Cinquenta e cinco anos do golpe militar: resistimos e resistiremos.

Na luta é que a gente se encontra!

Carro alegórico da Mangueira, com Hildegard Angel como destaque, no carnaval de 2019. Hildegard é irmã do revolucionário Stuart Angel, do MR8, brutalmente torturado e assassinado pela ditadura.

Não pretendo nada,

nem flores, louvores,

triunfos.

Nada de nada.

Somente um protesto,

uma brecha no muro,

e fazer ecoar,

com voz surda que seja

e sem outro valor,

o que se esconde no peito,

no fundo da alma

de milhões de sufocados.

Algo por onde possa filtrar o pensamento,

a ideia que puseram no cárcere. 

Carlos Marighella, O país de uma nota só

Nesse dia 31 de março completam-se cinquenta e cinco anos do golpe militar que ocorreu em nosso país no ano de 1964. Golpe de Estado que, como dissemos em outra publicação, foi “promovido e financiado pelo fundamental da burguesia brasileira, com amplos estímulo da sua imprensa, apoio da classe média conservadora e suporte do imperialismo dos EUA”. 

Cabe a nós, comunistas e trabalhadores em geral, relembrar essa data no sentido contrário daqueles que foram recentemente às ruas pedir a volta da ditadura militar e hoje se animam diante do retorno de alguns de seus membros e seus filhotes às cadeiras centrais do Estado Capitalista brasileiro. Ou seja, relembrar a heroica luta popular que se desenvolveu durante os 21 anos que se sucederam ao golpe.Os governos militares da metade do século passado, em todo o Cone Sul, incluindo o Brasil, foram regimes despóticos e sanguinários das classes dominantes locais, em associação com as potências imperialistas. A exploração se elevou. O arrocho salarial e a violenta repressão a qualquer contestação, manifestação ou greve se tornou o normal. A censura e a guerra ideológica, cotidianas. Lideranças operárias, camponesas e das demais classes dominadas foram presas, torturadas, exiladas, eliminadas. Suas organizações, desmanteladas e postas na ilegalidade. Como continua e resume bem o poema que se encontra na epígrafe, do líder comunista Carlos Marighella:

A passagem subiu,

o leite acabou,

a criança morreu,

a carne sumiu,

o IPM[i]prendeu,

o DOPS[ii]torturou,

o deputado cedeu,

a linha dura vetou,

a censura proibiu,

o governo entregou,

o desemprego cresceu,

a carestia aumentou,

o Nordeste encolheu,

o país resvalou.


Tudo dó,

tudo dó,

tudo dó…

E em todo o país

repercute o tom

de uma nota só…

de uma nota só…

Porém, foi nessa “página infeliz da nossa história”, como diz a canção, que as classes dominadas, mesmo em condições tão adversas, resistiram. Em inúmeros momentos e situações, por todo o país e durante o longo período sombrio, vários dos membros dessas classes e suas organizações se portaram de forma honrosa e exemplar. 

Nos anos 60, 70 e 80, uma geração inteira de comunistas não fugiu de seu dever supremo: servir ao povo, à sua causa, independentemente dos riscos e consequências de tal decisão. O já citado Marighella, incansável comunista que enfrentou o Estado Novo e, com suas camaradas, tombou do lado certo da trincheira: o lado dos “milhões de sufocados”. A heroína Inês Etienne Romeu. E tantos outros guerreiros e mártires do povo, no campo e na cidade[iii].

Nesse sentido, o período da ditadura não deve significar para nós apenas perdas e derrotas. Há que se destacar tal período como de ousadia e grandeza; como de ações de grande envergadura na luta de classe dos dominados. E que ainda hoje e por muito tempo nos servirão de exemplo e inspiração. 

Até porque essa página não está no passado. Ela se repete. Assim como a ditadura militar foi mais uma investida de guerra das classes dominantes durante nossa história: dos senhores de escravo, dos latifundiários e enfim da burguesia. 

Como dissemos, novamente os militares e as camadas mais reacionárias da burguesia habitam os cargos de maior poder, planejando e executando uma nova onda de arrocho e brutalidade, sob o cínico pendão verde-amarelo. Eis que nossa tarefa não pode ser outra que não, novamente, resistir e enfrentar, sob qualquer regime político, a exploração e a dominação. Ou seja, lutar pelo socialismo.

Ao menos os fascistas, que hoje não se envergonham em se mostrar, tem razão em um ponto: os comunistas que lutaram na ditadura não defendiam a democracia burguesa. Certamente, lutaram por mais liberdade de organização da classe operária, melhores condições para esta desenvolver sua luta, pela supressão do regime de exceção em vigor, etc. Mas lutaram e não hesitaram em se sacrificar contra a ditatura da classe burguesa, seja ela sob vestes “democráticas” ou abertamente ditatoriais; pela derrota da classe inimiga, que só se efetivará com a construção de uma nova sociedade, a comunista.

A luta foi e continua a ser o nosso lugar. “Na luta é que a gente se encontra”, diz o samba-enredo da Mangueira desse ano. Por isso, ergamos nossos punhos e digamos: resistimos e resistiremos!


[i]Inquérito Policial Militar. 

[ii]Departamento de Ordem Política e Social. 

[iii]Nesse texto, pretendemos destacar sobretudo a memória e o sentido geral da resistência à ditadura. Para uma breve avaliação do golpe e autocrítica da atuação dos comunistas no período, ver o texto Cinquenta Anos Depois: os Comunistas e o Golpe de 1964, publicado pelo Cem Flores em 23 de abril de 2014. 


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