Mais uma criança assassinada pela polícia de Witzel. Ágatha presente!

Protesto no enterro de Ágatha, 8 anos.

Cem Flores

Na noite da última sexta-feira (20/09/2019), uma menina de apenas 8 anos, Ágatha, foi baleada pelas costas por um fuzil da polícia de Witzel, governador do Rio de Janeiro. Ela estava com sua mãe, dentro de uma Kombi, na Fazendinha, comunidade do Complexo do Alemão. Não resistindo ao ferimento, ela faleceu. Seu enterro ocorreu no domingo na Zona Norte do Rio e foi marcado por protestos da comunidade e forte comoção e revolta em todo Brasil.

Como no também recente e revoltante caso do fuzilamento do músico Evaldo Rosa, pelo Exército brasileiro no Rio, em 7 de abril, as forças de repressão “confundiram” o veículo em que Ágatha estava com o de um “suspeito”. Coincidentemente (?), o resultado é mais um corpo das classes exploradas no chão; mais um corpo negro e da periferia assassinado. 

Dor e revolta

Como dissemos no primeiro parágrafo e como nos mostra a foto acima, a imensa dor dos familiares e da comunidade não os paralisou. A dor se tornou também em revolta, mais um grito de basta. Assim como ocorreu no enterro de Evaldo Rosa, em abril. Ou no início deste mês, após o assassinato de Mineirinho, querido pedreiro da Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio.

Revolta da comunidade contra o assassinato de Mineirinho, morto pela polícia enquanto fazia a laje de um amigo, numa manhã de terça. A Avenida Brasil, a maior do país, ficou fechada por mais de uma hora.

No caso de Ágatha, os protestos também se estenderam entre organizações e movimentos sociais, nas redes sociais e no meio artístico. Na internet, foi um dos assuntos mais comentados do final de semana, e as hashtags #aculpaédowitzel e #witzelassassino ocuparam os primeiros lugares.

Arte de João Montanaro, na Folha de São Paulo, dia 23/09/2019. Os dizeres fazem referência ao genocida projeto “anticrime (para a polícia continuar matando)” do ministro de Bolsonaro, Sérgio Moro.

Números de uma guerra

Diante da grande comoção nacional, logo surgiram hipócritas políticos e “figuras públicas” a lamentar a morte de Ágatha e falar em “tragédia”, sendo que suas mãos estão com o sangue de mais uma criança! 

Mas também surgiram, cada vez mais cínicos e descaradas, os sanguinários de sempre para justificar a guerra do Estado contra as classes exploradas. Moro continuou a defender seu projeto de carta branca para as polícias. Já o porta-voz da PM do Rio: “não iremos recuar. O governo do estado está no caminho certo”. A guerra continua.

E de fato os números são de uma guerra.

O recém-publicado Anuário Brasileiro de Segurança Pública – 2019 mostra que 17 pessoas são mortas por dia em intervenções policiais no Brasil (ou seja, excluindo as execuções “extraoficiais” a paisana de milícias e grupos de extermínios). Em 2018, foram 6.220 vítimas, o que representa um crescimento de quase 20% em relação ao ano de 2017. Para termos dimensão do tamanho dessa violência, esse número é próximo ao de civis mortos nos dois primeiros meses de invasão do Iraque pelos EUA.

Ainda segundo a pesquisa, “os estados que apresentaram maior crescimento foram Roraima (183,3%), Tocantins (99,4%), Mato Grosso (74%), Pará (72,9%), Sergipe (60,7%), Goiás (57,1%), Ceará (39%) e Rio de Janeiro (32,6%)”. O Rio que matou Ágatha…

Em 2018, no Rio de Janeiro, praticamente 1/4 dos assassinatos foram executados em intervenções policiais. Quanto ao perfil do assassinado, já o sabemos de cor: das classes dominadas, moradores da periferia, e em sua maioria negros, como Ágatha e Edvaldo. 

Como dissemos em nossa publicação sobre o funcionamento do aparelho repressor de Estado capitalista no Brasil, usando os dados do Atlas da Violência 2018, para a violência crescente do capitalismo brasileiro a proposta das classes dominantes é ainda mais violência e repressão!

Esses números ainda não abarcam o governo do fascista Witzel, que tem estimulado, em discurso e na prática (inclusive participado pessoalmente!) a ampliação da letalidade policial contra as periferias do Rio de Janeiro. Witzel e sua corja assassina assumidamente quer guerra contra o povo, e tem movido todos seus esforços para isso. Os números, novamente, comprovam. 

De acordo com matéria do Estadão:

A polícia do Rio matou 194 pessoas em todo o Estado no mês de julho passado, o maior número desde que essa estatística começou a ser contabilizada, em 1998 – há 21 anos. O dado foi divulgado nesta quarta-feira, 21, pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão do governo do Estado do Rio, e corresponde à média de mais de seis pessoas por dia. Desde o início do ano, 1.075 pessoas foram mortas pela polícia – média de 5 por dia.”Witzel não tem problema com a idade das vítimas. Seja sobrevoando e atirando em escolas, seja matando jovens e crianças. Segundo levantamento do The Intercept, “a taxa de crianças baleadas (em operações policiais) aumentou 80% na era Witzel”. 

Além de Ágatha, Jenifer Silene Gomes, 11 anos, e Kauã Vítor Nunes Rozário, 11 anos, foram duas dessas vítimas fatais.

Nossos mortos, nossa causa

A repressão estatal e a letalidade policial têm sido reforçadas durante a atual crise e fazem parte integrante (são indissociáveis) do programa da burguesia, não só dos governos do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas do governo federal. Mostramos isso em nosso último livro “O Governo Bolsonaro: Ofensiva Burguesa e Resistência Proletária”:

“O crescimento da violência e da repressão no capitalismo brasileiro, magnificados pelas crises política e econômica nas quais nos encontramos faz tempo, e sem perspectivas de resolução, parecem ser tendências de mais longo prazo, que indicam trajetória de maior autoritarismo burguês e estatal.

Diante delas, não há quaisquer perspectivas de melhoria das condições de vida da classe operária e demais classes dominadas que não seja fruto de sua ação coletiva, de sua luta conjunta, de seus protestos de classeEssas melhorias das condições de vida devem ser arrancadas aos dominantes.”

Frente à brutalidade policial a serviço das classes dominantes e sua mais violenta dominação em contexto de crise, só nos resta reagir, como têm feito as comunidades do Rio. 

Continuaremos lutando, em honra aos nossos mortos. Como disse uma manifestante no Complexo do Alemão

“O Complexo do Alemão está presente, sim! Não queremos que a Agatha venha a ser apenas mais uma foto estampada. Vamos lutar pelos nossos direitos dentro da comunidade, onde vários inocentes são atingidos por ‘balas achadas”

Ou como disse outra manifestante: 

Vamos resistir por nossos filhos!”