Louis Althusser: Como Alguma Coisa de Substancial Pode Mudar no Partido? (Inédito, 1970), seguido de A Contradição Principal (capítulo do Livro sobre o Imperialismo. Inédito, 1973)

Apresentação e tradução, por Cem Flores

 

Devido à grande repercussão da tradução da “Advertência” do Livro sobre o Imperialismo, de Louis Althusser (http://cemflores.org/index.php/2018/08/26/louis-althusser-livro-sobre-o-imperialismo-inedito-1973-apresentacao-e-traducao-da-advertencia-por-cem-flores/), e aos pedidos de alguns camaradas, traduzimos a seguir dois outros trechos do livro Escritos sobre a História (1963-1986)[1], publicado recentemente com material inédito dos arquivos deixados por Althusser.

Os textos que apresentamos aos leitores, pela primeira vez em tradução para o português, são:

  1. Como Alguma Coisa de Substancial Pode Mudar no Partido?”, datado de 28 de abril de 1970, e definido pelo editor francês como um “pequeno texto profético”, cuja publicação no momento de sua redação “teria provavelmente resultado para o seu autor, que, àquela época, estava bem decidido a permanecer, sua expulsão do Partido Comunista Francês”, e
  2. A Contradição Principal”, capítulo do Livro sobre o Imperialismo (datado pelo editor francês de agosto de 1973) que, num ponto específico, serve de complemento ao primeiro texto.

É bastante conhecido o paradoxo político de Althusser: discordar da linha política reformista do PCF e optar por permanecer naquele partido, buscando mudá-lo a partir do seu interior. Em face desse obstáculo, colabora de forma meio encoberta com os grupos maoístas pós-1968, estimulando a crítica ao “marxismo” da URSS revisionista, porém sem assumir plenamente o papel de destaque político que lhe caberia naquela conjuntura.

Enquanto Althusser apenas publica seus primeiros textos dirigidos diretamente contra o PCF em 1977 e 1978[2], o primeiro texto a seguir traduzido data de 1970. Nele, Althusser analisa a virtual ausência de impacto de Maio de 1968 sobre o PCF, sua linha política, sua direção e seu domínio sobre o sindicalismo francês, por meio da CGT. Daí sua pergunta: que esperança então?.

Essa pergunta – e todo o texto – deixam bastante clara a plena consciência de Althusser quanto à posição política e de classe do PCF, um reformismo burguês. E, no entanto, ele permanece. Provavelmente por considerar o peso de massas e a representatividade operária e sindical do PCF, completamente ausentes nos “grupúsculos” que foram se formando à época. Mas, todos sabemos, na ausência de uma linha política justa, perdem-se os homens e as armas…

“Como Alguma Coisa…” apresenta a avaliação de Althusser de que uma mudança no PCF seria apenas possível por dentro do partido, mas a partir de um evento externo, de grandes proporções, até então não observadas. Ele vai mais além ao precisar que esse evento só poderia vir da URSS, fonte da orientação política do PCF, na forma de uma grande crise “econômico-política”, chegando a mencionar sua “decomposição”.

Olhando em retrospectiva, a partir de hoje, conhecidos os acontecimentos de 1989 e 1991, o editor francês usa a expressão “profética” para caracterizar o texto. O próprio Althusser, no entanto, rejeitaria essa negação da ciência. No seu próprio texto afirma: “Difícil de imaginar e de prever”; “A partir daí não podemos brincar de profeta”.

Trata-se, ao contrário, de praticar a própria essência do marxismo, a análise concreta de uma situação concreta, como disse Lênin. Sem ilusões, de forma objetiva, a partir do seu aspecto central: a luta de classes. O primeiro texto nos apresenta um indício: a crise na Tchecoslováquia, que abriu uma brecha e colocou o problema diretamente na direção do partido. Seu impacto, no entanto, foi curto e limitado. Althusser conclui que seria preciso algo mais grave…

“A Contradição Principal” nos permite um vislumbre de porquê Althusser acha que poderia ocorrer essa grave crise na URSS. Ainda em 1973, Althusser explicitamente fala do “fim” da guerra fria, devido à “política de ‘coexistência pacífica’, e depois de ‘cooperação’ (!) econômica”. Com mais detalhes:

Se, por exemplo, a URSS se abre ao novo Plano Marshall que ela de fato pediu (aos EUA e à RFA, assim como ao Japão)! Essa ‘abertura’ econômica não é apenas econômica. Ela tem efeitos políticos, induzindo a ‘política’ internacional e, portanto, também a ‘política’ interna dos partidos comunistas dos países imperialistas. Se a classe operária não conseguir quebrar esse ‘círculo’, ela pode esperar por muito tempo a ‘queda’, portanto o fim do imperialismo”.

Ou seja, na ausência de uma linha política revolucionária que possa derrotar o imperialismo, seria o socialismo o derrotado. Para retomar um aspecto presente no texto, entre uma infinidade de outros possíveis, a ausência dessa linha política revolucionária justa se expressa na forma com que os partidos comunistas sob influência da URSS apresentavam a contradição principal da conjuntura mundial: como uma oposição entre campos, o socialista e o imperialista. Althusser mostra que nessa definição, por um lado, as classes e sua luta desaparecem e, por outro, trata-se de uma contradição não antagônica, como a coexistência pacífica e a cooperação econômica não deixariam de lembrar.

Considerado esses fatos, no texto de 1970 Althusser antecipa uma cisão no PCF entre direita e esquerda. Observando os eventos transcorridos desde o final da URSS, em 1991, podemos afirmar que, por distintas maneiras em diversos partidos, houve uma divisão entre direita e esquerda. Citem-se como exemplos os casos dos PCs italiano, grego, brasileiro, etc.

“A Contradição Principal” termina com uma nota de possível esperança. “Aparentemente, nós estamos numa crise sem saída. Aparentemente. Mas essa não é a primeira vez”, lembrando a situação após a traição da II Internacional e a eclosão da I Guerra, em 1914. E, no entanto, apenas três anos depois, contra todas as posições de então, houve 1917.

Nossa situação atual, do ponto de vista do proletariado e dos comunistas, pode ser vista como tão ou mais difícil que a situação de 1914. O “marxismo” dos partidos revisionistas faliu, deixando amplo espaço para o predomínio da ideologia burguesa no seio do proletariado; na absoluta maioria dos países ou não existe a organização comunista revolucionária ou a mesma tem uma influência muito pequena nas massas trabalhadoras; como consequência, o movimento comunista internacional praticamente deixou de existir; a barbárie capitalista avança a passos acelerados na esteira da crise do capital e do agravamento das contradições interimperialistas. Como consequência, aumentam a exploração das classes dominadas, se fortalecem tendências fascistas, racistas e xenófobas nas classes dominantes e setores das camadas médias.

Desse cenário, uma única conclusão se impõe. A luta de classes do proletariado e a luta dos comunistas é hoje tão necessária quanto jamais. A retomada da teoria marxista para guiar essa luta é uma necessidade. A participação concreta dos comunistas, na luta ombro a ombro com as classes dominadas, é um imperativo da nossa atuação. Dessa forma, podemos avançar na luta de classes para barrar a ofensiva capitalista e construir a retomada da ofensiva proletária na luta de classes, em direção ao socialismo e ao comunismo.

 

Como Alguma Coisa de Substancial Pode Mudar no Partido?[3]

Louis Althusser

(1970)

 

A questão: como alguma coisa de substancial pode mudar no Partido?

A resposta dos diferentes agrupamentos clássicos ou dos originados de Maio: pelo movimento de massas, portanto pelo protesto revolucionário da base. Mas a questão: é preciso desembocar numa organização de uma vez para recolher os frutos do protesto das massas, e para desenvolver esse protesto! A resposta: fundemos um novo partido ou uma organização que desaparecerá, quando chegar a hora, no novo partido que ela terá contribuído para fundar. Essas organizações atuais são fundadas sobre bases teóricas ou trotskistas ou maoístas, ou pequeno-burguesas tradicionais com múltiplas variantes.

O resultado: o Partido continua a subsistir. Ele continua, sem ser verdadeiramente incomodado, sua política tradicional: os grupúsculos o debilitam, mas não ameaçam a sua segurança. Essa serenidade exprime, à sua maneira, alguma coisa de real.

A questão se torna: alguma coisa de substancial pode ser mudada no Partido a partir do interiordo Partido? Por uma tomada de consciência da base modificando a política do Partido? Por uma crise aberta no Partido, por um protesto da base, e provocando mudanças na cúpula?

Essa é, evidentemente, uma questão de avaliação, mas eu não creio, nas circunstâncias atuais, numa possibilidade dessa ordem. Basta ver como o Partido soube “digerir” os eventos de Maio, os integrar à sua linha tradicional, como em particular ele soube tratar o movimento estudantil, para ver que ele é bastante capaz de amortecermesmo um movimento de massa de grande amplitude, e de preservar a direção. A política atual, que consiste em colocar à frente a GCT e continuar a subsistir na sua sombra, essa divisão do trabalho hábil e eficaz prova que o Partido possui uma grande margem de manobra, na qual os dispositivos preventivos de ação o asseguram o máximo de segurança.

Se nada de substancial pode ser mudado no Partido em função da ação dos grupúsculos ou grupos opositores – nem por uma eventual contradição entre a base (do Partido ou mesmo as massas) e a direção do Partido – que esperança então?

Como uma mudança poderá jamais ocorrer?

Para encarar na sua própria realidade essa questão, deve-se partir ao mesmo tempo do que vem de ser dito (o que é excluído) e do que está suposto pelo que vem de ser dito: a consistência, a força do Partido, e seus recursos. Não mudaremos o Partido de fora: ele não pode ser mudado a não ser por dentro. Mas ao mesmo tempo, acabamos de ver que não foi possível mudar seu interior… Então, sem saída?

No entanto, resta uma saída. É que o Partido seja atingido (mudado) por dentro por um evento de fora, mas um evento tal que alcance seu interior, sua substância, sua linhae suas referências políticas.

Qual poderia ser esse evento? A resposta é simples: um evento que coloque muito seriamente em causa a linha política de referência do Partido, a saber a linha política e a existência da URSS. Por exemplo, uma crise muito grave na URSS, ou uma crise muito grave, irremediável, da política internacional-internacionalista da URSS (conflito com os EUA ou a China, etc.). Uma crise muito grave da linha política da URSS: talvez uma crise econômico-política muito grave na URSS levando a consequências da ordem de uma decomposição nacionalista, etc. Difícil de imaginar e de prever.

Nós temos um indicador: a crise checa incontestavelmente, por um tempo, perturbou seriamente a linha e a direção do Partido. Apenas ela pode produzir esse resultado que Maio não produziu: jogar o problema na direção do Partido. Essa brecha foi fechada. Podemos imaginar que eventos mais graves possam ter consequências de maior envergadura no Partido francês. Mais se sua direção não for dividida pelo evento, por um evento capaz de dividi-la, ela saberá sair desse apuro.

Um evento muito grave colocando em questão as referências e os princípios de sua linha política poderá abrir uma crise política grave graças à qual uma oposição poderá se exprimir dentro do próprio Partido, e uma oposição à qual não conseguiríamos vencer com os métodos que serviram para Maio e o movimento estudantil.

A partir daí não podemos brincar de profeta. Mas podemos imaginar que as massas externas ao Partido teriam, num prazo mais ou menos longo, algo a dizer, incluindo certos elementos organizados nos grupos opositores. A grande questão será então de saber se a crise assim aberta encontrará uma saída de direita ou uma saída de esquerda. É provável que a unidade do Partido não sobreviva a uma tal crise, e que a direita e a esquerda se reagrupem em organizações opostas.

28 de abril de 1970

 

Livro sobre o imperialismo

Louis Althusser

(extratos)

(1973)

 

[A Contradição Principal][4]

  1. A contradição principal

É preciso refutar a tese pela qual começam as Resoluções dos 80[5]e outros: a saber, a contradição entre “o campo imperialista” e “o campo socialista”.

Essa contradição não é antagônica, não é nem mesmo, depois do fim da guerra fria (e as razões desse fim precisam ser revistas de muito perto), não é apenasa força do “campo socialista” e dos povos lutando pela sua libertação + a classe operária internacional que fizeram chegar ao fim a “guerra fria”, mas também razões imperialistas, próprias ao imperialismo, às suas perspectivas de fincar pé em certos países socialistas financeiramente – o novo Plano Marshall, dessa vez para o uso direto de certos países socialistas – economicamente (efeito dos empréstimos) e politicamente, incluindo a utilização dos efeitos da cisão do movimento comunista internacional, e seu agravamento. Nessas novas condições, os EUA não têm mais necessidade de uma política de “reversão” militar. A política do imperialismo financeiro + as contradições entre a URSS e a China tornam seus negócios bem melhores, abrindo a via para uma política de “coexistência pacífica”, e depois de “cooperação” (!) econômica.

A contradição principal é: a contradição antagônica existente entre a classe capitalista em escala mundial e a a classe operária em escala mundial + os aliados da classe operária mundial, a saber os povos lutando pela sua libertação.

Essa contradição é antagônica. Ela não pode encontrar uma solução (como se diz) a não ser pela supressão de um dos seus termos: a classe capitalista dos países imperialistas – pelo fim do imperialismo.

Naturalmente, trata-se de uma contradição antagônica – mas que pode ser “tratada” de maneira não antagonista, se a luta de classes da classe operária for oportunista. Se, por exemplo, a URSS se abre ao novo Plano Marshall que ela de fato pediu (aos EUA e à RFA, assim como ao Japão)! Essa “abertura” econômica não é apenas econômica. Ela tem efeitos políticos, induzindo a “política” internacional e, portanto, também a “política” interna dos partidos comunistas dos países imperialistas. Se a classe operária não conseguir quebrar esse “círculo”, ela pode esperar por muito tempo a “queda”, portanto o fim do imperialismo. Mas mesmo nesse caso, pode-se prever que os fatos da crise (monetária, depois em breve econômica e finalmente política) educarão, na sua rude escola, os militantes operários, e que eles entrarão na dança com um ritmo totalmente diferente que aquele que as direções os impõem.

  1. É à luz dessa contradição principal que devemos considerar a crise atual do movimento comunista internacional. Aparentemente, nós estamos numa crise sem saída. Aparentemente. Mas essa não é a primeira vez. Em 1914, quantos militantes havia na Europa que acreditavam que três anos mais tarde, uma revolução poderia explodir em algum lugar do mundo e triunfar? Nós poderíamos, depois da “traição da II Internacional”, da política “social-chauvinista” de todos os dirigentes dos partidos socialistas e socialdemocratas, conta-los aproximadamente nos dedos de duas mãos.

Lênin estava praticamente sozinho, com alguns amigos, em 1914. E em 1917, no momento das Teses de Abril, ele ficará sozinho diante de todos os dirigentes do PC(b) que foram recebê-lo na estação de São Petersburgo – e, no entanto, a revolução eclodiu na Rússia!

 

Notas

[1]ALTHUSSER, Louis. Écrits sur l’Histoire (1963-1986).Paris: Presses Universitaires de France (PUF), março de 2018, 281 pg.

[2]ALTHUSSER, Louis. 22éme Congrés. Paris: François Maspero, 1977, reunindo suas conferências públicas na Sorbonne em dezembro de 1976; e Ce Que Ni Peut Plus Durer Dans le Parti Communiste. Paris: François Maspero, 1978, recolhendo material publicado por Althusser no jornal francês Le Monde em abril e maio daquele ano.

[3]Nota do Cem Flores: Nesta tradução alteramos o título que foi atribuído pelos editores do livro a esse texto inédito de Althusser. No livro Écrits sur l’Histoire (1963-1986), pg. 87, o título não contém as palavras “no Partido”. Tendo em vista a primeira frase do texto, que é a própria pergunta a partir da qual Althusser constrói o texto (e que foi traduzida literalmente por nós), a supressão por parte dos editores se torna incompreensível.

[4]Nota do Editor: Existem três rascunhos deste texto nos arquivos de Althusser. O primeiro tem o mesmo título – “Rumo à crise final do I[mperialismo]” – que o da introdução (não retomada aqui); é provável que ele estivesse destinado a ser integrado a ela. Uma outra versão, de três frases, está sem título. Uma terceira se acha integrada num capítulo que tem o título de “Sobre o CME” Apenas a primeira frase do texto aqui publicado foi tirada da versão sem título, o restante estando baseado na versão intitulada “Ruma à crise…”.

[5]Nota do Editor: “Declaração dos partidos comunistas e operários”, L’Humanité, 6 de dezembro de 1960, p. 5-6, p. 9-10. Largos extratos dessa “Declaração” foram publicados em Le Mondede 7 de dezembro de 1960, p. 6-7.

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