CEM FLORES

QUE CEM FLORES DESABROCHEM! QUE CEM ESCOLAS RIVALIZEM!

Conjuntura, Internacional

Comentário sobre «Um míssil lançado sobre o quartel do revisionismo»

Paulo da Silva Gomes

Caríssimos companheiros do blog Cem Flores.

Apesar de leitor deste blog praticamente desde o primeiro momento, esta é a primeira vez que me dirijo a vocês motivado pelo desejo de parabenizá-los pelo lançamento de seus textos em livro.

E não posso deixar passar a oportunidade de concordar que realmente é impressionante a ofensiva da burguesa, aliás, fato criticado e posto a nu por este blog, da “espadacharia mercenária” empreendida por todos os seus aparelhos ideológicos para inculcar a noção de que esta crise é uma crise financeira, coisa de “banqueiros maus” que prejudicam a todos, inclusive os “bons capitalistas” (sic!) que querem investir na produção, criando “emprego e renda”, palavra de ordem dos políticos burgueses. Não digo dos “maus” políticos burgueses porque, vale lembrar, para a classe operária não há bom burguês. Palavra de ordem apropriada de forma leve e fagueira pela nossa pseudo esquerda como sua última novidade teórica.

Toda a imprensa, os economistas, especialistas burgueses, mestres, doutores, toda a universidade se junta aos revisionistas e reformistas em suas variações, para apregoar que temos uma crise financeira e, neste caso, a solução seria o Estado melhor administrar ou gerenciar os bancos ou mesmo estatizá-los, de modo a permitir que o capital dos “bons capitalistas”, aqueles que querem investir na produção, querem “dar emprego”, possa ser aplicado sadiamente.

Como marxistas-leninistas, temos que mostrar à classe operária e demais classes dominadas que isso é uma falsificação maciçamente inculcada por todos os aparelhos ideológicos com o fim de encobrir a realidade da crise capitalista e, assim, desviar e esterilizar sua luta na luta das classes.

Como este blog cansou de demonstrar, a crise atual não é uma crise financeira, mas uma crise de alcance mundial de superacumulação de capital e queda da taxa de lucro na conjuntura concreta de uma nova divisão internacional do trabalho. Nas relações de produção é que devem ser buscadas as razões da crise e não na gestão do capital financeiro, dos bancos.

A origem da crise reside na degradação da taxa de lucro e a crise financeira é apenas uma conseqüência. Para restaurar a taxa de lucro, o capitalista pode aumentar o tempo de trabalho ou a produtividade ou ainda, como normalmente faz, buscar os dois ao mesmo tempo. A segunda opção foi a preferida diante da crise do sistema imperialista que se abriu nos anos 1970, com a mudança da indústria dos países imperialistas, EUA à frente, fundamentalmente para países do Oriente, a China principalmente, onde o trabalho é bem mais barato e, além disso, também pode aumentar o tempo de trabalho. Isto agravou as tendências à superprodução de mercadorias e à superacumulação de capital que passou a financiar o consumo, principalmente nos países capitalistas, e a criar um enorme castelo de cartas financeiro, uma enorme esfera de valorização fictícia que ruiu, abrindo a crise.

Obviamente a crise estoura sempre por uma causa específica e, portanto, os “especialistas” sempre podem achar um nome para ela, como por exemplo, o “choque do petróleo”, em 1974, e os imóveis nos EUA, em 2007-2008. A sobreacumulação sempre se revela em um setor específico, a crise de sobreacumulação sempre inicia por este setor específico.

Devemos enfatizar que a acumulação de capital revelada pela crise geral manifesta-se como superacumulação de todas as formas em que o capital está presente no processo de produção (M-D-M’). Neste processo de produção da mais-valia, que é a própria existência do capital, o valor sempre passa da forma dinheiro para a forma de meios de produção, matérias-primas, trabalho, bens, e dinheiro mais uma vez. E isso acontece indefinidamente, num processo que é reiniciado por inúmeros capitais antes mesmo e ao mesmo tempo em que o processo acima esteja concluído. A questão é que nossa esquerda não só não leu Marx como também foge dele como o diabo da cruz.

Na circulação D – M – D, pelo contrário, ambos, mercadoria e dinheiro, funcionam apenas como modos diferentes de existência do próprio valor, o dinheiro o seu modo geral, a mercadoria o seu modo particular, por assim dizer apenas camuflado, de existência. Ele passa continuamente de uma forma para outra, sem perder-se nesse movimento, e assim se transforma num sujeito automático. Fixadas as formas particulares de aparição, que o valor que se valoriza assume alternativamente no ciclo de sua vida, então se obtêm as explicações: capital é dinheiro, capital é mercadoria. (12).[1]

E mais, se não leu este texto muito menos ainda leu as notas a este trecho.

12 “O meio circulante (!) que é usado para fins produtivos é capital.” (MACLEOD. The Theory and Practice of Banking. Londres, 1855. V. 1, cap. 1, p. 55.) “Capital é igual a mercadorias.” (MILL, James. Elements of Pol. Econ. Londres, 1821. p. 74.). [2]

E, caso se tivessem dado ao trabalho de virar a página, ainda teriam a oportunidade de ler:

Mas também o capital industrial é dinheiro, que se transforma em mercadoria e por meio da venda de mercadoria retransforma-se em mais dinheiro. … No capital a juros a circulação D – M – D’ apresenta-se, afinal, abreviada, em seu resultado sem a mediação, por assim dizer em estilo lapidar, como D – D’, dinheiro que é igual a mais dinheiro, valor que é maior que ele mesmo.[3]

Este fenômeno da luta de classes que faz os economistas só verem o que “para o capital” é “útil ou prejudicial, cômodo ou incômodo, subversivo ou não”, denunciado por Marx no prefácio de O Capital é analisado por Friedrich Engels em carta que escreveu em 27 de outubro 1890 a Conrad Schmidt:

Pero usted obtendrá um conocimiento práctico del mecanismo y estará obligado a seguir de primera mano las informaciones de las bolsas de comercio de Londres, Nueva York, París, Berlín y Viena, y de esta manera se le manifestará a uste del mercado mundial, em su reflejo de mercado monetário y de valores. Los reflejos econômicos, políticos y demás, son iguales que los delojo humano: pasan por una lente convergente y por ello aparecen invertidos, patas arriba. Sólo que falta el sistema nervioso que los ponga nuevamente de pie. El hombre del mercado monetário solo vê El movimiento de la industria y del mercado mundial em el reflejo invertido del mercado de valores, y así el efecto se convierte para el en causa.[4]

Nossos “comunistas”, imersos na ideologia burguesa, vivendo das aparências, poderão dizer que crise de superprodução ou crise financeira não faz diferença, o importante é lutar.

Os marxistas-leninistas não podem deixar de lutar contra esta nova versão de espontaneísmo. Como mostra Lênin e toda a experiência das lutas de classe vitoriosas, sem o partido revolucionário aplicando de forma justa a teoria revolucionária não há revolução.

O que quer a burguesia e sua “espadacharia mercenária” revisionista e reformista é colocar a luta de classe dos dominados sob a sua direção, colocar as classes dominadas e o proletariado sob a direção dos “especialistas burgueses” que, de cima de sua “erudição”, vão explicar a necessidade de “regular os bancos”, “regular o mercado financeiro” e pregar a “união do peão e do patrão para enfrentar a especulação”, como quer Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical em ato político com a finalidade de “enfrentar a crise”, organizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Força Sindical, CUT, Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, CNM e Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas) [5]. Assim, o caminho da revolução será abandonado e as classes dominadas vão lutar na esteira desses “especialistas” que, como sempre, reduziram a luta de classes da classe operária a uma luta por migalhas.

O papel dos comunistas e, portanto, nosso papel neste momento em que a crise do imperialismo abre enormes oportunidades para a classe operária, para as classes dominadas, é o de lançar luz sobre as razões da crise e não deixar ilusões sobre a possibilidade de um capitalismo regulado. É o de nos ligarmos profundamente às massas exploradas, à classe operária, fazer corpo com elas na luta de classes e só assim essas massas poderão ser mobilizadas e dirigidas a objetivos verdadeiramente revolucionários. E essa ação só poderá ser efetuada pelo partido da vanguarda do proletariado.

A crise lança a burguesia de forma cada vez mais feroz sobre o proletariado e as classes dominadas na luta de classes, e quem diz luta de classes da classe dominante diz luta de classes das classes dominadas. Esta é a necessidade de desenvolver uma explicação do que é esta crise. Combater a crise é lutar contra o sistema capitalista e se mover em direção ao socialismo, comunismo, o único caminho que pode acabar com a crise.

Paulo da Silva Gomes.

 

[1] Marx, K. O Capital, vol. 1, São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 130.

[2] Marx, K. O Capital, vol. 1, São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 130.

[3] Marx, K. O Capital, vol. 1, São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 131.

[4]  Carlos Marx Y Federico Engels, Correspondencia, Editorial Problemas – Buenos Aires, 1947, p. 489.

[5] Trabalhadores e empresários unem-se contra os juros altos

http://www.metalurgicos.org.br/materia.asp?id_CON=5068

- 26/05/2012