Engels em homenagem à Comuna de Paris

Cartas inéditas em português

Cem Flores

No último dia 28 de novembro se completaram 199 anos do nascimento de Friedrich Engels, fundador do marxismo junto com Karl Marx, lutador incansável das causas proletárias e dirigente internacional do movimento comunista até sua morte, aos 74 anos. 

Para homenagear o General, como Engels era chamado por Marx e suas filhas, o Cem Flores traduziu – até onde conseguimos pesquisar, pela primeira vez para o português – três cartas de Engels dirigidas ao proletariado francês em homenagem aos aniversários da primeira experiência histórica de tomada do poder pela classe operária, a Comuna de Paris

Na sua velhice, já passados os 70 anos, Engels continuava com enorme participação teórica e política na luta de classes do proletariado internacional. Além do gigantesco trabalho de organizar e publicar o terceiro volume de O Capital, em 1894, Engels também preparou diversas reedições de suas obras e de Marx, em geral escrevendo prefácios para as novas edições. Como dirigente internacional do movimento comunista, mantinha intensa correspondência com os demais dirigentes e organizações alemães, russos, ingleses, franceses, húngaros, austríacos, espanhóis, italianos, checos, búlgaros, suíços, entre vários outros. 

Nas cartas a seguir traduzidas vemos não apenas Engels louvar o heroísmo dos operários de Paris e a bandeira vermelha que tremulava sobre a cidade libertada. O velho comunista também aborda diretamente os efeitos de longo prazo da derrota do proletariado, sob a sanha assassina das burguesias francesa e alemã, subitamente “esquecidas” de suas disputas seculares e unidas diante de seu verdadeiro inimigo. 

No entanto, passados vinte anos, Engels já podia observar o renascimento do movimento comunista internacional. Podia louvar os filhos dos soldados prussianos e dos comunardos franceses lutando lado a lado contra suas burguesias. Podia prever o dia em que os soldados – filhos dos proletários – se rebelariam. Podia, enfim, brindar com os trabalhadores franceses “a chegada de um 18 de março internacional que, ao assegurar o triunfo do proletariado, abolirá os antagonismos de classe e conflitos entre nações, e trará paz e felicidade aos países civilizados

O velho Engels não chegaria a ver esse dia, um amanhecer vermelho de Outubro de 1917, na atrasada Rússia, vinte e três anos e meio depois dessa sua última carta ao proletariado francês. 

Que nós possamos, neste final de 2019, repetir Engels: 

Vida longa à Comuna! 

Viva a Revolução Social Internacional!

*          *          *

Saudações aos Trabalhadores Franceses no 20º Aniversário da Comuna de Paris

Londres, 17 de março [de 1891]

Cidadãos e cidadãs, 

Hoje fazem vinte anos que a Paris trabalhadora se levantou como um só homem contra o ataque criminoso da burguesia e dos ruralistas, liderados por Thiers. Esses inimigos do proletariado tremeram quando viram os trabalhadores de Paris armados e organizados para defender seus direitos. Thiers pensou privá-los das armas que eles haviam gloriosamente usado contra a invasão estrangeira e que eles usariam de forma ainda mais gloriosa contra os ataques dos mercenários de Versalhes. Para esmagar a Paris em revolta, os ruralistas e a burguesia imploraram e obtiveram a assistência da Prússia. Depois de uma luta heroica, Paris foi esmagada pelo peso dos números e desarmada. 

Por vinte anos, os trabalhadores de Paris têm estado sem armas, e tem sido assim em toda a parte: em todos os grandes países civilizados o proletariado está privado dos meios materiais de defesa. Em toda a parte, são os adversários e exploradores da classe trabalhadora que têm forças armadas sobre seu controle exclusivo. 

Qual o resultado de tudo isso? 

Isso significa que hoje, quando todo o homem saudável serve ao exército, esse exército reflete crescentemente o sentimento e as ideias populares, e esse exército, o grande meio de repressão, está se tornando menos seguro a cada dia; os chefes de todos os grandes estados já preveem com terror o dia quando os soldados em armas se recusarão a assassinar seus pais e irmãos. Nós vimos isso em Paris quando o Tonkinense [Jules Ferry] teve a audácia de reivindicar a presidência da república francesa; nós vemos isso hoje em Berlim, onde o sucessor de Bismarck [Leo von Caprivi] está pedindo ao parlamento [Reichstag] os meios para fortalecer a obediência no exército com mercenários – porque acredita-se haver muitos socialistas entre os recrutas!

Quando tais coisas começarem a acontecer, quando o dia começar a amanhecer no exército, o fim do velho mundo estará se aproximando a olhos vistos. 

Que o destino seja cumprido! Que a burguesia em sua decadência abdique ou morra, e vida longa ao Proletariado! Viva a Revolução social internacional!

F. Engels

Publicado pela primeira vez em Le Socialiste, nº 27, de 25 de março de 1891. 

Traduzido de: MARX, Karl e ENGELS, Frederick. Collected Works, vol. 27. Moscou/Nova York: Progress Publishers/International Publishers, 1990, pg. 177-8. 

*          *          *

Saudações aos Trabalhadores Franceses na Ocasião do 21º Aniversário da Comuna de Paris

Londres, 17 de março de 1892

Cidadãos e cidadãs, 

Vinte e um anos atrás, na data de hoje, o povo de Paris levantou a bandeira vermelha, desafiando tanto a tricolor francesa tremulando sobre Versalhes quanto a tricolor alemã tremulando sobre os fortes ocupados pelos prussianos. 

A bandeira vermelha significava o proletariado de Paris se elevando a uma altura da qual tanto conquistadores quanto conquistados desapareciam. 

O que constitui a grandeza histórica da Comuna é o seu caráter eminentemente internacional. É o ousado desafio que ela fez a qualquer sentimento de chauvinismo burguês. O proletariado de todos os países não estava enganado. Deixe que os burgueses celebrem seu 14 de julho e seu 22 de setembro. O feriado do proletariado, em toda a parte e para sempre, será o 18 de março. 

Daí as calúnias vis que a vil burguesia amontoou sobre a tumba da Comuna. Mas daí também a Associação Internacional de Trabalhadores, que sozinha ousou se identificar desde o primeiro dia com a Paris insurgente e, até o último dia e desde então, com os proletários derrotados. É verdade que onde a Comuna sucumbiu, a Internacional não foi capaz de sobreviver: ao grito de “Aos Comunardos!” ela foi esmagada de um lado a outro da Europa. 

Pois bem! Vinte e um anos se passaram desde a retomada dos canhões da colina de Monmartre. As crianças nascidas em 1871 atingiram agora sua maioridade, e graças à estupidez das classes dominantes, eles agora são soldados, aprendendo a manejar armas, a arte de se organizar e se defender a si mesmos, de armas na mão. A Comuna que eles alegam ter matado, a Internacional que eles imaginam ter apagado para sempre, estão aqui no nosso meio, vivas e vinte vezes mais poderosas que em 1871. Aqueles que responderam ao nosso chamado cresceram de centenas para milhares e de milhares para milhões. A união do proletariado mundial, que a Primeira Internacional foi capaz de prever e preparar, é hoje uma realidade. E mais, os filhos dos soldados prussianos que ocuparam os fortes que cercavam a Paris da Comuna em 1871 estão hoje lutando aos milhões na linha de frente, lado a lado com os filhos dos Comunardos, pela completa e duradoura libertação da classe trabalhadora. 

Vida longa à Comuna! 

Viva a Revolução Social Internacional!

Fred. Engels

Publicado pela primeira vez em Le Socialiste, nº 79, de 26 de março de 1892. 

Traduzido de: MARX, Karl e ENGELS, Frederick. Collected Works, vol. 27. Moscou/Nova York: Progress Publishers/International Publishers, 1990, pg. 275-6. 

*          *          *

Ao Conselho Nacional do Partido dos Trabalhadores Franceses na Ocasião do 23º Aniversário da Comuna de Paris

Londres, 18 de março de 1894

Eu brindo com vocês a chegada de um 18 de março internacional que, ao assegurar o triunfo do proletariado, abolirá os antagonismos de classe e conflitos entre nações, e trará paz e felicidade aos países civilizados. 

Engels

Publicado pela primeira vez em Le Socialiste, nº 183, de 25 de março de 1894. 

Traduzido de: MARX, Karl e ENGELS, Frederick. Collected Works, vol. 27. Moscou/Nova York: Progress Publishers/International Publishers, 1990, pg. 441. 

Deixe uma resposta