Comentários ao “Que Fazer?” de Lênin (1902)
Cem Flores
09.05.2025
Em 2024, completou-se um século desde a morte de Lênin, o grande líder da Revolução Russa e um dos maiores nomes da história do Comunismo mundial. Desde então, o Cem Flores tem publicado e analisado um conjunto de textos leninistas, cujas contribuições permanecem vivas e atuais para a luta revolucionária do proletariado. Nossos objetivos com esse resgate são, principalmente: aprofundar nosso conhecimento de sua obra; analisar o contexto e as lições políticas da luta de Lênin contra as classes dominantes e as posições reformistas e oportunistas no movimento das classes trabalhadoras; retomar seus elementos fundamentais para a reorganização revolucionária do proletariado hoje.
Leia as publicações do Cem Flores no centenário da morte de Lênin:
– Um século da morte de Lênin. Viva o marxismo-leninismo!, de 21.01.2024.
– Lênin: O Dia Internacional das Operárias, de 08.03.2024.
– Lênin: As Tarefas dos Social-Democratas Russos (1897), de 13.05.2024.
Nesta publicação, trazemos para debate a famosa obra Que fazer? Problemas candentes do nosso movimento, escrita por Lênin entre 1901 e 1902, no exílio na Alemanha. O livro é resultado de uma polêmica iniciada no jornal Iskra (Faísca) com correntes da social-democracia russa. Trata-se, fundamentalmente, de uma ferrenha defesa da construção de uma organização revolucionária da classe operária à altura da luta contra o czarismo e pelo Socialismo naquele país. Com mais essa importante intervenção no movimento revolucionário da época, Lênin se firmou como uma referência em defesa do marxismo e da linha proletária para o novato Partido Operário Social-Democrata Russo, que em 1903 realizaria seu 2º Congresso.
Após mais de um século, Que Fazer? ainda permanece uma referência teórica e política para o movimento comunista. Sua defesa central da construção de um partido de novo tipo, mergulhado na classe operária, de ferramentas articuladas de propaganda e agitação, como um jornal nacional, e de um combate sem tréguas pela política revolucionária, contra as “revisões” do marxismo e as ilusões reformistas, auxilia aos comunistas a superar o atual quadro de crise do movimento.
O texto integral em português está disponível no site Arquivo Marxista da Internet. Aqui, realizaremos uma análise do livro, destacando aspectos que nos parecem mais relevantes em nosso resgate de Lênin.
- Contexto histórico e político de Que Fazer?
Na virada para o século 20, o capitalismo seguia sua transformação para uma nova fase: a imperialista, marcada pelo advento de grandes monopólios e do capital financeiro, pela exportação de capital para todo o planeta e pela partilha do mundo entre as potências mais importantes e seus cartéis. Essa transformação, como Lênin definiu em sua obra O imperialismo, fase superior do capitalismo, partia das próprias tendências da acumulação capitalista. O imperialismo indicava também um novo período da luta de classes em nível global, com reforço do parasitismo da burguesia, avanço da reação e do militarismo, inclusive com guerras de dimensões mundiais, e ampliação do oportunismo no movimento operário dos países imperialistas, que chegaria ao ponto de se fundir com a política burguesa.
Na Europa, região de desenvolvimento mais avançado do capitalismo à época, o movimento operário mantinha sua luta por salários, melhores condições de trabalho, redução da jornada, dentre outras pautas imediatas, que se intensificavam por ocasião de alguma crise econômica, como a ocorrida em 1900. Mesmo após a derrota da Comuna de Paris, em 1871, e o fim da Associação Internacional dos Trabalhadores, a Primeira Internacional, em 1876, um conjunto de federações e partidos operários começou a surgir e a se unificar, sob a influência do marxismo, sendo o mais importante deles o Partido Social-Democrata Alemão, que se tornou um grande partido de massas, com forte atuação sindical, parlamentar e cultural.
Nesse contexto, em 1889, uma nova organização internacional dos trabalhadores surgia: a Segunda Internacional. Essa organização congregou dezenas de partidos operários, sobretudo da Europa, e realizou diversos congressos e conferências. Durante duas décadas e meia, essa Internacional agremiou tanto correntes e lideranças revolucionárias, como as de Rosa Luxemburgo e do próprio Lênin, quanto reformistas, como as de Bernstein e, mais tarde, de Kautsky. Essa situação se tornará inviável com o advento da Primeira Guerra Mundial e a traição completa dos principais líderes da Segunda Internacional, em 1914 – que decidiram apoiar as burguesias de seus próprios países nessa guerra imperialista, ao invés da posição marxista de “guerra à guerra” e de estimular levantes operários contra a guerra e a burguesia –, e eclodirá em uma cisão entre revolucionários e reformistas em todo o mundo.
A Segunda Internacional consagrou o 1º de Maio como Dia Internacional dos Trabalhadores, em homenagem aos mártires de Chicago na luta pela jornada de trabalho de 8 horas.
Foi nesse cenário político mais geral que o Partido Operário Social-Democrata Russo buscava se firmar. Como visto anteriormente, a Rússia, apesar da veloz industrialização, era um país de maioria agrária e camponesa. A servidão tinha sido abolida apenas em 1861 e ainda havia fortes resquícios das relações feudais no país. O estado russo era expressão da dominação dos latifundiários e da nobreza, sendo dirigido de forma autoritária pelo czar. Após anos de atuação nas lutas operárias e na defesa do marxismo, contra várias outras correntes políticas, como o populismo, o POSDR foi formalmente fundado em 1898, em seu 1º Congresso. Mas sua existência não chegou a se concretizar de imediato. O próprio Comitê Central eleito foi preso e desfeito após o Congresso. Portanto, na virada para o século 20, ainda imperava uma forte dispersão ideológica e organizacional dos revolucionários marxistas russos. Na prática, continuava a realidade de pequenos círculos e grupos espelhados pelo país.
O jovem revolucionário Lênin, ele próprio preso e depois exilado (primeiro na Sibéria e em seguida na Alemanha), atuava intensamente em defesa da consolidação da social-democracia como um partido revolucionário na Rússia, uma organização política durável e imersa no movimento operário. Em 1897, Lênin defendia que a social-democracia russa tinha tarefas teóricas e políticas urgentes e específicas, decorrentes da conjuntura nacional. De um lado, a social-democracia necessitava exercitar e desenvolver o marxismo, pois “sem teoria revolucionária, não pode haver movimento revolucionário”. Concomitantemente, diante do ascenso de greves e protestos, cabia aos revolucionários “liderar a luta de classe do proletariado e organizar essa luta nas suas duas manifestações: a socialista (a luta contra a classe capitalista no rumo de destruir o sistema de classes e organizar a sociedade socialista) e a democrática (a luta contra o absolutismo rumo às liberdades políticas na Rússia e à democratização do sistema político e social da Rússia)”.
A defesa de uma firme linha política de classe proletária, comunista, ajustada à situação concreta da luta de classes na Rússia continuou no trabalho revolucionário de Lênin nos anos seguintes, que aos poucos se tornou figura destacada no movimento operário revolucionário internacional. Essa defesa precisou entrar em choque contínuo com várias correntes e lideranças oportunistas na Rússia e também no âmbito da nascente Segunda Internacional.
Em 1900, Lênin ajudou a criar o jornal revolucionário Iskra, com outros exilados na Alemanha. E, em suas intervenções e atividade organizativa, colaborou para a conformação real do partido revolucionário russo e a formulação de suas táticas, estratégia e programa. Foi a partir de polêmicas realizadas por meio do Iskra, entre os anos de 1900 e 1901, que nasceu a obra Que Fazer?, publicado em 1902.
Página do Jornal Iskra.
Na primeira edição do Iskra, Lênin publicou o texto Tarefas Urgentes do Nosso Movimento. Seu principal objetivo era reforçar o aspecto político das tarefas da social-democracia, imediatamente, “o derrubamento da autocracia, a conquista da liberdade política” e combater o grupo dos “economicistas”, organizados em torno dos jornais Rabochaia Misl (O Pensamento Operário) e Rabótcheie Dielo (A Causa Operária). Sobre eles, Lênin afirmava:
“Dizem que a luta econômica tem uma importância predominante, relegam para plano secundário as tarefas políticas do proletariado, menosprezam e restringem estas tarefas e afirmam, inclusive, que as longas exposições sobre a constituição de um partido operário independente na Rússia são simples decalques de palavras ditas por outros, e que os operários devem sustentar exclusivamente a luta econômica, deixando a política para os intelectuais aliados com os liberais.”
Ou seja, os economicistas representavam uma posição extremamente prejudicial para a constituição de um partido nacional do operariado e para a luta revolucionária russa. De um lado, defendiam que o proletariado se limitasse apenas a suas pautas econômicas e deixasse a luta contra o regime político czarista para a pequena burguesia e a burguesia. De outro, menosprezavam a importância de um partido independente e de toda a Rússia como um instrumento de combate necessário. Os economicistas defendiam, assim, a paralisia da social-democracia em pequenos grupos operários isolados. Portanto, eram um desvio oposto ao dos populistas, que se focavam apenas na luta contra a autocracia e rejeitavam o movimento operário. Da mesma forma que os populistas, no entanto, apontavam para uma estratégia incapaz de desenvolver a luta de classe proletária e fazer a revolução sob sua liderança na Rússia. E, se desprezavam uma direção política proletária, caíam necessariamente na posição política burguesa, reformista.
Lênin se colocava em luta aberta contra mais esse desvio que surgia no movimento revolucionário russo, após anos de uma luta intensa contra os populistas. Em contraposição aos economicistas, Lênin defendeu no mesmo texto:
“A social-democracia é a união do movimento operário com o socialismo. A sua missão não se baseia em servir passivamente o movimento operário em cada uma das suas fases, mas em representar os interesses de todo o movimento no seu conjunto, indicar o objetivo final deste movimento, as suas tarefas políticas, e salvaguardar a sua independência política e ideológica. Desligado da social-democracia, o movimento operário restringe-se e transforma-se forçosamente num movimento burguês: ao promover exclusivamente a luta econômica, a classe operária perde a independência política, converte-se num apêndice de outros partidos e trai o grande preceito: ‘A emancipação da classe operária deve ser a obra da própria classe operária’.”
E para efetivar essa união, é tarefa da social-democracia “levar as ideias socialistas e a consciência política à massa do proletariado e organizar um partido revolucionário ligado indissoluvelmente ao movimento operário espontâneo”. Além de lançar a seguinte palavra de ordem: “organizai-vos não só em sociedades de ajuda mútua, em caixas de resistência e em círculos operários, mas também num partido político, para a luta decidida contra o governo autocrático e contra toda a sociedade capitalista”.
Lênin apontava o caminho oposto ao dos economicistas, e muitos dos vários aspectos dessa “união do movimento operário com o socialismo” seriam desenvolvidos plenamente no Que Fazer?. A luta contra os economicistas e a relação entre luta econômica e luta política, entre espontaneidade e organização, serão temas fundamentais desse livro.
Em 1901, Lênin publicou outro texto no Iskra que influenciará diretamente o livro publicado em 1902. Em Por onde começar?, Lênin aponta o sentido concreto do seu título naquela conjuntura:
“No último ano, a pergunta “Que fazer?” se impôs com força particular aos social-democratas russos. Não se trata de escolher um caminho (como foi o caso nos fins dos anos oitenta e início dos anos noventa do século XIX), mas de saber quais passos práticos devemos dar sobre uma rota já traçada, e precisamente de que modo. Se trata do método e do plano de atividade prática. E precisamos reconhecer que os problemas do caráter e dos métodos da luta, fundamental para um partido prático, não estão completamente resolvidos entre nós e continuam a suscitar sérios dissensos, que revelam uma instabilidade e incerteza ideológica deploráveis. De um lado, está ainda bem viva a tendência ‘economicista’, que inferioriza e restringe o trabalho de organização e agitação política. De outro lado, continua de cabeça firmemente erguida a tendência do ecletismo sem princípios, que muda ao sabor de qualquer brisa e não sabe distinguir entre os interesses imediatos das tarefas essenciais e das exigências permanentes do movimento no seu conjunto.”
Lênin defendia ainda, para a estruturação do partido operário revolucionário, um órgão de imprensa política, propagador de uma linha política unificada e agremiador de centros de atuação dispersos, tese fundamental do futuro livro:
“Sem um órgão de imprensa política é absolutamente impossível cumprir nosso dever de concentrar todos os elementos de descontentamento de protesto político, de fecundar com estes o movimento revolucionário do proletariado. Demos o primeiro passo, despertamos na classe operária a paixão pelas denúncias ‘econômicas’, de fábrica. Devemos completar o passo seguinte: despertar em todos os estratos do povo mais ou menos consciente a paixão pela denúncia política. […] Um jornal, todavia, não tem somente a função de difundir ideias, de educar politicamente e de conquistar aliados políticos. O jornal não é somente um propagandista e agitador coletivo, mas também um organizador coletivo.”
Como o próprio Lênin afirma no prefácio de Que Fazer?, esse artigo como um todo já trazia os temas centrais a serem desenvolvidos no livro, que também incluiu outros problemas candentes adicionais:
“Segundo o plano inicial do autor, esta brochura devia ser consagrada ao desenvolvimento pormenorizado das ideias expostas no artigo Por Onde Começar? […] O seu tema principal devia abarcar os três problemas postos no artigo Por Onde Começar?, a saber: o carácter e o conteúdo principal da nossa agitação política; as nossas tarefas de organização; o plano para a criação, simultaneamente e por diversos lados, de uma organização de combate de toda a Rússia […] A análise dos três problemas atrás indicados continua a ser o tema principal da brochura, mas tive de começar por dois outros problemas de ordem mais geral: por que motivo uma palavra de ordem tão ‘inocente’ e ‘natural’ como a ‘liberdade de crítica’ é para nós um verdadeiro grito de guerra? Porque não podemos chegar a acordo nem sequer sobre o problema fundamental do papel da social-democracia em relação ao movimento espontâneo de massas? Além disso, a exposição das minhas ideias sobre o caráter e o conteúdo da agitação política converteu-se numa explicação da diferença entre política trade-unionista [desvio burguês sindicalista] e política social-democrata, e a exposição das minhas ideias sobre as tarefas de organização numa explicação da diferença entre os métodos artesanais de trabalho, que satisfazem os ‘economistas’, e a organização de revolucionários que consideramos indispensável. Em seguida, insisto, mais uma vez, no ‘plano’ de um jornal político para toda a Rússia, tanto mais que as objeções que têm sido feitas contra ele são inconsistentes e não se deu uma resposta a fundo à questão posta no artigo Por Onde Começar?: como podemos empreender, por todos os lados simultaneamente, a formação da organização de que necessitamos?”
Capa original de Que Fazer?. O livro trazia a seguinte epígrafe: “A luta de partido dá ao partido força e vitalidade; a maior prova da fraqueza de um partido é o seu amorfismo e o esbatimento de fronteiras nitidamente delimitadas; o Partido reforça-se depurando-se” (Extrato de uma carta de Lassalle a Marx, 24 de junho de 1852).
Que Fazer? é uma obra de luta por um partido operário e uma atuação revolucionária no seio das massas, a partir dos problemas concretos colocados no contexto da Segunda Internacional; é mais uma intervenção de Lênin em defesa do marxismo como um instrumento de combate do proletariado, contra as influências e tendências burguesas que se desenvolvem inclusive no movimento revolucionário. Tendo em vista sua firmeza revolucionária e a capacidade de Lênin de utilizar o marxismo como uma ciência, Que Fazer?, não à toa, se tornou rapidamente uma referência para a construção do partido de novo tipo na Rússia e para a estratégia que foi vitoriosa em 1917, além de um clássico do marxismo-leninismo em todo o mundo.
- A luta de Lênin contra o revisionismo
Lênin abre o livro Que Fazer? com uma crítica ao revisionismo de sua época, “revisões” oportunistas da teoria marxista que a afastam da posição proletária e revolucionária. Essa abertura não é ao acaso. Demonstra a relevância que Lênin dava à luta teórica, ela própria uma frente da luta de classes, como afirmava Engels, resgatado nessa primeira parte do livro: “[a luta tem] três direções, coordenadas e ligadas entre si: teórica, política e econômica-prática (resistência aos capitalistas)”.
Não há como construir um movimento revolucionário e sua vanguarda, o Partido, sem travar uma luta pela e para a teoria, a constituição e o aprimoramento de ferramentas científicas e de análise com a posição proletária. Para Lênin, a teoria tinha ainda maior importância no caso russo da época por três razões. Em primeiro lugar, o partido estava ainda em formação, muito fragilizado e sob maior influência de outras ideologias burguesas e pequeno-burguesas, sendo fundamental a demarcação de campo e a consolidação de uma posição revolucionária em seu meio. Em segundo lugar, o movimento só podia avançar na Rússia desde que aplicasse as enormes experiências e lições da luta proletária de países há muito capitalistas – afinal, a teoria marxista, em parte, é exatamente o acúmulo dessas experiências práticas da luta. E isso não significava simplesmente conhecer essas lições, ou só copiá-las, mas sim “assumir uma atitude crítica perante essa experiência e comprová-la por si próprio”, em uma conjuntura específica. Por fim, a teoria tinha ainda mais relevância para os revolucionários russos daquela época exatamente porque a conjuntura nacional, de czarismo e forte peso agrário, impunha tarefas “como nunca teve outro partido socialista do mundo” até então. “O proletariado russo terá de sofrer provas ainda infinitamente mais duras, terá de combater um monstro em comparação com o qual a lei de exceção num país constitucional parece um pigmeu”. Mas, como se comprovou anos depois, “o cumprimento desta tarefa […] tornaria o proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucionário internacional”.
A luta teórica revolucionária é necessariamente uma luta contra os desvios que surgem no seu movimento. E no período do livro, trata-se dos desvios presentes tanto na Segunda Internacional, quanto na social-democracia russa, concomitantemente. Quem representava esses desvios, expressos no campo teórico, segundo Lênin? “Os fabianos ingleses, os ministerialistas franceses, os bernsteinianos alemães, os críticos russos”, que se influenciavam mutuamente no ataque aos princípios do marxismo e na defesa de posições reformistas. Contra todos esses grupos se devia travar a “primeira batalha verdadeiramente internacional contra o oportunismo socialista”, em defesa da posição revolucionária.
Esses grupos oportunistas acusavam os revolucionários de serem dogmáticos, e por isso defendiam a liberdade de crítica. Mas na realidade, sob essa palavra de ordem, não lhes interessava um avanço do marxismo, mas sim seu recuo, ou mesmo seu abandono por completo. O tal “dogma” que atacavam era a posição proletária e seu antagonismo com a burguesia; e a “liberdade de crítica” era a liberdade para transformar “o partido da revolução social num partido democrático de reformas sociais”, um mero partido burguês. O caso francês era gritante: uma ala do partido socialista participava até mesmo de ministérios burgueses, em um governo que incluía responsáveis pelo massacre da Comuna de Paris, como o general Gallifet.
Revista francesa de 1899 com charge do casamento entre o “socialista” Millerand e o general Gallifet, ambos ministros do governo burguês de Waldeck-Rousseau. Não é de hoje que supostos socialistas integram governos burgueses com reacionários!
Resumia Lênin sobre esses revisionistas:
“liberdade de crítica é a liberdade da tendência oportunista no seio da social-democracia, a liberdade de transformar esta última num partido democrático de reformas, a liberdade de introduzir no socialismo ideias burguesas e elementos burgueses”.
Na Rússia, essa palavra de ordem era usada pelo grupo do jornal Rabotcheie Dielo, cuja “revisão” estava em defender uma postura abertamente economicista, com a qual Lênin já vinha lutando: abandonar a luta imediata contra o governo czarista e pelo poder e focar apenas nas demandas econômicas da classe operária. Lênin acredita que, diferentemente da aliança tática realizada pelos revolucionários com teóricos do chamado “marxismo legal” russo, no período anterior de luta contra o populismo, o caso desses “russos críticos” exigia uma crítica aberta e cerrada. Naquele momento, os economicistas representavam não só uma ameaça à consolidação do partido na Rússia como eram expressão de uma corrente oportunista internacional. Essa corrente como um todo empurrava o movimento, guardadas as especificidades de cada grupo revisionista, “a um trade-unionismo estreito e à luta ‘realista’ por reformas pequenas e graduais [exclusivamente]”.
Em concordância com os artigos anteriores publicados no Iskra, Lênin reforça a definição de economicismo russo: “tendência política fundamental do ‘economismo’: que os operários travem a luta econômica (ou mais exatamente: a luta trade-unionista, porque esta abrange também a política especificamente operária) e que a intelectualidade marxista se funda com os liberais para a ‘luta’ política”. Luta política, no caso concreto russo, que significa de imediato a luta contra o regime czarista.
Lênin começa assim, pela via teórica, a crítica política ao desvio economicista de grupos presentes na social-democracia russa, explicitando sua relação com o oportunismo internacional. Ao combater a falácia da “liberdade de crítica” começa a desvelar as propostas nefastas desse oportunismo. A crítica de Lênin ao desvio economicista russo e seus desdobramentos será um dos temas centrais do livro, em constante contraste com as posições teóricas, políticas e organizativas marxistas, na defesa de um partido operário que lidere e faça avançar tanto a luta econômica, quanto a luta política do proletariado. Essa luta pela constituição de uma vanguarda proletária para a revolução russa era entendida por Lênin como uma ação que reforçava a própria ala revolucionária da social-democracia da Segunda Internacional, inimiga dos revisionistas.
- A luta de Lênin contra o espontaneísmo
Em várias intervenções na virada para o século 20, Lênin deixou explícito que os revolucionários possuíam tanto tarefas teóricas quanto práticas. E essas tarefas práticas diziam respeito tanto à luta econômica, quanto à luta política; desde as lutas mais recuadas e espontâneas da classe operária e demais oprimidos, visando sempre o avanço do movimento operário no sentido da Revolução e do Socialismo. Essa posição não era nenhuma novidade entre os comunistas. Já estava presente no Manifesto: “[os comunistas] lutam para alcançar os fins e interesses imediatos da classe operária, mas no movimento presente representam simultaneamente o futuro do movimento”. Para cumprir esse papel de vanguarda do movimento, que simultaneamente luta por interesses imediatos e estratégicos do proletariado, Lênin defendia que a social-democracia russa precisava se consolidar em um partido político do proletariado e agir de forma ativa nas lutas e resistências, liderá-las sob uma posição operária e em direção à Revolução, nas condições concretas daquele período.
O espontâneo, dessa forma, possui um papel muito específico. O nível de consciência e organização dado das massas e as suas lutas espontâneas, que surgem a todo momento das contradições do próprio capitalismo e independentemente dos revolucionários, são um ponto de partida da atuação da social-democracia. Isso porque essa espontaneidade, que pode ser mais ou menos avançada, dependendo da conjuntura, é a realidade dada e, ao mesmo tempo, “a forma embrionária do consciente”, como afirma Lênin, uma matéria-prima sobre a qual se deve atuar de forma direta e sistemática. Ou seja, o elemento espontâneo é uma forma ainda desorganizada, confusa, contraditória, ainda sem estratégia consequente, de luta proletária; uma revolta ainda inicial contra sua situação e em defesa de melhorias imediatas, sob influência de ideologias dominantes. Mas que, desde seu início, apresenta minimamente elementos de uma posição proletária e uma potencialidade revolucionária, de forma mais ou menos latente.
No Que Fazer?, Lênin defende que o avanço político e de consciência do movimento espontâneo ocorre, em primeiro lugar, por meio da luta travada pelos próprios trabalhadores. A luta operária na Rússia avançou, em poucos anos, de meros motins para greves sistemáticas, com reivindicações precisas e estratégia e organização mínimas, como os sindicatos. Ou seja, por meio da experiência própria da massa, saiu-se de um nível inferior para um superior da luta; de uma grande espontaneidade inconsciente para embriões de organização e “clarões de consciência”.
No entanto, esse avanço apenas pelas lutas e organizações de resistência da massa possui um teto e pode se converter em mera defesa corporativa. São “escolas de guerra” de classes, pelas quais os operários devem passar, como afirmava Marx e Engels, mas que não são capazes, por si próprias, de se converterem em uma luta aberta e consciente do proletariado enquanto classe contra seus inimigos, uma luta revolucionária, pelo poder. As resistências mais ou menos espontâneas precisam, assim, ser trabalhadas politicamente por uma vanguarda, armada pela teoria revolucionária, para que ultrapassem esse limite e neutralizem seus desvios.
Esse encontro e relação entre o espontâneo e o consciente, as massas em resistência e suas organizações específicas e a organização revolucionária e sua teoria, é um problema central apresentado pelo Que Fazer?. Esse problema, obviamente, não possui uma solução geral, abstrata e definitiva, mas sempre específica, prática e concreta a cada conjuntura. A partir do caso concreto russo, por exemplo, Lênin demonstra as várias tentativas e fracassos dessa relação nas lutas operárias dos anos 1890, nas quais ele participou diretamente. Tentativas e erros fundamentais, que permitem aos revolucionários tirar valiosas lições e acumular experiência para, na entrada do século 20, colocarem de forma mais concreta propostas de soluções, como o próprio livro de Lênin é testemunho:
“a experiência revolucionária e a capacidade de organização são coisas que se adquirem. A única coisa que é preciso é querer desenvolver em si as qualidades necessárias! A única coisa que é preciso é ter consciência de seus defeitos, o que, no trabalho revolucionário, é já mais de meio caminho para corrigir!”.
No caso dos economicistas, em vez de lidarem com a espontaneidade como um ponto de partida do trabalho revolucionário, eles realizam um verdadeiro “culto da espontaneidade”, segundo Lênin, paralisando-se frente ao nível de luta espontâneo da massa, ou mesmo se submetendo de forma servil a ele e às circunstâncias de luta ainda rebaixadas daquele período. Em vez de utilizarem as lutas espontâneas para o avanço e ampliação de consciência e organização, com auxílio de uma organização revolucionária, defendiam as lutas operárias no nível estreito e meramente econômico. Além disso, atacavam os dirigentes revolucionários e as pautas políticas como “externos” à luta real.
Lênin denuncia que essa postura política, na realidade, é uma capitulação da vanguarda frente ao seu papel central, uma aceitação resignada de seu baixo nível de preparação para elevar a consciência e a luta das massas. E essa recusa do elemento consciente e dos revolucionários no seio da massa leva, necessariamente, a “fortalecer a influência da ideologia burguesa sobre os operários”. Ou seja, paradoxalmente, o culto à luta espontânea operária leva ao reforço da posição burguesa, dominante no capitalismo.
Em sua crítica a esse aspecto dos economicistas, Lênin resgata uma citação muito polêmica e questionável, de Kautsky, na época um dos principais dirigentes revolucionários alemães. A citação defende que o elemento consciente e a teoria revolucionária de fato são introduzidos “de fora” da luta proletária, até porque o Socialismo teria sido produzido pela “intelectualidade burguesa”. Lênin usou tal citação basicamente para criticar o culto da espontaneidade e a capitulação da vanguarda, e de forma alguma defendeu ao longo do livro que a teoria revolucionária surge desconectada da luta proletária e da espontaneidade, como entendia Kautsky. Espontaneidade das massas e teoria, elemento espontâneo e elemento consciente, sempre estabelecem uma relação, e por isso mesmo é possível uma união que potencialize ambas – eis o objetivo do revolucionário, de acordo com Lênin.
Logo em seguida à citação de Kautsky, Lênin adverte em nota de rodapé: “isto não significa, naturalmente, que os operários não participem nessa elaboração [da teoria revolucionária]”. Aliás, outro objetivo do partido revolucionário deve ser exatamente, de acordo com Lênin, elevar a consciência geral da classe a ponto de cada vez mais proletários sejam capazes de participar da vanguarda, assumir a tarefa teórica, dominar a ciência enquanto dirigentes revolucionários.
Debatendo esse ponto específico do Que Fazer?, Louis Althusser, no livro Marx dentro de seus limites, afirma também ser errada a definição de Kautsky sobre Marx e Engels como uma “intelectualidade burguesa” propriamente dita. Ambos não eram burgueses em universidades, ou outras instituições das classes dominantes, produzindo teoria de fora do movimento operário. A revolução teórica de Marx e Engels é concomitante e também dependente de sua inserção nas ligas operárias e comunistas da época, provém também de sua formação como dirigentes políticos e organizativos do proletariado no âmbito da Primeira Internacional. A teoria marxista foi, desde o início, uma luta teórica articulada com o movimento operário existente.
“O pensamento de Marx foi formado e desenvolvido não fora do movimento operário, mas dentro do movimento operário existente, em sua base política e em suas posições teóricas retificadas. Que essa base e essas posições não estavam dadas previamente, ou melhor, que elas tiveram que ser constantemente modificadas, é algo perfeitamente claro para qualquer um que conheça, mesmo que um pouco, a história do pensamento de Marx. Esta teoria não foi de forma alguma ‘introduzida de fora no movimento operário’. Foi de dentro do movimento operário que ela se espalhou, dos primeiros círculos comunistas – ao custo de quantas lutas e contradições! – para os grandes partidos de massa.”
Em Marx, Engels e em tantas obras de Lênin, fica evidente, ainda, que não apenas operários preparados podem realizar essa tarefa que Kautsky destinava à “intelectualidade burguesa”. Essas retificações da teoria, às quais Althusser se refere, foram feitas, talvez predominantemente pelo próprio movimento revolucionário de massas, que, em sua luta, acúmulo de experiência e “clarões de consciência”, também realizam descobertas teóricas na prática e atualizam o marxismo. É o caso exemplar da Comuna de Paris: luta que surgiu por fora da direção da Primeira Internacional e levou Marx e Engels não só a apoiarem ativamente como também a realizarem a única retificação do Manifesto Comunista, referente à ditadura do proletariado.
Há ainda mais riscos políticos na citação de Kautsky. Caso seja tomada por si só, no limite, ela reproduz uma divisão do trabalho e de classe no próprio movimento revolucionário, impensável na perspectiva marxista e também leninista. Althusser complementa:
“Por trás da concepção geral de uma teoria — ‘ciência produzida por intelectuais burgueses’ e ‘introduzida de fora no movimento operário’ — estava claramente delineada toda uma representação idealista e voluntarista das relações entre teoria e prática, das relações entre o partido e o movimento de massas, e portanto das massas, e finalmente das relações entre os líderes (intelectuais; se eram ou não de origem operária não era a questão) [e os militantes]. Ora, esta representação não poderia deixar de reproduzir, em última análise, as formas burguesas do conhecimento, isto é, da sua produção e posse, por um lado, e as formas burguesas da posse e exercício do poder, por outro; formas todas dominadas pela separação entre o conhecimento e a ignorância, entre os sábios e os ignorantes, entre os líderes que possuem o conhecimento e aqueles que são liderados, limitados a recebê-lo de fora e de cima, porque são por natureza ignorantes.”
Por fim, para fecharmos essa reflexão sobre a citação de Kautsky e os seus erros e riscos, destacamos um dos teóricos que, a nosso ver, melhor sintetizou essa relação entre teoria revolucionária e atuação nas massas: Mao Tsé-Tung. Para o revolucionário chinês, a direção comunista tem sim um momento “de fora” do movimento de massas, marcado pela sistematização teórica por parte da vanguarda. Mas esse momento de exterioridade e essa vanguarda em si estão vinculados diretamente à atuação interna nas massas e às próprias massas. A direção comunista, assim, só é vanguarda “das massas e para as massas”; só ensina as massas se antes aprende com elas; participa com ela, e a partir dela, da luta contra os desvios e posições atrasadas em seu meio. Assim, a teoria revolucionária se vincula a um processo político permanente, que se relaciona continuamente com o elemento espontâneo, e não invenções pontuais de indivíduos supostamente iluminados. E tal primazia das massas, ao mesmo tempo, não cai em um culto da espontaneidade, típico dos economicistas, pois não recusa o papel ativo e fundamental da vanguarda. Em texto de 1943, Mao afirmava:
“Toda a direção correta é necessariamente ‘das massas para as massas’. Isso significa recolher as ideias das massas (ideias dispersas, não sistemáticas), concentrá-las (transformá-las por meio do estudo em ideias sintetizadas e sistematizadas), ir de novo às massas para propagá-las e explicá-las de maneira que as massas as tomem como suas, persistam nelas e as traduzam em ação; e ainda verificar a justeza dessas ideias no decorrer da própria ação das massas. Depois é preciso voltar a concentrar as ideias das massas e levá-las outra vez às massas, para que estas persistam nelas e as apliquem firmemente. Sucessivamente, repetindo-se infinitamente esse processo, as ideias vão-se tornando cada vez mais corretas, mais vivas e mais ricas. Tal é a teoria marxista do conhecimento.”
Voltando à Lênin, a crítica ao culto da espontaneidade, de forma sintética, é uma luta em defesa da construção de um partido que faça essa mesma espontaneidade avançar e se dirija para fins revolucionários:
“Assim, persuadimo-nos de que o erro fundamental da ‘nova tendência’ da social-democracia russa é o de ajoelhar-se perante a espontaneidade, o de não compreender que a espontaneidade das massas exige de nós, sociais-democratas, uma elevada consciência. […] O ascenso espontâneo das massas na Rússia foi (e continua a ser) tão rápido que a juventude social-democrata acabou por se revelar pouco preparada para cumprir estas tarefas gigantescas. […] E os revolucionários atrasaram-se em relação a este ascenso tanto nas suas ‘teorias’ como na sua atividade, não conseguiram criar uma organização permanente […] capaz de dirigir todo o movimento.”
- A luta de Lênin contra o economicismo
Lênin avança em seguida na diferenciação entre a linha política revolucionária e a linha de atuação limitada ao nível espontâneo e sindical, típica dos economicistas, destacando como cada uma se expressa de forma mais concreta na luta de classes. De um lado, a política social-democrata participa das resistências parciais e espontâneas, mas como um ponto de partida, como “alavancas”. Já o economicismo, reforça o limite das lutas concretas, em seu culto à espontaneidade, ou seja, utiliza-as como freios políticos e organizativos. De forma bastante didática, Lênin demonstra que um mesmo fato pode conduzir a duas formas de atuação totalmente distintas, uma revolucionária e outra exclusivamente sindical:
“Estas denúncias [das fábricas] podiam converter-se (com a condição de serem utilizadas num certo grau pela organização dos revolucionários) em ponto de partida e elemento integrante da atividade social-democrata; mas também podiam conduzir (e com o culto da espontaneidade tinham forçosamente de conduzir) à luta ‘exclusivamente sindical’ e a um movimento operário não social-democrata. A social-democracia dirige a luta da classe operária não só para obter condições vantajosas de venda da força de trabalho, mas para que seja destruído o regime social que obriga os não possuidores a venderem-se aos ricos. A social-democracia representa a classe operária não só na sua relação com um dado grupo de patrões, mas também nas suas relações com todas as classes da sociedade contemporânea, com o Estado como força política organizada”.
Sendo assim, Lênin reafirma que não se trata de ficar fora ou não das limitadas lutas espontâneas e meramente econômicas. Estar nessas lutas é um pressuposto para os revolucionários. Afinal, “não seríamos ‘políticos’ e social-democratas senão em palavras […] se não tivéssemos consciência do nosso dever de utilizar todas as manifestações de descontentamento de qualquer gênero e de reunir e elaborar todos os elementos de protesto, por embrionário que seja”. A questão é como estar nessas lutas: a reboque ou como vanguarda; utilizando-as como alavancas ou como freios. “A social-democracia revolucionária sempre incluiu e continua a incluir no quadro das suas atividades a luta pelas reformas”, no entanto “[…] subordina, como a parte ao todo, a luta pelas reformas à luta revolucionária pela liberdade e o socialismo”.
A luta por salários nas fábricas, por exemplo, por si só, é uma luta para se conseguir condições mais vantajosas para a venda da força de trabalho explorada. De acordo com Lênin, a social-democracia devia ter clareza disso e não cair nos malabarismos dos economicistas que tentavam imprimir a essa luta algo mais do que ela era em si mesmo. Mas entender o seu limite é exatamente o passo necessário para melhor atuar nele e a partir dele, em articulação com a luta e as denúncias propriamente políticas e mais avançadas. No caso russo, luta e denúncias contra o regime czarista, de imediato, e luta estratégica pela Revolução.
Aqui, Lênin resgata as lições de Marx no âmbito da Primeira Internacional, isto é, participar e estimular as lutas por melhorias parciais, como aumento de salários, mas sabendo seus limites e não se limitando a essas lutas. E, assim, ir acumulando para a Revolução:
“Se em seus conflitos diários com o capital cedessem covardemente ficariam os operários, por certo, desclassificados para empreender outros movimentos de maior envergadura. […Mas] Não deve esquecer-se de que luta contra os efeitos, mas não contra as causas desses efeitos; que logra conter o movimento descendente, mas não fazê-lo mudar de direção; que aplica paliativos, mas não cura a enfermidade. Não deve, portanto, deixar-se absorver exclusivamente por essas inevitáveis lutas de guerrilhas, provocadas continuamente pelos abusos incessantes do capital ou pelas flutuações do mercado. A classe operária deve saber que o sistema atual, mesmo com todas as misérias que lhe impõe, engendra simultaneamente as condições materiais e as formas sociais necessárias para uma reconstrução econômica da sociedade”.
Então, coloca-se aos revolucionários o desafio de melhor combinar a luta econômica e a luta política, as resistências e lutas parciais com a luta pelo poder. Como atuar nesse sentido de forma sistemática? Como efetivar um verdadeiro processo de educação política e acúmulo revolucionário a partir da espontaneidade?
Nesse ponto, Lênin aborda a clássica diferença entre agitação e propaganda. Na atividade de propaganda revolucionária, deve-se trabalhar com muitas ideias para um conjunto relativamente pequeno de pessoas. Ao abordar o desemprego, por exemplo, a propaganda se esforçará em explicar a natureza das crises capitalistas, indicar a necessidade da Revolução etc. Na agitação, trabalha-se com uma só ideia para o máximo de pessoas, por exemplo, o número absurdo de trabalhadores sem emprego, visando com isso “despertar nas massas o descontentamento, a indignação contra esta flagrante injustiça”. Por meio desses modos de atuação, e instrumentos específicos, como imprensa, manifestações etc. que os revolucionários podem trabalhar o elemento espontâneo e os limites presentes nas lutas, introduzir a teoria e política proletária nelas.
A educação política das massas e o avanço das lutas, portanto, não são algo simples, mas sim um processo que exige uma atuação concreta e constante dos revolucionários no trabalho político com essas massas. E essa educação parte não do abstrato, mas de situações econômicas, políticas e ideológicas, existentes, mutáveis e diversas, vividas naquela conjuntura pelas massas. No Que Fazer? Lênin coloca bastante peso nas denúncias de casos concretos de exploração e opressão, sob um firme ponto de vista de classe e de forma sistemática, como um ponto de partida fundamental para esse processo de educação e avanço político:
“Na realidade, só se pode ‘elevar a atividade da massa operária’ desde que não nos circunscrevamos à ‘agitação política no terreno econômico’. E uma das condições essenciais para essa extensão indispensável da agitação política é organizar denúncias políticas que abarquem todos os terrenos. A consciência política e a atividade revolucionária das massas não podem ser educadas senão com base nestas denúncias. Por isso, a atividade deste gênero constitui uma das mais importantes funções de toda a social-democracia internacional, porque mesmo a liberdade política não elimina de modo algum essas denúncias; unicamente desloca um pouco a esfera para que são dirigidas. Por exemplo, o partido alemão reforça as suas posições e alarga a sua influência graças precisamente à persistente energia das suas campanhas de denúncias políticas. A consciência da classe operária não pode ser uma verdadeira consciência política se os operários não estão habituados a reagir contra todos os casos de arbitrariedade e opressão, de violências e abusos de toda a espécie, quaisquer que sejam as classes afetadas; e a reagir, além disso, do ponto de vista social-democrata e não de qualquer outro. A consciência das massas operárias não pode ser uma verdadeira consciência de classe se os operários não aprenderem, com base em fatos e acontecimentos políticos concretos e, além disso, necessariamente de atualidade, a observar cada uma das outras classes sociais em todas as manifestações da sua vida intelectual, moral e política; se não aprenderem a aplicar na prática a análise materialista e a apreciação materialista de todos os aspectos da atividade e da vida de todas as classes, camadas e grupos da população.”
Além disso, esse processo de educação política e mobilização, não custa lembrar, não é externo à luta, mas integrante dela. Lênin reforça: “não se pode apelar para uma ação – no sentido concreto da palavra e não no sentido geral – senão no próprio lugar da ação; só pode exortar os outros à ação aquele que se lança na ação”. Até porque, como ele dizia em 1920, a consciência da massa avança “nunca apenas com a propaganda”, mas sim com sua própria experiência prática. Novamente, não há aqui a figura de um intelectual de fora da ação, que supostamente realizaria o avanço da consciência das massas com uma propagação descolada e abstrata da teoria. O que há é uma atuação política, organizada, em situações reais e de dentro da ação. E o exemplo do partido alemão não é à toa: tratava-se do partido mais consolidado naquele período, com ação intensa e sistemática nas lutas econômicas e políticas.
Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em atividades de agitação e propaganda no início do século 20. Eram dois exemplares dirigentes revolucionários da social-democracia alemã da época, admirados por Lênin. Ambos foram assassinados pela burguesia e pelo revisionismo em função de sua defesa da classe operária e da revolução, em 1919. Na abertura do 1º Congresso da Terceira Internacional, Lênin saúda a “memória dos melhores representantes da III Internacional, de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo”.
Lênin sempre afirma a importância da atuação social-democrata na classe operária, mas também lembra constantemente que um revolucionário não se limita a ser um sindicalista operário, de uma ou algumas categorias, como defendiam os economicistas. Acima de tudo, o revolucionário está ligado a toda a luta de classes e deve atuar frente a sua totalidade, sob o ponto de vista proletário. Sendo assim, é muito mais um “tribuno popular”, que se dirige a todo o povo de forma obstinada; uma liderança política de toda a classe proletária, capaz de conduzir a educação política das massas em geral em direção à Revolução.
“O ideal do social-democrata não deve ser o secretário de trade-union [sindicato], mas o tribuno popular que saiba reagir contra toda a manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza e qualquer que seja a camada ou a classe social atingida; que saiba sintetizar todos estes fatos para traçar um quadro de conjunto da brutalidade policial e da exploração capitalista, que saiba aproveitar o mais pequeno pormenor para expor perante todos as suas convicções socialistas e as suas reivindicações democráticas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico-mundial da luta emancipadora do proletariado.”
Lênin, por fim, contra todo o economicismo, defendia a criação de um partido que reunisse, “num todo indivisível, a ofensiva em nome de todo o povo contra o governo, a educação revolucionária do proletariado, salvaguardando ao mesmo tempo a independência política deste, a direção da luta econômica da classe operária e a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores, conflitos que põem de pé e atraem sem cessar para o nosso campo novas e novas camadas do proletariado!”. O partido, enfim, como uma união sólida entre elemento espontâneo e elemento consciente, entre massas e revolucionários, e como instrumento fundamental da Revolução.
- A luta de Lênin por um partido revolucionário
Segundo Lênin, para construir esse partido pautado na teoria e na atuação revolucionária, era preciso criticar e superar também o estilo “artesanal” e fragmentário de trabalho presente no desvio economicista e imperante entre os revolucionários russos na virada para o século 20. Em seu lugar, construir uma organização “profissional” de revolucionários, planejada, centralizada e coordenada nacionalmente. “A nossa fragmentação e o nosso trabalho artesanal entravam diretamente este agrupamento, que exige para toda a Rússia uma organização única de revolucionários”.
Se o economicismo significava, na luta geral, um entrave para o avanço político das massas, no caso específico da organização revolucionária, ele representava um empecilho para que ela se constituísse enquanto tal. Impedia inclusive os revolucionários de entenderem “que com base neste trabalho [artesanal] de vistas estreitas não se pode constituir uma boa organização de revolucionários”, pois os economicistas defendiam ativa e teoricamente a manutenção da atividade revolucionária naquele nível recuado. Novamente, se eximiam da tarefa de vanguarda.
Outra forma de omissão similar, segundo Lênin, era o esquerdismo, então minoritário, que visava estimular, de fora e por meio de atos “radicais” isolados, o movimento das massas, sem construir de fato uma organização dos revolucionários inserida nelas. “Essas duas tendências, a oportunista e a ‘revolucionarista’, capitulam perante o trabalho artesanal imperante, não acreditam na possibilidade de se libertar dele, não compreendem a nossa primeira e mais urgente tarefa: criar uma organização de revolucionários capaz de dar à luta política energia, firmeza e continuidade”. Anos depois, o desvio esquerdista no movimento revolucionário receberá uma crítica mais sistematizada de Lênin, em A Doença Infantil do “Esquerdismo” no Comunismo.
Na sua defesa de uma organização revolucionária profissionalizada, Lênin aborda a diferença entre organização operária, de massa, e organização revolucionária; entre movimento de massas e partido, do ponto de vista propriamente organizacional. Apesar de possuírem relações, como já vimos no debate sobre o espontâneo e o consciente, a luta econômica e a luta política, elas também possuem especificidades que precisam ser destacadas, até para que estabeleçam uma relação justa de fato. De acordo com Lênin, com foco específico na Rússia czarista:
“A luta política da social-democracia é muito mais ampla e mais complexa do que a luta econômica dos operários contra os patrões e o governo. Do mesmo modo (e como consequência disto), a organização de um partido social-democrata revolucionário deve ser, inevitavelmente, de um gênero diferente da organização dos operários para a luta econômica. A organização de operários deve ser, em primeiro lugar, sindical; em segundo lugar, deve ser a mais ampla possível; em terceiro lugar, deve ser a menos clandestina possível (aqui e no que se segue, refiro-me, bem entendido, apenas à Rússia autocrática). Pelo contrário, a organização de revolucionários deve englobar, antes de tudo e sobretudo, pessoas cuja profissão seja a atividade revolucionária (por isso falo de uma organização de revolucionários, pensando nos revolucionários sociais-democratas). Perante esta característica geral dos membros de uma tal organização, deve desaparecer por completo toda a distinção entre operários e intelectuais, para não falar já da distinção entre as diferentes profissões de uns e outros. Necessariamente, esta organização não deve ser muito extensa, e é preciso que seja a mais clandestina possível”.
De fato, há uma diferenciação nítida entre organização de massa e organização de vanguarda, cada uma atendendo a tarefas específicas da luta. Mas, novamente, ambas estão em constante relação – pois, o objetivo da constituição da vanguarda é exatamente liderar e elevar a luta das massas! Segundo Lênin, “todo operário social-democrata deve, dentro do possível, apoiar estas organizações [de massa] e nelas trabalhar ativamente”, juntamente com o máximo de massa possível. Ao mesmo tempo, a organização revolucionária é uma seleção dos melhores e mais avançados elementos da massa. Ela visa sim que um número “cada vez maior” atinja esse patamar exigido pela luta política, mas para isso não pode rebaixar suas exigências ao nível de organização de massa. Isso porque ela exige não apenas bons lutadores das lutas econômicas, mas lideranças políticas, isto é, dirigentes com mais dedicação e habilidades do que as exigidas pelo nível econômico, pois precisam ir além desses enfrentamentos mais imediatos.
Por estarem em constante conexão, a organização revolucionária, enquanto destacamento avançado do proletariado, permite não apenas que a luta política seja conduzida de forma regular e sólida, como também, “simultaneamente”, auxilia as lutas econômicas das massas e suas organizações a encontrem estabilidade e atingirem seus objetivos. Pois, até mesmo para resistir aos inimigos de classe e encontrar vitórias parciais, a luta e a organização revolucionária são importantes. Afinal, a constituição de uma vanguarda proletária, mesmo que inicialmente pequena, altera a correlação de forças da própria luta de classes como um todo.
Regularidade é um aspecto fundamental para uma organização revolucionária, de acordo com Lênin, e sua necessidade advém das características própria da luta de classes e da Revolução. Ora, um processo revolucionário não pode ser entendido como um “ato único”, no qual o proletariado irá se emancipar de uma vez só, mas sim como “uma rápida sucessão de explosões mais ou menos violentas, alternando com períodos de calma mais ou menos profunda”. “Por isso”, continua Lênin, “o conteúdo fundamental das atividades da organização do nosso partido, o foco destas atividades deve consistir num trabalho que é possível e necessário tanto durante o período da explosão mais violenta como durante o da calma mais completa”. Ora, essa regularidade não é possível alcançar apenas com as organizações de massa e suas flutuações conjunturais.
A diversidade e complexidade da atividade da organização revolucionária necessariamente exigem graus de especialização de seus membros. Por isso a necessidade de superar o trabalho artesanal e avançar para um trabalho profissional. Isso significa também, como afirmava Lênin, elevar o nível dos seus militantes, para que se tornem verdadeiros “revolucionários profissionais”: agitadores, propagandistas, distribuidores, teóricos etc. com conhecimento, disciplina e disposição para assumir tais tarefas de forma constante.
Não por acaso, é apenas cumprindo tais exigências de seletividade, especialização e regularidade, provenientes da natureza específica do trabalho revolucionário, que se pode debater concretamente os marcos de uma democracia interna dessa organização. Essa democracia, ajustada também às condições concretas de luta, precisa conviver com a centralização de algumas tarefas e decisões, sem a qual esse próprio destacamento de classe não se torna operativo e estável em escala nacional. Lênin dá o exemplo da imprensa. Para constituir uma imprensa revolucionária nacional, ainda mais na Rússia autocrática, sobre todos os assuntos políticos relevantes, era preciso um modo de funcionamento organizacional superior à “democracia primitiva” que imperava nos pequenos círculos operários e revolucionários. Exigia-se não apenas especializações várias como também “um estado-maior” capaz de dirigir, com autoridade, o restante dos dirigentes que compõem a organização revolucionária. Ao longo dos anos e da experiência revolucionária, Lênin desenvolverá e aprofundará sua reflexão sobre esse centralismo democrático.
Lênin finaliza o livro e sua defesa de um partido revolucionário com um plano de um jornal nacional. Esse jornal, como defendia no artigo Por onde começar? já citado, teria como função ser, concomitantemente, um educador político e um organizador coletivo dos revolucionários russos. Esse instrumento de imprensa devia ser capaz de ser tanto um “meio para educar” e emular as organizações e lutas locais ainda dispersas, com divulgação e debate político da luta de classes como um todo, quanto uma relação organizacional concreta entre essas várias localidades e lutas.
“A ligação efetiva começaria já a ser criada através da simples função de difusão do jornal (se ele merecesse realmente tal título, isto é, se aparecesse regularmente, umas quatro vezes por mês, e não uma vez por mês como as revistas volumosas). Atualmente são raríssimas, e em todo o caso uma exceção, as relações entre as cidades sobre assuntos revolucionários; então essas relações converter-se-iam em regra e, naturalmente, assegurariam não só a difusão do jornal, mas também (o que é muito mais importante) o intercâmbio de experiência, de materiais, de forças e de recursos. Imediatamente o trabalho de organização ganharia uma envergadura muito maior, e o êxito alcançado numa localidade encorajaria constantemente o aperfeiçoamento do trabalho e o aproveitamento da experiência já adquirida por um camarada que atua noutro extremo do país. O trabalho local seria muito mais rico e variado do que é atualmente; as denúncias políticas e econômicas que se recolhessem por toda a Rússia alimentariam intelectualmente os operários de todas as profissões e de todos os graus de desenvolvimento, forneceriam dados e ocasião para conversas e leituras sobre os mais variados problemas, suscitados, além disso, pelas alusões feitas pela imprensa legal, pelas conversas em sociedade e os ‘tímidos’ comunicados do governo. Cada explosão, cada manifestação, seria apreciada e discutida em todos os seus aspectos e em todos os confins da Rússia, fazendo surgir o desejo de não ficar para trás, de fazer melhor que os outros (nós, os socialistas, não excluímos de modo nenhum toda a emulação, toda a ‘concorrência’, em geral!), de preparar conscientemente o que da primeira vez se tinha feito até certo ponto espontaneamente, de aproveitar as condições favoráveis de uma determinada localidade ou de um determinado momento para modificar o plano de ataque, etc.”
Ao final do Que Fazer?, percebe-se que a crítica sem tréguas de Lênin contra o revisionismo, contra os desvios e os atrasos do trabalho revolucionário na Rússia, visava, fundamentalmente, fazer com que “todos os nossos esforços tenham como objetivo reunir, organizar e mobilizar um exército regular”, o partido revolucionário do proletariado unido ao movimento de massas. Um exército que marcha à cabeça do movimento espontâneo, servindo a ele, auxiliando-o a avançar; que “aproxima e funde num todo a força destruidora espontânea da multidão e a força destruidora consciente da organização dos revolucionários”. Um exército capaz de levar a cabo “a insurreição armada de todo o povo”, como de fato ocorreu em 1917.
Afinal, como Lênin afirma no livro “Um passo adiante, dois passos atrás“, que analisa o 2º Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo (1903):
“O proletariado, na sua luta pelo poder, não tem outra arma senão a organização. Dividido pela concorrência anárquica que reina no mundo burguês, esmagado pelos trabalhos forçados ao serviço do capital, constantemente atirado ao abismo da miséria mais completa, do embrutecimento e da degenerescência, o proletariado só pode tornar-se, e tornar-se-á inevitavelmente, uma força invencível quando a sua unidade ideológica, baseada nos princípios do marxismo, é cimentada pela unidade material da organização que reúne milhões de trabalhadores num exército da classe operária. A esse exército não poderão resistir nem o poder decrépito da autocracia russa, nem o poder decrépito do capital internacional.”
Quadro de Lênin no 2º Congresso do Partido Operário Social-Democrata Russo, no ano seguinte à publicação do Que Fazer?. Em grande parte das questões organizativas e políticas, as posições revolucionárias de Lênin ganharam a maioria (bolchevique, em russo) do Congresso. Mas a luta contra o economicismo e outras formas de oportunismo no seio do partido continuou nos anos seguintes.
- Lições para a reconstrução comunista hoje
A resposta de Lênin à pergunta título do livro ocorreu a partir de uma análise concreta, em uma luta também concreta (contra revisionistas e economicistas), sob uma rigorosa posição revolucionária e visando uma prática política situada naquela conjuntura. Por isso, possui um conjunto de especificidades que corresponde ao seu tempo e não se pode simplesmente ser deslocada, por completo, para os dias atuais. No limite, cabe a cada conjuntura responder essa pergunta, a partir de sua própria “análise concreta da situação concreta”. Foi o que Lênin fez e deixou como primeira lição com esse livro. Sua resposta não estava dada no Manifesto do Partido Comunista, ou em qualquer outro escrito marxista tomado como dogma. Foi preciso produzi-la, tomando criticamente as lições teóricas e experiências anteriores e aplicando-as em um contexto novo. E, posteriormente, testá-la em sua justeza na prática.
No atual contexto de extrema fragilidade do movimento comunista a nível internacional, é preciso repetir a própria pergunta leninista: que fazer para, em 2025, reconstruir tal movimento? Repetir essa pergunta já nos coloca uma tarefa: respondê-la concretamente como o fez Lênin e vincular tal resposta a uma prática. Uma imensa tarefa para os revolucionários de hoje!
Guardadas as circunstâncias da resposta de Lênin, o fato é que por se tratar de uma luta de classes ainda “atual”, a luta do proletariado contra seus algozes, e integrar historicamente um dos mais ricos processos revolucionários dessa classe, há nela orientações e propostas ainda válidas e até mesmo urgentes – caso seja de nosso interesse, como o foi de Lênin, superar os limites do movimento de massas e das organizações revolucionárias na presente conjuntura. A nosso ver, a proposta mais pertinente continua a ser aquela central do livro: a necessidade da constituição de um verdadeiro partido revolucionário do proletariado, um destacamento de vanguarda operária nos termos de Lênin.
Pois, fora dessa forma mais elevada de organização e direção da luta do proletariado, gerada e testada historicamente na luta, ele de fato nada possui na sua luta contra a burguesia sob o capitalismo. Essa é uma verdade que comprovamos direta e cotidianamente nos tempos atuais de contínua ofensiva burguesa e fascistização, nos quais o proletariado se encontra desarmado teórica, organizacional e politicamente para resistir na grande maioria dos países, incluindo o Brasil.
Por isso, acima de tudo, essa é a tarefa maior e mais urgente, que pressupõe um conjunto complexo de ações vinculadas, teóricas e práticas, políticas e organizacionais. E não há outro caminho a não ser a necessidade de agir, desde já, nesse sentido, não importando a dimensão do recuo no qual nos encontramos. Negar esse caminho, como demonstra Lênin na crítica ao espontaneísmo e ao economicismo, é capitular frente ao atual nível recuado do movimento, servir passivamente às posições burguesas dominantes. Assim como tentar desconsiderar esse recuo é praticar revolucionarismo, que em nada nos auxiliará na imensa tarefa da reconstrução.
É certo que no contexto atual, os comunistas precisam enfrentar, na sua retomada teórica, na sua reinserção nas massas e na constituição de seu instrumento político, um imenso entulho oportunista, de tamanho talvez inédito na história. Inclusive uma gama de partidos e organizações de massa que se dizem dos “trabalhadores” e de ditos “partidos comunistas” e “operários” apenas de nome, mas que, na realidade, aplicam abertamente a política burguesa, quando não constituem o próprio governo burguês e gerenciam o estado capitalista – diante dos quais parte significativa das lutas espontâneas se encontra bem mais avançada na posição proletária! É certo também que as derrotas históricas das experiências revolucionárias do século passado, incluindo a soviética e a chinesa, exigem um balanço profundo e ainda não concluído para que esse combate ocorra de fato sobre os pontos mais avançados deixados pelo movimento passado. No entanto, até mesmo essas lutas só se tornam efetivas na própria caminhada da reconstrução organizacional, por mais incipiente que ainda seja em alguns lugares.
Um instrumento que seja a fortaleza da independência teórica, política e ideológica do proletariado e pavimente paulatinamente, contra todo o tipo de oportunismo, sua união com a luta e as organizações espontâneas das massas, nas condições concretas de hoje. É o que nos falta, fundamentalmente. Eis o que o livro de Lênin ainda nos ajuda a enxergar, e a resolver.







