CEM FLORES

QUE CEM FLORES DESABROCHEM! QUE CEM ESCOLAS RIVALIZEM!

Comuna de Paris, Dossiês, Movimento operário, Teoria

Mao Tsé-Tung. Algumas Questões Importantes na Comemoração da Comuna de Paris

Viva os 150 anos da imortal Comuna de Paris!

Selo chinês em comemoração ao Centenário da Comuna de Paris, 1971.

 

Cem Flores

30.07.2021

Neste ano, o Cem Flores tem realizado uma série de publicações em comemoração aos 150 anos da Comuna de Paris. A série contém textos da época, dos próprios communards, além de cartas de Marx do ano de 1871. Também publicamos análises sobre a Comuna feitas por grandes teóricos e líderes do proletariado, como Marx, Engels e Lênin. Todos eles ressaltam a relevância dessa experiência revolucionária, do primeiro governo do proletariado revolucionário, e levantam a bandeira da classe operária parisiense e sua causa. Agora trazemos um texto de Mao Tsé-Tung, o grande líder comunista da Revolução Chinesa de 1949, que segue seus antecessores na celebração marxista da Comuna.

Algumas Questões Importantes na Comemoração da Comuna de Paris é um discurso de 1926 em comemoração ao 55º aniversário da Comuna. Encontramos a transcrição do discurso, em inglês, no livro Mao’s Road to Power: Revolutionary Writings, 1912-1949, editado pelo pesquisador Stuart Schram.

Como o próprio título indica, Mao procura destacar lições da Comuna de Paris para os revolucionários chineses, passado mais de meio século da experiência inaugural francesa. A primeira lição é que a Comuna, como qualquer movimento revolucionário, teve uma base material, condições objetivas para sua existência. No caso, a realidade do capitalismo, a constituição do proletariado na França e o acirramento das suas contradições e lutas de classes.

A segunda lição é que a emancipação das massas exploradas só pode ser alcançada na guerra de classe, em sua luta independente contra os inimigos de classe de seu próprio país e contra o capitalismo no mundo. As guerras dos capitalistas e dos imperialistas, como a guerra franco-prussiana ou a primeira guerra mundial, não servem às massas oprimidas (a não ser que essas as transformem em guerras contra suas próprias burguesias), assim como não nos servem o cínico patriotismo defendido pelas classes dominantes. Mas as guerras civis contra os exploradores, as guerras contra opressores, como a Comuna de Paris e a Revolução de Outubro, essas sim, possuem um grande significado.

A revolução do proletariado russo … derrubou o estado dos capitalistas, estabeleceu com sucesso a ditadura dos trabalhadores e abriu um caminho novo e brilhante no mundo. Seu valor não é inestimável? A Revolução Russa de Outubro e a Comuna de Paris são atos nos quais a classe trabalhadora, pela sua própria força, tem buscado a verdadeira igualdade e liberdade da humanidade. Seus significados são semelhantes; eles diferem apenas no que diz respeito à vitória e derrota.

A terceira lição sucede da segunda: o motor da história é a luta de classes. Toda mudança que ocorreu na história decorreu da luta “entre a classe dominante e a classe que é dominada”. A grandeza da Comuna de Paris está no fato de ser a primeira “revolução política e econômica na qual a classe trabalhadora se levantou para derrubar a classe dominante”, em apontar para uma ruptura com as relações de exploração e dominação capitalista. Nesse ponto, notamos também o esforço de Mao de analisar concretamente alguns eventos da história chinesa a partir da luta de classes, no caso, a luta entre camponeses e latifundiários e suas expressões políticas.

A quarta e última lição advém dos limites da Comuna, de sua rápida existência e posterior derrota: a revolução tem leis férreas, trata-se de uma luta de vida ou morte, uma guerra contra o inimigo. A derrota da Comuna, de um lado, e a vitória da Revolução Russa, de outro, podem ser explicadas, segundo Mao, pela aplicação correta dos métodos revolucionários: a centralização das forças revolucionárias; o combate sem vacilação aos inimigos de classe.

Por fim, Mao demonstra que a violência contrarrevolucionária é o verdadeiro terror a ser denunciado e combatido. A Comuna deixou isso claro: os rios de sangue foram provocados pelas classes dominantes, numa verdadeira carnificina. Carnificina que continua hoje com as guerras contra o povo, as epidemias e a fome… Terror que só pode ser superado com o caminho luminoso aberto pela Comuna de Paris.

“Aprender com as massas!”: Mao Tsé-Tung e camponeses em Yunan.

 

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Algumas questões importantes na comemoração da Comuna de Paris[i]

Mao Tsé-Tung

18 de março de 1926

Hoje, pela primeira vez, as massas populares chinesas estão comemorando a Comuna de Paris[ii]. Já se passaram cinquenta e cinco anos desde que aconteceu o evento conhecido como Comuna de Paris, então por que só agora sabemos que devemos comemorá-lo e estamos realizando esta comemoração? Porque antes a revolução chinesa era empreendida por uma minoria, e somente agora que a maré da revolução está subindo cada vez mais é que o movimento revolucionário foi ampliado de uma minoria para a maioria do povo. Agora, a maioria das massas populares de camponeses e operários já participa dele, e, além disso, é liderada por membros da esquerda do Kuomintang[iii]. Existe o estado da ditadura do proletariado, a Rússia Soviética, para servir de modelo. Por todas essas razões, as massas populares chinesas só agora se tornaram conscientes da data de hoje para comemorá-la e só agora são capazes de fazer essa comemoração.

No que diz respeito aos acontecimentos da Comuna de Paris, todos os jornais trataram disso nos últimos dias, e o livro Novas Perspectivas sobre a Sociedade[iv] contém um breve relato. Acho que todos os camaradas leram sobre o assunto, então não preciso me alongar. Agora vou me limitar a algumas observações sobre o profundo significado de comemorar a Comuna de Paris.

A Comuna de Paris foi o primeiro movimento revolucionário no qual, em 18 de março de 1871, a classe operária de Paris se levantou. Isso aconteceu durante o décimo ano do reinado de Tongzhi, da antiga dinastia Qing, exatamente há cinquenta e cinco anos. Devemos nos perguntar por que tal movimento não estourou cem anos atrás, mas ocorreu há cinquenta e cinco anos. Sabemos que, sempre que irrompe algum tipo de movimento, ele não ocorre sem razão ou causa; as condições objetivas devem existir. Notamos que a Comuna de Paris ocorreu trinta anos após a Guerra do Ópio na China, e durante esses trinta anos o “Tratado de Nanjing”, o “Tratado de Tianjin”, o “Tratado de Pequim”, e outros foram concluídos[v]. Isso basta para demonstrar que os países europeus já tinham a capacidade de avançar com força em direção ao Oriente, que do capitalismo já haviam progredido ao imperialismo, que dentro desses países uma poderosa classe trabalhadora já havia sido formada. Só assim poderia surgir um movimento revolucionário da classe trabalhadora tão poderoso. Esta é a primeira questão importante à qual devemos prestar atenção.

Marx diz que as guerras internacionais, nas quais os capitalistas lutam entre si pelos seus próprios interesses, não têm sentido. Apenas as guerras de classes dentro de um país podem libertar a humanidade. A Grande Guerra na Europa, que estourou no terceiro ano da República da China, causou a perda de muitas vidas e o desperdício de somas incalculáveis, mas qual foi o resultado? A revolução do proletariado russo, que se levantou no sexto ano da República da China, derrubou o estado dos capitalistas, estabeleceu com sucesso a ditadura dos trabalhadores e abriu um caminho novo e brilhante no mundo. Seu valor não é inestimável? A Revolução Russa de Outubro e a Comuna de Paris são atos nos quais a classe trabalhadora, pela sua própria força, tem buscado a verdadeira igualdade e liberdade da humanidade. Seus significados são semelhantes; eles diferem apenas no que diz respeito à vitória e derrota. Podemos dizer, portanto, que a Comuna de Paris viu o desabrochar de uma flor brilhante, enquanto a Revolução Russa representa o fruto bem-sucedido – a Revolução Russa é a continuação da Comuna de Paris. No momento, toda a propaganda dos capitalistas diz: “As guerras estrangeiras são vantajosas, as guerras civis não”. Devemos ir mais longe e dizer: “As guerras internacionais nas quais os capitalistas lutam por seus próprios interesses não têm sentido; apenas as guerras internacionais nas quais o capitalismo é derrubado são significativas. As guerras internas nas quais os senhores da guerra lutam por poder e vantagem não têm valor; somente as guerras civis nas quais as classes oprimidas se levantam e derrubam as classes dos opressores têm valor”. Todos os Étatistes [estadistas] continuam pregando seu slogan “o sacrifício pela pátria é mais glorioso”. Estas são as palavras com as quais os capitalistas enganam pessoas, e de modo algum devemos permitir que nos façam de tolos! Esta é a segunda questão importante à qual devemos prestar atenção.

Atualmente, há um número considerável de pessoas no país que duvidam ou se opõem à luta de classes. Isso porque eles não entendem a história do desenvolvimento humano. Marx diz: “A história da humanidade é uma história da luta de classes.” Isso é um fato, e não pode ser negado. O progresso da raça humana da sociedade primitiva à sociedade patriarcal, sociedade feudal e, finalmente, até a situação atual, em todos os casos, ocorreu por meio de uma evolução marcada pela luta de classes entre a classe dominante e a classe daqueles que são dominados. A Comuna de Paris foi a primeira revolução política e econômica na qual a classe trabalhadora se levantou para derrubar a classe dominante. No passado, ao ler a história chinesa, não prestávamos atenção à realidade da luta de classes. Na verdade, como podemos dizer que os quatro mil anos de história chinesa não são uma história de luta de classes? Por exemplo, na época do segundo imperador Qin, aqueles que se levantaram e fizeram a revolução, Chen Sheng e Wu Guang, eram camponeses. Han Gaozu[vi] era um vagabundo; foi também uma revolução em que o proletariado derrubou a aristocracia. Em uma sociedade camponesa, entretanto, após o sucesso da revolução, eles por sua vez agiram como imperadores e eles próprios se tornaram aristocratas. O rei Taiping, Hong Xiuquan, convocou um amplo grupo de camponeses desempregados para se levantar e fazer a revolução, e isso teve grande significado como revolução social. O Diretor-Geral Sun também tinha grande admiração por ele. Todos sabem que a dinastia Qing o derrubou, mas não sabem que a principal força militar que realmente o derrubou representava a classe dos latifundiários. Quem contribuiu com o maior esforço para a derrubada do Reino Celestial Taiping foi Zeng Guofan. Naquela época, ele era o líder da classe dos latifundiários. Zeng Guofan surgiu primeiramente treinando os tuanlianos[vii]. Os tuanlianos eram a força militar dos latifundiários para oprimir os camponeses. Quando viram Hong Xiuquan liderando uma revolução camponesa que não atendia a seus interesses, eles fizeram os maiores esforços para derrubá-lo. Assim, o caso do Reino Celestial de Taiping não foi uma guerra entre os Manchus e os Hans, mas foi na verdade uma guerra de classes entre os camponeses e os latifundiários[viii]. Esta é a terceira questão importante à qual devemos prestar atenção.

A Comuna de Paris existiu por apenas setenta e dois dias. Como falhou em tão pouco tempo? Existem duas causas principais:

(1) Não havia um partido unido, centralizado e disciplinado para liderá-la – se quisermos que a revolução tenha sucesso, devemos concentrar nossas forças e unificar nossas ações, por isso devemos contar com um partido unificado e disciplinado para dar as ordens. Na época da Comuna de Paris, como não havia partido político unificado, as opiniões dentro [da Comuna] estavam divididas e as forças, dispersas. Isso deu uma oportunidade ao inimigo e foi a principal causa da derrota.

(2) A atitude para com o inimigo era muito conciliatória e misericordiosa – ser misericordioso com o inimigo é ser cruel com nossos camaradas. O sucesso da Revolução Russa de Outubro de 1917, a derrubada de Yang e Liu[ix] e a liquidação da facção contrarrevolucionária pelo governo nacional no décimo quarto ano da República, todas resultaram inteiramente da adoção de medidas de controle absoluto em relação ao inimigo, sem o menor indício de compromisso. Porque se não adotarmos medidas severas contra o inimigo, o inimigo empregará medidas cruéis contra nós. A Comuna de Paris não tratou severamente do inimigo e, além disso, permitiu que o inimigo tomasse o controle dos órgãos financeiros e concentrasse seus exércitos, de modo que eles foram exterminados pelo inimigo no final. Todos os camaradas devem estar cientes disso e tirar lições do passado para evitar erros no futuro. Jamais devem esquecer esta frase: “Se não infligirmos um golpe mortal no inimigo, o inimigo nos infligirá um golpe mortal”. Se quisermos fazer revolução, devemos aprender os métodos de revolução desse [exemplo]. Esta é a quarta questão importante à qual devemos prestar atenção ao comemorar a Comuna de Paris.

Atualmente, os imperialistas procuram dispersar a união das forças revolucionárias e eles energicamente fazem propaganda sobre o “terror vermelho”. Dizem que a Revolução Russa matou milhares e dezenas de milhares de pessoas. Na realidade, é apenas o “terror branco” dos ​​imperialistas que é um verdadeiro terror! Basta ver como, após a derrota da Comuna de Paris, o número de pessoas massacradas pelos capitalistas totalizou não menos do que 100.000, enquanto o número de mortos pela Revolução Russa não era mais do que alguns milhares. O “terror vermelho” está, de fato, longe de se igualar ao “terror branco”. Os sangrentos eventos de 30 de maio e o massacre de Shakee[x] são uma prova ainda maior a respeito do “terror branco”. Portanto, devemos gritar bem alto: “Abaixo o terror branco! Abaixo a carnificina do proletariado pelos imperialistas!”.


[i] Este discurso de Mao foi publicado no órgão do Grupo de Formação Política do Kuomintang, nº. 2, de 31 de março de 1926. Nós o traduzimos deste texto tal qual reproduzido em Mao Zedong wenji, Vol. I, pp. 33-36.

[ii] Este é o texto de uma palestra em comemoração ao 55º aniversário da Comuna de Paris feita por Mao ao Grupo de Formação Política do Kuomintang. (Esse grupo foi formado em 28 de fevereiro de 1926; Mao proferiu o discurso na cerimônia de abertura).

[iii] [Nota do Cem Flores] Segundo Dicionário do marxists.org: “O Kuomintang (Partido Nacionalista do Povo) foi fundado na China em 25 de agosto de 1912, teve sua origem na “Liga Revolucionária Unida” (Tongmenghui) fundada em 20 de agosto de 1905, que por sua vez foi originada da “Sociedade para o Despertar da China” (Xingzhonghui) fundada em 24 de novembro de 1894. Sun Yatsen esteve à frente da fundação de todas estas organizações. Após a sua morte, assumiu a liderança do Kuomintang Chiang Kai-shek”.

[iv] Xin shehui guan, uma tradução de uma obra de um Guofanlunke (ainda não identificado), foi publicada em chinês em junho de 1925.

[v] O Tratado de Nanjin de 1842, após as Guerras do Ópio, abriu os primeiros cinco “portos do tratado” para os europeus. O Tratado de Tianjin de 1858, confirmado e estendido pela Convenção de Pequim de 1860, lançou as bases para o sistema de extraterritorialidade e concessões estrangeiras que durou até 1949.

[vi] O imperador fundador da dinastia Han, Liu Bang.

[vii] Os tuanlianos (literalmente “agrupamento e treinamento”) eram a milícia local oficial em meados do século XIX.

[viii] Uma década antes, a atitude de Mao em relação a Zeng Guofan e aos Taipings tinha sido muito diferente. Veja o Volume I desta edição, passim, e especialmente p. 131, a carta de agosto de 1917, na qual Mao afirmou que a maneira como Zeng lidou com a campanha em que eliminou Hong Xiuquan foi “perfeitamente impecável”.

[ix] Sobre a ação contra Yang Ximin e Liu Zhenhuan em junho de 1925, ver a relevante nota “Anúncio a Todos os Membros do Partido [Kuomintang]” de 4 de dezembro de 1925.

[x] [Nota do Cem Flores] Mao se refere a repressão do governo e de forças estrangeiras contra uma onda de greves e protestos na China, em 1925.

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- 30/07/2021