pedágio por eixo suspenso, a adoção de tabela mínima de frete e 30% dos fretes da Conab para os caminhoneiros autônomos[3]. Todas essas eram exigências dos grevistas.

Enquanto isso, mesmo afetada no seu cotidiano, por filas e alguma escassez, boa parte da população passou a apoiar a greve.

Todos os que defendem os interesses da classe operária e dos trabalhadores na sua luta contra a burguesia e seu estado devem, na nossa opinião, apoiar essa greve e sua generalização, a partir da solidariedade dos demais trabalhadores.

A chispa

A partir de meados de 2017, a Petrobrás adotou uma política de reajuste dos combustíveis baseada nos preços do mercado internacional, acrescidos de uma margem de lucro extra para a Petrobrás, e informou que os reajustes poderiam ser diários[4]. Quando do anúncio dessa política, o litro do diesel custava R$2,92, de acordo com a Agência Nacional de Petróleo (ANP). No começo de março de 2018, já estava R$3,38. A partir de então foram 10 semanas seguidas de aumento, chegando a R$3,60 em 19 de maio, véspera da greve. Ou seja, 6,4% de aumento em dois meses e meio e 23,2% de aumento em menos de um ano. Isso para uma inflação abaixo de 3% ao ano…

O resultado dessa nova política foi o esperado – ao menos do ponto de vista da Diretoria da Petrobrás. Só no primeiro trimestre deste ano, o lucro atingiu R$7 bilhões, com aumento de 56% sobre o lucro de 2017![5]

Do ponto de vista dos caminhoneiros e da população, o resultado foi a carestia. A imprensa chegou a dizer que o preço atual do diesel, com o barril de petróleo por volta de US$80, era o mesmo de 2008 em termos reais, quando o barril custava US$140![6]

Essa política de preços elevados atinge diretamente as condições de vida e de trabalho dos caminhoneiros (sejam os autônomos, sejam os trabalhadores assalariados) e dos demais trabalhadores do setor de transportes (taxistas, motoristas de aplicativos, motoboys, etc.). Sem poder aumentar os fretes (ou as bandeiradas) por causa da crise econômica e esmagados pelo preço dos combustíveis, só restou uma solução. A mesma de todos os trabalhadores que lutam para melhorar suas condições de vida: a greve!

A crise econômica e política do Brasil como contexto mais geral da greve

Se enganam os que acham que o fim “oficial” da recessão em 2016 (de acordo com os economistas burgueses) encerrou a crise econômica no Brasil. Depois da economia reduzir 9% entre 2014-2016, só cresceu 1% no ano passado. Neste ano, ao invés dos 4% propagandeados por Temer e Meirelles, as projeções oficiais já estão em 2,5% e devem cair ainda mais… Isso comprova uma crise longe de ser superada.

Além disso, os trabalhadores continuam os mais afetados pela crise. Por um lado, os salários não sobem. Por outro, o desemprego segue aumentando. O IBGE informa que não apenas o desemprego permanece acima de 13%, com mais de 13 milhões de desempregados no país, como já são quase 25% dos trabalhadores “subutilizados” (desempregados, subocupados por deficiência de horas e força de trabalho potencial não empregada, desalentados), o que equivale a 28 milhões de trabalhadores[7]. Esse é um triste recorde para nossa classe.

Nesse cenário, como vimos denunciando em vários materiais, a ofensiva da burguesia em busca de retomar os seus lucros é total. São as mais diversas as formas ampliadas de exploração da classe operária: ajuste fiscal e deterioração dos serviços públicos, tarifaço, reforma trabalhista, reforço do aparelho repressivo do Estado, piora das condições de trabalho (intensidade, jornada), etc. Essa ação da Petrobrás é só mais uma iniciativa dessa ofensiva – e não a única da empresa…

A crise política contribui para agravar ainda mais a conjuntura. Afinal de contas, de forma ampla, a crise política representa dificuldades da classe dominante em gerir sua dominação e o aparelho de estado burguês. Os efeitos da Lava Jato já eliminaram bua parte da cúpula dirigente dos principais partidos (PT, PMDB, PSDB, etc.). Com a proximidade das eleições e a impopularidade de Temer, a base governista no Congresso desapareceu. A burguesia tampouco consegue encontrar seu candidato para as eleições de outubro – que unifique seus interesses e que seja viável eleitoralmente.

Esse caldeirão de contradições é, em termos gerais, o mesmo que leva à greve dos operários da Mercedes-Benz e à greve dos caminhoneiros, cada qual tendo uma chispa específica.

A greve

Em 15 de maio, representantes de algumas associações de caminhoneiros autônomos (não há sindicato único) enviaram carta ao governo demandando redução do preço do diesel e seu congelamento, ameaçando de greve. Sem qualquer resposta, a greve começou na segunda-feira, dia 21 de maio. As adesões foram crescentes e muito rápidas. Em dois dias, a paralisação já era ampla e nacional, com caminhoneiros organizando pontos de concentração no país todo (em postos de gasolina, nos seus tradicionais pontos de descanso, etc.), estacionando ao longo de rodovias em pontos estratégicos e bloqueando estradas (piquetes).

Após o blefe do acordo com os pelegos não colar, o governo – sob pressão da imprensa – partiu para cima dos caminhoneiros. Na sequência, decretou: 1) Operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), autorizando a atuação das Forças Armadas contra os grevistas; 2) Decreto de requisição a força de veículos particulares para transporte de cargas definidas como essenciais (combustíveis, alimentos, remédios, etc.); 3) Atuação da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal contra os bloqueios de estradas e ameaçadas de prisões e processos judiciais (já teriam ocorrido os primeiros 37) contra grevistas; e 4) Atuação do Poder Judiciário, impondo multas de até R$100 mil por hora para os bloqueios.

Com isso, muito embora a greve tenha continuado, os pontos de bloqueio se reduziram rapidamente dos mais de 1.000 no pico do movimento para por volta de 500 no final de semana.

Nesse momento de ofensiva repressora do governo também começaram a surgir críticas, na imprensa e na “esquerda” oportunista, contra a greve. Por um lado, a greve seria, na realidade, um locaute orquestrado pelos empresários. Por outro, os caminhoneiros seriam apoiadores do Bolsonaro e sua greve uma estratégia para fomentar uma intervenção militar (sic!).

Os que criticam a greve, chamando-a de locaute, partem do fato óbvio e notório que também é do interesse dos empresários do setor a redução dos combustíveis, posto que isso aumenta os seus lucros. No entanto, a magnitude do movimento, seu caráter nacional, amplo, mas também fragmentado, com lideranças e organizações municipais, quando muito estaduais ou regionais, descarta essa tese.

Os críticos da greve como uma “ação de massas da direita” partem exatamente desse caráter fragmentário do movimento, da ausência de direção sindical tradicional e única, para construírem sua crítica. Essa “esquerda” que se assombra com a greve não consegue se posicionar no movimento real, fora de suas cartilhas e do seu controle.

Ocorre que os caminhoneiros, especialmente os autônomos, sofrem forte influência da ideologia burguesa, na medida em que são proprietários (dos seus caminhões) dos seus “meios de produção”. Dessa forma, veem sua subsistência como fruto do seu esforço e dedicação pessoal, dos sacrifícios das longas jornadas, da ausência da família, etc. Se veem assim, de forma diferente dos operários e demais trabalhadores assalariados. Só que nas condições concretas de vida no Brasil, são mais próximos da classe trabalhadora que das camadas médias. Seja pelo nível de rendimentos, pelas condições de trabalho, pela precarização, pelo nível educacional, entre outros.

Por outro lado, os caminhoneiros que são empregados das empresas de transportes, compartilham a carga de exploração dos demais trabalhadores assalariados: salários reduzidos, condições de trabalho ruins, exploração de jornada, poucos direitos sociais e trabalhistas garantidos (menos ainda após a reforma trabalhista, etc.).

Dentro desse grupo específico da população – como na população como um todo – há diversos grupos com posições mais conservadoras, à direita ou à extrema direita. Isso não pode servir de pretexto para que se considere todo o movimento como de direita, para que se ignore a luta concreta desses trabalhadores ou pior, para que se oponham a ela a partir do raciocínio eleitoreiro.

A posição correta dos que defendem a classe operária e demais explorados diante dessa luta específica deve ser a de apoiar e reforçar a luta concreta dos caminhoneiros contra a piora das suas condições de trabalho e de vida. Um exemplo nesse sentido é o dos petroleiros, anunciando greve para esta semana, compartilhando a pauta de redução dos preços dos combustíveis,

A solidariedade entre os trabalhadores e sua luta comum contra o inimigo de classe e seu Estado é o único caminho para a vitória. A partir dessa luta comum os operários e as classes dominadas podem mais claramente ver que além de suas pautas específicas, todos compartilhamos a oposição à classe burguesa e à sua dominação e exploração.


[1] http://www3.fenabrave.org.br:8082/plus/modulos/noticias/ler.php?cdnoticia=11702.

[2] http://www.petrobras.com.br/fatos-e-dados/preco-do-diesel-tem-reducao-de-10-em-nossas-refinarias.htm.

[3] http://aovivo.folha.uol.com.br/2017/05/24/5324-aovivo.shtml.

[4] https://g1.globo.com/economia/noticia/a-cronologia-da-crise-do-diesel-do-controle-de-precos-de-dilma-a-reducao-diante-da-greve-dos-caminhoneiros.ghtml.

[5] http://www.investidorpetrobras.com.br/pt/resultados-financeiros/holding.

[6] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/05/preco-do-diesel-hoje-se-equipara-ao-da-epoca-do-petroleo-a-us-140.shtml.

[7] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/21247-27-7-milhoes-de-pessoas-estao-subutilizadas-na-forca-de-trabalho-do-pais.html.

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