O Ventríloquo do Capital: Bolsonaro em meio às crises econômica e política

Cem Flores

Uma dupla crise, econômica e política, tem se reforçado mutuamente e se agravado nesses cinco primeiros meses de governo Bolsonaro. 

Seu primeiro aspecto é a economia, que desacelera fortemente desde o final de 2018 e agora entrou claramente em recessão, aumentando o desemprego e colocando em risco a tênue recuperação da taxa de lucro, conquistada após a recessão de 2014-16 e com o aumento da exploração da classe operária e demais classes dominadas. 

Some-se a isso a acirrada disputa entre frações das classes dominantes, das camadas médias e seus representantes políticos sobre os rumos do governo e da implementação do programa da burguesia, que tem gerado derrotas em projetos do governo e atrasos na tramitação das “reformas”, principalmente da previdência. Programa esse que continua a gerar oposição e resistência das classes dominadas, já odiosas do sistema político burguês e seu nítido papel de ampliar a exploração e opressão sobre elas.

Todos esses temas estão analisados em maior profundidade no novo livro do coletivo Cem Flores: “O Governo Bolsonaro: Ofensiva Burguesa e Resistência Proletária”, disponível aqui em versão digital. 

Essa conjugação de crises, além dos bilionários cortes na educação, contribuiu para impulsionar um reforço das manifestações de resistência nas ruas, como foram os enormes protestos dos dias 15 e 30 de maio no país inteiro. 

É nesse cenário que Bolsonaro tem sido forçado a diversos “recuos” de suas posições. Na disputa intra-burguesa, os representantes políticos buscam o enfraquecimento do Presidente para o reforço das suas próprias posições e poder na disputa política pela representação e lideranças dos interesses das classes dominantes.

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Na última quinta-feira, dia 30 de maio, o IBGE divulgou a redução do PIB no primeiro trimestre do governo, -0,2%, com quedas na agropecuária, na indústria de transformação, nos investimentos e nas exportações, piorando a estagnação (0,1%) do final do ano passado. No dia seguinte, soubemos que o desemprego na medida mais ampla do IBGE bateu o recorde histórico, chegando a 24,9% da força de trabalho ou 28,4 milhões de trabalhadores. Nesta semana, o IBGE informou que a produção industrial acumulou perda de 2,7% nos quatro primeiros meses de 2019 e o “mercado” reduziu sua projeção de crescimento pela 14ª semana seguida, agora para os mesmos raquíticos 1,1% de 2017 e 2018. E essas projeções têm tudo para continuar caindo… 

No cenário político, há vários exemplos recentes de disputas entre parlamentares e governo. É o caso da tramitação da MP de reestruturação dos Ministérios, na qual o Congresso derrotou a proposta de transferir o Coaf do Ministério da Economia para o da Justiça.Bolsonaro foi forçado a assinar, junto com Moro e Guedes, uma carta ao Congresso aceitando a derrota e pedindo para a MP ser aprovada de qualquer jeito. Também é o caso do Decreto presidencial liberando indiscriminadamente o porte de armas. Novamente, o Congresso se prepara para retalhar a proposta do Executivo

A essas derrotas somam-se os entraves parlamentares ao andamento das “reformas” que materializam o programa de classe burguês. Os últimos movimentos foram as propostas de substituir os textos propostos pelo governo por outros, de autoria dos próprios congressistas, tanto para a previdência quanto para a tributária

Todos esses fatos consistem na velha tática de “criar dificuldades para vender facilidades”, dada a convergência na defesa do programa da burguesia entre a bancada do Centrão e o governo Bolsonaro. Ou seja, não há contradição de fundo entre esses dois atores. Mas o fato é que a crise política dificulta/adia a implementação do programa da burguesia e ajuda a empurrar a economia para a recessão. 

E essas “dificuldades” parecem estar, de fato, se tornando “facilidades”. Diante das derrotas pontuais, porém sucessivas, Bolsonaro vai engolindo sua autoproclamada recusa a “negociações” e já propôs aos deputados que votarem com o governo uma “verba extra” de R$40 milhões. Se o “mensalão” era uma grana “por fora”, “não contabilizada”, trata-se, agora, de legalizá-lo! 

Esse cenário de crise econômica e confronto político levou a base de apoio do governo a uma manifestação de rua em 26 de maio. Muito menor que o protesto dos estudantes do dia 15 de maio, essa manifestação buscava reforçar a posição de Bolsonaro e de figuras chaves de seu governo (Moro e Guedes) e disputar os rumos do mesmo. Com um racha na direita que deixou de fora MBL, VPR e parlamentares governistas, como a própria líder do governo no Congresso, os manifestantes seguiram a linha de pedir o fechamento do Congressodo STF (ou CPI da Lava-Toga e o impeachment de ministros) e, no último momento, também a de apoiar as “reformas” do programa da burguesia. 

Sentindo-se reforçado pelas ruas após aquelas derrotas, Bolsonaro pretendeu liderar um “Pacto” entre os três poderes, a favor das “reformas”, contando com a subserviência de Dias Toffoli e com a “pressão popular” sobre os presidentes da Câmara e do Senado. A reunião de fato aconteceu, dois dias após a manifestação da direita. Seus resultados parecem não ter durado uma semana, pois no final da semana já circulava a proposta de limitar o poder da caneta de Bolsonarorestringindo a quantidade de MP a cinco por ano, além de críticas diversas no próprio STFassociações de juízes, etc.  

Outro sinal de enfraquecimento de Bolsonaro é sua nova relação com a grande imprensa. Criticada como parte do “establishment” com o qual ele visava romper e até mesmo tendo sobre ela lançada “a recriminação estigmatizante do comunismo” pelo seu lunático ministro da Educação, agora o governo busca a interlocução com a mídia para ajudar na aprovação das “reformas” na tentativa de dar algum gás ao governo com seus índices decrescentes de popularidade, até mesmo entre os ricos.

Primeiro veio a reunião do presidente com o executivo da Rede Globo, antes chamado de “inimigo”, e responsável pela demissão de um ministro palaciano em fevereiro, por ter marcado uma reunião com o mesmo executivo! 

Agora, a súbita atração pela revista Veja, que deu ao governo duas capas seguidas, a primeira para Guedes (edição de 29.05.2019) e a segunda para uma entrevista – com direito a choro – de Bolsonaro (edição de 05.06.2019). Ambos buscando bem desempenhar suas funções de ventríloquos do capital. 

Na entrevista, o presidente apela ao patriotismo (três vezes) para buscar apoio ao seu governo e diz que está sendo sabotado em meio a “uma luta pelo poder”. Admite que “sempre fui contra a reforma da previdência”, mas se converteu e chantageia com o caos (para ele representado pela Argentina e Venezuela) caso não se aprovem as “reformas”. Nada a estranhar nessa estratégia. Guedes, em sua entrevista uma semana antes, já havia ameaçado que “vai ser o caos”, que sem a reforma viraríamos primeiro a Argentina e depois a Venezuela, e, suprassumo da ameaça, “vou embora para casa”, “pego o avião e vou morar lá fora”. Se é por falta de adeus: tchau, Guedes! 

Não poderíamos deixar de constatar. Quase 20% da entrevista Bolsonaro dedica a se explicar das denúncias de corrupção de membros do seu governo (o “laranjal”) e do seu filho. “Se alguém mexe com um filho teu, não interessa se ele está certo ou está errado, você se preocupa”, disse sobre a investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro sobre os indícios de corrupção de Flávio “Queiróz” Bolsonaro

Somado a esse novo-velho teatro de horrores da política burguesa, há não só a continuidade de forte rejeição das classes dominadas ao sistema político burguês como um todo como também a retomada da resistência nas ruas contra o programa que o governo luta para aplicar. Retomada, inclusive, que forçou o governo e sua base social a tentarem dar uma resposta nas ruas, no dia 26 de maio.

O estopim das grandes manifestações dos dias 15 e 30 de maio pelo país, como sabemos, foram os cortes na educação superiorbásica. Os cortes pioram ainda mais a situação já precária de escolas, institutosuniversidades pelo país – e, com isso, as condições de vida e perspectiva das classes dominadas, fora as condições de trabalho dos professores e servidores. 

As manifestações extrapolaram o formato tradicional dos sindicatos pelegos, das demais organizações oportunistas e da “esquerda parlamentar” e se tornaram de fato uma luta de massas, para além dessas amarras institucionais. Estamos diante de um rico e poderoso momento da luta de massas que tem tudo para continuar e já surte efeitos (recuo de parte do corte) e provoca reação do inimigo de classe (ampliação da repressão contra professores e estudantes). 

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Todos os elementos da conjuntura atual sinalizam para um agravamento e reforço mútuo das crises econômica e política no país. A perda de popularidade e as seguidas crises do governo indicam um rápido enfraquecimento do governo Bolsonaro. 

Mas não nos iludamos com esses conflitos internos da burguesia. 

O enfraquecimento de Bolsonaro, se entendido como uma gradual movimentação de seu governo para “entrar no esquema”, pode muito bem representar – ainda que paradoxalmente – um reforço na capacidade dos representantes políticos das classes dominantes em aprovar os itens do programa da burguesia, a começar pela reforma da previdência, seguida da reforma tributária, do pacote repressivo da “licença para matar” de Moro, das privatizações, da carteira verde-amarela de trabalho, etc. 

A burguesia, mesmo com sua dominação em crise em meio a seus conflitos intestinos, jamais fará o papel que cabe às classes exploradas, principalmente à classe operária. 

Por isso as classes dominadas já estão na luta e nas ruas contra esse Ventríloquo do Capital desde o levante de mulheres no #EleNão no final do ano passado. Mas cabe ao proletariado, em conjunto com todas as classes dominadas, aprofundar a resistência à ofensiva do inimigo de classe, se organizar ainda mais e se fortalecer nessa luta. 

Eis a única saída para barrar a ofensiva burguesa desse governo contra nossas condições de vida. 

O presente é de luta! O futuro será nosso!

Os camaradas e leitores encontrarão uma análise mais detalhada das propostas de reforma da previdência e trabalhista de Bolsonaro/Guedes, do pacote repressivo de Moro, da ofensiva burguesa no campo educacional, do hipócrita patriotismo burguês de Bolsonaro, da crise econômica e da crise política, e da resistência contra tudo isso, no novo livro do coletivo Cem Flores: “O Governo Bolsonaro: Ofensiva Burguesa e Resistência Proletária”, disponível aqui em versão digital.