Rádio Fala Peão: COP 30 e a greve operária na construção civil de Belém, Ananindeua e Marituba no Pará
Operários em manifestação nas ruas de Belém. Só unidos podemos resistir aos ataques dos patrões e dos seus governos!
Cem Flores
29.09.2025
Nesta publicação, transcrevemos a 44ª edição da Rádio Fala Peão. A Rádio existe desde 2020 e é um importante instrumento de divulgação da luta da classe operária e demais trabalhadores no Brasil. O contato para receber a Rádio e enviar denúncias é o seguinte: (11) 94470-1232.
O tema desse programa é a greve operária na construção civil em Belém, Ananindeua e Marituba. A greve, que durou nove dias, foi um importante levante contra a intensa exploração da categoria, em meio aos preparativos da COP 30. Apesar de ter arrancado poucas conquistas, deixou lições fundamentais para o avanço da luta.
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Atenção, está no ar a Rádio Fala Peão! Escute nossa rádio para saber como está a situação dos operários nas fábricas do Brasil e notícias dos trabalhadores pelo mundo.
Neste programa, a greve operária na construção civil de Belém, Ananindeua e Marituba no estado Pará.
COP dos ricos e dos patrões
A região metropolitana de Belém está um verdadeiro canteiro de obras para sediar a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, a COP 30, que ocorrerá na cidade em novembro deste ano, com políticos e empresários de todo o mundo.
Nas propagandas dos governos, esse evento aparece como uma oportunidade de desenvolvimento da cidade e maior proteção da natureza. Mas a realidade vivida pelos operários e pelos moradores da periferia da região é outra. As obras da COP, assim como em outros grandes eventos que aconteceram no país anos atrás, como a Copa do Mundo em 2014, tem se revertido em muita exploração, remoções de casas e destruição ambiental. Como nos contaram dois operários dessas obras:
“A gente trabalha como escravo lá, principalmente sexta e sábado. A gente não para. Quando chega a refeição, fica toda azeda porque já está tarde. O salário é aquela situação. A gente faz hora extra e só pagam a metade. Tem dia que começamos cedo e vamos até 8h da noite.”
“Nas obras da COP 30 tem muita pressão dos empresários com os trabalhadores. Eles querem que a gente entregue a obra em tempo recorde, como eles dizem. E o salário não ajuda. Aí fica difícil.”
Ou seja, mais esse megaevento está sendo feito às custas dos trabalhadores. As empresas de construção civil e os políticos estão enchendo ainda mais os bolsos de dinheiro, com investimentos bilionários e esquemas de corrupção já denunciados. Por isso também não podemos ter nenhuma ilusão com essa conferência, feita para e pelos patrões.
A resistência dos trabalhadores
Há meses, há protestos de moradores da periferia contra prejuízos advindos das obras da COP e também paralisações pontuais dos operários, por fora do sindicato, contra as péssimas condições de trabalho nos canteiros de obras e atrasos constantes nos pagamentos.
Mas foi em setembro, no meio da data-base da categoria, que a revolta latente explodiu em um movimento maior. Dia 15 houve uma paralisação geral nas obras e uma grande manifestação pelas ruas de Belém. Em assembleia geral, a greve foi aprovada por centenas de trabalhadores da categoria, rejeitando a proposta da patronal de apenas R$ 5,00 de ganho real e reajuste de R$ 10,00 na cesta básica.
O movimento dos trabalhadores começou forte, com muitas obras paradas na região e manifestações de rua. Além de um ser um grito em defesa da dignidade da categoria, a greve luta por reivindicações básicas, surgidas de necessidades concretas, são elas: 9,5% de reajuste salarial; cesta básica de R$ 270,00; participação nos lucros e resultados (PLR) em duas parcelas de R$ 378,00; classificação para as mulheres operárias; fim do aviso trabalhado e classificação direta de servente para profissional.
Vamos ouvir a opinião de trabalhadores sobre a greve e as manifestações nesse momento de luta da categoria:
“Os trabalhadores aderiram à greve mesmo porque estão com o salário muito baixo. Não tem mais condição de trabalhar com esse salário. Estamos lutando pela nossa melhoria”.
“O dinheiro injetado na COP não chega na ponta, nos trabalhadores. Nós continuamos ganhando uma miséria. Estamos muito tempo sem greves, e com isso estamos sendo massacrados nas obras. Essa greve vem por tudo isso. E tem uma galera nova nessa greve. E a velha guarda puxa eles, mantendo a tradição. Tudo o que nós conseguimos foi em greve.”
A greve mal começou e as ameaças e a repressão dos patrões e dos governos mudaram de patamar. A polícia enviou o batalhão de choque para algumas obras e os patrões ameaçam entrar na justiça contra os trabalhadores. Mas isso não intimidou os operários, que tem resgatado sua tradição de luta e enfrentamento na região metropolitana de Belém. Para esse e os próximos enfrentamentos, é fundamental a categoria reforçar sua organização de base, sem ilusões com os patrões, o estado e os pelegos. A nossa força vem da nossa organização e disposição de luta.
A Rádio Fala Peão se solidariza com mais essa importante greve no estado do Pará, que tem dado exemplo de que são os patrões que precisam dos operários, e não nós deles. O recuo dos patrões foi pequeno e a greve conquistou poucas vitórias. Não podemos nos iludir: só com mais luta e mais organização mais conquistas serão garantidas e conseguiremos reverter o quadro geral de alta exploração nos canteiros de obras e em outros locais de produção do país.
Ajude a divulgar esse programa, para que esse exemplo de luta inspire outras categorias e localidades. Nosso muito obrigado a você que nos acompanhou até aqui e até breve.
Esta foi a 44ª edição da Rádio Fala Peão, como sempre, mantemos o anonimato das denúncias e depoimentos que nos são encaminhados. Nosso programa é feito por trabalhadores e para trabalhadores. Mande sua denúncia para o número que lhe enviou essa mensagem. A sua contribuição é muito importante para os próximos programas, ela é vital. A Rádio Fala Peão volta em breve!

