Todo apoio à greve dos caminhoneiros de Portugal!

“…vem conquistar o teu respeito, tenha orgulho, tenha atitude, para que no futuro tu possas dizer que fizeste parte disso. E vais ver que não há dinheiro nenhum no mundo que pague tu poderes andar de cabeça levantada, com atitude e com dignidade”.

José Flores, motorista de caminhão (2019).

“…o proletariado, que não quer se ver tratado como canalha, necessita de sua valentia, de seu sentimento de dignidade, de seu orgulho e de seu sentido de independência mais que de pão”.

Karl Marx (1847)[1].

Pela segunda vez neste ano, os caminhoneiros de Portugal declararam greve a partir de ontem, 12 de agosto. Estão a lutar, novamente, e como todo trabalhador, por dignidade, como diz José Flores[2]. Mas também por melhores condições de trabalho, recomposição salarial e contra a sanha dos patrões por mais exploração e suas recentes “inovações”. Alguns pontos da pauta desta greve são:

  • Jornadas de trabalho menores (40 horas semanais), compatíveis com as outras categorias de trabalhadores em Portugal, e pagamento de horas extraordinárias.
  • Recomposição dos salários que não são aumentados há 19 anos. Hoje eles ganham 630 euros e o salário mínimo em Portugal é de 600 euros. Já chegaram a ganhar o equivalente a dois salários mínimos há alguns anos!
  • Inclusão na folha de pagamentos dos valores recebidos como “ajuda de custo” (em média 50% dos salários) para poder incidir nos valores de aposentadoria.
  • Contra o pagamento de sua atividade por carga ou quilômetro rodado, evitando a pressão para atingir maiores níveis de produtividade, aumentando os riscos de acidentes, doenças de trabalho etc. 

Em suma: menos exploração e arrocho, salários melhores, mais garantias para a aposentadoria. Uma pauta justa, que todo trabalhador, em Portugal, no Brasil e em qualquer lugar do mundo, compreende e se reconhece nela. 

A luta é também contra as ilegalidades incluídas no último contrato coletivo de trabalho (a convenção coletiva da categoria), negociada entre a FECTRANS (Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações, da CGTP, central sindical pelega portuguesa) e a ANTRAM (Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias). Ou seja, luta-se contra os patrões, mas também contra o governo e a federação pelega que diz “representá-los”…

O Governo (do Partido Socialista, que conta com o apoio do PCP e do Bloco de Esquerda), que muitos no Brasil consideram um governo “de esquerda”, age como gerente a serviços dos patrões, em defesa dos interesses dos empresários e do capital. Impõe aos grevistas “serviços mínimos obrigatórios” entre 50% e 100% (a lei fala em 25%), a serem cumpridos pelos motoristas. Além disso, começa, novamente, a falar sobre mudanças na lei de greve, mobiliza militares para substituir os motoristas na direção dos caminhões e tenta jogar a população contra os grevistas, estimulando o pânicocom a possibilidade de faltar combustível nos postos.

Ontem, no fim do dia, o Governo decretou Requisição Civil por suposto descumprimento dos serviços mínimos, determinando na prática que os motoristas trabalhem mais de 8 horas diárias em determinados setores e regiões (podendo ser presos se recusarem a trabalhar) e convocando a intervenção das Forças Armadas, da Guarda Nacional Republicana e da polícia para atuarem como verdadeiros fura-greves. Outra vez, nada que os trabalhadores brasileiros (e dos demais países) não enfrentem nas suas lutas cotidianas, muito similar, inclusive, às reações contra a greve dos caminhoneiros no Brasil, em maio de 2018. 

Mas os caminhoneiros não estão a temer seus inimigos diretos nem aqueles que se dizem aliados, sem o serem. Lançam-se à luta, sabendo das consequências e dos riscos, sobretudo para eles e suas famílias. Mantêm-se firmes e já mostram um pouco do poder de sua união. Conforme o Diário de Greve nº 1 (12 de Agosto 2019, às 13h):

  • 30 piquetes de greve em todo o país agrupando 3.000 motoristas. Patrões abordam os piquetes para os convencer a desmobilizar.
  • Sindicatos reiteram que os motoristas dos serviços mínimos vão trabalhar 8 horas por dia e não mais, patrões dizem que com isto estão descumprindo os serviços mínimos. 
  • Sindicatos protestam pelos patrões estarem a exorbitar os serviços mínimos e exigem medidas.
  • 460 bombas de abastecimento sem combustíveis (15% do total). 69% estão funcionando abertas ao público. 

Aos leitores e camaradas brasileiros, essa situação e essa força, faz-nos lembrar da fulgurante greve dos caminheiros brasileiros em 2018, que atropelou todas as “mediações institucionais” e causou imenso impacto aos interesses do capital no Brasil[3]. Afinal, trata-se da mesma luta!

Por isso, daqui do Brasil, o coletivo Cem Flores solidariza-se com os combativos motoristas portugueses em greve e deseja muita luta e todo o sucesso nessa greve.

Sua luta, camaradas, é a nossa luta! Sua vitória é a nossa vitória, camaradas!


[1]Karl Marx. O Comunismo e o “Rheinische Beobachter”. In: Marx e Engels. Obras Fundamentales, vol. 4 – Los Grandes Fundamentos II. Cidade do México: Fundo de Cultura Económica, 1988, pg. 202. 

[2]O site Bandeira Vermelha publicou uma elucidativa entrevista com o caminhoneiro José Flores, que ilustra bem os anseios da categoria. Afirma o motorista português que:

“O medo impera na maioria das empresas e os motoristas, para conservarem o posto de trabalho, veem-se obrigados a compactuar com ilegalidades. (…) Queremos andar em segurança na estrada, cumprir os limites de velocidade, ter horários compatíveis, mas é impossível quando há tanta pressão patronal. Muitos colegas deixam-se aliciar e, em vez de ganhar por hora, ganham por quilómetro. Além do quilómetro, alguns ganham por carga ou por tonelada transportada, o que faz com que muitos motoristas carreguem peso a mais, com o carro a tornar-se muito mais inseguro.”

Na entrevista José Flores fala ainda do aumento dos acidentes e dos suicídios entre os motoristas, como resultado da ampliação da carga de trabalho e de exploração a que estão submetidos.

Em outra brilhante exposição em vídeo dos motivos da greve, o motorista José Flores detalha, de forma bastante didática as razões da greve, e conclui, mais uma vez, que a luta dos trabalhadores vai muito além das pautas reivindicativas. Trata-se da luta por dignidade!

Esse trecho, transcrito abaixo, está nos minutos finas de seu vídeo:

“Agora queria deixar um recado a todos os motoristas que estão em dúvida se devem ou não aderir à greve, se devem ou não enfrentar o patrão nesta situação, porque vai haver represálias e todos nós estamos cientes delas, mas só vai haver represálias se houver colegas a furarem a greve, se não houver colegas a furarem a greve as represálias não vão existir.

Agora vou dar o meu caso pessoal. Se tu tens medo, eu também já cheguei a ter medo de falar, a ter medo de me impor, mas, sendo muito sincero, eu tive medo enquanto não o fiz. A partir do momento em que fiz, o que eu pensei que ia ser mal, o que pensei que ia andar preocupado, estressado, com o patrão, não. A partir do momento em que eu fiz, tudo ficou muito melhor, ganhei o respeito do meu patrão, ganhei o respeito dos meus colegas e, acima de tudo, respeitei-me a mim mesmo.

Portanto, a partir do momento em que eu bati o pé, pelo contrário, foi tudo muito melhor.

Por isso peço-te junte-se a nós, vem conquistar o teu respeito, tenha orgulho, tenha atitude, para que no futuro tu possas dizer que fizeste parte disso. E vais ver que não há dinheiro nenhum no mundo que pague tu poderes andar de cabeça levantada, com atitude e com dignidade.

Portanto, meus senhores, a quem for motorista, peço a todos para aderirem à greve com força, em massa, unidos, coesos e isto seguramente vai ser nosso”.

[3]No artigo A Greve dos Caminhoneiros e a Luta de Classes no Brasildestacamos as causas que provocaram o movimento, sua ligação ao contexto mais geral de crise econômica e política no Brasil, mostramos os limites políticos daqueles que se opunham ao apoio do movimento com diversas alegações e afirmamos a necessidade de organizarmos concretamente o apoio aos grevistas:

A posição correta dos que defendem a classe operária e demais explorados diante dessa luta específica deve ser a de apoiar e reforçar a luta concreta dos caminhoneiros contra a piora das suas condições de trabalho e de vida. 

A solidariedade entre os trabalhadores e sua luta comum contra o inimigo de classe e seu Estado é o único caminho para a vitória. A partir dessa luta comum os operários e as classes dominadas podem mais claramente ver que além de suas pautas específicas, todos compartilhamos a oposição à classe burguesa e à sua dominação e exploração.