Colapso

Camaradas e leitores.

Reproduzimos abaixo artigo do comunista português António Barata publicado originalmente no site Bandeira Vermelha em fevereiro desse ano. 

Em poucas palavras sintetiza a crise geral do modo de produção capitalista e a ilusão que é, do ponto de vista do proletariado, a tentativa de geri-lo, seja de forma “neoliberal” ou “neokeynesiana”, mostrando que o problema é o sistema econômico capitalista e não a forma que este assume, não a existência do capital financeiro e a sua maior ou menor dominância.”

Aponta ainda as contradições insanáveis desse sistema putrefato, sua tendência à guerra e à barbárie, e a afirmação da lei geral do modo de produção capitalista como bem sintetiza o autor:

“Como certeiramente previu Marx, o desenvolvimento do capitalismo obriga a que os ricos se tornem ainda mais ricos e os pobres mais pobres. Bem podem os liberais clamar o contrário – os fatos não lhes dão razão. A única coisa que o capital tem para oferecer à humanidade é a barbárie”.

Colapso

António Barata

09.02.2019

Porque, apesar da falência e do definhamento da socialdemocracia, persiste a tentação de condenar o capitalismo neoliberal, o dito “mau capitalismo”, e de resgatar o ”bom capitalismo” (ou seja, o agora chamada Estado Social, ainda não há muito apelidado de Estado Previdência) ressuscitando as velhas receitas keynesianas para fazer do Estado o regulador, condutor e também parte da atividade económica? Há que dizer que o neoliberalismo de Reagan, Thatcher e companhia se impôs a essa forma de capitalismo parcialmente estatizado, característico da socialdemocracia, devido às crises dos anos 70 que o incensado sistema keynesiano não conseguiu evitar. O que provou, mais uma vez, que o problema é o sistema econômico capitalista e não a forma que este assume, não a existência do capital financeiro e a sua maior ou menor dominância.

O CAPITALISMO NOS SEUS LIMITES

Hoje, o capitalismo atingiu uma tal produtividade que problemas como o da fome deixaram de ser um problema agrícola, passando a ser políticos; a concentração de capital e de riqueza chegou a um nível nunca visto, simétrico ao do empobrecimento exponencial de milhares de milhões de seres humanos. Ou seja, o progresso técnico e científico não reverteu em benefício da humanidade, na redução da jornada de trabalho e no pleno emprego, mas de um grupo cada vez mais restrito de grandes capitalistas. Esta contradição central do capitalismo nunca foi tão gritante como na atualidade, o que indica o seu esgotamento e a sua aproximação do colapso.

O capitalismo atual (globalizado e presente em todos os recantos do planeta) depara-se com limites físicos ao seu crescimento. Os mercados não se expandem e as taxas de lucro caem, vivendo uma circunstância de crise crônica. A crise iniciada em 2007, mais a que está em germinação (a Itália entrou em recessão, a Espanha, a Alemanha, a França, o Japão e os Estados Unidos para lá caminham a passos largos), continua (como todas as crises) a ser um processo de destruição daquilo que representa ou cristaliza a riqueza criada (já não se destroem mercadorias nem se queima dinheiro, mas desvalorizam-se ações e fazem-se desaparecer como fumo depósitos bancários e aplicações financeiras, principalmente as dos trabalhadores, reformados e pequenos e médios investidores) nos verdadeiros buracos negros que são os “produtos” financeiros e os fundos de investimento. Já não se trata, como há algumas décadas, de camponeses e agricultores a destruírem produtos agrícolas, nem do apodrecimento e destruição de mercadorias industriais para que os preços não baixem devido ao excesso de oferta. Hoje o excesso não é de sobreprodução mas de capitais que não encontram onde investir e se viram para a especulação pura e simples – o mesmo é dizer que já não são usados para criar valor (criação de mercadorias) mas para transferir a pouca riqueza dos trabalhadores para os grandes capitalistas, levando-os, principalmente, a endividarem-se. Por isso hoje as atividades produtivas e de serviços são cada vez mais e mais flexíveis e precárias ao mesmo tempo que disponibilizam um interminável conjunto de bens e serviços acessíveis às ditas classes médias (massa indistinta de assalariados onde se mesclam e neutralizam as classes e os seus antagonismos). Se a produção ameaça ser excessiva, suspende-se a laboração e despede-se aos milhares e sem custos, ao mesmo tempo que se fomenta a indústria da caridade, constituída por um sem número de ONGs, associações e entidades religiosas que vivem de apoios estatais e de grandes multinacionais e que vão “combatendo a exclusão”, “acolhendo”, “integrando”, “capacitando”, “formando” os párias gerados pelo grande capital, para que a revolta não exploda.

A BARBÁRIE

A crise crônica do capitalismo também mostra que a guerra (fria e quente), método tradicional de conquista de mercados, acumulação e expansão económica, não está a funcionar ao contrário do que aconteceu com as I e ll guerras mundiais e demais guerras regionais onde pequenos e grandes imperialismos se digladiam por encomenda, recorrendo a terceiros. Os EUA e a União Europeia, depois de derrotarem o “socialismo real”, envolveram-se sem grande proveito em aventuras guerreiras nos últimos trinta/quarenta anos na África, Balcãs, Médio e Próximo Oriente, ameaçando estendê-las à Ucrânia, Rússia, China, Japão, Venezuela e península da Coreia. Ao contrário do então anunciado, essas guerras “pela democracia e a liberdade” e as revoluções “de veludo”, “laranja” e “rosa” que abriram esses países “libertados” à penetração, exploração e exportação de capitais, não lhes trouxeram a paz, a democracia, o progresso e o bem-estar prometido. Antes mergulharam esses povos e nações em profundos e intermináveis guerras e morticínios, fonte de regimes inqualificáveis e de todos os “terrorismos” reais e imaginários. E, contrariando os cálculos das grandes e pequenas potências, os imperialismos ocidentais do tempo da “guerra fria” (EUA e União Europeia) entraram em decadência, estando a ser suplantados por potências emergentes globais, como a China e a Rússia, e regionais, como o Irã, a Turquia e Israel. Razão pela qual, a par de uma guerra econômica, se lançaram também numa nova corrida armamentista e nuclear, preparando-se para a guerra de extermínio com os seus rivais Rússia e China, mas também (e para já) com o Irã, a Coreia do Norte e a Turquia. Isto porque, ao contrário do que foi propagandeado há 40 anos, a vitória sobre o “totalitarismo comunista”, com a implosão da Europa do Leste e a integração desses imensos territórios/mercados no capitalismo “normal”, não deu nova vida ao capitalismo fazendo-o superar a crise de expansão que vive desde os anos 70 do século passado. O mais que conseguiu foi uma sucessão de pequenas crises, renovadas e sempre mais graves que as precedentes  – crises do petróleo, bolsista dos anos 80; dos “tigres asiáticos”, as crises bolsistas e imobiliária dos finais dos anos 90 (nos EUA) e de 2007 –, estando esta última longe de estar terminada e a caminhar para um novo pico.

Ao nível político, ideológico e da organização do poder de Estado, esta sucessão de crises provocadas pelo esgotamento do modo de produção do capitalismo está a ser acompanhada pela fascistização contínua das democracias e por retrocessos sociais e civilizacionais em todo o planeta com o regresso da escravatura e o tráfico crescente de seres humanos, de doenças que se julgavam extintas, o alastramento da pobreza, a liquidação dos direitos laborais, o que está a levar ao aparecimento de um sem número de párias e os trabalhadores a regressarem às condições sociais e de existência do século XIX.

Como certeiramente previu Marx, o desenvolvimento do capitalismo obriga a que os ricos se tornem ainda mais ricos e os pobres mais pobres. Bem podem os liberais clamar o contrário – os fatos não lhes dão razão. A única coisa que o capital tem para oferecer à humanidade é a barbárie.