Cartas de Engels e as Crises do Capitalismo

No último dia 5 de agosto completaram-se 123 anos da morte de Friedrich Engels. Essa publicação é uma homenagem a essa data.

 

Comentário sobre as cartas de Engels

Friedrich Engels (1820-95) foi o genial co-autor da teoria marxista junto com Karl Marx (1818-83) e, também em sua companhia, dirigente comunista e fundador da Associação Internacional dos Trabalhadores. Após a morte de seu camarada teve depositada em seus ombros a responsabilidade principal pelo desenvolvimento e divulgação da teoria e pela direção do movimento revolucionário dos trabalhadores em todo o mundo. Nessas condições, coube a ele a tarefa de editar e publicar os manuscritos deixados por Marx do que viriam a ser os volumes II e III de O Capital; de traduzir, rever e prefaciar as novas edições de obras de ambos; e de continuar suas atividades de teórico e publicista. Ainda permaneceu intimamente ligado ao desenrolar das lutas revolucionárias em todo o mundo, em permanente intercâmbio com dirigentes revolucionários na Alemanha, França, Estados Unidos, Rússia e diversos outros países, além de acompanhar em detalhes a evolução da conjuntura política e econômica e as transformações do capitalismo.

Este post mira exatamente esse último aspecto da atividade de Engels. Em textos do final de 1884 e início de 1885 e, depois, em seguidas cartas no começo de 1886 – quando já havia completado 65 anos – Engels se debruça sobre a crise econômica que assolava a Inglaterra naquele período e não apenas lhe desvenda seu caráter mais profundo como lhe aponta novas características.

Olhando com os olhos de hoje, percebemos que o que Engels identificava como novos aspectos são as primeiras manifestações da fase imperialista da economia mundial capitalista. Que Engels via, de fato, essas transformações em direção à nova etapa, monopolista, do capitalismo, seria reafirmado, alguns anos depois, em nota que escreveu à 4ª edição alemã de O Capital, de 1890 (quando Engels já contava quase 70 anos!):

“Em dado ramo de negócios, a centralização teria alcançado seu limite último se todos os capitais aí investidos fossem fundidos num só capital individual.
Nota à 4ª. edição: Os mais recentes trusts ingleses e americanos já se voltam para esse objetivo, procurando reunir ao menos todas as grandes empresas de um ramo de negócios em uma grande sociedade por ações, tendo, na prática, o monopólio. – F.E
.” (MARX, Karl. O Capital, vol. 1, t. 2. 3ª ed. São Paulo: Nova Cultural, 1988, pg. 188).

Isso mais de um quarto de século antes de Lênin (1870-1924) escrever Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo!

A crise econômica que ocorria sob os olhos de Engels é, atualmente, conhecida como a Longa Depressão, que se iniciou com o pânico de 1873 e durou, com altos e baixos, mais de vinte anos, até 1896-97. O que primeiro chama a atenção de Engels nessa crise é a sua permanência, ou seja, a incapacidade da crise econômica de cumprir a sua função tradicional – queimar capital sobreacumulado – em magnitude suficiente para permitir a retomada das condições de acumulação, retomada do movimento ascendente das taxas de lucro, ou um período de prosperidade. Nas palavras de Engels: o “estado de crise tem persistido ininterruptamente”.

Com isso, Engels vê nessa crise a quebra do padrão anterior de crises decenais – que nós hoje podemos dizer ser característico do capitalismo concorrencial – nas quais a acumulação era interrompida por uma crise grave, porém curta, seguida da retomada da acumulação. A “era das crises, no antigo sentido do termo, chegou ao fim”, afirmou ele. Em substituição a essa antiga era, Engels vê o surgimento de uma nova, que se caracterizaria por ser “praticamente uma crise sem fim”.

A questão imediata é o porquê dessa mudança. Engels a atribui ao aumento da produção capitalista não apenas na Inglaterra, mas nos diversos países que surgem como seus competidores na economia mundial. Se antes se poderia dizer, de maneira simplificada, que a produção industrial inglesa era suficiente para abastecer o mundo capitalista, Engels vê não só essa produção aumentando, mas a ela ser adicionada a produção alemã, inglesa e, destacadamente, a dos Estados Unidos. Isso causa o que poderíamos chamar uma superacumulação estrutural de capitais, que gera o que Engels denomina de “superprodução crônica” ou “depressão crônica” em diversas passagens:

“estado crônico de estagnação em todos os ramos dominantes da indústria”;
“superabundância crônica de todos os mercados para todos os negócios”;
“crises se tornam crônicas sem, no entanto, perder nada de sua intensidade”;
“estagnação crônica deve necessariamente tornar-se a condição normal da indústria moderna”.

Ou seja, a perda do monopólio industrial por parte da Inglaterra oriunda do surgimento de novas potências capitalistas, as contradições interimperialistas; a reunião das grandes empresas em uma única S.A., concretizando o monopólio em cada ramo industrial; fenômenos analisados a quente por Engels, caracterizam o início da transformação do capitalismo do século XIX em imperialismo. Adicionemos a isso o crescimento da produção diretamente destinada ao mercado mundial e a plena integração de todo o mundo à produção e ao mercado capitalista. Esse é o capitalismo da era dos monopólios, da fusão do capital bancário com o capital industrial, gerando o capital financeiro, que traz grandes impactos no funcionamento do sistema capitalista, implicando também mudanças nas suas crises.

Vimos, até aqui, que Engels identificou na crise iniciada em 1873 uma crise crônica, permanente, fruto de uma superprodução crônica, causada pelo próprio desenvolvimento do capitalismo na Inglaterra e nos países concorrentes seus no mercado mundial. A partir daí, pudemos dizer que esses aspectos novos da crise são decorrentes das características próprias da fase imperialista do capitalismo, então incipiente e hoje já, desde há muito, integralmente desenvolvidas.

Como afirmou Lênin, no Imperialismo:

“Que os cartéis suprimam as crises, eis uma fábula dos economistas burgueses que se propõem embelezar o capitalismo. Pelo contrário, o monopólio, criado em certas indústrias, aumenta e agrava o caos inerente ao conjunto da produção capitalista”(LÊNIN. Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. 5ª ed. São Paulo: Global, 1989, pg. 28).

Cem anos depois do início da crise analisada por Engels, o imperialismo entra, novamente, em uma crise prolongada, também marcada por altos e baixos. Essa crise – cuja atual fase aberta, iniciada em meados de 2007, culmina processo de trinta anos – apresenta características comuns à analisada por Engels, ao lado de outros aspectos específicos. Enumeramos abaixo, para o debate com os companheiros, as características gerais mais significativas:

1) manutenção de sua característica básica e fundamental de crise do modo de produção capitalista, devido ao agravamento de suas contradições inerentes, expressas na superacumulação de capitais, na conseqüente superprodução de mercadorias e na trajetória tendencial de queda da taxa de lucro.
Nas palavras de Engels: “necessidade de expansão constante, e essa expansão constante torna-se agora impossível”.

2) atuação decidida dos Estados capitalistas, buscando cumprir plenamente sua função de estado-maior do capital e da ordem burguesa, utilizando todos os seus instrumentos (aumento da dívida pública, redução das taxas de juros, relaxamento da regulamentação sobre os ramos de negócio, estatização de empresas falidas e socialização dos prejuízos, etc.) para impedir a crise ou minorar sua extensão.

3) criação e/ou reforço de uma esfera puramente financeira para a acumulação de capitais que não conseguem aplicação produtiva à taxa desejada de lucro. Conversão dessa esfera financeira em local de acumulação predominantemente fictícia de capitais, para a qual converge parcela crescente do capital social, sem, no entanto, resolver o problema da superacumulação.

4) reforço da integração das economias mundiais mediante a transferência de estruturas industriais dos países imperialistas, especialmente os Estados Unidos, para países nos quais as condições de acumulação sejam melhores, isto é taxas de lucro mais altas, especialmente a China. Esse movimento de deslocamento da indústria dá origem a importantes e complexas relações econômicas e financeiras entre os países envolvidos.

5) permanência, em função das características acima, de um estado de crise latente (ou o que Engels denomina como crônico) que o agravamento das contradições fez virar crise aberta neste ano.
Ou como disse Engels: “Nós não passamos, verdadeiramente, por uma grande crise no período em que ela deveria ocorrer, em 1877 ou 1878; mas temos tido, desde 1876, um estado crônico de estagnação em todos os ramos dominantes da indústria. Não ocorrerá nem a crise completa, nem o grandemente esperado período de prosperidade antes ou depois dela, ao qual nós achávamos ter direito. Uma depressão tediosa, uma superabundância crônica de todos os mercados para todos os negócios, isso é o que temos vivido por quase dez anos”

Da mesma forma que a crise presenciada por Engels, esta crise atual apresenta uma magnitude incomum, não vista desde a Grande Depressão iniciada em 1929. Além disso, os mesmos elementos novos que vinham impedindo a ocorrência de uma depressão mundial nas últimas décadas, agora se mostram não apenas impotentes para evitar a depressão, mas são eles mesmos o epicentro do crash que abala toda a economia capitalista mundial. Isso já seria suficiente para seguirmos o conselho de Engels: “Essa é a razão pela qual eu estou acompanhando o desenvolvimento da crise atual com um interesse maior do que nunca”.

Outro fator, ainda mais importante para a atividade dos revolucionários, se impõe. O conhecimento científico das razões e da evolução da presente crise, que nada mais é do que o conhecimento científico sobre o funcionamento do capitalismo atual, em sua fase imperialista, é indispensável à organização do movimento revolucionário organizado e conseqüente. E isso é fundamental para que esse mesmo movimento alcance seus fins.

“O dia em que isso for claramente compreendido neste país será o dia em que o movimento socialista começará aqui, a sério – e não antes”.

* * *

Da mesma maneira que na tradução do artigo “Karl Marx”, de Engels, as traduções abaixo foram feitas por companheiros colaboradores do Blog. Apesar do esforço despendido, não é um trabalho de tradutores profissionais e, assim, permanece a possibilidade de inexatidões e de um texto não tão fluente como o original. Essa é mais uma razão para indicarmos, sempre que possível, links para as versões em inglês ou outra tradução para o português. Todos os negritos são da tradução. Exceto onde assinalado Nota dos Tradutores (NT), todo o texto e as notas foram traduzidos de:

MARX, Karl e ENGELS, Frederick. Collected Works, volume 26. Trabalhos de Engels, de 1882 a 1889. Moscou: Progress Publishers, 1990, pp. 288, 299-301.

MARX, Karl e ENGELS, Frederick. Collected Works, volume 47. Cartas de Engels, de 1883 a 1886. Nova Iorque: International Publishers, 1995, pg. 390, 396-97, 402, 407.

 

  

Cartas de Engels e as Crises do Capitalismo

 

1

Marx e Rodbertus

Prefácio à primeira edição alemã de A Miséria da Filosofia,

de Karl Marx (outubro de 1884) [1]

… Tão logo a produção de mercadorias tenha assumido as dimensões do mercado mundial, a equalização entre os produtores individuais que produzem por sua própria conta e o mercado para o qual eles produzem, o qual é mais ou menos desconhecido para eles em termos de quantidade e qualidade da demanda, é estabelecida por meio de uma tempestade no mercado mundial, por uma crise comercial.

Ao menos esse foi o caso até recentemente. Desde que o monopólio da Inglaterra no mercado mundial começou a ser crescentemente quebrado pela participação da França, da Alemanha e, acima de todos, da América no comércio mundial, uma nova forma de equalização parece estar agindo. O período de prosperidade geral precedendo a crise ainda falta aparecer. Se ele permanecer inteiramente ausente, então uma estagnação crônica deve necessariamente tornar-se a condição normal da indústria moderna, apenas com flutuações insignificantes . [2]

Londres, 23 de outubro de 1884

Friedrich Engels

 

2

Inglaterra em 1845 e em 1885 (fevereiro de 1885)[3]

Essa era, então, a situação criada pela política do livre comércio de 1847, e por vinte anos de domínio dos capitalistas industriais. Mas então surgiu uma mudança. O crash de 1866 foi, de fato, seguido por uma leve e breve recuperação por volta de 1873; mas ela não durou. Nós não passamos, verdadeiramente, por uma grande crise no período em que ela deveria ocorrer, em 1877 ou 1878; mas temos tido, desde 1876, um estado crônico de estagnação em todos os ramos dominantes da indústria. Não ocorrerá nem a crise completa, nem o grandemente esperado período de prosperidade antes ou depois dela, ao qual nós achávamos ter direito. Uma depressão tediosa, uma superabundância crônica de todos os mercados para todos os negócios, isso é o que temos vivido por quase dez anos.Como isso aconteceu?

A teoria do livre comércio baseava-se em uma hipótese: que a Inglaterra seria o único grande centro industrial de um mundo agrícola. E o fato concreto é que essa hipótese tornou-se delírio puro. As condições da indústria moderna – força a vapor e maquinaria – podem ser estabelecidas em qualquer lugar onde haja combustível, especialmente carvão. E outros países, além da Inglaterra: França, Bélgica, Alemanha, América, e mesmo a Rússia, têm carvão. E as pessoas nesses países não vêem a vantagem de se transformarem em pobres fazendeiros irlandeses, meramente para a maior riqueza e glória dos capitalistas ingleses. Eles criaram, resolutamente, indústrias, não apenas para si mesmos, mas para o resto do mundo; e a conseqüência é que o monopólio industrial, desfrutado pela Inglaterra por aproximadamente um século, está irremediavelmente quebrado.

Mas quais serão as conseqüências? A produção capitalista não pode parar. Ele deve continuar crescendo e se expandindo, ou ela morre.Mesmo agora, a mera redução da participação majoritária da Inglaterra na oferta dos mercados mundiais significa estagnação, pobreza, excesso de capital aqui e excesso de trabalhadores desempregados acolá. O que acontecerá quando o aumento da produção anual se interromper completamente?

Aqui está o ponto vulnerável, o calcanhar de Aquiles, da produção capitalista. A sua própria base é a necessidade de expansão constante, e essa expansão constante torna-se agora impossível.Isso termina em um impasse. A cada ano uma questão torna-se mais presente para a Inglaterra: ou o país se despedaça ou a produção capitalista o faz. Qual dos dois será?

Friedrich Engels

 

3

Engels a August Bebel[4]

Em Berlim

Londres, 20-23 de janeiro de 1886

Caro Bebel,

Seis semanas atrás parecia haver indícios de que os negócios estavam melhorando por aqui. Agora tudo isso acabou, está terminado; a pobreza está pior do que nunca, da mesma forma o ânimo dos desesperançados e, além disso, o inverno está excepcionalmente severo. Este já é o oitavo ano em que a superprodução tem exercido pressão nos mercados e, ao invés de melhorar, a situação está piorando sem parar, e também não pode haver qualquer dúvida de que isso é essencialmente diferente do que costumava a ser. Desde o aparecimento de sérios rivais da Inglaterra no mercado mundial, a era das crises, no antigo sentido do termo, chegou ao fim.Se, de agudas, as crises se tornam crônicas sem, no entanto, perder nada de sua intensidade, o que deve acontecer? Está certo que haverá outro período de prosperidade, mesmo curto, depois que o vasto estoque de bens tenha se esgotado, mas eu estou curioso para ver o que virá disso tudo. De duas coisas, entretanto, nós podemos estar certos: nós entramos em um período que coloca uma ameaça muito maior à existência da velha forma de sociedade que o período de crises a cada dez anos; e, em segundo lugar, a prosperidade, se vier, afetará a Inglaterra em extensão muito menor que antes, quando ela sozinha estava acostumada a tirar a nata do mercado mundial. O dia em que isso for claramente compreendido neste país será o dia em que o movimento socialista começará aqui, a sério – e não antes.

Seu,

F.E.

 

4

Engels a Florence Kelley-Wischnewetzky [5]

Em Zurique

Londres, 3 de fevereiro de 1886

Minha querida senhora Wischnewetzky,

… Mas me impressiona que a atual depressão crônica que parece sem fim até agora, será significativa na América, tanto quanto na Inglaterra. A América irá destruir o monopólio industrial inglês – o que quer que tenha sobrado dele – mas a América não pode ela mesma suceder esse monopólio. E, a menos que um país tenha o monopólio dos mercados do mundo, ao menos nos ramos decisivos de comércio, as condições – relativamente favoráveis – que existiram aqui na Inglaterra de 1848 a 1870, não poderão ser reproduzidas em lugar nenhum, e mesmo na América as condições da classe trabalhadora deverão ser gradualmente rebaixadas mais e mais. Pois se houver três países (digamos Inglaterra, América e Alemanha) competindo em termos comparativamente iguais pela possessão do Weltmarkt [a], não há chances de ocorrer senão superprodução crônica, com cada um dos três sendo capaz de suprir toda a quantidade requerida. Essa é a razão pela qual eu estou acompanhando o desenvolvimento da crise atual com um interesse maior do que nunca e porque eu acredito que ela vai marcar uma época na história intelectual e política das classes trabalhadoras americanas e inglesas – exatamente as duas cujo concurso é absolutamente necessário, tanto quanto desejável.

Muito sinceramente seu,

F. Engels

[a] Mercado mundial.

 

5

Engels a Nikolai Danielson

Em São Petersburgo

Londres, 8 de fevereiro de 1886

Meu caro senhor,

Aqui a crise industrial está piorando ao invés de melhorar, e as pessoas começam cada vez mais a descobrir que o monopólio industrial da Inglaterra está chegando ao fim. E com a América, França, Alemanha como competidores no mercado mundial, e com altas tarifas excluindo os bens estrangeiros dos mercados dos outros países industriais ascendentes, isso se torna uma mera questão de cálculo. Se um grande país monopolista industrial produz uma crise a cada dez anos, o que produzirão quatro desses países? Aproximadamente uma crise a cada um quarto de década, o que quer dizer praticamente uma crise sem fim. Uns kann recht sein [b].

Muito fielmente seu,

P. W. Rosher [6]

[b] Isso pode ser útil para nós.

 

6

Engels a August Bebel [7]

Em Berlim

Londres, 15 de fevereiro de 1886

Caro Bebel,

Nesse meio tempo, o desemprego está crescendo firmemente. Como resultado do colapso do monopólio da Inglaterra no mercado mundial, um estado de crise tem persistido ininterruptamente desde 1878 e está se tornando pior ao invés de melhorar. A pobreza, particularmente no East End [c] de Londres, é estarrecedora. O inverno, que desde janeiro tem sido excepcionalmente severo, combinou-se com a abissal indiferença das classes proprietárias, provocando uma grande agitação entre a massa de desempregados.

Seu,

F.E.

[c] NT: East End é uma região de Londres que, a partir do final do século XIX, tornou-se conhecida por ser superpovoada, concentrando pessoas pobres e imigrantes. A referência ao East End tornou-se, na época, pejorativa, sinônimo de pobreza, superpopulação, doença e criminalidade

 

Notas

[1] As cartas de Engels escritas entre agosto e outubro de 1884 mostram o grande trabalho que ele dedicou à preparação de A Miséria da Filosofia, de Marx, para publicação em alemão (o livro foi escrito e publicado em francês em 1847 e não foi republicado de maneira integral durante a vida de Marx). Engels editou a tradução feita por Eduard Bernstein e Karl Kautsky e forneceu numerosas notas a ela.

A primeira edição alemã do livro de Marx foi publicada na segunda quinzena de janeiro de 1885 e, um pouco antes, no começo de janeiro, Engels publicou o prefácio no periódico Die Neue Zeit sob o título de “Marx e Rodbertus”. Ele também foi incluído na segunda edição alemã do livro, que foi publicada em 1892 com um prefácio especial escrito por Engels.

NT: Edição brasileira apresenta o prefácio à primeira edição alemã. Aproveitou-se para cotejar a presente tradução com a publicada. Ver MARX, Karl. A Miséria da Filosofia. Tradução de José Paulo Netto. São Paulo: Global, 1985, pp. 163-176, especialmente a p. 173.

 

[2] NT: esse parágrafo era uma nota de rodapé na publicação consultada. Optou-se por destacá-lo no próprio texto, em fonte menor, por sua importância para o tema que analisamos.

 

[3] Engels escreveu este artigo para o periódico The Commonweal; depois ele o traduziu para o alemão e o publicou em Die Neue Zeit (junho de 1885). Subseqüentemente, ele o incorporou ao Apêndice à edição americana de 1887 de A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra e, em 1892, aos prefácios da edição inglesa e da segunda edição alemã daquele trabalho.

NT: Recente edição brasileira reproduz o prefácio à edição alemã de 1892, que inclui o trecho aqui traduzido. Aproveitou-se para cotejar a presente tradução com a publicada. Ver ENGELS, Friedrich. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. Tradução de B. A. Schumann e edição de José Paulo Netto. São Paulo: Boitempo, 2008, pp. 345-359, especialmente a p. 355.

 

[4] Um fragmento desta carta foi publicado em inglês pela primeira vez no The Labour Monthly, Londres, 1933, vol. 15, nº 11, XI.

NT: trecho desta carta, em inglês, muito embora em tradução diferente da do volume impresso, está disponível em http://www.marxists.org/archive/marx/works/1886/letters/86_01_20.htm.

 

[5] Esta carta é a resposta de Engels à de Florence Kelley-Wischnewetzky, de 10 de janeiro de 1886, na qual ela pedia que ele enviasse para ela, despachado para os Estados Unidos por R. M. Foster, o manuscrito corrigido da tradução que ela fizera de A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra para o inglês.

NT: esta carta, em inglês, está disponível em http://www.marxists.org/archive/marx/works/1886/letters/86_02_03.htm.

 

[6] Pseudônimo de Engels em sua correspondência com Nikolai Danielson; Engels usava o nome do marido da sobrinha de sua esposa – Percy White Rosher.

 

[7] Em 12 de fevereiro de 1886, Bebel solicitou a Engels que o informasse sobre as atividades da Federação Social-Democrática e sobre os eventos em Londres, pois a imprensa reacionária alemã os estava usando como desculpa em favor da necessidade de prolongar a Lei Anti-Socialista. Bebel pretendia tomar parte na discussão sobre esse assunto no Reichstag.

Sobre a primeira publicação desta carta em inglês, ver a nota 1, acima.

NT: trecho desta carta, em inglês, muito embora em tradução diferente da do volume impresso, está disponível em http://www.marxists.org/archive/marx/works/1886/letters/86_02_15.htm.

 

* Federação Social-Democrática: organização socialista inglesa fundada em agosto de 1884 e baseada na Federação Democrática; uniu elementos socialistas distintos, principalmente da intelligentsia e parte dos trabalhadores politicamente ativos. O programa da Federação afirmava que toda a riqueza deveria pertencer ao trabalho – sua única fonte, defendia a socialização dos meios de produção, distribuição e troca, pela criação de uma sociedade de “emancipação completa do trabalho”. Esse foi o primeiro programa socialista da Inglaterra, que se baseou, nos seus aspectos principais, nas idéias de Marx. A liderança da Federação estava nas mãos de Henry Mayers Hyndman, que tinha tendência a usar métodos autoritários, e seus apoiadores, que negavam a necessidade de trabalhar nos sindicatos. Isso levou a organização ao isolamento das massas trabalhadoras. Em oposição às posições de Hyndman, um grupo de socialistas na Federação (Eleanor Marx-Aveiling, Edward Aveiling, Tom Mann, William Morris e outros) fez campanha pelo estabelecimento de ligações próximas com o movimento das massas trabalhadoras. As discordâncias na Federação sobre questões táticas e cooperação internacional levaram em dezembro de 1884 a uma divisão e fundação de uma organização independente, chamada Liga Socialista. Em 1885-86, as seções locais da Federação tomaram parte ativa no movimento de desempregados, apoiaram greves e lutaram pela jornada de trabalho de oito horas.

 

* Federação Democrática: associação de várias sociedades britânicas de trabalhadores e de democratas radicais, formada em 8 de junho de 1881 por um grupo de intelectuais radicais liderado por Hyndman. O programa desta Federação limitava-se a demandas democrático-burguesas como sufrágio de adultos, a nacionalização da terra e uma reforma parlamentar. Entretanto, na medida em que intelectuais socialistas (Ernest Belfort Bax, William Morris e outros) e trabalhadores avançados (Harry Quelch, John Elliot Burns) se filiaram, a liderança da Federação passou a adotar posições claramente mais socialistas.

A conferência desta Federação de junho de 1883 adotou manifesto escrito por Hyndman, estabelecendo seus princípios fundamentais. Ele foi, em seguida, publicado como panfleto separado intitulado Socialismo Explicado de Forma Simples, Manifesto Político e Social da Federação Democrática. Ele continha demanda por “nacionalização dos meios de produção e distribuição”. Em agosto de 1884, a Federação Democrática tornou-se a Federação Social-Democrática.

 

* Liga Socialista: formada em dezembro de 1884 por um grupo de socialistas ingleses que haviam deixado a Federação Social Democrática. Seus organizadores incluíam Eleanor Marx-Aveiling, Bax, Morris e outros. O Manifesto da Liga Socialista (publicado em The Commonweal, nº 1, fevereiro de 1885) proclamava que seus membros defendiam “os princípios do Socialismo Revolucionário Internacional” e “… defendiam uma mudança de base na sociedade … que destruiria as distinções de classe e de nacionalidade”. A Liga se colocou a tarefa de organizar um partido de trabalhadores nacional, aderir ao movimento internacional, apoiar os sindicatos e movimentos cooperativos. Nos seus anos iniciais, a Liga e seus dirigentes tomaram parte ativa nos movimentos de trabalhadores. Entretanto, em 1887, a liderança da Liga se dividiu em três facções (elementos anarquistas, os “parlamentaristas” e os “anti-parlamentaristas”); suas ligações com as lutas cotidianas dos trabalhadores ingleses foram se enfraquecendo gradualmente e houve crescimento de tendências sectárias. Em 1889-90, a Liga se dissolveu.

 

* Eventos em Londres: apoiadores de tarifas protecionistas, incluindo dirigentes de sindicatos conservadores (S. Peters, T. M. Kelly, W. Kenny e T. Lemon, que foram expulsos no Congresso de Sindicatos em Manchester, em 1882) organizaram uma manifestação na Praça Trafalgar em 8 de fevereiro de 1886. A Federação Social-Democrática organizou outra manifestação, de desempregados, em oposição à campanha conservadora pelas tarifas protecionistas. A essa manifestação juntaram-se elementos de lumpen-proletariado, que começaram a se comportar de maneira incontrolável e a roubar lojas. A polícia, em seqüência, prendeu Hyndman, Burns, Henry Hyde Champion e John Edward Williams, os líderes da Federação, sob acusação de fazerem “discursos para incitar”. Os julgamentos terminaram em 10 de abril com suas absolvições.

 

* Lei Anti-Socialista: A Lei Excepcional Contra os Socialistas, ou Lei Contra as Aspirações Perniciosas e Perigosas da Social-Democracia, foi proposta pelo governo Bismarck e apoiada pela maioria do Reichstag em 21 de outubro de 1878 para conter os movimentos de trabalhadores e socialistas. Essa lei tornou o Partido Social-Democrata da Alemanha ilegal, baniu todas as organizações do partido e das massas trabalhadoras e a imprensa dos trabalhadores e socialistas; com base nessa lei, publicações socialistas foram confiscadas e os social-democratas sujeitos a represálias. Entretanto, durante sua vigência, o Partido Social-Democrata, assistido por Marx e Engels, extirpou tanto seus elementos reformistas quanto anarquistas, conseguiu se fortalecer substancialmente e ampliar sua influência no povo pela combinação inteligente de métodos legais e ilegais de trabalho. Sob pressão do movimento das massas de trabalhadores, a Lei Anti-Socialista foi revogada em 1 de outubro de 1890.

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