O exemplo do povo equatoriano

Só a luta pode barrar a ofensiva das classes dominantes!

Cem Flores

Após uma forte revolta popular de trabalhadores e indígenas nos últimos dias no Equador, o presidente do país e representante do capital, Lenín Moreno revogou a medida que fora a principal causa dos protestos: o decreto que dobrava o preço dos combustíveis. Mais uma vez, e como nos ensina a experiência das classes dominadas de todos os países, apenas com uma árdua luta se conseguiu barrar outra piora das condições de vida das massas. 

Diante de tamanha conquista de nossos irmãos de classe, faremos aqui uma breve análise dessa sua luta, ressaltando os principais fatos e lições dos eventos recentes ocorridos no Equador. Não nos enganemos: a luta do povo equatoriano é a nossa luta! Assim como nossa luta contra os ataques das classes dominantes daqui é também a luta deles!

Contra quais medidas os trabalhadores e indígenas equatorianos se levantaram?

A gota d’água para a revolta foi o decreto 883 de 1º de outubro, uma das exigências do FMI para um empréstimo bilionário ao país. Que se tirem os subsídios estatais dos combustíveis, e que os outros, as classes dominadas, que paguem a conta, direta ou indiretamente (com uma explosão na carestia de vida). É assim que pensam os mais “sofisticados” espadachins mercenários da burguesia. 

Uma das funções desses aparelhos do imperialismo é exatamente essa: impor, e justificar/auxiliar na imposição, de políticas que melhorem as condições gerais para a acumulação do capital. Ou seja, trata-se, sobretudo, de uma ação no terreno da luta de classes, onde o Estado em questão se articula a um organismo internacional para se recuperar de crises capitalistas ou aperfeiçoar suas condições da reprodução capitalista . 

Luta de classes porque, em qualquer situação na qual se encontra uma economia capitalista, é da exploração e opressão das classes trabalhadoras de que se trata. Em contextos de crise e recuperação do capital, o caráter ofensivo das classes dominantes se intensifica, as condições de vida e trabalho das massas tendem a piorar com isso. Ora, é o que se vê nesse caso concreto. 

Mas a gota d’água é só mais uma num copo já cheio. Como lembra a nota política de 3 de outubro do Partido Comunista do Equador, o governo de Moreno já iniciou seu mandato em 2017 reforçando várias regalias fiscais aos empresários. Enquanto isso, para os trabalhadores, mais arrocho! Ou seja, nada de muito diferente das propostas de Bolsonaro e Guedes!

O documento do PCE cita, inclusive, uma reforma trabalhista sendo formulada em conluio com os patrões e o parlamento e que, como sabemos na pele, significará redução de salários, de férias e outras conquistas.

Para gerar um paralelo, ano passado no Brasil, tivemos uma forte greve do transporte rodoviário a partir de um aumento no preço dos combustíveis (sobretudo o diesel), ocasionado por uma mudança na política de preços da Petrobrás. Isso elevaria ainda mais os custos de trabalho (no fundo, redução salarial) das centenas de milhares de caminhoneiros autônomos – fora os milhões de motoboys, motoristas de aplicativos, taxistas, etc. 

Mas esse estopim era de fato um estopim. O contexto da greve era o contexto de profunda deterioração das condições de vida e trabalho das classes trabalhadoras decorrentes da recessão iniciada em 2014 e da sanha burguesa em retomar a acumulação do capital e sua taxa de lucro.

Como eles se levantaram e qual a lição maior para nossa luta aqui no Brasil?

E para continuar o paralelo, como aqui, no Equador a primeira reação foi dos trabalhadores dos setores de transporte, que realizaram uma greve geral por dois dias. Depois, outros setores do movimento sindical e organizações indígenas convocaram a continuação das paralisações. Os protestos se intensificaram e as ruas foram ocupadas em vários pontos do país. 

No dia 4 de outubro, Moreno decretou estado de exceção, o que não faz recuar as manifestações. Depois, ele ainda continuaria a usar todos os meios possíveis para reprimir o levante: buscar apoio de seus aliados representantes do capital em outros países; censurar, caluniar e difamar violentamente quem ousasse protestar; por fim, convocar o exército para atirar contra o povo. Tudo isso sob o manto da “democracia”! 

Mas nada disso parou a força avassaladora das ruas, que fez, literalmente, o governo recuar e fugir, transferindo a capital do país, de Quito para Guayaquil. 

E essas jornadas nas ruas foram determinantes para o atual recuo do governo, não há dúvidas. Este só recuou diante dos vários dias seguidos de protestos, ocupações e paralisações, por todo o país; das massas de trabalhadores e indígenas nas ruas, em combate contra as forças de Estado; da determinação, da garra e da coragem do povo que não se paralisou diante do estado de exceção e a brutal repressão sofrida. 

Só a luta pode parar a ofensiva das classes dominantes! Eis a lição principal da luta e da vitória do povo equatoriano!

Não foi uma batalha fácil. Foram centenas de feridos e detidos. Dezenas de desaparecidos. A luta também gerou seus mártires. 

E ela é só mais uma nessa guerra. A ofensiva das classes dominantes de lá buscará, certamente, outros caminhos para se efetivar, com sua violência costumeira. Como aqui, o recuo na época da greve dos caminhoneiros reverteu – parcial e temporariamente – a vida dura dos mesmos e dos outros trabalhadores que se mobilizaram e os apoiaram. O único caminho, mais uma vez, é a luta.

Mas para sair dessa vida de exploração e opressão, construir um futuro de fato para nós e nossos filhos, todo sacrifício ganha sentido!

Nosso dever no momento, além de demonstrar extrema solidariedade aos nossos irmãos de classe, é honrar, em nosso país, a sua luta com as nossas. É também se levantar contra a guerra silenciosa e por vezes aberta que as classes dominantes declararam às massas exploradas e oprimidas brasileiras.

O presente é de luta! O futuro será nosso!