Aprender com os Panteras Negras

Nos anos 1960, o povo negro dos Estados Unidos se levantava contra a exploração e a opressão do sistema racista. A repressão foi feroz, inclusive assassinando grandes lideranças, como Malcolm X. Em 1966, essa luta ganha um novo patamar com a fundação do Partido Pantera Negra para Autodefesa, uma organização revolucionária, de inspiração marxista-leninista.

Durante vários anos, os Panteras Negras organizaram o povo negro em uma luta por melhores condições de vida, fim da violência policial, por liberdade, por respeito… e por uma revolução que garantisse ao povo negro e aos povos oprimidos uma verdadeira libertação. E em pouco tempo, se tornaram a “ameaça interna nº 1” para a burguesia e o Estado norte-americano, que voltaram toda a sua estrutura ideológica e repressiva para desintegrar o Partido e seu trabalho. 

A força dos Panteras provinha das massas pobres e trabalhadoras de negros. O Partido seguiu à risca o lema do Livro Vermelho, que liam e distribuíam nas comunidades: servir ao povo![1] Abaixo reproduzimos um texto[2] do Partido, de 1969, em que comenta um dos programas fundamentais de sua luta: a escola da libertação. 

Além da educação, a alimentação e a saúde eram grandes eixos da atuação do Partido. O programa ‘Café da Manhã Gratuito’ para crianças chegou a oferecer dezenas de milhares de refeições pelo país. Construiu um programa de clínicas gratuitas, com profissionais militantes voluntários, para atendimento da comunidade e sobretudo no combate à anemia falciforme – negligenciada pelo governo. 

As lições dos Panteras Negras são extremamente atuais. O racismo em sociedades como a norte-americana e brasileira se reforçaram com os governos de Trump e Bolsonaro, símbolos de uma forte ofensiva burguesa. E as classes dominadas, mesmo com a vida em degradação, e sem perspectivas positivas para as novas gerações, tem encontrado dificuldade em consolidar forças e construir um caminho revolucionário hoje. Podemos e devemos aprender mais com experiência do Partido.

Vamos ao texto com destaques nossos. Todo Poder ao Povo!

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Libertação significa liberdade

The Black Panther, v. 3, n. 11.5 de julho de 1969.

O que são revolucionários? “Revolucionários são transformadores”. Essa resposta vem dos ávidos lábios das crianças que participam da primeira escola da libertação promovida pelo Partido Pantera Negra. A escola da libertação é a realização do ponto cinco da plataforma e programa de dez pontos, isto é: “Nós queremos educação para o nosso povo, que exponha a verdadeira natureza desta sociedade norte­americana decadente. Nós queremos uma educação que nos ensine nossa verdadeira história e nosso papel na sociedade atual”. Nós reconhecemos que a educação somente é relevante quando ensina a arte da sobrevivência. Nosso papel nesta sociedade é preparar nós mesmos e as massas para a mudança. A mudança que nós queremos está dentro desta sociedade decadente. É a implementação da plataforma de 10 pontos do Partido de Vanguarda. É a destruição da classe dominante que oprime e explora os pobres. É a destruição do homem de negócios ganancioso (a juventude na escola da libertação o chama de “grande homem de negócios”). É a destruição dos políticos mentirosos e enganadores e, o mais importante de tudo, a destruição dos porcos racistas que correm ferozmente pelas nossas comunidades.

As Escolas da Libertação substituirão, no verão, o Café da Manhã Gratuito para Crianças em Idade Escolar que foi iniciado no começo deste ano e que desde então se espalhou por capítulos e ramificações do partido de todo o país. A Escola da Libertação é o segundo dos muitos programas socialistas e educacionais que serão implementados pelo Partido Pantera Negra para satisfazer as demandas do povo. O primeiro programa começou ontem, 25 de junho, no cruzamento das ruas 9 e Hearstem Berkeley, Califórnia. O programa é um sucesso, com máxima participação proveniente da juventude e voluntários por todo o país. O currículo é desenvolvido para satisfazer as necessidades da juventude, para guia-­la em sua busca por verdades e princípios revolucionários. Um desjejum e um lanche bem balanceado são servidos diariamente. Três dias da semana são despendidos em sala de aula. Quinta-­feira é o dia do filme, e a sexta­-feira é reservada para excursões pela comunidade. O dia 30 de junho marcou a abertura de duas escolas adicionais, em East Oakland e em Hunters Point, em San Francisco, Califórnia. Programas adicionais estão agendados para começar num futuro próximo, por toda a área da baía de São Francisco e por todo o país.

A juventude compreende a luta que está sendo travada nesta sociedade. Isso fica evidente por sua avidez para participar do programa. Eles entendem que nós não estamos enfrentando uma luta racial mas, de fato, uma luta de classes. Eles reconhecem a necessidade de que todos os povos oprimidos se unam contra as forças que estão tornando nossas vidas insuportáveis. Sua compreensão se manifesta em suas próprias definições, por exemplo: Revolução significa Mudança; Revolucionários são Transformadores; Libertação significa Liberdade; e, por sua visão coletiva de si mesmos como sendo parte de uma GRANDE FAMÍLIA, trabalhando, brincando e vivendo juntos na luta. A beleza do socialismo é vista através de sua prática diária, enquanto eles se envolvem no programa.

Nós exortamos ao povo da comunidade que se una ao Partido de Vanguarda, apresentando os exemplos corretos para a nossa juventude através de sua participação ativa em nossas escolas da libertação por todo este país.

Aulas de Educação Política Comunitária também começarão à tarde, para adultos. A educação das massas é primordial para o Partido de Vanguarda. Povo, participe deste programa revolucionário para continuar a luta por liberdade neste país.

TODO O PODER PARA O POVO!

TODO O PODER PARA A JUVENTUDE!

 

1 Leia também a recente publicação sobre o assunto: http://cemflores.org/index.php/2018/11/28/maior-preocupacao-com-a-vida-das-massas-e-maior-atencao-aos-metodos-de-trabalho/ 

2 Extraímos o texto da seguinte Antologia: POR UMA REVOLUÇÃO ANTIRRACISTA: UMA ANTOLOGIA DE TEXTOS DOS PANTERAS NEGRAS (1968­1971) – Organização, tradução, introdução e notas por Henrique Marques Samyn, disponível aqui: https://antologiapanteranegra.files.wordpress.com/2018/02/antologia_panterasnegras.pdf