CEM FLORES

QUE CEM FLORES DESABROCHEM! QUE CEM ESCOLAS RIVALIZEM!

Cultura, Destaque, Lutas, Teoria

Lenin sobre as tarefas da juventude comunista

Pioneiros na URSS. O Movimento dos Pioneiros organizava crianças e adolescentes de até 14 anos e os preparava para ingressar na juventude comunista.

Cem Flores

Apresentação (Cem Flores)

Publicamos abaixo trechos do discurso de Lenin sobre As Tarefas das Uniões da Juventude, realizado no III Congresso União da Juventude Comunista da Rússia, em 2 de outubro de 1920.

Sua intervenção se dirigia aos jovens que estavam vendo e construindo a vitoriosa revolução soviética, numa época de construção do socialismo, base para uma nova sociedade, a comunista. 

Certamente, nosso contexto é outro. Mas achamos que o texto ainda é relevante. Em primeiro lugar, porque a construção da sociedade comunista ainda é uma tarefa estratégica a ser alcançada pelo proletariado e seus filhos. Em segundo lugar, porque o texto também traz lições e princípios sobre organização, educação e moral da juventude comunista na luta de classes, seja no capitalismo, ou na defesa da revolução.

A missão maior da juventude comunista, diz Lenin, não poderia ser outra: criar uma nova sociedade, sem classes, sem exploração. Para isso é preciso uma formação para tal, aprender o comunismo. Mas de qual educação nosso dirigente se refere?

Uma educação de classe, que se oponha à educação e à escola burguesas, capitalistas. Esta se realiza através da separação entre teoria e prática, da reprodução da divisão de classes e do combate à ideologia proletária. Já a educação do jovem comunista deve ser vinculada à prática social e à luta proletária. 

“A União da Juventude Comunista só será digna deste nome, de ser a União da jovem geração comunista, se vincular cada passo da sua instrução, educação e formação à participação na luta comum de todos os trabalhadores contra os exploradores.”

No entanto, isso não significa menosprezar a teoria, contentar-se com conhecimentos superficiais e pragmáticos. A partir do exemplo do próprio Marx, Lenin mostra a importância de considerar o conhecimento acumulado no passado, inclusive por outras classes sociais. 

Um jovem comunista se define, assim, pela busca contínua por ampliar e renovar seus conhecimentos, vinculá-los à prática e retificar suas posições. 

“O comunista que se vangloriasse de ser comunista simplesmente por ter decorado umas conclusões já estabelecidas, sem ter realizado um trabalho muito sério, muito difícil e muito grande, sem analisar os fatos, frente aos quais é obrigado a adoptar uma atitude crítica, seria um comunista muito lamentável. […] Se eu sei que sei pouco, esforçarei-me por saber mais; mas se um homem diz que é comunista e que não tem necessidade de conhecimentos sólidos, nunca sairá dele nada que se pareça a um comunista.”

Essa determinação provém de uma disciplina consciente que a causa exige, da experiência na luta de classes. Assim como é necessária para colaborar com essa causa. 

Aprender o comunismo não envolve apenas conhecimentos vinculados a uma prática, e uma atitude para alcançar esses conhecimentos. Pressupõe uma moral, uma ética, um conjunto de valores que orientam e guiam a ação social e política dos jovens comunistas. 

Assim como a educação, essa moral é uma moral de classe, uma moral na e para a luta de classes, e não hipócritas e vazios imperativos. Construir e fomentar esses valores, provindos da ideologia proletária e das formulações científicas do marxismo, por isso, é necessariamente lutar contra a moral individualista da velha sociedade. 

Mas que nova moral é essa? É aquela que se baseia numa “disciplina solidária e unida” com a luta proletária, que, com iniciativa e espírito de vanguarda, reforça a solidariedade, as causas comuns, preparando assim o terreno para a nova sociedade, sendo ele próprio o exemplo a ser seguido. 

No final do texto, Lenin traz exemplos concretos de ações organizadas que a juventude comunista deveria realizar àquela época: campanha de alfabetização, construção de hortas, participação nos sábados comunistas de trabalhos sociais e voluntários. Nesses casos, a juventude está servindo à causa comunista, unindo-se às massas, e fortalecendo uma moral solidária entre os explorados.

Essas lições são tão válidas hoje quanto eram um século atrás!

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As Tarefas das Uniões da Juventude

Lenin

Camaradas:

Queria falar hoje convosco sobre as tarefas fundamentais da União da Juventude Comunista e, com este tema, do que devem ser as organizações da juventude na República socialista em geral.

Este problema merece tanto mais a nossa atenção porquanto, pode dizer-se, em certo sentido, é precisamente à juventude que incumbe a verdadeira tarefa de criar a sociedade comunista. Porque é evidente que a geração de trabalhadores educada na sociedade capitalista pode, no melhor dos casos, cumprir a tarefa de destruir os alicerces do antigo regime capitalista baseado na exploração. O mais que poderá fazer é resolver os problemas postos pela criação de uma ordem social que ajude o proletariado e as classes trabalhadoras a conservar o poder nas suas mãos e a criar uma sólida base, sobre a qual só poderá verdadeiramente construir a geração que começa a trabalhar já em condições novas, numa situação em que não existem relações de exploração entre os homens.

Pois bem, ao abordar deste ponto de vista a questão das tarefas da juventude, devo dizer que estas tarefas da juventude em geral e das uniões da juventude comunista e outras organizações em particular, poderiam definir-se com uma só palavra: aprender.

É claro que isto não é mais que “uma palavra”. E esta palavra não responde às perguntas principais e mais essenciais: que aprender e como aprender? E o essencial neste problema é que, com a transformação da velha sociedade capitalista, o ensino, a educação e a instrução das novas gerações, chamadas a criar a sociedade comunista, não podem continuar a ser o que eram dantes. O ensino, a educação e a instrução da juventude devem partir dos materiais que a antiga sociedade nos legou. Só poderemos edificar o comunismo com a súmula dos conhecimentos, organizações e instituições, com o acervo de meios e forças humanas que herdamos da velha sociedade. Só transformando radicalmente o ensino, a organização e a educação da juventude conseguiremos que os esforços da jovem geração deem como resultado a criação de uma sociedade que não se pareça com a antiga, quer dizer, da sociedade comunista. Por isso, devemos examinar em detalhe o que temos de ensinar à juventude e como esta há de aprender se quer merecer realmente o nome de Juventude Comunista e como é necessário prepará-la para que seja capaz de preparar e coroar a obra por nós iniciada.

Devo dizer que a primeira resposta e, ao que parece, a mais natural é que a União da Juventude, e em geral toda a juventude que queira passar ao comunismo tem que aprender o comunismo.

Mas esta resposta, “aprender o comunismo”, é demasiado geral. Que é que necessitamos para aprender o comunismo? Que é que devemos escolher, entre o conjunto de conhecimentos gerais, para adquirir a ciência do comunismo? Uma série de perigos nos ameaçam neste terreno, perigos esses que surgem a cada passo quando se expõe mal a tarefa de aprender o comunismo ou se entende esta de uma maneira demasiado unilateral.

À primeira vista, naturalmente, parece que aprender o comunismo é assimilar o conjunto de conhecimentos que se expõem nos manuais, folhetos e obras comunistas. Mas isso seria definir de um modo demasiado grosseiro e insuficiente o estudo do comunismo. Se o estudo do comunismo consistisse unicamente em assimilar o que dizem os trabalhos, livros e folhetos comunistas, isto nos daria com excessiva facilidade escolásticos ou fanfarrões comunistas, o que muitas vezes nos causaria dano e prejuízo, porque estas pessoas, depois de terem lido muito e aprendido o que se expõe nos livros e folhetos comunistas, seriam incapazes de coordenar todos estes conhecimentos e atuar como realmente exige o comunismo.

Um dos maiores males e calamidades que nos deixou como herança a antiga sociedade capitalista é o completo divórcio entre o livro e a vida prática, pois tínhamos livros nos quais tudo estava escrito numa forma perfeita e a maior parte das vezes esses livros não eram senão uma repugnante e hipócrita mentira, que nos pintava um quadro falso da sociedade capitalista.

Por isso, seria um grande equívoco limitarmo-nos a assimilar simplesmente o que dizem os livros do comunismo. Os nossos discursos e artigos de agora não são uma simples repetição do que antes se disse sobre o comunismo; pois estão ligados ao nosso trabalho quotidiano em todos os setores. Sem este trabalho, sem a luta, o conhecimento livresco do comunismo, adquirido em folhetos e obras comunistas, não tem absolutamente nenhum valor, já que não faria mais do que continuar o antigo divórcio entre a teoria e a prática, o mesmo divórcio que constituía o mais repugnante rasgo da velha sociedade burguesa.

Seria, porém, mais perigoso pretendermos aprender somente as consignas comunistas. Se não compreendêssemos a tempo este perigo, se não fizéssemos todo o género de esforços para o evitar, a existência de meio milhão ou de um milhão de jovens de ambos os sexos, que depois de semelhante estudo do comunismo se chamassem comunistas, não causaria senão um grande prejuízo à causa do comunismo.

Põe-se nos, pois, a questão de saber como havemos de coordenar tudo isto para aprender o comunismo. Que devemos tomar da velha escola, da velha ciência? A velha escola declarava que queria criar homens instruídos em todos os domínios e que ensinava as ciências em geral. Sabemos que isso era pura mentira, porque toda a sociedade se baseava e sustentava na divisão dos homens em classes, em exploradores e oprimidos. Como é natural, toda a velha escola, inteiramente impregnada do espírito de classe, não dava conhecimentos senão aos filhos da burguesia. Cada uma das suas palavras era arranjada para favorecer os interesses da burguesia. Nestas escolas, mais que educar os jovens operários e camponeses, preparavam-nos para maior proveito dessa mesma burguesia. Tratavam de preparar servidores úteis, capazes de proporcionar lucros à burguesia, sem perturbar, ao mesmo tempo, a sua ociosidade e sossego. Por isso, ao condenar a antiga escola, propusemo-nos tomar dela unicamente o que nos era necessário para conseguir uma verdadeira educação comunista.

Agora, vou tratar das reprovações, das censuras que correntemente se dirigem à escola antiga e que conduzem muitas vezes a interpretações inteiramente falsas. Diz-se que a velha escola era uma escola livresca, uma escola de adestramento autoritário, uma escola de ensino memorista. Isto é correto, mas há que saber distinguir o que tinha de mau e de útil para nós a velha escola, há que saber escolher dela o indispensável para o comunismo.

A velha escola era livresca, obrigava a armazenar uma massa de conhecimentos inúteis, supérfluos, mortos, que atulhavam a cabeça e transformavam a geração jovem num exército de funcionários talhados pelo mesmo padrão. Mas se daí tentardes deduzir que se pode ser comunista sem ter assimilado o tesouro de conhecimentos acumulado pela humanidade, cometereis um erro crasso. Seria errado pensar que basta assimilar as palavras de ordem comunistas, as conclusões da ciência comunista, sem adquirir a soma de conhecimentos adquiridos de que o próprio comunismo é um produto. O marxismo é um exemplo que mostra como o comunismo saiu do conjunto dos conhecimentos humanos.

Tereis lido e ouvido que a teoria comunista, a ciência comunista, criada principalmente por Marx, que esta doutrina do marxismo deixou de ser obra de um só socialista — se bem que genial, é verdade— do século XIX para se transformar na doutrina de milhões e dezenas de milhões de proletários do mundo inteiro, que a aplicam na sua luta contra o capitalismo. E se perguntardes por que pôde a doutrina de Marx conquistar o coração de milhões e dezenas de milhões pertencentes à classe mais revolucionária, será vos dada uma única resposta: porque Marx se apoiava na sólida base dos conhecimentos humanos adquiridos sob o capitalismo. Ao estudar as leis do desenvolvimento da sociedade humana, Marx compreendeu a inevitabilidade do desenvolvimento do capitalismo, que conduz ao comunismo, e, o que é mais importante, demonstrou-o baseando-se exclusivamente no estudo mais exato, mais detalhado e mais profundo desta sociedade capitalista, por ter assimilado plenamente tudo o que a ciência tinha produzido até então, Marx analisou de um modo crítico, sem desdenhar um único ponto, tudo o que a sociedade humana tinha criado. Analisou tudo o que o pensamento humano tinha criado, passou-o pelo crivo da crítica, comprovou-o no movimento operário e extraiu daí as conclusões que as pessoas, encerradas nos limites estreitos do quadro burguês, ou atenazadas pelos preconceitos burgueses não podiam extrair.

Há que ter isto em conta quando falamos, por exemplo, da cultura proletária. Sem compreender claramente que só se pode criar esta cultura conhecendo com precisão a cultura que a humanidade criou em todo o seu desenvolvimento e transformando-a, sem compreender isto, não poderemos cumprir esta tarefa. A cultura proletária não surge de fonte desconhecida, não é uma invenção dos que se chamam especialistas em cultura proletária. Isso é pura estupidez. A cultura proletária tem que ser o desenvolvimento lógico do acervo de conhecimentos conquistados pela humanidade sob o jugo da sociedade capitalista, da sociedade dos proprietários de terras, da sociedade burocrática. Todos esses caminhos e carreiros conduziram e continuam a conduzir até à cultura proletária, do mesmo modo que a Economia Política, transformada por Marx, mostrou-nos aonde tem de chegar a sociedade humana, indicou-nos a passagem para a luta de classes, para o começo da revolução proletária.

Quando ouvimos com frequência tanto a alguns representantes da juventude como a certos defensores dos novos métodos de ensino, atacar a velha escola dizendo que ela só fazia aprender de memória os textos, respondemos-lhes que é necessário tomar dessa velha escola tudo o que ela tem de bom. Não há que imitá-la sobrecarregando a memória dos jovens com a quantidade desmesurada de conhecimentos, dos quais são inúteis as nove décimas partes e o resto é desvirtuado; mas isso não significa que passamos a contentar-nos com conclusões comunistas e limitar-nos a aprender palavras de ordem comunistas. Desse modo não se pode edificar o comunismo. Só se pode chegar a ser comunista quando se enriquece a memória com todo o tesouro da ciência acumulado pela humanidade.

Não queremos um ensino memorista, mas precisamos de desenvolver e aperfeiçoar a memória de cada estudante dando-lhe fatos essenciais, porque o comunismo seria uma vacuidade, ficaria reduzido a uma fachada vazia, o comunista não passaria de um fanfarrão se não reelaborasse na sua consciência todos os conhecimentos adquiridos. Não deveis assimilar unicamente estes conhecimentos, deveis assimilá-los com espírito critico para não atulhar o vosso cérebro com um conjunto de coisas mal ordenadas e inúteis, para enriquecê-lo pelo conhecimento de todos os factos sem os quais não é possível ser um homem moderno e culto. O comunista que se vangloriasse de ser comunista simplesmente por ter decorado umas conclusões já estabelecidas, sem ter realizado um trabalho muito sério, muito difícil e muito grande, sem analisar os fatos, frente aos quais é obrigado a adoptar uma atitude crítica, seria um comunista muito lamentável. Semelhante atitude superficial seria funestíssima. Se eu sei que sei pouco, esforçar-me-ei por saber mais; mas se um homem diz que é comunista e que não tem necessidade de conhecimentos sólidos, nunca sairá dele nada que se pareça a um comunista.

A velha escola forjava os dóceis lacaios de que os capitalistas necessitavam; fazia dos homens da ciência pessoas obrigadas a escrever e a falar ao gosto dos capitalistas. Isso quer dizer que devemos suprimi-la. Mas se devemos suprimi-la, destruí-la, deduz-se daí que não devamos tomar dela tudo o que a humanidade acumulou e é necessário para o homem? Depreende-se daí que não devamos saber distinguir entre o que necessitava o capitalismo e o que necessita o comunismo?

Em vez do adestramento autoritário que se praticava na sociedade burguesa contra a vontade da maioria, nós colocamos a disciplina consciente dos operários e camponeses, que unem ao seu ódio contra a velha sociedade a decisão, a capacidade e o desejo de unir e organizar as suas forças para esta luta, a fim de criar, com milhões e dezenas de milhões de vontades dispersas, isoladas, fraccionadas e desperdiçadas pela imensa extensão do nosso país, uma vontade única, já que sem ela seremos inevitavelmente vencidos. Sem esta coesão, sem esta disciplina consciente dos operários e dos camponeses, a nossa causa está condenada a fracassar. Sem ela não poderemos derrotar os capitalistas e proprietários de terras de todo o universo. Não só não chegaremos a construir a nova sociedade comunista, como nem sequer chegaremos a assentar solidamente os seus alicerces. Do mesmo modo, apesar de condenarmos a velha escola, apesar de sentirmos contra ela um ódio absolutamente legítimo e necessário, apesar de apreciarmos o desejo de destruí-la, devemos compreender que a velha escola livresca, o velho ensino memorista e o velho adestramento autoritário devem ser substituídos pela arte de assimilar todo o conjunto de conhecimentos humanos, e assimilá-los de tal modo que o vosso comunismo não seja algo aprendido de memória, mas algo pensado por vós mesmos, como uma conclusão que se impõe necessariamente do ponto de vista da instrução moderna.

[…]

Esta é a vossa missão: não deveis perdê-la de vista ao instruir, educar e elevar toda a geração jovem. Deveis ser os primeiros entre os construtores da sociedade comunista, entre os milhões de construtores que devem ser cada rapaz e cada garota. Se não incorporais a esta edificação do comunismo toda a massa da juventude operária e camponesa, não construireis a sociedade comunista.

Isto leva-me, como é natural, à questão de como devemos ensinar o comunismo e em que deve consistir a peculiaridade dos nossos métodos.

Deter-me-ei, em primeiro lugar, no problema da moral comunista.

Tendes que fazer, de vós próprios, comunistas. A tarefa da União da Juventude consiste em organizar a sua atividade prática de modo que, estudando, organizando-se, unindo-se, lutando, esta juventude faça a sua educação de comunista e a de todos os que a reconhecem como guia. Toda a educação, toda a instrução e todo o ensino da juventude contemporânea devem desenvolver nela a moral comunista.

Mas existe uma moral comunista? Existe uma ética comunista? É evidente que sim. Pretende-se muitas vezes que nós não temos uma moral própria, e a burguesia acusa-nos com frequência de nós, os comunistas, negarmos toda a moral. Isto não é mais que uma manobra para adulterar os conceitos e deitar poeira nos olhos dos operários e dos camponeses.

Em que sentido negamos nós a moral, a ética?

Negamo-la no sentido que lhe dava a burguesia, que punha na base da moralidade os mandamentos divinos. A este respeito dizemos, naturalmente, que não cremos em Deus, e sabemos muito bem que o clero, os proprietários de terras e a burguesia falavam em nome de Deus para defenderem os seus interesses de exploradores. Ou então, em vez de deduzir esta moral dos preceitos da ética, dos mandamentos de Deus, deduziam-na de frases idealistas ou semi-idealistas que, definitivamente, se pareciam sempre muito aos mandamentos de Deus.

Nós negamos toda a moralidade dessa índole, tomada de concepções à margem da sociedade humana, à margem das classes. Dizemos que isso é enganar, iludir os operários e camponeses e embolar a sua consciência em proveito dos proprietários de terras e capitalistas.

Dizemos que a nossa moralidade está por completo subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado. A nossa tem por ponto de partida os interesses da luta de classe do proletariado.

A antiga sociedade baseava-se na opressão de todos os operários e de todos os camponeses pelos proprietários de terras e capitalistas. Era necessário destruí-la, era necessário derrubar esses opressores, mas para isso precisávamos de criar a união. E não era Deus que podia criá-la.

Esta união apenas podia vir das fábricas, de um proletariado instruído, despertado do seu velho letargo. Só quando se constituiu esta classe, começou o movimento de massas que conduziu ao que vemos hoje; ao triunfo da revolução proletária num dos países mais débeis, que se defende desde há três anos, frente aos embates da burguesia do mundo inteiro. E vemos como a revolução proletária cresce em todo o globo. Agora dizemos, baseando-nos na experiência, que só o proletariado pôde criar uma força tão coesa, que é seguida pela classe camponesa dispersa e fragmentada e que foi capaz de resistir a todos os ataques dos exploradores. Só esta classe pode ajudar as massas exploradoras a unir-se, a cerrar fileiras, a fazer triunfar e garantir definitivamente a sociedade comunista, a edificá-la por completo.

Por isso dizemos que, para nós, a moralidade tomada à margem da sociedade humana não existe, é um logro. Para nós, a moral está subordinada aos interesses da luta de classe do proletariado.

Ora bem, em que consiste esta luta de classes? Em derrubar o tsar, em derrubar os capitalistas, em aniquilar a classe capitalista.

E que são as classes em geral? É o que permite a uma parte da sociedade apropriar-se do trabalho da outra. Se uma parte da sociedade se apropria de toda a terra, há uma classe de proprietários de terra e uma classe de camponeses. Se uma parte da sociedade possui as fábricas, as ações e os capitais, enquanto que a outra trabalha nessas fábricas, temos a classe dos capitalistas e a dos proletários.

[…]

A luta de classes continua, somente mudaram as suas formas. É a luta de classe do proletariado para impedir o regresso dos antigos exploradores, para agrupar numa estreita união a massa dispersa do campesinato ignorante. A luta de classes continua, e a nossa missão é subordinar todos os interesses a esta luta. Por isso, subordinamos a ela a nossa moralidade comunista. Dizemos: é moral tudo aquilo que contribui para destruir a antiga sociedade exploradora e para agrupar todos os trabalhadores em tomo do proletariado, criador da nova sociedade comunista.

A moral comunista é a que serve para esta luta, a que une os trabalhadores contra toda a exploração e contra toda a pequena propriedade, pois a pequena propriedade põe nas mãos de um indivíduo aquilo que foi criado pelo trabalho de toda a sociedade. No nosso país, a terra é considerada propriedade comum.

Mas que acontecerá se tomo uma parte dessa propriedade comum, se cultivo nela duas vezes mais trigo do que necessito, se especulo com o excedente da colheita, se calculo que quanto mais fome padeçam os outros, mais caro me pagarão? Estarei a agir como comunista? Não, estarei a agir como explorador, como proprietário. Temos de lutar contra isso. Se as coisas continuam assim, voltaremos ao passado, cairemos de novo debaixo do Poder dos capitalistas e da burguesia, como ocorreu mais de uma vez em anteriores revoluções. E para evitar que se restaure o Poder dos capitalistas e da burguesia, é preciso proibir o mercantilismo, é preciso impedir que uns indivíduos se enriqueçam à custa dos outros, é preciso que os trabalhadores se unam estreitamente ao proletariado e constituam a sociedade comunista. Consiste nisto, precisamente, o carácter essencial daquilo que constitui a tarefa fundamental da organização da juventude comunista.

A velha sociedade estava baseada no seguinte princípio: ou saqueias o teu próximo ou ele te saqueia a ti, ou trabalhas para outro, ou outro trabalha para ti, ou és escravagista ou és escravo. E é compreensível que os homens educados em semelhante sociedade assimilem, com o leite materno, por assim dizer, a psicologia, o costume, a ideia de que não há senão senhores ou escravos, ou pequenos proprietários, pequenos empregados, pequenos funcionários, intelectuais, numa palavra, homens que se ocupam exclusivamente de ter o seu sem pensar nos outros.

Se eu exploro a minha parcela de terra, pouco me importam os outros; se alguém tem fome, tanto melhor, venderei o meu trigo mais caro. Se tenho o meu empreguinho de médico, de engenheiro, de professor ou de empregado, que me importam os outros? Pode ser que, à custa de adulações e de complacências em relação aos poderosos, eu consiga conservar o meu lugarzinho, ou, na melhor das hipóteses, possa fazer carreira e chegar a burguês. Semelhante psicologia e estado de ânimo não podem existir num comunista. Quando os operários e camponeses demonstraram que, com as nossas próprias forças, somos capazes de defender-nos e de criar uma sociedade nova, nesse mesmo momento começou a nova educação comunista, a educação na luta contra os exploradores, a educação na aliança com o proletariado contra os egoístas e os pequenos proprietários, contra a psicologia e os costumes que dizem: “procuro o meu próprio benefício e o resto não me interessa”.

Tal é a resposta à pergunta de como deve aprender o comunismo a geração jovem.

Esta geração só poderá aprender o comunismo se ligar cada passo da sua instrução, da sua educação e da sua formação à luta incessante dos proletários e dos trabalhadores contra a antiga sociedade baseada na exploração. Quando se nos fala de moralidade, dizemos: para um comunista, toda a moral reside nesta disciplina solidária e unida e nesta luta consciente das massas contra os exploradores. Não cremos na moral eterna e denunciamos o embuste de todas as mentiras acerca da moral. A moral serve para que a sociedade humana se eleve a maior altura, para que se desembarace da exploração do trabalho.

Para o conseguirmos, necessitamos da geração dos jovens que num ambiente de luta disciplinada e encarniçada contra a burguesia começaram a converter-se em homens conscientes. Nesta luta, a juventude forjará verdadeiros comunistas; a esta luta deve vincular e subordinar a todo o momento a sua instrução, a sua educação e a sua formação. A educação da juventude comunista não deve consistir em oferecer-lhe discursos prazenteiros de todo o gênero e regras de moralidade. Não, a educação não consiste nisso. Quando um homem viu o seu pai e a sua mãe viver sob o jugo dos proprietários de terras e capitalistas, quando ele próprio participou dos sofrimentos dos primeiros que empreenderam a luta contra os exploradores, quando viu os sacrifícios que custa a continuação desta luta e a defesa do que foi conquistado e quão furiosos inimigos são os proprietários de terras e os capitalistas, esse homem, nesse ambiente, forja-se como comunista. A base da moralidade comunista está na luta para reforçar e levar a cabo a edificação do comunismo. Essa é a base do estudo, da educação e da instrução comunistas. Tal é a resposta à pergunta de como há que aprender o comunismo.

Não acreditaríamos no estudo, na educação e na instrução se estas fossem encerradas nas escolas e separadas da vida agitada. Enquanto os operários e os camponeses estiverem oprimidos pelos proprietários de terras e pelos capitalistas, enquanto as escolas continuarem nas mãos dos proprietários de terras e dos capitalistas, a geração jovem permanecerá cega e ignorante. Mas a nossa escola deve dar aos jovens os fundamentos da ciência, a arte de forjarem por si mesmos uma mentalidade comunista, deve fazer deles homens cultos. No tempo que os jovens passam na escola, esta tem que fazer deles participantes na luta para se libertarem dos exploradores. A União da Juventude Comunista só será digna deste nome, de ser a União da jovem geração comunista, se vincular cada passo da sua instrução, educação e formação à participação na luta comum de todos os trabalhadores contra os exploradores. Porque sabeis perfeitamente que enquanto a Rússia for a única república operária, e no resto do mundo subsistir o antigo regime burguês, seremos mais débeis que eles, que nos ameaçam constantemente novos ataques, e que só aprendendo a manter entre nós a coesão e a unidade triunfaremos na luta ulterior e, uma vez fortalecidos, tornar-nos-emos verdadeiramente invencíveis. Portanto, ser comunista significa organizar e unir toda a geração jovem, dar exemplo de educação e de disciplina nesta luta. Então podereis empreender e levar a cabo a edificação da sociedade comunista.

Para que compreendais mais claramente, darei um exemplo. Nós chamamo-nos comunistas. Que é um comunista? Comunista vem da palavra latina communis, que significa comum. A sociedade comunista significa que tudo é comum: a terra, as fábricas, o trabalho. Isso é o comunismo.

Pode ser comum o trabalho se os homens exploram cada um a sua própria parcela? O trabalho comum não se cria da noite para o dia. Isso é impossível. Não cai do céu. Há que consegui-lo após largos esforços e sofrimentos, há que criá-lo. E cria-se no curso da luta. Não se trata aqui de um livro velho, em que ninguém acreditaria. Trata-se da própria experiência da vida.

[…]

Respondi já às perguntas sobre que devemos aprender e que devemos tomar da velha escola e da velha ciência. Tratarei de responder também à pergunta de como devemos aprender isto: só ligando indissoluvelmente à luta de todos os trabalhadores contra os exploradores, cada passo na atividade da escola, cada passo na educação, na instrução e na formação.

Com alguns exemplos, extraídos da experiência do trabalho de algumas organizações da juventude, mostrar-vos-ei concretamente como deve fazer-se a educação do comunismo. Todo o mundo fala de liquidar o analfabetismo. Como sabeis, num país de analfabetos é impossível edificar a sociedade comunista. Não basta que o Poder dos Sovietes dê uma ordem, ou que o Partido lance uma palavra de ordem, ou que determinado contingente dos melhores militantes se consagre a esta tarefa. É preciso que a jovem geração comunista deite ela mesma mãos à obra. O comunismo consiste em que a juventude, os rapazes e as raparigas pertencentes à União da Juventude digam: isso é a nossa missão, unir-nos-emos e marcharemos para as aldeias a fim de liquidarmos o analfabetismo, para que a nossa jovem geração não tenha analfabetos. Nós aspiramos a que a juventude em formação consagre a esta obra a sua iniciativa. Vós sabeis que é impossível transformar rapidamente a Rússia ignorante e analfabeta numa Rússia instruída; mas se a União da Juventude põe nisso o seu empenho, se toda a juventude trabalha para o bem-estar de todos, esta União, que agrupa 400.000 jovens, terá direito a chamar-se União Comunista da Juventude. Outra das suas missões é, ao assimilar um ou outro conhecimento, ajudar os jovens que não conseguiram desembaraçar-se por si mesmos das trevas da ignorância. Ser membro da União da Juventude significa comportar-se de maneira a pôr o seu trabalho e as suas forças ao serviço da causa comum. Só efetuando esse trabalho um rapaz ou uma garota se converte num verdadeiro comunista. Só serão comunistas se conseguirem resultados práticos neste trabalho.

Tomai, por exemplo, o trabalho nas hortas suburbanas. Acaso não é um trabalho útil? É uma das tarefas que incumbem à União da Juventude Comunista. O povo passa fome, nas fábricas e empresas há fome. Para nos livrarmos dela há que desenvolver a horticultura, mas os campos continuam a cultivar-se à antiga. É preciso que os elementos mais conscientes metam mãos à obra, e então vereis crescer o número de hortas, aumentar a sua superfície e melhorar o seu rendimento. Neste trabalho deve participar ativamente a União da Juventude Comunista. Cada uma das suas organizações ou células deve considerá-lo assunto seu.

A União da Juventude Comunista deve ser um grupo de choque que dê a sua ajuda e manifeste a sua iniciativa, o seu espírito de empreendimento, em todos os terrenos. A União deve ser tal, que qualquer operário veja nos seus membros pessoas cuja doutrina porventura não lhe seja facilmente compreensível, em cujas ideias talvez não creia imediatamente, mas cujo trabalho real e cuja atenção lhe mostrem que são eles, precisamente, que lhe indicam o caminho certo.

Se a União da Juventude Comunista não sabe organizar assim o seu trabalho em todos os terrenos, significará que se desvia em direção ao antigo caminho burguês. Necessitamos vincular a nossa educação à luta dos trabalhadores contra os exploradores para ajudar os primeiros a cumprir as tarefas derivadas da doutrina comunista.

Os membros da União devem consagrar todas as suas horas de ócio a melhorar o cultivo nas hortas; ou a organizar numa fábrica qualquer a instrução da juventude, etc. Queremos transformar a Rússia pobre e miserável num país rico. E é preciso que a União da Juventude Comunista una a sua formação, a sua instrução e a sua educação ao trabalho dos operários e dos camponeses, que não se encerre nas suas escolas, nem se limite a ler livros e folhetos comunistas. Só trabalhando com os operários e os camponeses se pode chegar a ser um verdadeiro comunista. E é preciso que todos vejam que qualquer dos membros da União da Juventude é instruído e, ao mesmo tempo, sabe trabalhar. Quando todos virem que expulsamos da antiga escola o velho adestramento autoritário, substituindo-o por uma disciplina consciente, que todos os nossos jovens participam nos sábados comunistas, que utilizam as hortas suburbanas para ajudar a população, começarão a considerar o trabalho de outro modo.

Compete à União da Juventude Comunista organizar, na sua aldeia, ou no seu bairro, a ajuda numa obra como, por exemplo — tomo um pequeno exemplo — assegurar a limpeza ou a distribuição de víveres. Como se faziam estas coisas na velha sociedade capitalista? Cada qual trabalhava só para si, ninguém se preocupava que houvessem anciãos ou enfermos, ou que todos os trabalhos domésticos recaíssem sobre uma mulher, que, por isso, se encontrava escravizada e oprimida. Quem tem o dever de lutar contra tudo isso? As Uniões da Juventude, que devem dizer: nós transformaremos isto, organizaremos destacamentos de jovens que ajudarão nos trabalhos de limpeza ou na distribuição de víveres, percorrendo sistematicamente as casas, que atuarão organizadamente em proveito da sociedade, repartindo acertadamente as forças e demonstrando que o trabalho deve ser um trabalho organizado.

A geração que tem agora cerca de 50 anos, não pode pensar em ver a sociedade comunista. Terá morrido antes. Mas a geração que tem hoje 15 anos, verá a sociedade comunista e será ela que a construirá. E deve saber que a edificação desta sociedade é a missão da sua vida. Na velha sociedade, o trabalho fazia-se por famílias isoladas e ninguém o coordenava, excetuando os proprietários de terras e os capitalistas, que oprimiam as massas populares. Nós devemos organizar todos os trabalhos, por sujos ou duros que sejam, de modo que cada operário e cada camponês diga: eu sou uma pequena parte do grande exército do trabalho livre e saberei organizar a minha vida sem proprietários de terras nem capitalistas, saberei estabelecer o regime comunista. É preciso que a União da Juventude Comunista eduque a todos, desde cedo, no trabalho consciente e disciplinado. Assim, poderemos esperar que sejam cumpridas as tarefas que hoje se apresentam. Devemos ter em conta que farão falta não menos de dez anos para eletrificar o país, para que a nossa terra arruinada possa ter ao seu serviço as últimas conquistas da técnica. Pois bem, a geração que tem hoje 15 anos e que dentro de dez ou vinte anos viverá na sociedade comunista, deve organizar a sua instrução de maneira que cada dia, em cada aldeia ou cidade, a juventude cumpra praticamente uma tarefa de trabalho coletivo, por minúsculo e simples que seja. À medida que se realize isto em cada aldeia, à medida que se desenvolva a emulação comunista, à medida que isso ocorra, ficará assegurado o êxito da edificação comunista. Só considerando cada um dos seus atos do ponto de vista deste êxito, só perguntando conscientemente a nós próprios se fizemos o necessário para chegarmos a ser trabalhadores unidos e conscientes, conseguirá a União da Juventude Comunista agrupar o meio milhão dos seus membros no grande exército único do trabalho e granjear o respeito geral.

- 21/02/2020