Aos Que Desanimam

Aos Que Desanimam

Gostaria de te acordar com beijos
e boas notícias
– o sol saiu,
os pássaros comemoram,
as crianças brincam no pátio,
vem visita de longe,
ninguém mais vende seu trabalho,
ninguém manda sem trabalhar.

Mas o inimigo ainda é soberano,
está por todos os lados
e dentro de nós.
Nos submete
e inverte todas as coisas:

nosso suor vira seu produto,
uma pequena parte vira o nosso preço
e não conseguir ficar rico
vira um fracasso individual.

Cultura vira ideologia,
cooperação vira concorrência,
nosso amor vira controle,
sexo vira violência.

O que era tempo vira trabalho,
o que era nosso vira alheio,
o que era história vira
esquecimento.

Gostaria de te acordar com carícias
e boas notícias,
mas ainda há muito para ser feito.

Estamos cansados, você diz,
foram tantas derrotas…
somos poucos e estamos
pior do que antes,
o inimigo matou os que não pôde cooptar.

Gostaria de te consolar com um abraço
e boas notícias,
mas você tem razão
– somos poucos e estamos cansados,
no entanto ninguém,
senão nós,
poderá fazê-lo.

Nós, com todos os nossos defeitos,
com nosso cansaço,
com as marcas da derrota,
com nossos mortos por vingar.

Com toda a escuridão
por cima dos ombros
nos curvando,
com a potência de derrubar toda ela
ao levantar.

Golondrina Ferreira
Poemas para não perder