CEM FLORES

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Conjuntura, Destaque, Nacional

Sobre o julgamento de Bolsonaro e outros golpistas e o necessário combate proletário à extrema-direita, fascista, no Brasil

O julgamento de Jair Bolsonaro e alguns de seus aliados golpistas pelo aparelho repressivo da burguesia não pode nos iludir: não se trata do fim da extrema-direita, do golpismo e ou da tutela militar no Brasil. Segue urgente e incontornável a resistência do proletariado e das massas exploradas, sob suas próprias bandeiras, a essas ameaças e demais ataques das classes dominantes.

Cem Flores

06.09.2025

Está em curso no STF a fase final do julgamento do ex-presidente fascista Jair Bolsonaro e de sete militares, policiais e políticos que integraram o núcleo dirigente da tentativa golpista, sobretudo entre 2022 e 2023, no Brasil. Esse processo, iniciado com o indiciamento desses e outros réus pela polícia federal, no final de 2024, está previsto para encerrar ainda neste mês, caso não seja apresentado nenhum pedido de vista. Trata-se atualmente do principal evento da política institucional, com inúmeros desdobramentos na conjuntura.

A maior probabilidade, diante do conjunto extenso de provas e da composição da turma julgadora, é que Bolsonaro e seu núcleo golpista sejam julgados culpados por vários crimes e, posteriormente, presos. Aliás, neste momento, tanto Jair Bolsonaro quanto o ex-chefe da casa “civil”, o general Braga Netto, se encontram “presos” preventivamente – o primeiro em uma mansão, e o segundo em uma confortável cela na Vila Militar do Rio de Janeiro. O tenente-coronel e ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, e o ex-policial e ex-ministro Anderson Torres já estiveram presos e atualmente se encontram soltos com restrições de liberdade. Em breve, essa lista pode aumentar para os outros ex-ministros, militares e policiais réus.

Esse julgamento de lideranças golpistas, incluindo membros do alto oficialato das forças armadas, assim como a prisão deles, é um fenômeno atípico na república burguesa brasileira, acostumada a transições pelo alto, a acordões e conchavos entre as classes dominantes e seus representantes políticos e militares. O último golpe e ditadura militar (1964-1985), por exemplo, passou pela história sem qualquer responsabilização criminal dos agentes daquele regime sanguinário e dos seus herdeiros militares e civis. Por isso, sem dúvida, o proletariado e as demais classes exploradas no país, historicamente os primeiros e mais sacrificados nos contínuos golpes e ditaduras, devem defender a punição, não apenas desses, mas de todos os golpistas, de hoje e de ontem!

Aqueles que hoje sentam nos bancos dos réus são fascistas, protótipos de ditadores, adoradores de torturadores e assassinos, responsáveis pela gestão criminosa da pandemia e por tantos outros ataques contra as massas exploradas… são, sem sombra de dúvida, inimigos dos trabalhadores. Toda punição que a justiça burguesa der a essa canalha ainda será pouca!

A provável condenação dos golpistas é, ao mesmo tempo, uma derrota para toda a extrema-direita, fascista, que, para livrar os seus líderes da cadeia, apoiaram abertamente o mais recente ataque do imperialismo ianque ao país, inclusive desde o solo norte-americano. Essa força política burguesa deixou, assim, de forma ainda mais explícita, não apenas sua pretensão golpista e ditatorial, mas também seu abjeto servilismo em relação aos EUA. A provável condenação também atinge propriamente parte dos militares, ala repressiva do estado, altamente reacionária, que reforçou sua influência e poder nos últimos anos.

No entanto, os comunistas, alinhados aos interesses e à luta das classes exploradas, necessitam de uma análise concreta dos determinantes e das tendências desse julgamento. Necessitam compreender, no atual terreno da luta de classes, as razões desse fato, em vários sentidos, inédito. Só assim seremos capazes de elaborar uma linha política justa e traçar as tarefas para esta conjuntura, que continua grave para as classes exploradas.

Embora Bolsonaro e sua corja tenham sido combatidos por várias lutas, desde o ano de 2018, com as gigantescas manifestações do #EleNão, e durante todo o seu governo, inclusive durante a pandemia, o fato é que não foram os protestos de massas contra o fascismo ou a resistência dos trabalhadores os fatores determinantes para esse julgamento. É preciso reconhecer a fraqueza da luta contra o fascismo nos últimos anos por parte das classes dominadas, fato que expressa uma dificuldade mais geral da luta dos trabalhadores na atual conjuntura nacional.

Bolsonaro e parte de sua corja hoje estão prestes a ser condenados, sobretudo, por conta de agudas contradições políticas intraburguesas, que marcam a história do país nos últimos anos. A intensa crise política, vinculada a uma também intensa crise econômica (2014-2016), que levou Bolsonaro à vitória na corrida presidencial em 2018, logo após o afastamento de Dilma (2016), o governo impopular de Temer e a prisão de Lula (2018), continuou a gerar conflitos entre facções políticas burguesas rivais em torno da direção do estado capitalista e seu novo arranjo de forças nos anos seguintes. Essa crise política foi agravada e alcançou o seu extremo no próprio governo Bolsonaro, em meio a uma nova crise econômica, da pandemia, na qual se tornou evidente o intuito governamental de alterar o regime político no Brasil e instaurar uma ditadura, com crescente participação política das forças armadas.

Durante esses anos de crise política, é importante ressaltar, mesmo sob intensos conflitos, divergências e diferenças intraburgueses, a maior parte da burguesia e das instituições ditas “democráticas” não só tolerou Bolsonaro como se aliou a ele em vários momentos. Afinal, apesar das contradições, no fundamental, todas as forças políticas burguesas estão do mesmo lado na luta de classes. E Bolsonaro e seu governo autoritário foram fundamentais para reforçar a violenta ofensiva de classe contra os trabalhadores, sobretudo por meio de um conjunto de reformas advindas do programa hegemônico da burguesia, ainda em curso.

Bolsonaro e Alexandre de Moraes se cumprimentando em evento no TST, em 2022.

Acontece que com a derrota eleitoral de Bolsonaro e o retorno de Lula-Alckmin como uma alternativa mais segura para a continuidade do programa hegemônico burguês, a aventura golpista tentou avançar sem encontrar respaldo suficiente — tanto internamente, na burguesia e dentro do estado, quanto externamente, no apoio dos EUA, ainda sob o governo Biden. A intentona bolsonarista foi derrotada prática e politicamente, deixando para trás um conjunto nítido de provas como se viu, por exemplo, nos eventos que culminaram no 8 de janeiro de 2023. Coube então ao STF, sob a liderança de quadros da direita tradicional e novos indicados pelo governo Lula-Alckmin, avançar em seu papel de agente político burguês e atuar de forma mais enfática na punição parcial dos golpistas de extrema-direita, inclusive descartando Bolsonaro da próxima corrida presidencial.

Portanto, o julgamento atual, apesar de apontar para a punição de golpistas, o faz sob limites e interesses de classe muito evidentes. No fundamental, são inimigos das classes trabalhadoras punindo, pontualmente, outros de sua laia, em meio a um longo histórico de acordões, conchavos e unidade entre ambos. Punição essa que nem extirpa a extrema-direita e a ameaça golpista do país, nem indica uma mudança de fundo nos objetivos atuais da burguesia na luta de classes, quais sejam a continuidade dos ataques aos trabalhadores e a implementação de mais reformas burguesas – a serem conduzidas propriamente por Lula ou por algum político alinhado ao clã Bolsonaro.

Ou seja, mesmo que deva ser festejada, a provável punição aos golpistas não representa diretamente um avanço das classes trabalhadoras e dos seus interesses na luta de classes. Com ou sem punição, o quadro atual continua sendo de ofensiva da classe burguesa e ainda sob uma ameaça autoritária expressiva. A solução para as classes exploradas virá de suas próprias mãos e forças, e não cairá do céu das disputas intraburguesas!

Apesar do julgamento acusar alguns importantes militares e policiais reacionários, o fato é que as forças armadas e as polícias envolvidas em vários aspectos e momentos do processo golpista bolsonarista, enquanto instituições, estão saindo ilesas. Ou seja, os “anéis” militares sacrificados e possivelmente presos estão ali para safar os “dedos” das corporações militares como um todo – que seguem igualmente autoritárias, assassinas, e com inclinações golpistas. Isso sob a bênção do atual governo Lula-Alckmin, cujo ministro da defesa é, ele próprio, um bolsonarista escolhido pela caserna.

O mesmo se pode dizer em relação ao movimento político bolsonarista como um todo, incluindo lideranças civis. Apesar de o líder maior do movimento estar preso, dando continuidade a várias derrotas judiciais contra líderes menores, o fato é que o movimento de extrema-direita segue vivo e forte no país, atuando aberta e ofensivamente, inclusive por meio de uma escancarada conspiração estrangeira. Mesmo limitada e acordada em vários aspectos, o fato é que a atuação do STF contra Jair Bolsonaro e os golpistas foi, é e continuará sendo contestada pelas facções políticas mais alinhadas ao bolsonarismo. Estas inclusive têm avançado na construção de uma anistia aos golpistas no congresso nacional e em uma frente eleitoral para 2026, com várias promessas de indulto a Bolsonaro em caso de vitória. Nesse âmbito, o atual governador de São Paulo, ex-ministro de Bolsonaro e também ex-capitão do exército, Tarcísio de Freitas, desponta hoje como principal liderança da extrema-direita para a corrida presencial do ano que vem, com o programa bolsonarista já conhecido: repressão, militarização, privatização, servilismo com os EUA, conservadorismo, destruição ambiental, contínuo ataque aos trabalhadores e estímulo ao movimento de massas fascista. Uma forma de gestão dos interesses capitalistas parcialmente distinta da atual forma petista, mas com o mesmo objetivo de fundo: manter a ofensiva do programa hegemônico burguês contra os trabalhadores brasileiros.

Tarcísio batendo continência para Bolsonaro em 2021.

Vale destacar ainda que os ministros do STF, hoje considerados heróis por essa podre “esquerda” eleitoreira e oportunista, são verdadeiros algozes das conquistas dos trabalhadores, aliados de primeira ordem dos patrões. Há anos se somam aos governos e parlamentares, inclusive da extrema-direita, para consolidar e fazer avançar a ofensiva de classe burguesa em curso no país. Em 2018, Alexandre de Moraes votou a favor da terceirização irrestrita, um dos pilares da reforma trabalhista, para ficar apenas em um exemplo. E o mesmo podemos dizer desse atual governo burguês, que desde o seu início se aliou e se rendeu a forças políticas do campo bolsonarista (que possuem ministérios e outros cargos governamentais) para dar continuidade, da forma mais unitária possível, aos ataques contra os trabalhadores.

A posição comunista, portanto, deve não apenas lutar pela punição de todos os golpistas, contra a permanência da extrema-direita, fascista, no Brasil, mas fazê-lo a partir dos interesses do proletariado e de forma consequente e independente. Ou seja, lutar contra a ameaça fascista e todos os seus aliados sem ficar a reboque de seus rivais políticos burgueses, todos eles inimigos de classe e em ofensiva contra os trabalhadores! Lutar contra a ameaça fascista sem ter qualquer ilusão com essa democracia burguesa e suas instituições, outra forma de ditadura de classe dos patrões!

Não cabe à classe operária e aos comunistas escolher um lado na disputa intraburguesa, para defendê-lo ou ficar na “torcida”, passivamente, pois a facção vencedora, mais fortalecida, será a responsável da vez pela aplicação das políticas de interesse das classes dominantes e contra as massas dominadas. Assim como os golpistas são nossos inimigos e devem ser combatidos, também o são o STF e o atual governo burguês de Lula-Alckmin.

A verdadeira derrota da atual ameaça autoritária e das forças fascistas no país, integrantes da ofensiva burguesa, virá da própria luta de classes proletária, da resistência das massas exploradas. O contexto não é fácil, mas o proletariado e as demais classes exploradas devem dedicar o melhor de seus esforços para se organizar de forma própria, independente, para defender seus interesses de classe. Sem isso, não haverá avanços de fato na luta proletária.

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- 06/09/2025