Grandes protestos explodem em vários países

Motivos não faltam para as massas tomarem as ruas!

As barricadas fecham as ruas, mas abrem caminhos – já dizia uma das pichações do Maio de 68 na França.

Equador, Haiti, Chile, Líbano, Catalunha. Nos últimos dias, o mundo tem presenciado grandes levantes de massas nesses países. E esses não são os únicos neste ano! Outros ainda poderiam ser incluídos nesta lista, como, por exemplo, a França, que vem sendo abalada desde o final de 2018 com os protestos conhecidos como os coletes amarelos. Além de IraqueArgéliaHonduras e vários outros…

Sobre tais eventos, que se assemelham aos levantes do início dos anos 2010, o colunista do El País, Jamil Chade, se questionou:

Mas há uma pergunta básica que precisa ser feita nesta semana: o que vem levando milhares às ruas? Como explicar a explosão de raiva contra governos eleitos, autoridades estabelecidas ou constituições ratificadas? 

Nossa resposta a essa pergunta, de um modo geral, é que essas são manifestações com as características fundamentais de protesto frente à piora contínua nas condições de vida das classes dominadas, contra as políticas econômicas (as “reformas” e tarifaços) que visam agravá-las ainda mais e, por fim, revolta contra a opressão a determinados setores sociais ou povos inteiros. Situações cada vez mais insuportáveis mantidas por regimes políticos burgueses, cinicamente ditos “democráticos”, por supostos “representantes do povo”. 

Guardadas suas especificidades, seus estopins, ou ainda seus variados níveis de organização e ideológico, é disso que se trata, no essencial: de um protesto contra o capitalismo e contra suas classes dominantes e seus governos, portanto, de uma resistência no terreno da luta de classes.

Por isso, não só são sinais claros de ampliação das contradições econômicas, políticas e ideológicas nessas formações sociais capitalistas, o que também é visto na maioria dos outros países desde o estourar da última grande crise do imperialismo, faz mais de 10 anos. Vemos nesses casos uma grande disposição dessas massas para o enfrentamento – mesmo que esta se encontre por vezes em forma latente, e, diante da profunda crise do movimento comunista, sem uma alternativa política de fato. 

Nós, do Cem Flores, temos acompanhado e divulgado de uma forma mais detida os protestos e as lutas que têm atravessado o ano de 2019 em nosso país. Afinal, é sobre essas batalhas que nos defrontamos de forma mais imediata. Mas também temos destacado algumas das importantes lutas do exterior, por entender que o processo de retomada e ampliação das lutas das classes dominadas, o desenvolvimento de posições e organizações revolucionárias nesse meio, não ocorrem exclusivamente dentro das fronteiras nacionais. A luta proletária se dá em todos os países. E nessa luta a solidariedade é uma de nossas armas mais poderosas. 

Sendo assim, buscamos analisar neste texto, brevemente, as recentes, e ainda em curso lutas no Haiti, no Chile, no Líbano e na Catalunha. 

Acreditamos que é papel de todos os lutadores e comunistas brasileiros aprofundarem seu conhecimento sobre as mesmas, tal como expressarem de forma prática sua solidariedade. Sobretudo, retomando as nossas próprias ruas… Motivos também não nos faltam!

Lembramos aos camaradas e leitores que fizemos uma análise da luta e da vitória do povo equatoriano na semana passada. Na ocasião, concluímos que sua lição principal era a de que apenas com a luta se pode parar a atual ofensiva das classes dominantes. Afinal, mesmo em cenário difícil, com um governo a avançar em reformas em prol do capital e da burguesia, impondo uma violenta repressão aos que ousaram se levantar, os trabalhadores e indígenas, nas ruas, conseguiram impor um recuo fundamental ao inimigo: a revogação do aumento dos combustíveis feito pelo governo em conluio com o FMI. 

Também fizemos publicações sobre a greve dos caminhoneiros em Portugal, em agosto, e ainda sobre os coletes amarelos, final do ano passado. 

Ou seja, lutas não faltam para serem estudadas e desenvolvidas! Vamos a mais algumas:

Haiti

No mesmo período em que a dita “Missão de Paz” (sic!) da ONU está a sair do país, após anos de opressão e abuso – inclusive um período sendo capitaneada por Lula e pelo chefe de inteligência de Bolsonaro, Augusto Heleno –, o Haiti vive mais uma onda de protestos, ao menos desde setembro. 

O heroico povo haitiano tem se levantado contra mais um governo burguês, diante de um cenário de contínua miséria, crise no abastecimento de combustíveis e em seu subsídio estatal, e respostas violentas do Estado aos protestos. Essa repressão já resultou em vários mortos e centenas de feridos. Mas as manifestações continuam. “Vamos quebrar e destruir tudo se Moïse (empresário e atual presidente do país) não renunciar”, disse à agência Associated Press, um manifestante desempregado de 28 anos.

Chile

O aumento das passagens de metrô, logo após aumentos nas contas de luz, foi o estopim de uma vigorosa onda de protestos que varreu a capital Santiago. Iniciada há duas semanas, com “catracaços” nos metrôs da cidade, ampliou-se para protestos que colapsaram todo o sistema de transportes. Ocupações, paralisações, enfretamentos, saques tomaram conta das ruas de todo o país. Aulas e voos foram suspensos. Isso mesmo depois da queda no aumento!

A resposta do governo “democrático”, como era de se esperar, foi a violência. Tal qual no Equador, o Presidente decretou Estado de Emergência, com toque de recolher e o exército a patrulhar as ruas. O que não ocorre desde a ditadura militar no país. 

Afinal, como disse o governo, trata-se de uma guerra. Faltou ele completar: de classes!

Há muito o Chile se destaca como um país “exemplar” para os espadachins mercenários da burguesia – como o ministro de Bolsonaro, Paulo Guedes. Isso porque, vários “ajustes” (leia-se: reforma da previdência, privatizações, carestia de vida e arrocho nos salários) foram feitos nas grandes massas, sobretudo no período sanguinário da ditadura. Mas, para as classes dominadas, exemplar mesmo é sobretudo a juventude chilena, que tem ido constantemente ao campo de batalha por melhores condições de vida e um futuro digno. Que continuem a ser o exemplo para as juventudes de outros países! 

Líbano

O Líbano, que também tem passado por forte crise econômica e “reformas” pela recuperação capitalista, somou-se à onda de manifestações e paralisações nesse mês de outubro. Como resume a matéria do Globo

O mais recente pico de fúria foi despertado pela inflação, pelo aumento do custo de vida e por novas propostas de impostos, incluindo uma taxa nas chamadas de voz do Whatsapp. A proposta já foi revogada desde então, mas as manifestações não desapareceram. 

Ou seja, mais uma vez, uma rebelião contra carestia de vida e arrochos vários. E que se volta contra os gerentes da burguesia de então no país.

Catalunha

A Catalunha vive uma longa luta por independência, contra a ocupação espanhola. Sobre essa luta e suas polêmicas, fizemos algumas intervenções em 2017. Os atuais protestos ocorrem após a Espanha condenar à prisão nove líderes pela independência. Centenas de milhares já tomaram as ruas de Barcelona e diversos enfrentamentos com a polícia aconteceram. 

Mais uma vez, o presente nos mostra que é justo rebelar-se!