A recente resistência dos Metalúrgicos da GM no Brasil e suas lições para a luta operária

Cem Flores

Assembleia metalúrgica com paralisação na GM de São Caetano do Sul, 1º fevereiro, rejeitando ataques da empresa.

A multinacional norte-americana GM enfrenta graves problemas nos últimos anos. Começando pela crise de 2008 – quando foi socorrida pelo “liberal” Estado dos EUA com aproximadamente US$50 bilhões[i]–, passando pelas dificuldades em concorrer com rivais asiáticas pelo mundo, e por reestruturações constantes. No final do ano passado, a empresa anunciou mais uma enorme reestruturação mundial, objetivando, é claro, recuperar suas margens de lucro. Unidades produtivas inteiras e pelo menos 15% dos funcionários ficaram, desde então, na mira.

Eis que, no início de 2019, a chantagem contra os trabalhadores se torna mais concreta, incluindo a América do Sul e o Brasil, onde a empresa possui plantas em Gravataí (RS), São Caetano do Sul (SP), São José dos Campos (SP) e Joinville (SC). “Não vamos continuar investindo para perder dinheiro”, disse a presidente global Mary Barra, enquanto anunciava os lucros bilionários de US$2,5 bilhões apenas no terceiro trimestre de 2018, sobretudo provindos do mercado norte-americano. Quanto ao Brasil, “novos investimentos dependerão de um doloroso plano para retornar aos lucros no país”. “Um crítico momento que requer sacrifícios para todos“, disse depois Carlos Zarlenga[ii], presidente da região Mercosul, supostamente responsável por prejuízos da empresa nos últimos anos. Para ele, a GM precisa do “apoio do governo, concessionários, empregados, sindicatos e fornecedores[iii],[iv].

Para bom entendedor, meia palavra basta: o capital para ampliar seus lucros, sempre exige do trabalhador mais e mais sacrifícios, assim como de seu Estado, mais e mais subserviência (na forma de subsídios, isenções tributárias, crédito barato ou mesmo empréstimos a fundo perdido – “doações” – conforme o caso). 

Já temos visto nos noticiários as negociações entre a GM, as concessionárias e o Estado brasileiro, que ainda se prolonga (evento recente: Meirelles oferecendo incentivo fiscal em SP[v]).

Mas nosso objetivo aqui é apresentar e analisar a repercussão e reação dos trabalhadores e dos sindicatos em questão. 

Após as ameaças e chantagens da GM no Brasil, Aparecido Inácio da Silva, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul, disse: “ainda não temos como nos manifestar concretamente, porque fomos pegos de surpresa, mas entre os trabalhadores o sentimento geral é de uma justificativa para tirar direitos[vi]. Sentimento geral que corresponde à experiência vivida nos últimos anos nas montadoras, onde as conquistas foram e continuam sendo destruídas em chantagens envolvendo o meio de subsistência dos operários, fantasiadas de cínicos pedidos de “sacrifícios” a eles, os mais e únicos sacrificados de sempre. 

Ora, aqui no Cem Flores acompanhamos de perto, no ano de 2015, e publicamos matérias sobre os Acordos Coletivos Especiais, o Programa de Proteção ao (des)Emprego[vii], PDVs, as lutas na Volks[viii] e a resistência na Mercedes-Benz[ix] e outros episódios que configuraram uma forte ofensiva das montadoras – unidas enquanto classe – contra os trabalhadores, que encontraram dificuldades em resistir e reagir, esbarrando nos limites de seus sindicatos e organizações, assim como do contexto difícil de crise (alto desemprego, etc.).

Anos depois, o capital, agora personificado na GM, exige mais uma rodada de sacrifício para a (sempre provisória e sob condições rebaixadas) “manutenção dos empregos”. Em SP, uma lista de 28 ataques foi apresentada, incluindo o fim da estabilidade de emprego de acidentados em razão de trabalho, fim do fretado, jornada intermitente, terceirização de setores, 44 horas de trabalho semanais e a redução do piso salarial de R$ 1.700 para R$ 1.600 em novas admissões, dentre outros absurdos[x]. Inicialmente, a postura do sindicato de São Caetano do Sul foi de resistência: “os trabalhadores já estão arrochados, trabalhando muito e com salários menores. Da parte dos trabalhadores não há muito o que ceder: não podemos perder direitos”. 

Essa também foi a postura da categoria nessa cidade, que, em paralisação de uma hora e meia, em 1º de fevereiro, aos milhares votaram por não renegociar o Acordo Coletivo, válido até 2021. 

A postura de enfrentamento também se verificou em Gravataí, onde os trabalhadores paralisaram a produção por algumas horas, fecharam ruas na entrada da fábrica e conseguiram um recuo de uma lista de 21 ataques da empresa, que se comprometeu a cumprir o acordo em vigência.


Atos na entrada da GM, em Gravataí, 29 de janeiro e 1º de fevereiro.

Mas, dias depois, a empresa apresentou uma lista mais enxuta na GM em São José dos Campos, porém ainda profundamente danosa. E o sindicato resolveu apoiar, sendo acompanhado por ampla maioria da categoria. Em contrapartida, a empresa “prometeu” investir R$5 bilhões na planta.

Congelamento de salários neste ano, PLR pré-fixada para os próximos três anos, redução do piso salarial e fim da estabilidade para lesionados para futuras contratações, dentre outros ataques, constam no novo acordo. “Acordo horrível pra nós trabalhadores, um retrocesso. Nossa PLR foi cortada pela metade. O trabalhador só perdeu. A GM está com bilhões em caixa e os trabalhadores foram prejudicados. Acredito que os funcionários daqui serão todos dispensados“, disse sabiamente um trabalhador ao G1[xi].

A planta era uma das mais frágeis no ataque. E os trabalhadores são cientes disso. O sindicato, da CSP-Conlutas, buscou se safar com referências ao capitalismo e ao menos não tendo o cinismo de falar em “vitória” da categoria. Mas o fato é que o acordo significou um recuo, uma derrota nessa luta operária, pressionando as demais plantas a também recuarem.Assim como estimula outras montadoras e fábricas e ousarem ataques de tamanho análogo.

Longe de procurar “culpados”, os operários e os comunistas devem buscar compreender (para superar) os determinantes que levaram a esse recuo, após um ensaio de resistência e certos recuos temporários do inimigo. 

Tentamos, então, formular algumas lições que essas lutas dos operários da GM nos trouxeram: 

  • Em primeiro lugar, como destacamos, no contexto de crise, o peso do desemprego impacta negativamente no poder de barganha da força de trabalho. Situação muito bem aproveitada pelo capital[xii].
  • Em segundo lugar, o caso da GM é límpido em mostrar que a luta operária não pode se reduzir a uma fábrica. Nem mesmo reduzida apenas ao seu nível nacional. 
  • Os eventos da GM também nos mostram, mais uma vez, que a organização e linha sindical dos últimos anos em nosso país já estão podres e precisam ser superadas. A forte institucionalização sofrida pelos sindicatos trouxe um saldo de derrotas e desorganização da força real, que provém da mobilização no chão da fábrica. E isso diz respeito tanto às alas de “esquerda” ou de direita do movimento sindical.
  • O fato de trabalhadores e sindicatos terem sido surpreendidos, apontam, por sua vez, a necessidade de estudar mais o inimigo, prever seus passos, assim como pesquisar e testar formas de atuação nas fábricas “reestruturadas”, para além da lógica sindical apodrecida, visando retomar um real trabalho na base e nos locais de reprodução da força de trabalho (casa, lazer etc.).
  • Por fim, lembremos que as derrotas em curto prazo não podem desestimular nossa resistência. A luta sempre precisa continuar, buscando construir saldos políticos, lições. Muitos combates ainda virão esse ano. O acordo aprovado em breve será semente de mais revolta na fábrica, obrigando o trabalhador a se movimentar. Nenhum segundo de pessimismo!

Essa deve ser também a postura dos comunistas, que devem estimular as fagulhas de resistência, por menores que sejam. Devemos lembrar sempre que os operários têm muito mais poder juntos do que a chantagem patronal e sindical faz parecer. Na luta eles se descobrem um coletivo, onde os problemas individuais podem ser enfrentados com companheiros; onde o inimigo todo-poderoso se mostra um tigre de papel.

Só a luta pode trazer alguma esperança para a classe operária. Defender de fato e de forma permanente sua condição de vida, suas famílias, apenas com luta coletiva, atacando o inimigo, e não supostamente “dando as mãos” para ele. A mão deles só nos empurra, passo a passo, a não ter nada. Na América do Norte, responsável pela maioria dos lucros da GM, por exemplo, os trabalhadores receberam um singelo pacote de 4 mil demissões![xiii] Por isso, nada podemos temer.


[i]https://www.reuters.com/article/us-autos-gm-treasury-idUSBREA3T0MR20140430

[ii]https://www.reuters.com/article/us-gm-brazil/gm-warns-workers-in-brazil-on-losses-tough-turnaround-plan-idUSKCN1PD0L1

[iii]https://www.dci.com.br/economia/sob-press-o-gm-reune-prefeitos-e-sindicalistas-1.774127

[iv]https://www.detroitnews.com/story/business/autos/general-motors/2018/10/31/new-trucks-boost-gm-third-quarter-profit/1821634002/

[v]https://www.em.com.br/app/noticia/economia/2019/02/22/internas_economia,1032855/governo-de-sp-espera-ceo-global-da-gm-em-marco-para-anunciar-investime.shtml . A “negociação” ainda continua, mas indica, ao menos em São Paulo, um acordo de anos de duração em que não só a GM mas outras montadoras ganhariam ainda mais regalias.  

[vi]https://www.msn.com/pt-br/dinheiro/economia-e-negocios/amea%C3%A7a-da-gm-de-deixar-o-brasil-n%C3%A3o-passa-de-blefe-dizem-especialistas/ar-BBSy7vd

[vii]http://cemflores.org/index.php/2015/11/10/programa-de-protecao-ao-emprego-sic-caminho-para-novas-formas-de-exploracao-da-classe-operaria-com-o-apoio-da-cut-e-do-sindicato-dos-metalurgicos-do-abc/

[viii]http://cemflores.org/index.php/2015/02/16/a-luta-operaria-contra-a-exploracao-capitalista-e-o-sindicalismo-de-parceria-com-o-capital-e-o-governo/

[ix]http://cemflores.org/index.php/2015/07/07/e-os-operarios-disseram-nao/

[x]https://g1.globo.com/carros/noticia/2019/02/01/trabalhadores-apoiam-nao-negociar-novo-acordo-com-a-gm-de-sao-caetano.ghtml

[xi]https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2019/02/07/por-investimento-operarios-da-gm-em-sao-jose-aprovam-pacote-que-congela-salario-e-reduz-plr.ghtml

[xii]Para o capital a crise amplifica tanto a possibilidade de falência quanto a de crescimento (concentração e centralização do capital), mas também, fundamentalmente, a possibilidade de rebaixar seus gastos com a força de trabalho (capital variável).” http://cemflores.org/index.php/2015/07/07/e-os-operarios-disseram-nao/

[xiii]http://cspconlutas.org.br/2019/02/reestruturacao-mundial-da-gm-continua-e-empresa-anuncia-demissao-de-4-mil-trabalhadores-na-america-do-norte/

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