De Hunan à Paris: relendo um clássico de Mao

“Faço isso pelo futuro do meu filho. Não posso permitir que ele viva em um país em que outros se enriquecem às nossas custas” Denis, 30, um dos coletes amarelos*.

É sabido que Paris, nas últimas semanas, tem vivido uma histórica onda de protestos e revoltas. O estopim foi o reajuste do imposto sobre combustíveis, que elevaram seus preços em todo a França. As convocações se iniciaram e têm se sustentado nas redes sociais, e não através das clássicas centrais sindicais e partidos reformistas franceses. E rapidamente as ruas deram lugar a diversas pautas, canalizando as vozes reprimidas das classes dominadas, em uma explosão de descontentamento que tem abalado o governo vigente.

No último sábado, mesmo após o recuo do governo de Macron[i] em relação ao aumento, centenas de milhares de pessoas foram às ruas, em mais um dia de batalha campal contra as forças de repressão do Estado.

A repressão estatal e os milhares de feridos e presos não têm conseguido arrefecer a onda, que já se encontra espalhada geográfica e socialmente. Outras cidades francesas e até da Bélgica e outros países europeus registraram manifestações dos “coletes amarelos” e seus aliados e apoiadores, como os estudantes de centenas de escolas.

Já vimos e vivemos situações semelhantes desde o estourar da crise imperialista de 2008 e a posterior ofensiva burguesa que se desencadeou sobre as classes dominadas. Aqui no Brasil, podemos lembrar de 2013 e da recente greve dos caminhoneiros. Revoltas mais ou menos espontâneas, com pautas que vão se ampliando; longe da “esquerda” institucionalizada; estigmatizadas como “criminosas”, mas apoiadas pela maioria da população; com intenso uso das redes sociais; com força suficiente para fazerem governantes recuarem em primeiro momento, dentre outras características análogas…

Essa configuração de “revolta” diz respeito às condições econômicas, políticas e ideológicas que são transversais e comuns às classes exploradas de diversos países que integram o sistema imperialista atual. Condições que têm deteriorado, já há alguns anos, a vida das massas, e devastado as expectativas das novas gerações. Basta ver a persistência do desemprego e do subemprego, os salários estagnados, a piora dos serviços públicos etc.

Ora, esses complexos eventos da luta de classes são, de forma recorrente, acusados por vários como movimentos de direita, reacionários. Ou, no mínimo, irresponsáveis, por abrir espaço para a direita crescer. Exatamente por não estarem ligados aos que autodefinem como “esquerda” (sic!). Sendo que essa mesma “esquerda”, em vários países, é a principal gerente da ofensiva burguesa da qual falamos, e, por isso mesmo, alvo da rebelião popular.

Mas a análise idealista e oportunista também vai para o outro extremo: para outros, tais revoltas são já situações pré-revolucionárias, ou até mesmo revolucionárias. Não necessitando debater os limites das manifestações nem fomentar sua organização de forma profunda e duradoura.

Visando contribuir para o debate, e para uma análise mais científica que subsidie a ação política, trazemos mais uma clássica intervenção do dirigente comunista Mao Tse-Tung. Dessa vez, o Relatório Sobre uma Investigação Feita em Hunan a Respeito do Movimento Camponês, de 1927. A nosso ver, o texto tem várias lições importantes sobre como devemos interpretar e nos portar diante de revoltas mais ou menos espontâneas das massas.

Em primeiro lugar, gostaríamos de destacar a seriedade e a profundidade com que Mao trata as manifestações de sua época. Estas podem e devem ser tomadas como “objeto de pesquisa” pelos militantes, que, mergulhados na luta e buscando aprimorá-la, precisam coletar informações, refletir, debater e buscar aprender ao máximo com qualquer ação relevante das classes dominadas no terreno da luta de classes. Essa postura diverge completamente da arrogância de muitos analistas e “militantes” que, com concepções apriorísticas e fora das lutas concretas, não buscam acompanhar o movimento e a complexidade da realidade e assim acabam por justificar superficialmente sua oposição ou ceticismo diante um evento da luta de classes.

Em nosso caso, o texto nos alerta sobre a necessidade de estudar e aprender com os coletes amarelos, ligar a luta deles com recentes enfrentamentos nos quais estamos inseridos, muito mais do que definir em qual sigla do sistema político burguês a revolta se insere.

Ora, se as classes dominadas são uma força gigantesca e diversa que participa do motor da história, a luta de classes, não é de se esperar que suas ações ocorram de forma simples, muito menos de forma ordeira, previsível, ou “pacífica”. Até porque, se trata de uma resposta a imensas e constantes explorações e opressões, acumuladas por gerações – onde os estopins são muitas vezes apenas a gota d’água. Essa é outra lição fundamental do texto.

Todo levante das classes dominadas e suas organizações se constituirão de uma gama de posições ideológicas e políticas mescladas, expressas de forma mais ou menos violentas. Assim, Mao, que tinha como objetivo unificar e reforçar cada vez mais tal força na luta de classes, lança um questionamento muito pertinente: “Todos os partidos revolucionários e todos os camaradas revolucionários serão postos à prova pelos camponeses, sendo aceites ou rejeitados segundo a escolha que tiverem feito. Há três alternativas: marchar à frente dos camponeses e dirigi-los? Ficar atrás deles, gesticulando e criticando? Erguer-se diante deles para combatê-los? Cada chinês está livre para escolher dentre essas três alternativas, e os acontecimentos forçarão toda a gente a fazer rapidamente a escolha.

Questionamento esse que também podemos repetir no contexto atual.

Por fim, ao longo do texto, vemos uma crítica certeira aos que se diziam, à época, revolucionários, mas que viam com estranheza o movimento camponês, seus supostos excessos e “lados negativos”. Resumindo, uma crítica aos que falam “diariamente em ‘despertar as massas populares'” mas que morrem “de medo quando estas se levantam“. Mao consegue esmiuçar as razões pelas quais as revoltas acontecem como aconteceram, as contradições no seio do povo que devem ser tratadas, a quantidade de ensinamentos que trouxeram, dentre outras coisas invisíveis para olhos que estão sob a ideologia dominante, mesmo à “esquerda”.

O comunista chinês faz isso porque pretende mergulhar e disputar as lutas nas quais as classes dominadas são partícipes. Ou seja, desenvolver a luta de classes, trabalhar a todo instante para a vitória do proletariado — essa tarefa ainda candente. Em vez de se afastar, criticar ou combater, de fora, os camponeses e suas superstições, por exemplo, decide e propõe, a partir de dentro, da convivência e luta comum, efetivar pacientemente o trabalho de convencimento, pois “os ídolos foram criados pelos camponeses, e serão os próprios camponeses quem hão de pô-los em um canto, no momento devido“.

E na experiência chinesa, foi através dessa linha política e desses princípios que o partido comunista e a revolução se constituíram e se tornaram realidade. Que saibamos, quase um século depois, aprender e aprofundar as rebeliões que estão acontecendo e que continuarão a acontecer.

 

[i]Que, no dia 10/12/2018, recuou mais uma vez, aumentando o salário mínimo, cortando taxa de aposentadoria dentre outras medidas que beneficiam trabalhadores. Ver: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/12/macron-aumenta-salario-minimo-e-corta-taxa-de-aposentadorias-apos-protestos.shtml

Relatório Sobre uma Investigação Feita no Hunan a Respeito do Movimento Camponês[*]

 ‍

Mao Tsetung

Março de 1927

 ‍

A Gravidade da Questão Camponesa

Durante a minha recente viagem pelo Hunan [2] procedi a uma investigação directa a respeito da situação em cinco distritos: Siantan, Siansiam, Henxan, Lilim e Tchancha. Em trinta e dois dias, desde 4 de Janeiro a 5 de Fevereiro, tanto nas aldeias como nas sedes de distrito, convidei, para reuniões de informação, camponeses experimentados e camaradas em actividade no movimento camponês, escutei atentamente o que me comunicaram e recolhi um vasto material. Muitos dos como e porquê do movimento camponês são “exactamente o contrário do que ouvi à classe dos nobres em Hancou e Tchancha. Vi e ouvi muita coisa estranha, coisas de que anteriormente nunca havia tido conhecimento. Penso que o mesmo acontece em muitas outras regiões. É preciso eliminar rapidamente todos os ditos contrários ao movimento camponês. Todas as medidas erradas que as autoridades revolucionárias tomaram com relação ao movimento camponês devem ser rapidamente corrigidas. Só assim se poderá favorecer o futuro da revolução. Com efeito, a expansão actual do movimento camponês constitui um acontecimento colossal. Em muito pouco tempo, nas províncias do Centro, Sul e Norte da China, várias centenas de milhões de camponeses hão-de levantar-se como um poderoso furacão, uma tempestade, uma força tão vertiginosa e violenta que nenhum poder, por maior que seja, poderá deter. Eles quebrarão todas as cadeias que os acorrentam e lançar-se-ão no caminho da libertacão. Sepultarão todos os imperialistas, caudilhos militares, funcionários corrompidos, déspotas locais e maus nobres. Todos os partidos revolucionários e todos os camaradas revolucionários serão postos à prova pelos camponeses, sendo aceites ou rejeitados segundo a escolha que tiverem feito. Há três alternativas: marchar à frente dos camponeses e dirigi-los? Ficar atrás deles, gesticulando e criticando? Erguer-se diante deles para combatê-los? Cada chinês está livre para escolher dentre essas três alternativas, e os acontecimentos forçarão toda a gente a fazer rapidamente a escolha.

Organizam-se

Em termos globais, o movimento camponês no Hunan pode ser dividido em dois períodos, isto relativamente aos distritos do centro e do sul da província, onde tal movimento já está desenvolvido. O primeiro, de Janeiro a Setembro do ano passado, foi o período de organização. Nesse período, Janeiro a Junho foi a época de actividade subterrânea, e Julho a Setembro, quando o Exército Revolucionário repelia Tchao Hen-ti [3], a época de actividade às claras. Durante o primeiro período, o volume de membros das associações camponesas não excedeu a ordem dos trezentos mil a quatrocentos mil, as massas sob imediata direcção destas subiam a pouco mais de um milhão, não havia praticamente luta nas regiões rurais e, como consequência, registaram-se bem poucas críticas às associações nos diversos sectores do país. Como os membros das associações camponesas podiam ser utilizados como guias, batedores ou carregadores, em benefício do Exército da Expedição do Norte, houve até oficiais que se exprimiram em termos favoráveis a elas. O segundo período, de Outubro passado a Janeiro deste ano, foi um período de acção revolucionária. O número de membros das associações saltou para dois milhões e as massas sob direcção imediata destas aumentaram para dez milhões. Como, em geral, os camponeses inscrevem apenas um nome para cada família que ingressa nas associações camponesas, uma lista de dois milhões de membros representa uma massa incorporada de dez milhões. Quase metade dos camponeses de Hunan está actualmente organizada. Nos distritos como Siantan, Siansiam, Liuiam, Tchan-cha, Lilim, Ninsiam, Pinquiam, Sian-im, Henxan, Hen-iam, Lei-iam, Tsencien e An-hua, quase todos os camponeses entraram para as associações camponesas, submeteram-se à respectiva direcção. Foi na base dessa organização extensiva que os camponeses passaram à acção, estalando uma grande revolução no campo num espaço de quatro meses, uma revolução que não tem paralelo na História.

Abaixo os Déspotas Locais e os Maus Nobres! Todo o Poder às Associações Camponesas!

Para os camponeses, os alvos principais de ataque são os déspotas locais, os maus nobres e os senhores de terras sem lei, mas também golpeiam de passagem a ideologia e o sistema patriarcais, os funcionários corrompidos das cidades e os maus costumes existentes nas regiões rurais. Em matéria de força, o ataque é tempestuoso; os que a ele se submetem sobrevivem, e os que lhe resistem morrem. Como consequência disso, os privilégios milenários de que gozavam os senhores de terras feudais estão a ser reduzidos a nada. Os mais pequenos sinais de dignidade e prestígio forjados pelos senhores de terras vão sendo varridos para o lixo. Com o desmoronamento do poder dos senhores de terras, as associações camponesas passaram a ser os únicos órgãos de autoridade, e a popular palavra de ordem de “todo o poder às associações camponesas” converteu-se numa realidade. Mesmo as insignificâncias, por exemplo as disputas entre sogros, são levadas às associações camponesas. Nada pode decidir-se sem a presença de alguém que pertença às associações camponesas. São estas quem regula efectivamente todos os assuntos rurais e, tal como se diz, “tudo quanto afirmam cumprem”. Mesmo os que não pertencem às associações vêem-se obrigados a dizer bem delas; não há quem possa dizer mal delas. Os déspotas locais, os maus nobres e os senhores de terras sem lei foram privados do menor direito à palavra, e nenhum ousa sequer balbuciar a palavra “não”. Frente ao poderio das associações camponesas, os déspotas locais e os maus nobres de primeira categoria fugiram para Xangai, os de segunda para Hancou, os de terceira para Tchancha e os de quarta para as sedes de distrito, enquanto que os da quinta e demais categorias capitularam frente às associações camponesas, nas aldeias.

— “Aqui estão dez yuan. Por favor, deixem-me entrar para a associação camponesa.”, dizem os menos importantes dentre os maus nobres.

— “Fora! Ninguém quer o vosso dinheiro fedorento!”, respondem os camponeses.

Muitos senhores de terras médios e pequenos, muitos camponeses ricos, e mesmo camponeses médios, que anteriormente se opunham às associações camponesas, procuram agora em vão conseguir uma admissão. Nas visitas às várias localidades encontrei-me muitas vezes com gente dessa, que me pedia: — “O senhor, que é membro de comité, vindo da capital de província, por favor, seja meu patrono!”

Durante a dinastia Tsim, no censo realizado pelas autoridades locais havia um registo regular e um “outro” registo, sendo o primeiro para as pessoas honestas e o último para os bandidos e demais elementos nocivos. Agora, em certas localidades, os camponeses servem-se disso para ameaçar os que antes se opunham às associações. Eles dizem-lhes: “Vamos inscrever-vos os nomes no ‘outro’ registo!”
Com medo de serem lançados no “outro” registo, tais indivíduos tentam todos os meios para conseguir a admissão nas associações camponesas, e não se tranquilizam enquanto não vêem o seu nome inscrito nos respectivos registos. Acontece, porém, com frequência, que as associações lhes impedem em absoluto a admissão, pelo que passam então a viver num estado de pavor permanente; com as portas das associações fechadas, ficam como quem não tem eira nem beira ou, como se diz no campo, “gente à parte”. Numa palavra, aquilo que há uns quatro meses era desprezado como uma “quadrilha de camponeses”, passou agora a ser visto como a mais honrosa das instituições. Aqueles que antes se prostravam frente ao poder dos nobres, rastejam agora ante o poder dos camponeses. Seja quem for, todos reconhecem que os mundos, de antes e depois de Outubro passado, são mundos diferentes.

“Muito Mau” e “Muito Bom”

A revolta dos camponeses nas regiões rurais desfez os lindos sonhos dos nobres. Quando as novas do campo chegaram à cidade, causaram uma imediata agitação entre os nobres. Assim que cheguei a Tchancha, encontrei-me com toda a espécie de gente e ouvi muitas histórias. Desde a camada média da sociedade à ala direita do Kuomintang, não havia uma só pessoa que não resumisse tudo com a frase: “muito mau”. Sob o choque das opiniões dos que diziam “muito mau”, opiniões que então reinavam na cidade, mesmo os mais revolucionários ficavam abatidos ao idealizarem, de olhos fechados, o que se estava passando no campo, sendo incapazes de negar que fosse efectivamente “mau”. Os mais progressistas diziam: “Sim, é mau, mas trata-se de algo inevitável numa revolução.” Em suma, ninguém era capaz de negar de todo a expressão “mau”. Mas, como já se disse, a realidade é que as grandes massas camponesas se levantaram para cumprir a sua missão histórica, as forças da democracia levantaram-se para derrubar as forças do feudalismo no campo. Desde há milénios que a classe feudal-patriarcal dos déspotas locais, maus nobres e senhores de terras sem lei constitui a base da autocracia, sendo sobre ela que se apoiam os imperialistas, os caudilhos militares e os funcionários corrompidos. Derrubar essas forças feudais constitui o verdadeiro objectivo da revolução nacional. Em poucos meses, os camponeses realizaram aquilo que o Dr. Sun Yat-sen queria mas não pôde realizar durante os quarenta anos que devotou à revolução nacional. Trata-se dum feito que nunca tinha sido realizado até então, nem nos quarenta anos nem ao longo dos milénios. É, portanto, muito bom. De modo nenhum é “mau”. Será tudo menos “muito mau”. Como é evidente, “muito mau” é a teoria que defende os interesses dos senhores de terras e combate o levantamento dos camponeses. Sem dúvida alguma, é uma teoria da classe dos senhores de terras, para preservar a velha ordem feudal e impedir o estabelecimento da nova ordem democrática; está claro que se trata duma teoria contra-revolucionária. Nenhum camarada revolucionário deve fazer eco a tal tolice. Quando, com concepção revolucionária firmemente estabelecida, se vai às aldeias e olha em redor, é infalível que se sente uma alegria nunca antes experimentada. Milhares e milhares de escravos — os camponeses — derrubando o inimigo que lhes chupava o sangue. O que fazem os camponeses está absolutamente certo, é muito bom! “Muito bom” é a teoria dos camponeses e de todos os outros revolucionários. Cada camarada revolucionário precisa de saber que a revolução nacional exige uma grande mudança no campo. A Revolução de 1911 [4] não conseguiu realizar tal mudança, o que foi a causa do seu fracasso. Essa mudança está a registar-se agora, o que constitui um factor importante para a realização integral da revolução. Todos os camaradas revolucionários devem apoiá-la, pois, de contrário, estarão tomando a atitude da contra-revolução.

A Questão dos “Excessos”

Outros há que dizem: “Sim, as associações camponesas são necessárias, mas estão a cometer realmente muitos excessos”. É a opinião dos centristas. Mas qual é, afinal, a situação real? É verdade que, em certo sentido, no interior do país os camponeses agem um pouco “sem regra”. Convertidas em autoridade suprema, as associações camponesas não permitem uma palavra aos senhores de terras, abatem-lhes o prestígio, o que é o mesmo que atirá-los ao chão e pôr-lhes um pé em cima. Os camponeses ameaçam (“vamos inscrever-vos os nomes no ‘outro’ registo”), aplicam multas aos déspotas locais e aos maus nobres, exigem-lhes contribuições e desmantelam-lhes os palanquins. As massas irrompem pelas casas dos déspotas locais e maus nobres opostos às associações camponesas, abatem-lhes os porcos e tomam-lhes o arroz; inclusivamente chegam a deitar-se uns minutos nas camas luxuosas reservadas às senhoritas e às jovens senhoras das mansões dos déspotas locais e maus nobres. Frente às provocações, os camponeses procedem a detenções, coroam os detidos com altos carapuços de papel e levam-nos em desfile pelas aldeias, dizendo: “Mau nobre, agora já ficas a saber quem somos nós!”. Fazendo o que bem lhes apetece, revolvendo tudo, os camponeses instauraram uma espécie de terror nas zonas rurais. É isso que alguns definem como “excessos”, como “entortar no acto de endireitar”, como “abusos”. Aparentemente, todos esses ditos são razoáveis, mas, na realidade, estão igualmente errados. Em primeiro lugar, foram os déspotas locais, os maus nobres e os senhores de terras sem lei quem forçou os camponeses a agir assim. Geração após geração, eles vinham usando do seu poder para tiranizar os camponeses e mantê-los de baixo da bota; essa a razão por que estes se lhes opõem agora com tanta violência. Sem excepção, as revoltas mais violentas e as desordens mais graves têm ocorrido nos lugares onde os déspotas locais, os maus nobres e os senhores de terras sem lei cometeram as piores violações. Os camponeses vêem claro, sabem quem é mau e quem não é, quem é o pior e quem não é assim tão perverso, quem merece castigo severo e quem merece certa clemência, sabem fazer boas contas e é muito raro que as penas excedam os crimes. Em segundo lugar, uma revolução não é o convite para um jantar, a composição duma obra literária, a pintura dum quadro ou a confecção dum bordado; ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. Uma revolução é uma insurreição, é um acto de violência pelo qual uma classe derruba outra. A revolução no campo é a revolução por meio da qual a classe camponesa derruba o poder da classe feudal dos senhores de terras. Sem empregar um máximo de força, os camponeses não podem liquidar a autoridade dos senhores de terras, autoridade milenária e profundamente enraizada. As regiões rurais necessitam duma enorme onda revolucionária, já que só isso pode despertar o povo por milhões e convertê-lo numa força poderosa. Todos os “excessos” que mencionámos atrás são um efeito da força despertada entre os camponeses pela enorme onda revolucionária que se desenrola no campo. Era absolutamente necessário que tudo isso se desse no segundo período do movimento camponês (no período da acção revolucionária). Em tal período, impunha-se estabelecer a autoridade absoluta dos camponeses. Era preciso proibir a crítica malévola às associações camponesas. Impunha-se liquidar toda a autoridade dos nobres, atirá-los ao chão e pôr-lhes, inclusivamente, um pé em cima. Há um significado revolucionário em todos os comportamentos, “excessos”, desse período. Para falar franco, é necessário, durante um breve período, instaurar o terror em todas as regiões rurais, pois doutro modo será impossível liquidar as actividades dos contra-revolucionários no campo e derrubar a autoridade dos nobres. Endireitar implica entortar, sem entortar não é possível endireitar’ [5]. Os ditos dos que criticam os “excessos” são, à primeira vista, diferentes do “muito mau” a que nos referimos mais atrás, mas, na essência, partem todos dum mesmo ponto, são a teoria dos senhores de terras, uma teoria que protege os interesses das classes privilegiadas. Como e«sa teoria impede a expansão do movimento camponês, como nas suas consequências sabota a revolução, não podemos deixar de opor-nos firmemente a ela.

“Movimeto de Pés-descalços”

A ala direita do Kuomintang diz:

“O movimento camponês é um movimento de pés-descalços, de camponeses preguiçosos”.

É uma opinião muito corrente em Tchancha. No campo, entre os nobres, ouvi dizer o seguinte:

“Está bem que se criem associações camponesas, mas a gente que nelas actua não presta. É preciso substituí-la!”.

Essa opinião não difere do que dizem os direitistas. Para as duas opiniões, está bem que exista um movimento camponês (o movimento já existe, ninguém ousa dizer outra coisa), só a gente que nele participa é que não presta; as duas expressam ódio, particularmente com relação aos homens das associações camponesas de base, a quem chamam de “pés-descalços”. Resumindo, aqueles que os nobres tinham desprezado e lançado para o pântano, os que não tinham lugar na sociedade, os que não tinham direito a falar, levantam agora bruscamente a cabeça. E não é apenas um levantar de cabeça, pois estes assenhorearam-se também do próprio poder. Actualmente, eles são os donos das associações camponesas de circunscrição (escalões mais baixos das associações camponesas), associações que, nas suas mãos, já se transformaram em algo que mete medo. Levantaram a mão rústica e calosa de trabalho e deixaram-na cair sobre as cabeças dos nobres. Amarram com cordas os maus nobres, coroam-nos com altos carapuços de papel e levam-nos em desfile pelas aldeias (no Siantan e em Siansiam chamam a isso “parada pelo tuan” e, em Lilim, “parada pelo Ion”). Não se passa um dia sem que atirem duras e impiedosas palavras de denúncia às orelhas dos nobres. Eles dão ordens e dirigem tudo. Os que de costume estavam no lugar mais baixo encontram-se agora nos lugares mais altos, o que se diz ser uma anormalidade.

Vanguarda da Revolução

Duas afirmações opostas sobre uma mesma coisa ou pessoa são um resultado de dois pontos de vista opostos sobre essa coisa ou essa pessoa. “Muito mau” e “muito bom”, “pés-descalços” e “vanguarda da revolução”, são um bom exemplo disso.

Ficou dito atrás que os camponeses cumpriram uma tarefa revolucionária que estava há muitos anos por cumprir e realizaram um importante trabalho para a revolução nacional. Mas poderá porventura dizer-se que toda essa enorme tarefa revolucionária, todo esse importante trabalho revolucionário, foi feito pela totalidade dos camponeses? Não. Há três ordens de camponeses: os ricos, os médios e os pobres. As três vivem em condições diferentes, tendo por isso diferentes pontos de vista sobre a revolução. No primeiro período, o que atraía os camponeses ricos era o que se dizia a propósito da esmagadora derrota sofrida pelo Exército da Expedição do Norte, em Quiansi, sobre o facto de Tchiang Kai-chek ter sido ferido numa perna [6] e regressado em avião para Cuantum [7], e ainda sobre a reconquista de Iuédjou, por Vu Pei-fu [8]. Dizia-se que de certeza as associações camponesas não poderiam manter-se por muito tempo nem os Três Princípios do Povo. [9] prevalecer, visto tratar-se de algo sobre que nunca se ouvira falar anteriormente. Se um responsável duma associação camponesa de circunscrição (geralmente um “pé-descalço”) se dirigisse, de registo na mão, à casa dum camponês rico e dissesse: “Convidamo-lo a ingressar nas associações camponesas”, que responderia esse camponês rico? Se não fosse muito hostil, diria: “Há dezenas de anos que moro aqui e lavro as minhas terras; nunca ouvi falar de associações camponesas e, no entanto, sigo vivendo. Aconselho-os a não se meterem nisso.” Mas se se tratasse dum camponês rico francamente hostil diria: “Associação camponesa? Uma associação onde todos acabarão com a cabeça cortada? Não arranjem complicações aos outros!”. A surpresa, porém, foi que as associações camponesas criaram-se há vários meses e tiveram até a audácia de tomar posição contra os nobres. Nos arrabaldes, os nobres que se recusaram a entregar os cachimbos de ópio foram detidos pelas associações e levados em desfile através das aldeias. Nas sedes de distrito, aliás, procedeu-se inclusivamente à execução de alguns dos grandes nobres, como foi o caso de Ien Jum-tsiu, em Siantan, e Iam Tche-tse, em Ninsiam. No aniversário da Revolução de Outubro, por ocasião do mítin anti-britânico e durante as grandes celebrações da vitória da Expedição do Norte, dezenas de milhares de camponeses, em todas as circunscrições, empunharam bandeiras grandes e pequenas, muniram-se de varapaus e enxadas e, em imponentes desfiles, manifestaram em massa. Aí os camponeses ricos começaram a ficar perplexos e alarmados. No decorrer das grandiosas celebrações da vitória da Expedição do Norte, chegou-lhes a notícia de que Quiouquiam tinha sido ocupado, Tchiang Kai-chek não sofrera qualquer ferimento nas pernas e Vu Pei-fu tinha, enfim, sido derrotado. Mais do que isso, eles puderam ler palavras de ordem tais como “Vivam os Três Princípios do Povo!”, “Vivam as associações camponesas!” e “Vivam os camponeses!”, escritas com toda a clareza em “cartazes vermelhos e verdes”. “Vivam os camponeses! Acaso deverá olhar-se agora para esta gente como se se tratasse imperadores?”, espantavam-se os camponeses ricos, perplexos e alarmados. As associações camponesas passaram a ganhar proporções de grande senhor. Os homens das associações dizem para os camponeses ricos: “Vamos inscrever-vos os nomes no ‘outro’ registo!” ou, então, “Um mês mais e a admissão custará dez yuan por pessoa!”. Só assim é que os camponeses ricos começaram, embora tardiamente, a aderir às associações [10], tendo alguns que pagar cinco jiao ou um yuan pela admissão (a quota regular de entrada não custava mais do que 100 wen) e outros, que garantir a admissão por meio de pedidos de apadrinhamento feitos a terceiros. Não obstante, há um bom número de obstinados que até hoje não aderiram às associações. Quando os camponeses ricos aderem às associações, dão geralmente o nome de um familiar dos mais idosos, um velho de sessenta ou setenta anos de idade, pois receiam sistematicamente a “conscrição”. Uma vez ingressados nas associações, os camponeses ricos não mostram qualquer entusiasmo por estas. Mantêm-se invariavelmente inactivos.

E os camponeses médios? Quanto a estes, a sua atitude é oscilante. Pensam que a revolução não lhes trará maiores benefícios. O arroz continua a cozer-se-lhes nos tachos e não receiam que os credores lhes venham bater à porta pela meia-noite. Por outro lado, como nada viram antes de semelhante, franzem o sobrolho e pensam lá para consigo: “Poderão realmente as associações camponesas subsistir?”, “Poderão realmente acabar por prevalecer os Três Princípios do Povo?”. A sua conclusão é: “Pouco provável!”. Crêem que tudo depende da vontade dos deuses e pensam: “Associações camponesas! Mas quem poderá dizer se os deuses as desejam ou não?”. No primeiro período, os homens das associações poderiam, de registo na mão, apresentar-se em casa dum camponês médio e dizer: “Convidamo-lo a entrar nas associações?”, ao que o camponês médio responderia: “Mas não há razão para pressas!”. Só no segundo período, quando as associações camponesas passaram realmente a dispor de grande poder, é que os camponeses médios aderiram a elas. Dentro das associações, eles mostram-se melhores que os camponeses ricos mas, por agora, não são muito entusiastas, ainda preferem esperar e ver. Para as associações camponesas é essencial obter a adesão dos camponeses médios e fazer um melhor trabalho de explicação entre eles.

Nas zonas rurais, os camponeses pobres têm constituído sempre a força principal desta luta encarniçada. Eles têm combatido activamente, tanto no período de acção clandestina como no período de actividade às claras. São os que melhor aceitam a direcção do Partido Comunista. São um inimigo mortal dos déspotas locais e dos maus nobres, a quem atacam sem a menor hesitação. “Há já muito que aderimos às associações camponesas”, dizem eles aos camponeses ricos, “por que razão vocês ainda estão tão hesitantes?”. Troçando, os camponeses ricos respondem-lhes: “Acaso existe qualquer coisa que vos impeça de aderir? Vocês não têm uma só telha para cobrir a cabeça nem um palmo de terra onde assentar os pés!”. Na verdade, os camponeses pobres não receiam perder coisa alguma. É um facto que muitos deles “não têm uma só telha para cobrir a cabeça nem um palmo de terra onde assentar os pés”. O que poderia pois impedi-los de aderir às associações? Segundo o recenseamento do distrito de Tchancha, os camponeses pobres representam setenta por cento da população das regiões rurais, os camponeses médios vinte por cento e os senhores de terras e camponeses ricos dez. Os setenta por cento de camponeses pobres podem subdividir-se em duas categorias, a dos que nada têm e a dos que têm muito pouco. Os que nada têm [11] cifram-se em vinte por cento, estão destituídos de tudo, quer dizer, não dispõem de terras nem de dinheiro, faltam-lhes todos os meios de vida e são forçados a abandonar os locais onde vivem para converter-se em mercenários, em trabalhadores assalariados, ou deambulam como mendigos. Os que têm muito pouco [12], os restantes cinquenta por cento, são os que se encontram parcialmente destituídos de haveres, quer dizer, apenas dispõem duma reduzida nesga de terra ou duns quantos fundos, gente que ganha menos daquilo que necessita consumir, vivendo esgotada e na miséria durante o ano inteiro. É, por exemplo, o caso dos artesãos, dos rendeiros (excluídos os rendeiros ricos) e dos camponeses semi-proprietários. Representando setenta por cento da população rural, essa grande massa de camponeses pobres constitui o suporte das associações camponesas, a vanguarda na liquidação das forças feudais, e é o pioneiro glorioso que executa a grandiosa tarefa revolucionária que tinha ficado por cumprir há muitos anos. Sem a classe dos camponeses pobres (esses mesmo que os nobres chamam “pés-descalços”), não teria sido possível chegar-se à situação revolucionária que existe actualmente no campo, nem derrubar os déspotas locais e os maus nobres e concluir a revolução democrática. Como são os mais revolucionários, os camponeses pobres conquistaram a direcção das associações camponesas. Tanto no primeiro como no segundo período, quase todos os presidentes e membros de comités das associações camponesas de base eram camponeses pobres (no distrito de Henxan, dentre os que trabalham nas associações de circunscrição os que nada têm cifram-se em cinquenta por cento, os que têm muito pouco, em quarenta por cento e os intelectuais pobres, em dez por cento). É absolutamente necessário que a direcção esteja entre as mãos dos camponeses pobres. Sem camponeses pobres não haveria revolução. Se os rejeitamos, rejeitamos a revolução e, se os atacamos, atacamos a revolução. Em nenhum momento eles erraram quanto à direcção geral da revolução. Eles desacreditaram os déspotas locais e os maus nobres. Atiraram ao chão os déspotas locais e os maus nobres, tanto os pequenos como os grandes, e puseram-lhes um pé em cima. Muitos dos seus “excessos” no período da acção revolucionária eram, na realidade, medidas exigidas pela própria revolução. No Hunan, dentre os governos de distrito, quartéis generais de distrito do Kuomintang e associações camponesas distritais, alguns cometeram certas faltas, chegando-se até a enviar tropas para efectuar prisões entre o pessoal das associações camponesas de base, a pedido dos senhores de terras. Muitos dos presidentes e membros dos comités das associações de circunscrição foram lançados para as cadeias dos distritos de Henxan e Siansiam. Trata-se dum erro muito grave que encoraja a arrogância da reacção. Para se concluir que isso é um erro, não é preciso mais do que observar o quanto se põem contentes os senhores de terras sem lei e como se acentua a atmosfera reaccionária nas localidades em que são presos os presidentes e os membros dos comités das associações camponesas. Há que combater o palavreado contra-revolucionário sobre o “movimento de pés-descalços”, sobre o “movimento de camponeses preguiçosos”, e ter o especial cuidado de não cometer o erro de ajudar os déspotas locais e os maus nobres nos seus ataques à classe dos camponeses pobres. É verdade que uns tantos líderes, entre os camponeses pobres, tinham certos defeitos, mas, agora, a maior parte já se modificou. São eles próprios quem está sendo enérgico na proibição do jogo das cartas e outros jogos, bem como na repressão do banditismo. Onde as associações camponesas são fortes, o jogo terminou e desapareceu o banditismo. É uma pura verdade que em certas localidades as populações não ficam com os objectos que encontram perdidos, nem trancam as portas pela noite. Segundo o inquérito feito em Henxan, oitenta e cinco por cento dos líderes entre os camponeses pobres são já muito bons e mostram-se muito competentes e muito esforçados no trabalho. Só quinze por cento conserva ainda certos maus hábitos. O mais que pode dizer-se é que se trata duma “minoria malsã”, não devendo pois fazer-se eco a essa condenação indiscriminada de “pés-descalços” lançada pelos déspotas locais e pelos maus nobres contra os camponeses pobres. O problema da “minoria malsã” só pode ser resolvido com a palavra de ordem de fortalecimento da disciplina das associações camponesas, com propaganda no seio das massas, com educação da “minoria malsã” e elevação da disciplina das associações; de maneira nenhuma se deve passar arbitrariamente ao envio de soldados para que procedam a prisões, pois isso apenas prejudicaria o prestígio da classe dos camponeses pobres, e encorajaria a arrogância dos déspotas locais e dos maus nobres. Essa é uma questão que exige uma atenção particular.

Quartorze Conquistas Importantes

Dum modo geral, os que condenam as associações camponesas alegam que estas fizeram muita coisa má. Já sublinhei que o ataque lançado pelos camponeses contra os déspotas locais e os maus nobres foi uma atitude absolutamente revolucionária que não se deve condenar. Os camponeses fizeram muitas coisas e, para responder aos que os condenam, devemos examinar de perto todos os seus actos, um a um, para ver qual foi realmente o trabalho realizado. Eu procedi a uma classificação e balanço da actividade dos camponeses nos últimos meses. Sob a direcção das associações camponesas eles realizaram, no total, as quatorze conquistas importantes seguintes:

 ‍

1 Organização dos Camponeses em Associações Camponesas

Essa foi a primeira grande conquista dos camponeses. Nos distritos como Siantan, Siansiam e Henxan, quase todos os camponeses estão organizados e não se encontra praticamente um “rincão perdido” onde não estejam em movimento. São os melhores distritos. Noutros, por exemplo I-iam e Huajum, o grosso dos camponeses está organizado, sendo reduzido o sector a que ainda falta organização. Esses distritos vêm, portanto, em segundo lugar. Noutros ainda, como Tchempu e Linlim, só um pequeno sector está organizado, permanecendo o grosso dos camponeses sem organização. Tais distritos ocupam o terceiro lugar na escala. O Hunan ocidental, controlado por Iuan Tsu-mim [13], ainda não foi atingido pela propaganda sobre as associações e, em muitos dos seus distritos, os camponeses permanecem sem qualquer organização. É o quarto lugar da escala. Em termos globais, os distritos do Hunan central, com Tchancha como centro, são os mais avançados, os do sul do Hunan vêm logo a seguir e os do Hunan ocidental apenas começam a organizar-se. Segundo os números recolhidos em Novembro passado pela Associação Camponesa Provincial, em trinta e sete dos setenta e cinco distritos da província foram criadas organizações com um total de 1.367.727 membros. Desses membros, cerca de um milhão foi organizado em Outubro e Novembro do ano passado, quando o poder das associações já tinha crescido muito, pois, em Setembro, o volume de membros andava entre os trezentos mil a quatrocentos mil. Nos meses de Dezembro e Janeiro, o movimento camponês continuou o seu crescimento vertiginoso e, pelos fins de Janeiro, o volume de membros deve ter atingido, no mínimo, os dois milhões. Como cada família, ao integrar-se, usa apenas um nome, embora tendo, em média, cinco membros, a massa deve andar à volta dos dez milhões. Essa aceleração surpreendente da taxa de expansão constitui a razão por que os déspotas locais, os maus nobres e os funcionários corrompidos têm sido isolados, o público estremeceu ao ver um mundo novo substituir-se ao mundo velho, e se realiza uma tão grande revolução no campo. Essa é a primeira grande realização dos camponeses dirigidos pelas suas próprias associações.

 ‍

2 Golpe Político Vibrado nos Senhores de Terras

Assim que os camponeses criam as suas organizações, a primeira coisa que fazem é destruir, no domínio político, o prestígio da classe dos senhores de terras, sobretudo o dos déspotas locais e maus nobres, isto é, abater a autoridade dos senhores de terras e instaurar a autoridade camponesa na sociedade rural. Essa é a luta mais grave e vital. É o eixo da luta no segundo período, no período da acção revolucionária. Sem uma vitória nessa luta, nenhuma vitória seria possível na luta económica para reduzir as rendas e as taxas de juro, para garantir a terra e outros meios de produção, etc. Em muitos pontos do Hunan, por exemplo nos distritos de Siansiam, Henxan e Siantan, isso não constitui, evidentemente, um problema, uma vez que a autoridade dos senhores de terras foi inteiramente abatida e os camponeses são a única autoridade que aí existe. Nos distritos como Lilim, porém, há ainda algumas regiões (por exemplo os sectores oeste e sul de Lilim) onde a autoridade dos senhores de terras parece mais fraca do que a dos camponeses mas, na realidade, em razão de a luta política não ter sido encarniçada, bate-se sub-repticiamente contra esta. Nessas regiões, ainda é muito cedo para dizer que os camponeses conquistaram a vitória política; eles têm de lutar politicamente com um vigor ainda maior, e até que a autoridade dos senhores de terras seja completamente arrasada. Feitas todas as contas, os métodos usados pelos camponeses para golpear politicamente os senhores de terras são os seguintes:

Controle de contas. Ao administrarem os dinheiros públicos locais, acontece com muita frequência que os déspotas locais e os maus nobres se locupletam com os dinheiros públicos, e a contabilidade não está em ordem. Com o controle de contas, porém, os camponeses têm abatido um grande número de déspotas locais e maus nobres. Em muitas localidades foram criados comités de controle de contas, especialmente encarregados do ajuste de contas financeiras com esses déspotas locais e maus nobres, os quais se põem a tremer assim que vêem aparecer os tais comités. Têm-se realizado campanhas desse género por todos os distritos, onde o movimento camponês se mostra activo. Não sendo de muita valia quanto à recuperação dos dinheiros públicos, tais campanhas são contudo importantes como meio de dar publicidade aos crimes dos déspotas locais e dos maus nobres, e como meio de eliminar as posições políticas e sociais de que estes disfrutam.

Penas pecuniárias. Com o controle de contas descobriram-se desvios de fundos e brutalidades perpetradas contra os camponeses no passado, bem como sabotagens contra as associações camponesas no presente, ou violações à proibição do jogo das cartas e outros jogos, ou ainda recusas à entrega de cachimbos de ópio. De acordo com as faltas cometidas, os camponeses decidem que determinado déspota local pague tanto, que certo mau nobre pague mais tanto, variando as somas desde algumas dezenas aos milhares de yuan. Como é natural, os que são condenados pelos camponeses a essas penas perdem a face.

Contribuições em dinheiro. Os senhores de terras gananciosos e cruéis são obrigados a contribuir para o socorro dos pobres, para a organização de cooperativas e sociedades camponesas de crédito, ou ainda para a realização de outros objectivos. Embora mais suaves que as penas pecuniárias, essas contribuições constituem também uma espécie de punição. Para evitar complicações, muitos dos senhores de terras contribuem voluntariamente para as associações camponesas.

Interrogatórios menores. Quando alguém ofende por actos ou palavras uma associação camponesa, mas a ofensa é considerada de gravidade menor, os camponeses juntam-se em massa e deslocam-se à casa do ofensor, a quem fazem um interrogatório não muito cerrado. Em geral, este livra-se redigindo uma “confissão”, onde se compromete, expressamente, a pôr um termo às palavras ou actos difamatórios das associações camponesas.

Manifestações. Grandes multidões concentram-se para manifestar contra determinado déspota local, ou mau nobre, que se tenha revelado mais odioso às associações. Os manifestantes irrompem-lhe pela casa adentro, abatem-lhe os porcos e tomam-lhe o arroz. E não são poucos os casos desse tipo. Recentemente, verificou-se um caso assim em Maquiaho, distrito de Siantan, onde uma multidão de quinze mil camponeses irrompeu pela mansão de seis maus nobres e submeteu-os ali mesmo a um interrogatório. A questão prolongou-se por quatro dias, tendo sido abatidos mais de cento e trinta porcos. Terminadas as manifestações, os camponeses passam geralmente à aplicação das penas pecuniárias.

Desfile pelas aldeias com grandes carapuços de papel. Isso verifica-se por toda a parte e é muito frequente. Um grande carapuço de papel é enfiado pela cabeça de determinado déspota local ou mau nobre, com a inscrição “fulano de tal, déspota local” ou “fulano de tal, mau nobre”, indo o homem preso por uma corda e escoltado, à frente e atrás, por grande multidão. Algumas vezes, tocam-se gongos e agitam-se estandartes para atrair as atenções. Mais que qualquer outra, essa forma de punição faz tremer os déspotas locais e os maus nobres. Coroados com o grande carapuço, perdem a face e nunca mais podem levantar a cabeça. É por isso que muitos ricos preferem ser punidos em dinheiro a ter de enfiar o tal carapuço. Mas quando os camponeses insistem, eles são obrigados a enfiá-lo. Mais astuta, uma associação camponesa de circunscrição prendeu um mau nobre e anunciou que o coroaria com o carapuço nesse mesmo dia. O homem ficou lívido de medo. Posteriormente a associação decidiu não enfiar-lhe o carapuço nesse dia. Se lhe tivessem posto logo o carapuço, o homem ficaria desesperado quanto ao seu destino e deixaria de ter medo, razão por que foi melhor que o tivessem deixado voltar à casa, aguardando que em outro dia lhe enfiassem o carapuço. Na incerteza sobre o dia da “coroação”, o homem caiu numa angústia permanente, tendo ficado incapaz de sentar-se ou deitar-se tranquilamente.

Encarceramento nas prisões distritais. Trata-se duma punição mais pesada que a imposição do grande carapuço de papel. Certos déspotas locais e maus nobres são presos e lançados nas cadeias distritais, onde aguardam que o chefe de distrito competente os julgue e condene. Agora, os que vão para as cadeias já não são os que iam antes. No passado, eram os nobres que metiam os camponeses na prisão mas, hoje, passa-se o contrário.

Proscrições. Os camponeses não têm o menor desejo de proscrever os criminosos mais notórios dentre os déspotas locais e maus nobres. Pelo contrário, eles preferem prendê-los ou executá-los. Levados pelo medo à prisão ou execução, os criminosos fogem. Nos distritos onde o movimento camponês está desenvolvido, quase todos os déspotas locais e maus nobres importantes fugiram, o que dá o mesmo resultado que uma proscrição. Dentre eles, os de primeiro plano fugiram para Xangai, os de segundo plano para Hancou, os de terceiro para Tchancha e os de quarto para as capitais de distrito. Dentre os déspotas locais e maus nobres que fugiram, os que se encontram mais a salvo são os que foram para Xangai. Alguns dos que fugiram para Hancou, como os três de Huajum, acabaram por ser capturados e trazidos de volta. Os que fugiram para Tchancha vivem numa situação de perigo ainda maior, pois podem ser capturados em qualquer momento pelos estudantes dos seus próprios distritos que se encontram na capital da província. Eu vi, com os meus próprios olhos, como foram capturados dois deles em Tchancha. Apenas os da quarta categoria buscaram refúgio nas capitais de distrito, mas os camponeses, como têm aí muitos olhos e ouvidos, podem facilmente descobri-los. As autoridades explicaram as dificuldades financeiras encontradas pelo governo provincial do Hunan como um resultado de os camponeses proscreverem os ricos, o que dá uma ideia do quanto são intoleráveis os déspotas locais e os maus nobres nas suas próprias aldeias de origem.

Execuções. Isso é algo que está limitado aos mais importantes dentre os déspotas locais e maus nobres, e é uma medida tomada pelos próprios camponeses, juntamente com outros sectores do povo. Por exemplo, Iam Tche-tse de Ninsiam, Tchou Quia-can de Iué-iam e Fu Tao-nan e Suen Po-tchu de Huajum, foram fuzilados pelas autoridades governamentais por exigência dos camponeses e outros sectores do povo. Em Siantan, foram os próprios camponeses e outros sectores do povo que obrigaram o chefe do distrito a entregar-lhes o preso Ien Jum-tsiu, para que eles próprios o executassem. Liu Tchao, de Ninsiam, foi morto, a golpes,- pelos camponeses. A execução de Pom Tchi-fan de Lilim, e de Tchou Tien-tsiue e Tsao Iun de I-iam, está pendente da decisão do “tribunal especial para julgar os déspotas locais e os maus nobres”. A execução de um só déspota local ou mau nobre de tão grande categoria repercute-se por todo o distrito e é de muita eficácia para extirpar as sobrevivências feudais. Todos os distritos têm os seus déspotas locais e maus nobres de grande categoria, em alguns há mesmo várias dezenas, mas noutros apenas uns quantos, de modo que a única via eficaz para eliminar a reacção é executar, em cada distrito, pelo menos alguns, os culpados dos crimes mais odiosos. Enquanto os déspotas locais e os maus nobres tiveram força, massacraram os camponeses sem pestanejar. Ho Mai-tchiuan, que foi durante dez anos comandante dos corpos de defesa na vila de Sincam, em Tchancha, era pessoalmente responsável pelo assassinato de quase um milhar de camponeses indigentes, que ele descrevia, eufemisticamente, como “execução de bandidos”. Em Siantan, distrito de que sou originário, Tam Tsiun-ien e Luo Chu-lin, que dirigiram os corpos de defesa na vila de Intien, mataram mais de cinquenta pessoas e enterraram vivas quatro outras, nos quatorze anos que se contam desde 1913. Das cinquenta e tal pessoas que mataram, as duas primeiras eram mendigos absolutamente inocentes. E Tam Tsiun-ien dizia: “Abramos a conta com a morte desse par de mendigos!”. Assim foram roubadas as duas vidas. Tal era a crueldade dos déspotas locais e dos maus nobres no passado, tal era o terror branco que tinham instaurado no campo. E agora que os camponeses se levantaram, fuzilaram uns quantos déspotas locais e maus nobres e criaram um relativo terror para esmagar os contra-revolucionários, poderá haver alguma razão para dizer-lhes que não devem agir assim?

 

3 Golpe Económico Infligido aos Senhores de Terras

Proibição do envio de arroz para o exterior, proibição da alta forçada dos respectivos preços e da armazenagem com fins de especulação. Esse é um dos maiores acontecimentos dos últimos meses na luta económica dos camponeses do Hunan. Desde Outubro passado, os camponeses pobres têm impedido a fuga do arroz dos senhores de terras e camponeses ricos para o exterior, e proibiram a alta forçada dos preços do arroz, bem como a armazenagem com fins de especulação. Como resultado, os camponeses pobres atingiram em cheio os seus objectivos — cessou a fuga do arroz, os preços respectivos baixaram consideravelmente e acabaram as armazenagens para especulação.

Proibição do aumento das rendas e depósitos, propaganda em favor da redução das rendas e dos depósitos. Em Julho e Agosto passados, quando as associações camponesas ainda eram fracas, uns após outros, e no seguimento da sua velha prática de exploração ao máximo, os senhores de terras comunicaram aos rendeiros que as rendas e os depósitos iam de certeza subir. Em Outubro, porém, como as associações camponesas tivessem crescido apreciavelmente e os camponeses se levantassem em bloco contra o aumento das rendas e depósitos, os senhores de terras não ousaram dizer mais uma palavra sequer sobre o assunto. A partir de Novembro, como tivessem ganho ascendência sobre os senhores de terras, os camponeses intensificaram a propaganda para reduzir as rendas e os depósitos. “Que pena, diziam, que as associações camponesas não fossem já suficientemente fortes no Outono passado, na época do pagamento das rendas, pois tê-las-íamos reduzido logo nessa altura”. Os camponeses estão a fazer uma vasta propaganda para a redução das rendas no próximo Outono, e os senhores de terras perguntam-se como irá fazer-se tal redução. Pelo que respeita à redução dos depósitos, ela já está a fazer-se no distrito de Henxan e noutros distritos.

Proibição do cancelamento de arrendamentos. Em Julho e Agosto do ano passado, ainda houve muitos casos de senhores de terras que cancelaram arrendamentos para procederem a novos arrendamentos. Depois de Outubro, porém, ninguém mais ousa cancelar um arrendamento. Actualmente, tais práticas estão já fora de questão, o único problema que existe é saber se um arrendamento pode ou não ser cancelado nos casos em que o senhor de terras pretende cultivar pessoalmente as suas terras. Em certas localidades os camponeses nem sequer permitem isso. Noutras, o cancelamento é permitido, quando o senhor de terras quer cultivá-las pessoalmente, mas aí surge a questão do desemprego entre os rendeiros. Ainda não há uma solução uniforme para o problema.

Redução das taxas de juro. Dum modo geral, as taxas de juro foram reduzidas em An-hua, tendo-se registado também reduções noutros distritos. Nas regiões em que as associações camponesas são poderosas, o empréstimo rural desapareceu praticamente, pois os senhores de terras “recusam-no” em absoluto, com medo de verem os seus bens “comunisados”. O que correntemente se designa por redução da taxa de juros limita-se aos empréstimos antigos. E não se trata apenas duma redução das taxas de juro dos empréstimos antigos, pois, actualmente, também está proibida aos credores qualquer pressão para obterem o pagamento do principal da dívida. A resposta dos camponeses pobres é a seguinte: “Não me julgue mal, o ano foi mau, houve calamidades naturais, pagarei no ano que vem.”

 ‍

4 Liquidação da Dominação Feudal dos Déspotas Locais e dos Maus Nobres – Esmagamento dos Tu e dos Tuan [14]

Os velhos órgãos do poder político nos tu (sub-distritos) e nos tuan (circunscrições), e especialmente ao nível dos tu, portanto imediatamente abaixo do distrito, estavam quase exclusivamente nas mãos dos déspotas locais e dos maus nobres. Os tu tinham jurisdição sobre uma população de dez mil a cinquenta ou sessenta mil pessoas, e dispunham de forças armadas próprias, como os corpos de defesa, dispondo ainda de poderes fiscais próprios, por exemplo, o de lançar taxas sobre cada mu de terra [15], assim como poderes judiciais que os habilitavam a deter, encarcerar, interrogar e punir a bel-prazer os camponeses. Os maus nobres que compunham esses órgãos eram praticamente os reis no campo. Em termos relativos, os camponeses não consideravam muito o presidente da república, o governador militar [16], os chefes de distrito. Os seus verdadeiros “senhores” eram esses monarcas do campo. Ao mais pequeno grunhido de tais senhores, os camponeses sabiam logo que deviam ficar alerta. Como consequência da actual revolta no campo, o prestígio da classe dos senhores de terras ficou de modo geral abatido, e os órgãos da administração rural, dominados pelos déspotas locais e pelos maus nobres, desmoronaram-se naturalmente. Os chefes dos tu e dos tuan esconderam-se do povo, não ousam mostrar a ponta do nariz, e descarregam todos os assuntos locais sobre as associações camponesas. Despacham todas as pessoas que a eles se dirigem dizendo:

“Isso não é comigo!”.

Sempre que a conversa recai sobre os chefes dos tu e dos tuan, os camponeses exclamam, coléricos:

“Esses tipos? Eles já estão arrumados!”.

Efectivamente, a expressão “estão arrumados” traduz com fidelidade a situação dos velhos órgãos da administração rural nas localidades varridas pelas ondas da revolução.

 ‍

5 Desmantelamento das Forças Armadas dos Senhores de Terra e Criação de Forças Armadas dos Camponeses

As forças armadas da classe dos senhores de terras eram mais reduzidas no centro do Hunan que na parte ocidental e sul dessa província. Com uma média de 600 espingardas por distrito, o total seria de 45.000 para os setenta e cinco distritos, mas, na realidade, deve haver mais do que isso. No sul e no centro, onde o movimento camponês está desenvolvido, a classe dos senhores de terras não pôde aguentar-se em virtude do ímpeto avassalador com que os camponeses se levantaram, resultando que a maioria das forças armadas dessa classe capitulou frente às associações camponesas e adoptou a posição dos camponeses, como é o caso dos distritos de Ninsiam, Pinquiam, Liuiam, Tchancha, Lilim, Siantan, Sian-siam, An-hua, Henxan e Hen-iam. Em alguns distritos, como Paotchim, um pequeno sector das forças armadas dos senhores de terras está a assumir uma posição neutral, apresentando-se porém com tendência à capitulação. Outro sector, também pequeno, opõe-se às associações camponesas, por exemplo nos distritos de Itchan, Linvu e Quiaho, mas os camponeses estão a atacá-lo e podem liquidá-lo em pouco tempo. As forças armadas assim conquistadas aos senhores de terras reaccionários estão a ser reorganizadas em “unidades permanentes de milícias de casa-a-casa” [17], e colocadas sob a autoridade dos novos órgãos rurais de administração autónoma, órgãos rurais do poder político dos camponeses. A assimilação das forças armadas antigas constitui um processo de os camponeses criarem as suas próprias forças armadas. Um novo processo é a criação de corpos de lanças subordinados às associações camponesas. As lanças são longas e terminam por um ferro com ponta de dois gumes. Actualmente, só no distrito de Siansiam, há 100.000 lanças desse tipo. Noutros distritos, como Siantan, Henxan, Lilim e Tchancha há, em cada um, setenta mil a oitenta mil lanças, ou cinquenta mil a sessenta mil ou trinta mil a quarenta mil. Em todos os distritos onde se registou um movimento camponês regista-se um rápido crescimento de corpos de lanças. Os camponeses assim armados constituem as “unidades não permanentes de milícias de casa-a-casa”. Esses homens armados de lanças são um efectivo superior às velhas forças armadas mencionadas atrás, são o poder armado recém-criado cuja simples aparição faz tremer os déspotas locais e os maus nobres. As autoridades revolucionárias no Hunan devem cuidar por generalizar efectivamente esse tipo de forças armadas entre a população de mais de vinte milhões de camponeses dos setenta e cinco distritos da província, de modo que todos eles, jovens e adultos, tenham uma lança, devendo igualmente impedir que se imponha qualquer restrição a tais forças na base de que são algo que mete medo. São sem dúvida cobardes todos os que se amedrontam à simples vista dum corpo de lanças! Só os déspotas locais e os maus nobres têm motivos para amedrontar-se frente a isso, os revolucionários nada têm a temer.

 ‍

6 Liquidação do Poder Político dos Respeitáveis Chefes de Distrito e Respectivos Bailios

Já ficou comprovado em Haifom, província de Cuantum, que é impossível sanear o governo distrital enquanto os camponeses não se levantam. Desta vez dispomos de provas plenas sobre isso, com relação ao Hunan. Nos distritos em que o poder está nas mãos dos déspotas locais e dos maus nobres, todo o chefe de distrito, seja ele quem for, é quase sempre um funcionário corrompido. Nos distritos onde os camponeses se levantaram, o governo é são, independentemente da pessoa do chefe de distrito. Nos distritos que visitei, seja para o que for os chefes de distrito têm que consultar, a tempo, as associações camponesas. Nos distritos onde o poder camponês é muito forte, as palavras das associações camponesas fazem milagres. Se, pela manhã, exigem a detenção dum déspota local ou dum mau nobre, os chefes de distrito não ousam deixar o assunto para o meio-dia, e se a detenção é exigida pelo meio-dia, não ousam atrasá-la para a tarde. Enquanto o poder dos camponeses começava apenas a fazer-se sentir nas regiões rurais, os chefes de distrito trabalhavam em ligação com os déspotas locais e os maus nobres, contra os camponeses. Quando o poder dos camponeses cresceu a ponto de se equiparar ao dos senhores de terras, os chefes de distrito passaram a tentar ajeitar tanto os senhores de terras como os camponeses, aceitando algumas das sugestões das associações camponesas, e rejeitando outras. A observação de que as palavras das associações camponesas “fazem milagres” serve apenas para os casos em que o poder dos senhores de terras foi completamente abatido pelo poder dos camponeses. Presentemente, a situação política nos distritos como Siansiam, Siantan, Lilim e Henxan, é a seguinte:

1) Todas as decisões são tomadas por um conselho conjunto, formado pelo chefe do distrito e pelos representantes das organizações revolucionarias de massas. O conselho é convocado pelo chefe do distrito e reune-se na sede da administração. Em alguns distritos esse conselho toma a designação de “conselho conjunto do governo local e das organizações de massas” e, noutros, a de “conselho dos negócios do distrito”. Além do chefe do distrito, os participantes são representantes da associação camponesa distrital, do sindicato geral, da associação de comércio, da associação de mulheres, da associação do pessoal das escolas, da associação de estudantes e do quartel general do Kuomintang no distrito [18]. Nesses conselhos, o chefe de distrito é influenciado pelos pontos de vista das organizações de massas e submete-se, invariavelmente, à vontade destas. A adopção dum sistema de comité democrático de governo distrital não apresentaria portanto grandes dificuldades no Hunan. Os actuais governos de distrito são já bem democráticos, tanto na forma como na essência. Essa situação existe apenas desde os últimos dois ou três meses, isto é, desde que os camponeses se levantaram por todo o campo e derrubaram o poder dos déspotas locais e dos maus nobres. Agora, acontece até que os chefes de distrito, vendo os seus velhos apoios desmantelados e necessitando de novos apoios para continuarem nos seus cargos, começam a buscar as boas graças das organizações de massas, o que conduz à situação referida acima.

2) Os juízes não têm casos a julgar. O sistema judicial no Hunan continua tal que o chefe de distrito está também encarregado das questões judiciais, dispondo de um assistente que o ajuda a dar andamento aos processos. Querendo enriquecer, o chefe de distrito e os seus subordinados servem-se geralmente da imposição de taxas e contribuições, e do recrutamento de homens e provisões para as forças armadas, bem como realizam extorsões no desenrolar dos processos cíveis e criminais, invertendo o verdadeiro e o falso, o que constitui a sua fonte mais segura e regular de rendimentos. Nos últimos meses, com a queda dos déspotas locais e dos maus nobres, desapareceram os monopolizadores dos processos judiciais. Mais, os problemas dos camponeses, grandes ou pequenos, são agora resolvidos nas associações camponesas dos diversos escalões. Assim, o juiz distrital nada tem realmente para fazer. Um juiz do distrito de Siansiam disse-me: “Quando não havia associações camponesas, em média submetiam-se diariamente ao governo de distrito uns sessenta processos cíveis e criminais mas, agora, apenas quatro ou cinco.” As bolsas dos chefes de distrito e respectivos subordinados têm pois de andar vazias.

3) Os guardas armados, a polícia e os bailios desapareceram todos da circulação, já não ousam aproximar-se das aldeias para realizarem as suas extorsões. Antes, os aldeãos tinham medo da gente da cidade, mas agora passa-se o contrário. Sobretudo essa matilha feroz mantida pelos governos dos distritos — polícias, guardas armados e bailios — agora tem medo de ir às aldeias e, quando lá vai, já não ousa entregar-se a extorsões. Eles tremem à simples vista duma lança camponesa.

7 Liquidação da Autoridade Clânica dos Templos dos Antepassados e dos mais Velhos Dentro dos Clãs, da Autoridade dos Deuses das Cidades e das Divindades Locais e da Autoridade Marital

Na China, os homens estão geralmente sujeitos a três sistemas de autoridade:

  1. O sistema de Estado (autoridade política), que vai do governo nacional, passando pelo provincial e distrital, até ao de circunscrição;
  2. O sistema de clã (autoridade clânica), indo do templo central dos antepassados, com todas as suas ramificações, até aos chefes de família;
  3. O sistema sobrenatural (autoridade religiosa), indo do rei dos infernos aos deuses das cidades e divindades locais, que fazem parte do mundo dos mortos, e do imperador dos céus aos vários deuses e espíritos, que pertencem ao mundo celestial.

Com respeito às mulheres, além de estarem submetidas a esses três sistemas de autoridade elas encontram-se ainda sujeitas aos homens (autoridade marital). Essas quatro formas de autoridade — política, clânica, religiosa, marital — encarnam o conjunto da ideologia e sistema feudal-patriarcal, e constituem as quatro cordas grossas que amarram o povo chinês, em especial os camponeses. Mais acima descreveu-se já como os camponeses derrubaram, no campo, a autoridade política dos senhores de terras, a qual constituía a espinha dorsal de todos os outros sistemas de autoridade. Derrubada essa autoridade, a autoridade clânica, a autoridade religiosa e a autoridade marital começam a oscilar. Onde as associações camponesas são poderosas, os mais velhos dos clãs e os administradores dos fundos dos templos dos antepassados já não ousam oprimir os escalões mais baixos dentro da hierarquia clânica, nem desviar os fundos dos clãs. Como os déspotas locais e os maus nobres, os piores dentre os mais velhos dos clãs e os administradores dos clãs foram derrubados, ninguém mais se atreve a recorrer à crueldade das penas corporais nem à pena de morte, que anteriormente se aplicavam nos templos dos antepassados, como a condenação a ser vergastado nas nádegas, a ser afogado ou enterrado vivo. A velha regra que excluía as mulheres e a gente pobre dos banquetes rituais nos templos dos antepassados foi igualmente abolida. As mulheres de Paicuo, distrito de Henxan, juntaram-se em massa e entraram pelo templo dos antepassados, instalando-se sem cerimónia nos cadeirões e tomando parte na comida e bebida, sem que os venerandos anciãos do clã tivessem podido fazer mais do que deixá-las agir livremente. Numa localidade onde os camponeses pobres haviam sido excluídos dos banquetes rituais, uma parte destes penetrou no templo dos antepassados e comeu e bebeu até fartar, enquanto os déspotas locais e os maus nobres, com os seus vestidos compridos, fugiam aterrorizados. Por toda a parte a autoridade religiosa oscila à medida que se desenvolve o movimento camponês. Em muitas localidades, as associações camponesas transformaram os templos dos deuses em locais de trabalho. Por toda a parte elas defendem a apropriação dos bens desses templos, com vistas à criação de escolas camponesas e ao pagamento das despesas das associações, ao que chamam “fundos públicos da superstição”. No distrito de Lilim, a proibição das práticas supersticiosas e a destruição dos ídolos tornaram-se coisa corrente. Nos sub-distritos norte desse distrito, os camponeses proibiram as procissões com queima de incenso, destinadas a acalmar os lares e o deus da peste. No templo da colina de Fupo, em Lucou, havia muitos ídolos mas, assim que se necessitou de maior espaço para o quartel general do Kuomintang no sub-distrito, tudo foi empilhado a um canto, tanto os ídolos grandes como os pequenos, e nenhum camponês levantou qualquer objecção. Desde então, os sacrifícios aos deuses, a observação dos ritos religiosos e a oferta de lanternas sagradas nos casos de morte de alguém numa família praticam-se muito raramente. Como, nesse domínio, a iniciativa foi tomada por Suen Siao-xan, presidente da associação camponesa, este passou a ser muito odiado pelos sacerdotes taoistas. No convento de religiosas de Lonfum, no terceiro sub-distrito norte, os camponeses e os professores primários partiram os ídolos de madeira e usaram-nos como combustível na preparação de pratos de carne. Mais de trinta ídolos do monastério de Tun-fu, na zona sul, foram queimados numa acção conjunta de estudantes e camponeses, escapando apenas duas pequenas estatuetas de Pao Cum, que beneficiaram da protecção dum velho camponês que gritava: “Não cometam tal sacrilégio!”. Nas regiões onde o poder dos camponeses predomina, só os homens de idade avançada e mulheres continuam a acreditar nos deuses, pois os camponeses jovens, e também os adultos, já não pensam assim. Uma vez que são estes últimos quem controla as associações, a queda da autoridade religiosa e a liquidação da superstição estão a verifi-car-se por toda a parte. Entre os camponeses pobres, a autoridade marital foi sempre mais débil, uma vez que a necessidade económica obrigava as mulheres a realizar um maior trabalho físico que as mulheres pertencentes às classes ricas, o que lhes dava um maior direito à palavra e um maior poder de decisão nos assuntos familiares. Nos últimos anos, com a ruína crescente da economia rural, a base da dominação dos homens sobre as mulheres ficou minada. Recentemente, com o desencadeamento do movimento camponês, em muitas localidades as mulheres passaram a organizar-se em associações rurais. Chegou o momento de levantarem a cabeça, e a autoridade marital oscila cada dia mais. Numa palavra, o conjunto da ideologia e sistema feudal-patriarcal está sofrendo um abalo com o aumento do poder camponês. Actualmente, porém, os esforços dos camponeses estão concentrados na liquidação da autoridade política dos senhores de terras. E onde quer que esta já tenha sido completamente abatida, eles começam a concentrar os seus ataques sobre as outras três autoridades, a clânica, a divina e a marital. Esses ataques, porém, estão apenas “no início”, não podendo verificar-se uma liquidação radical dessas três autoridades enquanto os camponeses não tiverem conquistado uma vitória total na luta económica. Por consequência, a nossa tarefa actual é levar os camponeses a despender os seus maiores esforços na luta política, de modo que o poder dos senhores de terras seja de todo eliminado. A luta económica deve vir logo a seguir, de forma que o problema da terra e os demais problemas económicos dos camponeses pobres possam, no essencial, ser resolvidos. A eliminação do sistema de clãs, superstições e desigualdade entre homens e mulheres há-de registar-se como uma consequência natural da vitória nas lutas políticas e económicas. Se, rígida e prematuramente, fizermos demasiado esforço no sentido dessa abolição, os déspotas locais e os maus nobres aproveitarão isso como pretexto para. avançar a sua propaganda contra-revolucionária segundo a qual “as associações camponesas não respeitam os antepassados”, “as associações camponesas ofendem os deuses e destroem a religião”, “as associações camponesas são pela comunidade das mulheres”, tudo para sabotar o movimento camponês. Um exemplo gritante foi o que aconteceu recentemente em Siansiam, no Hunan, e em Iansin, no Hupei, onde os senhores de terras exploraram a oposição de alguns camponeses relativamente à destruição dos ídolos. Os ídolos foram criados pelos camponeses, e serão os próprios camponeses quem os há-de pôr a um canto, no momento devido. Não é necessário que alguém venha, prematuramente, fazer isso em seu lugar. A esse respeito, a política do Partido Comunista em matéria de propaganda deve ser a de “vergar o arco sem disparar, esboçar apenas o gesto” [19]. São os próprios camponeses que devem pôr os ídolos a um canto, destruir os templos para o sacrifício das virgens e os arcos para celebrar as viúvas castas, as viúvas fiéis; é errado pretender fazer isso em seu lugar.

No campo, entre os camponeses, eu fiz propaganda contra a superstição. Dizia:

“Vocês acreditam nos oito caracteres porque esperam uma melhor sorte; acreditam na geomancia porque esperam beneficiar da localização do túmulo dos antepassados. Acontece, porém, que, este ano, em poucos meses os déspotas locais, os maus nobres e os funcionários corrompidos caíram todos dos seus pedestais. Será acaso possível aceitar que, até há poucos meses eles tenham tido sorte, tenham gozado do benefício da boa situação das sepulturas dos seus antepassados e, subitamente, nos últimos meses, essa sorte lhes tenha falhado e as sepulturas dos antepassados tenham deixado de exercer boa influência? Os déspotas locais e os maus nobres riem-se das associações camponesas e dizem: ‘Que estranho! Agora, o mundo é dos membros dos comités. Imaginem que nem sequer se pode urinar sem dar logo com um deles!’. Isso é absolutamente verdade. Nas cidades e aldeias, nos sindicatos e associações camponesas, no Kuomintang e no Partido Comunista, em todo o lado, há membros dos comités executivos — é realmente o mundo dos membros dos comités. Mas será isso devido aos oito caracteres ou à localização das sepulturas dos antepassados? Que estranho! Os oito caracteres de todos os pobres do campo tornaram-se repentinamente de bom agouro! As sepulturas dos antepassados começaram de súbito a exercer uma influência benéfica! E quanto aos deuses? Podem venerá-los. Se vocês tivessem o deus Cuan e a deusa da misericórdia, mas não dispusessem das associações camponesas, poderiam porventura derrubar os déspotas locais c os maus nobres? Os deuses e as deusas são miseráveis objectos. Vocês veneraram-nos durante séculos e eles não derrubaram um só dos déspotas locais ou maus nobres em vosso benefício! Agora pretendem uma redução das rendas. Pois bem, eu pergunto: Como hão-de conseguir isso? Acreditam nos deuses ou acreditam nas associações camponesas?”.

Com as minhas palavras os camponeses desataram a rir às gargalhadas.

 

  1. Generalização da Propaganda Política

Acaso teria sido possível, mesmo se se tivessem aberto dez mil escolas de leis e política, estender em tão curto período de tempo uma educação política aos homens e às mulheres, aos velhos e aos novos, até aos mais longíquos recantos do país, como fizeram as associações camponesas? Penso que não. “Abaixo o imperialismo!”, “Abaixo os caudilhos militares!”, “Abaixo os funcionários corrompidos!”, “Abaixo os déspotas locais e os maus nobres!”, são palavras de ordem políticas que voaram mesmo sem asas e penetraram na juventude, na gente de meia-idade e nos velhos, bem como nas crianças e mulheres, de aldeias e mais aldeias; são palavras de ordem que lhes entraram na alma e lhes estão na ponta da língua. Basta, por exemplo, observar um grupo de crianças brincando. Se uma se zanga com outra, esbogalha os olhos, bate com o pé e cerra os punhos, ouve-se imediatamente o grito estridente de “Abaixo o imperialismo!”.

Na região de Siantan, quando as crianças que apascentam os bois brincam às guerras, uma faz de Tam Chem-tchi e outra, de Ie Cai-sin [20]; e quando uma é derrotada e foge, correndo a outra em perseguição, a que persegue faz de Tam Chem-tchi e a perseguida, de Ie Cai-sin. Quanto à canção intitulada “Abaixo as potências imperialistas!”, nem é necessário dizer que todas as crianças das cidades a sabem cantar e, presentemente, muitas crianças no campo também a cantam.

Alguns camponeses conhecem até de memória o testamento do Dr. Sun Yat-sen; e anotam certas expressões, como “Liberdade”, “Igualdade”, “Três Princípios do Povo”, “Tratados desiguais”, que, de maneira rígida, aplicam na sua vida diária. Quando, por um caminho, alguém que tenha o ar dum nobre encontra um camponês e se mostra altivo, recusando ceder passagem, este grita-lhe furioso:

“Eh! déspota local, mau nobre, será que tu não conheces os Três Princípios do Povo?”.

Antes, quando os camponeses das hortas dos arredores de Tchancha iam à cidade vender a respectiva produção, eram geralmente maltratados pela polícia; mas, agora, já descobriram uma arma, os Três Princípios do Povo. Se um polícia bate ou insulta um vendedor de hortaliças, o camponês riposta imediatamente, invocando os Três Princípios do Povo, o que paralisa o polícia. Aconteceu uma vez que, em Siantan, quando uma das associações camponesas de sub-distrito não podia entender-se com certa associação camponesa de circunscrição, o presidente desta última declarou:

“Opomo-nos aos tratados desiguais da associação camponesa de sub-distrito!”

A generalização da propaganda política através das regiões rurais é, integralmente, uma realização do Partido Comunista e das associações camponesas. Simples palavras de ordem, cartazes e discursos, conseguiram produzir um vasto e rápido efeito entre os camponeses, de tal maneira que todos estão como se tivessem passado por uma escola política. Segundo os relatórios dos camaradas empenhados no trabalho no campo, a propaganda política foi extensiva por ocasião das três grandes concentrações de massas — a manifestação contra a Inglaterra, a comemoração da Revolução de Outubro e as grandes celebrações da vitória da Expedição do Norte. Nessa altura, a propaganda política foi feita, em extensão, por toda a parte onde havia associações camponesas, mobilizando-se com grande eficácia todo o campo. Para futuro, há que cuidar por aproveitar todas as oportunidades de, gradualmente, enriquecer o conteúdo e esclarecer o significado dessas simples palavras de ordem.

9 Interdições Proclamadas Pelos Camponeses

Quando as associações camponesas dirigidas pelo Partido Comunista estabeleceram a sua autoridade nas zonas rurais, os camponeses começaram a proibir e a restringir tudo quanto não lhes parecesse bem. As cartas, os demais jogos de azar, o ópio, eis as três proibições mais estritas estabelecidas pelos camponeses.

Cartas. Onde as associações camponesas são fortes, o majongue, o dominó e o jogo das cartas foram completamente banidos.

A associação camponesa do XIV tu de Siansiam queimou dois cestos cheios de jogos de majongue.

Quem vai ao campo já não vê jogar um só desses jogos, e os que violam as proibições são punidos prontamente e sem qualquer indulgência.

Outros jogos de azar. Até mesmo os que, no passado, eram jogadores “inveterados” estão agora a lutar contra os jogos de azar. Esses vícios também foram eliminados nas regiões onde as associações camponesas são fortes.

Ópio. A proibição é rigorosíssima. Quando as associações camponesas ordenam a entrega dos cachimbos de ópio, ninguém ousa opor a mais pequena objecção. No distrito de Lilim, um dos maus nobres que não entregou os seus cachimbos foi detido e levado em desfile pelas aldeias.

Pelo seu rigor, a campanha feita pelos camponeses para “desarmar os fumadores de ópio” não causa menor impressão que a campanha do Exército da Expedição do Norte para desarmar as tropas de Vu Pei-fu e Suen Tchuan-fuam [21]. Muitos familiares, respeitáveis, dos oficiais do Exército Revolucionário, velhos viciados no ópio e inseparáveis dos seus cachimbos, foram “desarmados” pelos “imperadores” (expressão depreciativa com que os maus nobres designam os camponeses). E não foram apenas a cultura e o fumo do ópio que os “imperadores” baniram, pois proibiram também o respectivo transporte. Um grande carregamento de ópio que ia de Cueidjou para Quiansi, passando pelos distritos de Paotchim, Siansiam, Iucien e Lilim, foi interceptado e queimado mesmo na estrada. Tudo isso afecta os rendimentos do governo. Assim, tendo em vista as necessidades financeiras do Exército da Expedição do Norte, a Associação Camponesa Provincial ordenou às associações dos escalões mais baixos que “suspendessem temporariamente a proibição de transporte”. Fosse como fosse, isso chocou e desgostou os camponeses.

Além dos três citados, ainda há mais casos para os quais os camponeses estabeleceram proibições ou restrições. Por exemplo:

Huacu. Trata-se de representações teatrais indecentes; foi proibido em muitas regiões.

Palanquins. Em muitos distritos, especialmente em Siansiam, houve inclusivamente casos de destruição de palanquins. Como detestam profundamente as pessoas que se servem de palanquins, os camponeses estão sempre prontos a destruí-los, sendo as próprias associações camponesas que os impedem de chegar a tal ponto. Os homens das associações dizem aos camponeses: “Quando vocês quebram os palanquins, o que protegem é o dinheiro da gente rica, e fazem os carregadores perder o seu trabalho. Não será isso prejudicar a nossa própria gente?”. Compreendido o problema, os camponeses adoptam uma nova táctica — aumentam consideravelmente as tarifas exigidas pelos carregadores, para castigo da gente rica.

Fabrico de bebidas alcoólicas e de açúcar. O emprego de arroz para fabricar bebidas alcoólicas e açúcar foi proibido por toda a parte, o que provoca queixas constantes dos fabricantes. O fabrico de bebidas alcoólicas não foi proibido em Futiempu, distrito de Henxan, mas os preços foram fixados muito por baixo, de modo que os fabricantes, sem perspectivas de lucro, tiveram de abandonar a produção.

Porcos. Como os porcos se alimentam de arroz, foi limitado o número de cabeças por cada família.

Galinhas e patos. No distrito de Siansiam, a criação de galinhas e patos foi proibida, o que provoca objecções entre as mulheres. Em Iantan, distrito de Henxan, cada família só pode criar três cabeças e, no Futiempu, cinco. Em muitas regiões, a criação de patos foi totalmente proibida porque estes, além de se alimentarem de arroz não descascado, destroem as respectivas plantações, são mais prejudiciais que as galinhas.

Festins. Dum modo geral, os grandes festins foram proibidos. Em Chaoxan, distrito de Siantan, foi decidido que a recepção de convidados não deve exceder três pratos — galinha, peixe e porco. E está igualmente proibido servir rebentos de bambu, algas marinhas e aletria. No distrito de Henxan, foi estabelecido que nos banquetes não se servirão mais do que oito pratos. Apenas são permitidos cinco pratos no III sub-distrito oriental do distrito de Lilim, e três pratos de carne e três de legumes no II sub-distrito norte, estando absolutamente banidos os festins de Ano Novo Lunar no III sub-distrito ocidental. No distrito de Siansiam, estão proibidas as “festas do bolo do ovo”, festas que, aliás, não eram sumptuosas. Quando uma família do II tu do distrito de Siansiam deu uma “festa do bolo do ovo” por ocasião do casamento de um dos filhos, os camponeses, ante a violação da proibição, entraram-lhe pela casa adentro e acabaram com a festa. Na vila de Quiamo, distrito de Siansiam, a população abstem-se de consumir comidas caras e oferece apenas fruta nos sacrifícios aos antepassados.

Bovinos. O gado bovino constitui um tesouro para os camponeses. “Se matares um boi nesta vida, serás boi na próxima encarnação” tornou-se quase um preceito religioso; nunca se deve matar um boi. Antes da conquista do poder, os camponeses podiam valer-se dos preceitos religiosos para opor-se ao abate de bois, mas não tinham força real para bani-lo. Após a criação das associações camponesas, porém, a jurisdição destas estendeu-se também ao problema do gado bovino, proibindo-se o abate de bois nas cidades. Dos seis talhos da sede do distrito de Siantan, cinco foram encerrados e o que resta só abate os animais que sejam mais fracos ou impróprios para o trabalho. O abate de bois está totalmente proibido em todo o distrito de Henxan. Assim, uma vez que um boi, pertencente a um camponês, quebrou uma perna, o dono foi consultar a associação camponesa antes de decidir-se a matá-lo. Quando a Câmara de Comércio de Tchudjou matou, sem mais rodeios, uma vaca, os camponeses foram à cidade e exigiram explicações, vendo-se a Câmara obrigada a pagar uma multa e a estoirar foguetes em sinal de arrependimento.

Vagabundos. Uma resolução adoptada no distrito de Lilim proibiu que se pedissem esmolas cantando louvores ao som de tambores e gongos em honra do dono de cada casa, pela entrada da Primavera, ou que se esmolasse com louvores e toques de gongo e baquetas de bambu, ou ainda que se pedissem esmolas ao som de rimas cantadas e toques de baquetas de bambu. Há mais distritos onde se observa a mesma proibição e, noutros, essa mendicidade tem desaparecido naturalmente, ninguém mais mendiga assim. Os “mendigos-ladrões”, os “vagabundos” muito agressivos, já não têm outra saída senão a submissão às associações camponesas. Em Chaoxan, distrito de Siantan, os vagabundos costumavam utilizar o templo do deus da chuva como refúgio regular e não temiam fosse quem fosse, mas desapareceram desde que se formaram as associações camponesas. No distrito de Siantan, a associação camponesa de circunscrição de Huti prendeu três desses vagabundos e obrigou-os a trabalhar no transporte de argila para as olarias. Também se adoptaram resoluções proibindo os maus costumes relacionados com as visitas de Ano Novo Lunar.

Além dessas, foram estabelecidas muitas outras proibições, menores, em várias regiões, por exemplo as proibições de Lilim, que baniram as procissões de queima de incenso para apaziguar o deus da peste, a compra de produtos típicos do sul e guloseimas para oferendas rituais, a queima de fatiotas de papel durante a festa das almas e a colagem de postais de boa-sorte pelo Ano Novo Lunar. Em Cuchuei, distrito de Siansiam, estabeleceu-se até uma interdição de fumar cachimbos de água. No II tu, os foguetes e os petardos de três bocas para as cerimónias foram proibidos, havendo multas de um yuan e dois jiao para o primeiro caso e dois yuan e quatro jiao para o segundo. Estão proibidos os ritos religiosos nos VII, e XX tu e, no XVIII tu, proibiram-se as oferendas aos mortos. Coisas como estas, impossíveis aliás de enumerar, podem designar-se pela expressão geral de interdições camponesas.

As interdições são de grande significado em dois aspectos. Primeiro, representam uma insurgeição contra os maus hábitos sociais, como o jogo de cartas, os demais jogos de azar, o ópio. Esses costumes têm a sua origem nos meios políticos corrompidos da classe dos senhores de terras, e desaparecem quando o poder destes é eliminado. Segundo, são uma forma de auto-defesa contra a exploração realizada pelos comerciantes urbanos. É o que sucede com relação à interdição de festins e compra de produtos típicos do sul e guloseimas para oferendas rituais. Os artigos de origem industrial são muito caros, os produtos da agricultura são extremamente baratos, os camponeses estão empobrecidos e são explorados cruelmente pelos comerciantes, essa a razão por que não podem deixar de encorajar a frugalidade como medida de auto-protecção. Quanto à interdição, atrás mencionada, da saída de arroz, explica-se como uma medida destinada a evitar a alta dos preços, pois os camponeses pobres não dispõem do suficiente para alimentar-se e têm que comprar no mercado. A causa de tudo está na pobreza dos camponeses e nas contradições existentes entre a cidade e o campo; não se trata portanto duma questão de rejeitar a produção da indústria ou de rejeitar o comércio entre as cidades e o campo, em defesa da chamada teoria da cultura oriental [22]. Para se protegerem economicamente, os camponeses precisam de organizar cooperativas de consumo para a compra em comum dos artigos. Também é necessário que o governo ajude as associações camponesas a estabelecer cooperativas de crédito (empréstimo). Se isso se fizer, os camponeses acharão naturalmente desnecessário proibir a fuga do arroz como medida para manter baixos os preços, tanto como deixarão de impedir a entrada de certos produtos da indústria como medida de auto-protecção económica.

‍‍

10 Eliminação do Banditismo

Em minha opinião, nenhum governante, em nenhuma dinastia, desde os imperadores Iu, Táin, Ven e Vu aos imperadores Tsim e aos presidentes da república, conseguiu mostrar-se tão possante na eliminação do banditismo como as associações camponesas hoje em dia. Onde quer que estas sejam poderosas, não há o mais pequeno sinal de banditismo. O que mais surpreende é o facto de, em muitos lugares, ter até desaparecido o roubo de legumes. Em certos pontos, porém, ainda há alguns ladrões. Nos distritos que visitei, incluindo os que antes estavam infestados de bandidos, já não havia nem rasto disso. A razão é a seguinte: primeiro, os membros das associações camponesas estão em toda a parte, nos montes e nos vales, armados de lanças e mocas e prontos a entrar imediatamente em acção, às centenas, de tal maneira que os bandidos não têm onde esconder-se. Segundo, desde a eclosão do movimento camponês, o preço do arroz baixou, era a seis yuan o dan na última Primavera, e passou a dois yuan no Inverno passado; o problema da alimentação do povo já não é tão grave como antes. Terceiro, os membros das sociedades secretas [23] aderiram às associações camponesas, podendo, do interior destas, desempenhar aberta e legalmente o seu papel de heróis e vingar as ofensas recebidas, não havendo assim mais razões para a existência de organizações secretas como a “montanha”, o “templo”, o “incenso” e a “água” [24]. Ao matarem os porcos e carneiros dos déspotas locais e dos maus nobres, ao imporem-lhes pesadas taxas e multas, eles têm bastantes oportunidades para concretizar a sua cólera contra a classe dos déspotas locais e maus nobres que os oprimia. Quarto, os exércitos recrutam grandes levas de soldados, tendo-se incorporado muitos dos “fora-da-lei”. O flagelo do banditismo terminou pois com a eclosão do movimento camponês. Nesse domínio, até os nobres e a gente abastada têm aprovado as associações camponesas. O seu comentário é este:

“Associações camponesas? Falando francamente, nem tudo nelas é mau”.

Ao proibirem o jogo das cartas, os demais jogos de azar e o ópio, bem como ao eliminarem o banditismo, as associações camponesas conquistaram a aprovação geral.

11 Abolição das Taxas Exorbitantes

Enquanto o país não estiver unificado e as forças dos imperialistas e dos caudilhos militares não forem liquidadas, será impossível remover as pesadas cargas que representam as taxas e as contribuições, quer dizer, os fornecimentos ao Exército Revolucionário, impostos aos camponeses pelo governo. Contudo, as contribuições exorbitantes impostas aos camponeses quando os déspotas locais e os maus nobres dominavam a administração rural, por exemplo, as sobrecargas em cada mu de terra, têm sido abolidas, ou pelo menos reduzidas com a eclosão do movimento camponês e a queda dos déspotas locais e dos maus nobres. Isso também deve ser registado como uma das realizações das associações camponesas.

12 Movimento Cultural

Na China, a cultura tem sido, desde sempre, um privilégio dos senhores de terras, não havendo para os camponeses qualquer acesso a ela. Não obstante, essa cultura dos senhores de terras deve-se aos camponeses, pois ela tem como ponto de partida o suor e o sangue destes. Na China, noventa por cento da população não tem acesso à cultura e não recebe qualquer espécie de instrução, acontecendo que, desse número, os camponeses formam a imensa maioria. O movimento cultural dos camponeses iniciou-se assim que o poder dos senhores de terras foi derrubado no campo. Vejam como os camponeses, que antes detestavam a escola, são agora tão zelosos em criar cursos noturnos! Os camponeses nunca gostaram das “escolas de tipo estrangeiro”. Nos meus tempos de estudante, quando regressava ao campo e via os camponeses contra as “escolas de tipo estrangeiro”, também me pronunciava como os “estudantes e professores de tipo estrangeiro” e punha-me do lado de tais escolas, ficando sempre com a impressão de que os camponeses estavam, de certo modo, enganados. Só em 1925 é que, ao viver seis meses no campo, e sendo já então membro do Partido Comunista, detentor dum ponto de vista marxista, compreendi o quanto estava eu errado e os camponeses certos. Os textos usados nas escolas primárias rurais tratavam exclusivamente de realidades urbanas e não se harmonizavam com as necessidades do campo. Além disso, a atitude dos professores das escolas primárias frente aos camponeses era muito má, não ajudavam os camponeses, pelo contrário, tinham-se transformado em gente detestada por estes. Daí que os camponeses preferissem as escolas de tipo-antigo (“cursos chineses”, assim é que eles as designavam) às escolas modernas (chamadas por eles “cursos estrangeiros”), e os professores das escolas de tipo-antigo aos professores das escolas primárias modernas. Actualmente, os camponeses estão a criar por toda a parte cursos noturnos, a que chamam escolas camponesas. Algumas escolas já abriram, outras estão em vias de organização, havendo em média uma escola por cada circunscrição. Os camponeses estão muito entusiasmados com a criação de tais escolas e vêem-nas, só a elas, como as suas próprias escolas. As verbas para os cursos noturnos saem dos fundos públicos da superstição, dos fundos dos templos dos antepassados e doutros fundos ou propriedades públicas não afectados. Os birôs de educação do distrito pretendem empregar esse dinheiro na criação de escolas primárias, quer dizer, “escolas de tipo estrangeiro”, inadequadas às necessidades dos camponeses, enquanto que estes querem usá-lo para escolas camponesas, disputa de que resulta terem, uns como os outros, conseguido certas quantias. Há lugares onde os camponeses conseguiram a totalidade desse dinheiro. O desenvolvimento do movimento camponês tem redundado numa rápida elevação do nível cultural dos camponeses. Não vem longe o momento em que dezenas de milhares de escolas surgirão por todas as aldeias da província, o que difere em absoluto do palavreado vazio que os intelectuais e os chamados “educadores” têm estado a propalar por todos os cantos sobre a “educação universal”, e que, no fim de contas, não é mais do que pura frase sem conteúdo.

13 Movimento Cooperativo

Os camponeses necessitam realmente de cooperativas, sobretudo de cooperativas de consumo, de revenda e de crédito. Eles sofrem uma exploração por parte dos comerciantes sempre que compram no mercado; são roubados por estes quando vendem a sua produção agrícola e são depenados cruelmente pelos usurários sempre que pedem um empréstimo de dinheiro ou de arroz. É essa a razão que faz com que eles estejam tão vivamente interessados em encontrar uma solução para esses três problemas. No Inverno passado, quando, em virtude das operações no vale do Yangtsé, as estradas comerciais ficaram cortadas e o sal encareceu bastante no Hunan, muitos dos camponeses organizaram cooperativas de compra de sal. Assim que os senhores de terras cessaram deliberadamente os empréstimos, em muitos pontos houve tentativas dos camponeses no sentido de organizarem agências de crédito para satisfazer as suas necessidades de dinheiro. Um problema grave é a falta de regras de organização detalhadas e gerais. Como, frequentemente, essas cooperativas organizadas de modo espontâneo pelos camponeses não se conformam com os princípios próprios às cooperativas, os camaradas que trabalham entre os camponeses reclamam com insistência um “estatuto”. Com uma orientação adequada, o movimento cooperativo pode genera-lizar-se por toda a parte, à medida que se forem desenvolvendo as associações camponesas.

 ‍

14 Repraração de Estradas, Reservatórios e Diques

Aqui também se trata duma realização das associações camponesas. Antes da formação das associações camponesas as estradas no campo eram horríveis. Como não podiam ser reparadas sem dinheiro e os ricos não queriam abrir a bolsa, as estradas eram deixadas em mau estado. Qualquer trabalho que porventura se fizesse nesse domínio era tido como um acto de caridade; umas quantas moedas eram recolhidas dentre as famílias “desejosas de ganhar méritos para a outra vida”, e construía-se então uma estrada, má e estreita. Com a criação das associações camponesas foram dadas ordens especificando a largura requerida — três, cinco, sete chis ou um chiam, segundo as exigências de cada estrada — e cada senhor de terras que more ao longo da berma da estrada está responsabilizado pela reparação do respectivo sector. E quem iria então desobedecer às ordens uma vez dadas? Em muito pouco tempo, surgiram várias estradas muito boas. Aí não se trata mais de actos de caridade, mas sim de compulsão, e as pequenas compulsões desse tipo não são de modo algum coisa má. O mesmo é verdadeiro com respeito aos reservatórios e diques. Os senhores de terras eram cruéis e estavam sempre prontos a arrancar o que pudessem dos arrendatários, jamais se dispondo a gastar um só centavo com a reparação dos reservatórios e diques. Como apenas se preocupavam com a renda, eles podiam até deixar secar os reservatórios e morrer de fome os rendeiros. Agora que existem associações camponesas, é possível ordenar sem rodeios aos senhores de terras que reparem os reservatórios e os diques. Quando algum dos senhores de terras se recusa, as associações camponesas dizem-lhe com cortesia: “Muito bem! Você não faz a reparação, mas então tem que contribuir com um dou de arroz por cada dia de trabalho!”. Como isso seria um mau negócio para o senhor de terras, este apressa-se a fazer as reparações. Como resultado, muitos reservatórios e diques já em desuso voltaram a ser postos em bom funcionamento.

As quatorze conquistas atrás enumeradas foram todas realizadas pelos camponeses sob a direcção das associações camponesas. Poderá o leitor pensar nelas e dizer que há uma má na sua essência ou significado revolucionário? Quanto a mim, os que as qualificam como más não são outros senão os déspotas locais e os maus nobres. O que é bastante curioso, segundo informação vinda de Nantcham [25], é o facto de Tchiang Kai-chek, Tcham Tsim-quiam [26] e outros senhores da mesma espécie, não aprovarem a acção dos camponeses do Hunan. Essa opinião é partilhada por Liu Iué-chi [27] e outros líderes da direita, em Hunan, que dizem: “Eles passaram a ser pura e simplesmente vermelhos!”. Sim, mas onde estaria a revolução nacional sem essa ponta de vermelho? Falar diariamente em “despertar as massas populares” e morrer de medo quando estas se levantam, acaso diferirá do amor do lorde Ie pelos dragões? [28]


[*] O presente artigo foi escrito como resposta às acusações que, tanto dentro como fora do Partido, se faziam na época à luta revolucionária dos camponeses. O camarada Mao Tsetung passou trinta e dois dias em investigação pela província de Hunan, e preparou o referido relatório para responder a tais acusações. Dentro do Partido, os oportunistas de direita, encabeçados por Tchen Tu-siu, recusaram-se a aceitar os pontos de vista do camarada Mao Tsetung e persistiram nas ideias erradas que defendiam. O erro principal dos oportunistas residia no facto de, amedrontados pela corrente reaccionária no Kuomintang, não ousarem apoiar as grandes lutas revolucionárias das massas camponesas, lutas já em curso, umas, e outras prestes a estalar. Para apaziguar o Kuomintang, eles preferiam abandonar o campesinato, o aliado principal na revolução, deixando assim isolados e sem ajuda a classe operária e o Partido Comunista da China. Foi sobretudo por poder explorar essa fraqueza existente no próprio seio do Partido Comunista que o Kuomintang ousou trair a revolução, desencadear a “depuração do partido” e fazer a guerra contra o povo, no Verão de 1927.

[2] A província de Hunan era, na altura, o centro do movimento camponês na China.

[3] Na época, Tchao Hen-ti era governador do Hunan e agente dos caudilhos militares do Norte. Em 1926 foi derrubado pelo Exército da Expedição do Norte.

[4] A Revolução de 1911 foi a revolução que derrubou a dinastia despótica dos Tsim. No dia 10 de Outubro de 1911, impulsionada pelas organizações revolucionárias burguesas e pequeno-burguesas, uma parte do Novo Exército passou à rebelião, em Vutcham, no que não tardou a ser seguida por outros levantamentos em várias províncias. A dominação dos Tsim desmorónou-se rapidamente. No dia 1 de Janeiro de 1912 formou-se, em Nanquim, o Governo Provisório da República da China, sendo Sun Yat-sen eleito Presidente Provisório. A vitória da revolução deveu-se à aliança estabelecida entre a burguesia, por um lado, e os camponeses, operários e pequena burguesia urbana, por outro. Contudo, como o bloco dirigente da revolução era de tendência conciliadora, não satisfazia os interesses reais dos camponeses e ajoelhava-se ante a pressão das forças imperialistas e feudais, o poder acabou por cair nas mãos de Iuan Chi-cai, caudilho militar do Norte, do que resultou a derrota da revolução.

[5] O velho ditado chinês, “entortar no acto de endireitar”, significa que na correcção dos erros foram ultrapassados os justos limites e era frequentes vezes invocado como um freio para restringir a acção. Apenas se permitiam as reformas que se mantivessem dentro dos limites da ordem estabelecida, proibindo-se as acções que visassem a destruição completa da velha ordem. Olhavam-se como um “endireitar” todas as acções que se mantivessem dentro daqueles limites, e descre-viam-se como “entortar” todas as que visassem a destruição integral da velha ordem. Essa era também a teoria dos reformistas e oportunistas no seio das filas revolucionárias. O camarada Mao Tsetung refutou esse tipo de pensamento reformista. A observação, no texto, segundo a qual “endireitar implica entortar, sem entortar não é possível endireitar”, significa que, para acabar com a velha ordem feudal, devem adoptar-se métodos revolucionários de massas e não métodos revisionistas — métodos reformistas.

[6] No Inverno de 1926 e na Primavera de 1927, enquanto o Exército da Expedição do Norte fazia a sua marcha sobre o vale do Yangtsé, Tchiang Kai-chek não se tinha ainda revelado de todo como contra-revolucionário e as massas camponesas julgavam-no do lado da revolução. Como os senhores de terras e os camponeses ricos estivessem descontentes, espalharam o boato de que o Exército da Expedição do Norte sofrera derrotas e Tchiang Kai-chek ficara ferido numa perna. Tchiang Kai-chek acabou por revelar-se um completo contra-revolucionário com a realização do golpe de Estado de 12 de Abril de 1927, em Xangai e outros lugares, massacrando os operários, reprimindo os camponeses e atacando o Partido Comunista. A partir de então, os senhores de terras e os camponeses ricos mudaram de atitude e começaram a apoiá-lo.

[7] Cuantum foi a primeira base revolucionária no período da Primeira Guerra Civil Revolucionária (1924-1927).

[8] Vu Pei-fu era um dos mais conhecidos caudilhos militares do Norte. Como Tsao Cun, famoso pela sua eleição à presidência da república, em 1923, graças à prática do suborno, Vu Pei-fu pertencia à camarilha de Tchili (Hopei) dos caudilhos militares do Norte. Apoiou a ascensão de Tsao à chefia dessa camarilha, sendo os dois geralmente designados por “Tsao-Vu”. Em 1920, depois de ter derrotado Tuan Tchi-juei, caudilho militar da camarilha de Anghuei, Vu Pei-fu passou a controlar o governo dos caudilhos militares do Norte, como agente dos imperialistas anglo-norte-americanos. Foi ele quem ordenou o massacre dos operários em greve ao longo da via férrea Pequim-Hancou, em 7 de Fevereiro de 1923. Foi derrotado em 1924, numa guerra contra Tcham Tsuo-lin (guerra geralmente conhecida por “guerra entre as camarilhas de Tchili e Fentien”), perdendo assim o poder em Pequim. Em 1926, como juntasse as suas forças às de Tcham Tsuo-lin, a instigações dos imperialistas japoneses e ingleses, regressou ao poder. Quando, a partir do Cuantum, o Exército da Expedição do Norte avançou para o Norte, em 1926, ele foi o primeiro inimigo a ser derrubado.

[9] Os Três Princípios do Povo são os princípios e o programa formulados por Sun Yat-sen para a revolução democrática burguesa na China, relativamente aos problemas do nacionalismo, democracia e bem-estar do povo. Em 1924, no “Manifesto do I Congresso Nacional do Kuomintang”, Sun Yat-sen deu uma nova explicação sobre os Três Princípios do Povo, interpretando o nacionalismo como oposição ao imperialismo, e expressando um apoio activo aos movimentos dos operários e camponeses. Os velhos Três Princípios do Povo, desenvolvidos assim em novos Três Princípios do Povo, constituem as três grandes políticas, quer dizer, aliança com a Rússia, aliança com o Partido Comunista e ajuda aos camponeses e operários. Os novos Três Princípios do Povo ofereciam uma base política de cooperação entre o Partido Comunista da China e o Kuomintang, no período da Primeira Guerra Civil Revolucionária. Ver “Sobre a Democracia Nova”, secção 10, Obras Escolhidas de Mao Tsetung, Tomo II.

[10] O Os camponeses ricos não deviam ser aceites nas associações camponesas. Esse era um ponto que as massas camponesas não compreendiam ainda em 1927.

[11] A expressão “os que nada têm”, usada pelo camarada Mao Tsetung, abrange o assalariado agrícola (proletariado rural) e o lumpen-proletariado rural.

[12] Trata-se do semi-proletariado rural.

[13] Iuan Tsu-mim era um caudilho militar da província de Cueidjou que controlava o oeste do Hunan.

[14] No Hunan, os tu e os tuan correspondiam, respectivamente, aos sub-distritos e às circunscrições. Os velhos órgãos administrativos dos tu e tuan eram instrumentos da dominação dos senhores de terras sobre os camponeses.

[15] A contribuição por mu de terra era uma carga para além dos impostos regulares sobre a terra, extorquida ferozmente aos camponeses pelo regime dos déspotas e nobres.

[16] No regime dos caudilhos militares do Norte, o chefe militar de cada província tinha a designação de “governador militar”. Era praticamente o ditador na província, dispondo tanto de poder militar como político. Em conexão com os imperialistas, cada governador mantinha um regime feudal-militar independente na sua província.

[17] As unidades permanentes de milícias de casa-a-casa eram uma das instituições armadas no campo. A expressão “de casa-a-casa” vinha-lhes do facto de quase todas as famílias serem obrigadas a participar nelas. Em várias localidades, depois da derrota da revolução em 1927, essas milícias passaram a ser controladas pelos senhores de terras, transformando-se numa instituição armada da contra-revolução.

[18] Dentre os quartéis generais kuomintanistas de distrito, dirigidos nessa época pelo Comité Executivo Central do Kuomintang, em Vuhan, muitos observavam as três grandes políticas do Dr. Sun Yat-sen — aliança com a Rússia, aliança com o Partido Comunista e ajuda aos camponeses e operários — e eram órgãos da aliança revolucionária entre os comunistas, ala esquerda do Kuomintang e outros elementos revolucionários.

[19] A expressão é extraída de Meneio. Significa que, ao ensinarem a sua arte, os mestres de tiro ao arco vergam o arco sem disparar a flecha, muito embora dêm a impressão de que a vão deixar partir no segundo seguinte. O autor serve-se dessa expressão para mostrar que os comunistas devem sobretudo orientar os camponeses de modo que atinjam uma plena consciência política, deixando depois que, por iniciativa própria, voluntariamente, estes liquidem as superstições e demais práticas prejudiciais, mas nunca dar-lhes ordens ou fazer as coisas em seu lugar.

[20] Tam Chem-tchi era um general que se colocou do lado da revolução, participando na Expedição do Norte. Ie Cai-sin era um general partidário dos caudilhos militares do Norte que combateu a revolução.

[21] Suen Tchuan-fuam era um caudilho militar cujo jugo abrangia as cinco províncias do Sudeste da China. Foi o responsável pela repressão sangrenta das insurreições operárias de Xangai. O seu exército principal foi esmagado, no Inverno de 1926, pelo Exército da Expedição do Norte, em Nantcham e Quiouquiam, província de Quiansi.

[22] A “cultura oriental” era uma teoria que se contentava com a preservação do método atrasado de produção agrícola e da cultura feudal do Oriente, afastando a cultura científica moderna.

[23] San-ho-huei, Quclaohuei, Tataohuei, Tsailihuei, Tchimpam, eram sociedades secretas» primitivas, com ramos entre a massa da população. No fundamental, essas organizações congregavam camponeses arruinados, artesãos desempregados e elementos do lumpen-proletariado. Na época feudal, o que aglutinava todos esses elementos era, muitas vezes, um preconceito religioso. Essas sociedades, que se designavam por diversos nomes, regiam-se por uma forma de organização patriarcal. Algumas possuíam armas. Os seus membros esforçavam-se por assegurar-se ajuda mútua nas diferentes circunstâncias da vida e, em certos momentos, serviam-se das sociedades para organizar lutas contra os opressores, burocratas e senhores de terras. Como é evidente, o pertencer a essas organizações de carácter retrógrado não podia constituir uma saída para os camponeses e artesões. Acontecia até que, com frequência, os senhores de terras e os demais tiranos estabeleciam sem dificuldades um controle sobre elas, utilizando-as para fins egoístas. Além disso, notava-se nessa sociedades uma tendência à destruição cega, razão por que algumas se transformaram numa força reaccionária. Em 1927, por ocasião do seu golpe de Estado contra-revolucionário, Tchiang Kai-chek utilizou essas organizações retrógradas como um instrumento para destruir a unidade do povo trabalhador e abater a revolução. Desde que começou a verificar-se uma expansão poderosa das forças do proletariado industrial moderno, os camponeses, sob a direcção da classe operária, criaram a pouco e pouco organizações inteiramente novas, que lhes eram próprias. Desde então, a existência das tais organizações primitivas e retrógradas perdeu todo e qualquer sentido.

[24] “Montanha”, “templo”, “incenso” e “água”, eram nomes usados por certas seitas entre as sociedades secretas primitivas.

[25] Quando Nantcham foi tomada pelo Exército da Expedição do Norte, em Novembro de 1926, Tchiang Kai-chek aproveitou a ocasião para estabelecer ali o seu quartel general. Ele reuniu à sua volta os membros da ala direita do Kuomintang, bem como um certo número de políticos dentre os caudilhos militares do Norte, e, em conivência com os imperialistas, arquitectou uma conspiração contra-revolucionária contra o Vuhan revolucionário de então. Finalmente, a 12 de Abril de 1927, deu um golpe de Estado contra-revolucionário assinalado por enormes massacres em Xangai.

[26] Tcham Tsim-quiam, um cabecilha da ala direita do Kuomintang, era, na altura, concelheiro de Tchiang Kai-chek.

[27] Na época, Liu Iué-chi era o cabecilha da “Sociedade de Esquerda”, um importante grupo anti-comunista no Hunan.

[28] De acordo com o que se narra em Sinsiu, obra escrita por Liu Siam na dinastia Han, lorde Ie era tão apaixonado por dragões que tinha as suas armas, objectos pessoais e palácio inteiramente adornados com desenhos e pinturas representando dragões. Mas quando, ao saber disso, um dragão desceu do céu, mostrou a cabeça por uma janela e serpenteou a cauda pelo salão de lorde Ie, este empalideceu, fugiu de medo e perdeu os sentidos. Donde se vê que o amor de lorde Ie não era pelos dragões, mas, sim pelas coisas que se assemelhavam aos dragões. No texto, o camarada Mao Tsetung usa essa metáfora para mostrar que, embora Tchiang Kai-chek e os seus pares falassem sobre a revolução, na realidade tinham-lhe medo e opunham-se a ela.