Discurso Sobre a Libertação Gay e Feminina, de Huey Newton

Cem Flores

Em 2017, 4.936 mulheres foram assassinadas no Brasil, sendo parte significativa desse número feminicídios (homicídio baseado na opressão do gênero feminino, normalmente vinculado à violência doméstica/familiar). Ainda em 2017, a cada 8 minutos ocorreu um estupro no país. Em 2016, houve mais de 400.000 ocorrências registradas de violência contra a mulher

O país é também um dos recordistas de violência contra os LGBT no mundo. Apenas recentemente a discriminação contra essa população se tornou crime, sob forte resistência dos setores conservadores e reacionários.  De acordo com o Grupo Gay Bahia, organização que há décadas compila estatísticas sobre o assunto, em 2018, a cada 20 minutos um LGBT morreu de forma violenta, vítima de LGBTfobia. As pessoas trans no país tendem a ter uma expectativa de vida de 35 anos de idade, enquanto a expectativa nacional é de 75 anos.

Ao comentar sobre os recentes dados sobre violência no Brasil, afirmamos: “essa extrema violência do capitalismo brasileiro tem profundas raízes históricas, especialmente na herança de três séculos e meio de escravidão e dos mais de cinco séculos de radical exclusão da população trabalhadora, negra, pobre.” Ora, são as mulheres e LGBTs trabalhadoras, das classes dominadas, um dos principais alvos dessa violenta opressão, fora a exploração da qual são também alvos. E, se o Estado burguês já não representava solução a esse problema, sendo na realidade parte dessa imensa violência de classe, com o atual governo, que analisamos em nosso livro digital, a tendência é de aprofundamento, de mais barbárie.

Sendo assim, os revolucionários brasileiros possuem uma urgente tarefa de se empenharem para romper com esse ciclo brutal; somar forças aos movimentos de massas que já lutam contra tal. Afinal, uma nova sociedade, a comunista, precisará abolir a exploração de classe, assim como todas as formas de discriminações (baseadas em raça, gênero, sexualidade etc.) que por séculos serviram como uma das bases para aquela exploração. 

Isso porque as opressões e discriminações das mais diversas origens (nação, raça, gênero etc.) sempre auxiliaram a exploração de classe, e mais especificamente a acumulação capitalista. Possibilitam o pagamento de salários menores para amplos setores da força de trabalho, ou mesmo o não pagamento do trabalho destes, como no caso das mulheres e seu trabalho doméstico. Mas não só. Tais opressões e discriminações também dividem os explorados entre si e geram conflitos em seu próprio seio. Sendo assim, são entraves à sua luta e à unidade política e ideológica; fortalecem as classes dominantes. Encontramos isso em todos os clássicos do marxismo-leninismo[i].

Vemos então o quão necessário é uma compreensão mais aprofundada dessas opressões, que permeiam inclusive as classes dominadas e as organizações revolucionárias.  

Aliás, essa não é uma discussão nova. Um exemplo disso é o discurso do revolucionário Huey Newton, liderança do Partido dos Panteras Negas[ii]. Do ano de 1970, o discurso visa intervir na conjuntura da luta de classes da época e nos levantes de movimentos de massas, incluso o movimento de mulheres e o iniciante movimento LGBT. Este último, nos EUA, acabava de vivenciar uma rebelião no ano antes – a Rebelião de Stonewall[iii], que completa 50 anos e foi tema da última Parada LGBT de SP 2019.

Apesar das limitações e do linguajar da época sobre essas questões, a tese principal de Huey carrega uma justeza e obviedade ímpar: os oprimidos não são “naturalmente” revolucionários. O mesmo é verdadeiro para seus movimentos e organizações espontâneas. Há que se realizar uma disputa ideológica e política para que tais construam o caminho da revolução. “Devemos tentar julgar, de alguma forma, se eles estão operando de forma sincera e revolucionária e dentro de uma situação de uma opressão real […]. Se eles fazem coisas que não são revolucionárias de fato ou contrarrevolucionárias, então há de se criticar essa ação.”

Mas essa crítica e disputa, como fazer? Se estamos falando de povos e setores das classes dominadas, oprimidos, e seus movimentos, as contradições entre eles e os revolucionários são contradições no seio do povo, como diria Mao. A serem tratadas pela persuasão, e não pelo confronto, pelo antagonismo – como no caso das classes dominantes. Ou seja, não baixar as armas da crítica e da polêmica, mas, ao mesmo tempo, respeitar sua experiência e aprender com sua luta. Encorajar seu avanço político, e não abandoná-los. Como diz Huey, ter sempre “respeito e empatia por todos os povos oprimidos”.

E essa postura de solidariedade é especialmente importante hoje, com o retorno de movimentos de extrema-direita e abertamente fascistas após a última grande crise do capital. Pelo mundo todo, trabalhadores têm caído na xenofobia, no racismo, no machismo etc., defendidos por esses movimentos, como uma suposta solução para a deterioração de suas condições de vida. Objetivamente, reforçam as causas dessa deterioração ao atacar seu aliado de classe e de dominação. Frente à ilusória e reacionária solução do capital, nosso papel é defender a única real e possível solução: a revolucionária. E para construí-la, a solidariedade, independente da nação, da cor, do gênero, da sexualidade, é um pressuposto. “Paz entre nós, guerra aos senhores! Somos irmãos trabalhadores!”,  já dizia o hino da Internacional.

Após essa longa introdução, vamos ao discurso de Huey. Que este possa contribuir em nossa luta contra a atual ofensiva burguesa em nosso país – e fortalecer a resistência contra ela, onde inúmeras mulheres e LGBTs já estão na linha de frente, sendo exemplos de força e coragem de nossa classe.

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Discurso Sobre a Libertação Gay e Feminina

Huey Newton

15 de Agosto de 1970

Durante os últimos anos fortes movimentos vêm surgindo entre as mulheres e entre os homossexuais que buscam sua libertação. Houve alguma incerteza sobre como se relacionar com esses movimentos. Quaisquer sejam suas opiniões individuais e inseguranças sobre homossexualidade e os diversos movimentos de libertação entre os homossexuais e mulheres (e falo de homossexuais e mulheres como grupos oprimidos), devíamos tentar nos unirmos a eles sob uma perspectiva revolucionária. Eu digo “quaisquer sejam suas inseguranças” porque como nós muito bem sabemos, às vezes o nosso primeiro instinto é querer bater em um homossexual e querer que a mulher fique quieta. Queremos bater no homossexual porque temos medo de que possamos ser homossexuais; e queremos bater nas mulheres ou silenciá-las, porque temos medo de que elas possam nos castrar ou nos levar os culhões que aparentemente podemos nem ter, para começar.

Temos que nós mesmos nos garantir segurança e, portanto, ter respeito e empatia por todos os povos oprimidos. Não devemos usar da atitude racista que os brancos racistas usam contra nosso povo, porque são negros e pobres. Muitas vezes o branco mais pobre é o mais racista porque tem medo de que possa perder algo ou descobrir algo que ele não tem. Então você se torna como uma ameaça para ele. Esse tipo de psicologia está estabelecido quando vemos os povos oprimidos e ficamos com raiva deles por causa de seu tipo particular de comportamento ou seu tipo específico de desvio da norma estabelecida.

Lembrem-se, nós não estabelecemos um sistema de valores revolucionários; estamos apenas no processo de estabelecê-lo. Não me lembro de alguma vez termos constituído qualquer valor que dissesse que um revolucionário deve dizer coisas ofensivas contra os homossexuais ou que um revolucionário deve se certificar de que as mulheres não falem sobre sua própria particularidade de opressão. Na verdade, é justamente o contrário: pontuamos que reconhecemos o direito das mulheres de serem livres. Não temos falado muito dos homossexuais de qualquer modo, mas devemos nos relacionar com o movimento gay porque é uma coisa real. E eu tenho conhecimento através de leitura, e através de minha experiência empírica e de observações que aos homossexuais não são dadas nenhuma liberdade por ninguém na sociedade. Existe a possibilidade de serem os povos mais oprimidos da sociedade.

E o que os fez se tornarem homossexuais? Talvez seja um fenômeno que eu não entenda completamente. Algumas pessoas dizem que é decadência do capitalismo. Eu não sei se esse é o caso; sinceramente duvido. Mas qualquer que seja o caso, sabemos que a homossexualidade é um fato que existe, e devemos entendê-la em sua forma mais pura, ou seja, uma pessoa deve ter a liberdade de usar seu corpo da maneira que quiser.

Isso não implica em endossar coisas na homossexualidade que nós não vemos como revolucionárias. Mas não há nada para dizer que um homossexual não pode também ser um revolucionário. E talvez eu esteja agora inserindo um pouco do meu preconceito, dizendo que “mesmo um homossexual pode ser um revolucionário.” Muito pelo contrário, talvez um homossexual possa ser o mais revolucionário.

Quando temos conferências revolucionárias, comícios e manifestações, deveria haver uma plena participação do movimento de libertação gay e movimento de libertação feminina. Alguns grupos podem ser mais revolucionários que outros. Não devemos usar a ação de uns para afirmar que são todos reacionários ou contrarrevolucionários em essência, porque não são.

Devemos lidar com os movimentos assim como lidamos com qualquer outro grupo ou partido que afirma ser revolucionário. Devemos tentar julgar, de alguma forma, se eles estão operando de forma sincera e revolucionária e dentro de uma situação de uma opressão real (e convenhamos, que se são mulheres provavelmente há opressão). Se eles fazem coisas que não são revolucionárias de fato ou contrarrevolucionárias, então há de se criticar essa ação.

Se entendermos que o grupo em sua essência possui aspirações revolucionárias na prática, mas cometem erros na interpretação da filosofia revolucionária, ou eles não entendem a dialética das forças sociais em funcionamento, devemos criticar isso e não criticá-los por serem mulheres tentando ser livres. E o mesmo se verifica para os homossexuais. Não devemos falar que todo um movimento é desonesto quando na verdade eles estão tentando ser honestos. Apenas cometem erros honestos. Aos amigos é permitido cometer erros. Ao inimigo não é permitido cometer erros, porque toda a sua existência é um erro e nós sofremos com isso. Mas a frente de libertação das mulheres e a frente de libertação gay são nossos amigos, eles são nossos aliados potenciais e precisamos de quantos aliados quer sejam possíveis.

Devemos estar dispostos a discutir as inseguranças que muitas pessoas têm sobre a homossexualidade. Quando eu digo “inseguranças”, quero dizer o medo de que eles sejam algum tipo de ameaça à nossa masculinidade. Eu posso entender esse medo. Devido ao longo processo de condicionamento que constrói insegurança no homem americano, a homossexualidade pode produzir certas amarras em nós. Eu mesmo possuo certas amarras em consideração à homossexualidade masculina. Em contrapartida, não possuo nenhuma amarra quanto à homossexualidade entre mulheres. E isso é um fenômeno em si mesmo. Eu acho que é provavelmente porque a homossexualidade masculina é uma ameaça para mim e homossexualidade feminina não.

Devemos ser cuidadosos acerca do uso desses termos que possam afastar nossos potenciais aliados. Os termos “viado” e “bicha” devem ser suprimidos do nosso vocabulário e, sobretudo, não devemos atribuir esses nomes normalmente concebidos para os homossexuais para os homens que são inimigos do povo, como [Richard] Nixon ou [John] Mitchell. Os homossexuais não são inimigos do povo.

Devemos tentar formar uma coalizão operária com a libertação gay e grupos de libertação das mulheres. Devemos sempre lidar com as forças sociais da forma mais adequada.


[i]Para ficar em um exemplo: Marx. Em carta de 9 de abril de 1870, ele diz, ao analisar a questão irlandesa: “Ele [o trabalhador inglês] aprecia os preconceitos sociais, religiosos e nacionais contra os trabalhadores irlandeses. A sua atitude é muito parecida a dos ‘brancos pobres’ em relação aos negros nos antigos estados escravistas dos EUA. Este antagonismo é mantido vivo artificialmente, e é intensificado pela imprensa, o púlpito, os jornais cômicos, em resumo por todos os meios à disposição das classes dominantes. Este é o segredo da impotência da classe trabalhadora […] É o segredo pelo qual a classe capitalista mantém seu poder. E essa classe é plenamente consciente disso”. Ou seja, a uma discriminação interna ao proletariado ele se refere como “o segredo da impotência da classe trabalhadora” e ao mesmo tempo como uma estratégia da burguesia na luta de classes. 

[ii]Esse ano, já fizemos uma publicação sobre os Panteras Negras. Acesse aqui: http://cemflores.org/index.php/2019/01/09/aprender-com-os-panteras-negras/

[iii]Por coincidência, enquanto preparávamos o texto, o site Lavrapalavra publicou uma interessante intervenção do companheiro Edson Mendes intituladaAs cores do muro: de Stonewall a Wall Street. O discurso de Huey é usado como uma das principais referências para se discutir e avançar na questão da luta de classes e o movimento LGBT. Segundo o autor:

“No Brasil, a proteção e o apoio a LGBTs são ainda dominados pelo discurso liberal (geralmente, da esquerda liberal) que em sua manutenção do antagonismo de classe, perpetua a exploração e a opressão a LGBTs do proletariado. Além disso, utilizam a presença de poucas figuras LGBTs dentro da grande mídia para inflar o discurso meritocrático, romantizar as dificuldades e sustentar uma sociedade marcada pela extração de mais-valor. 

Grandes empresas e suas marcas, ao redor do mundo, se utilizam da luta LGBT para comercializá-la, retirando sua potencialidade emancipatória e anticapitalista. Muitas, ao mesmo tempo em que expõem-se em ‘paradas LGBT’ e realizam ações publicitárias apoiando a causa, repetem práticas preconceituosas em sua cultura organizacional e colocam-se ao lado de governos que atuam contra políticas públicas voltadas para LGBTs e contra a classe trabalhadora (da qual, é claro, fazem parte LGBTs).”

O texto de Edson não é o único interessante sobre a temática das opressões e a luta de classes. Dia 05 de julho, no mesmo site, saiu Luta de classes e movimentos identitários, ou A esquerda na encruzilhada de si mesmaque destaca a necessidade de um debate franco e qualificado entre os revolucionários sobre tais questões que não são menores politicamente. “Por que esses movimentos identitários da esquerda liberal possuem tanta força atualmente? Será que a própria esquerda revolucionária não possui sua parcela de responsabilidade?”, provoca o autor Heribaldo Maia, que também cita o caso dos Panteras Negras, além do feminismo no movimento comunista do início do século XX.