A situação do mercado de trabalho brasileiro no início de 2025
Boletim Que Fazer – Junho de 2025
Apesar da taxa de desemprego baixa, as classes trabalhadoras continuam a enfrentar alta precariedade, informalidade e carestia.
Cem Flores
06.06.2025
A situação do desemprego
Em maio, o IBGE divulgou os dados do mercado de trabalho brasileiro referentes ao primeiro trimestre de 2025. A taxa de desocupação ficou em 7% no país (7,7 milhões de trabalhadores), o menor percentual para o período desde 2012. De acordo com o governo, esse resultado indicaria a persistência do “bom” momento do emprego, marcado por uma ampliação contínua da ocupação nos últimos anos, inclusive no setor formal.
Comparado ao trimestre anterior (4º/2024), a taxa de 7% representou uma elevação de 0.8 ponto percentual. Trata-se de um movimento sazonal, devido ao fim dos contratos temporários de final de ano. No entanto, essa variação foi quase o dobro da ocorrida em 2024, e as atuais projeções de desaceleração da economia em 2025 indicam que a taxa de desocupação do ano poderá aumentar de forma consolidada.
Além disso, a taxa de desemprego ampliada, apesar de também estar em queda, continua muito expressiva: 15,9%, ou 17,5 milhões de trabalhadores desempregados, desalentados ou subocupados. Mais do que toda a população do estado do Rio de Janeiro!
Desigualdades e informalidade persistem
Essa taxa de desocupação restrita, no entanto, esconde aspectos dramáticos do mercado de trabalho hoje. Essa taxa é uma média nacional na qual estão inseridas regiões e estados em situações bem mais críticas. No primeiro trimestre de 2025, os estados de Pernambuco, Bahia e Piauí, por exemplo, fecharam o trimestre com desemprego acima de 10%. Em relação à taxa ampliada, o Nordeste marcou 26,3% — mais de um quarto dos trabalhadores nordestinos estão “subutilizados”!
A taxa de 7% também não revela desigualdades que persistem nas próprias classes trabalhadoras e geram desemprego acima da média, como é o caso da escolaridade, raça e gênero.
Sem falar que dezenas de milhões estão “ocupados” para o IBGE, portanto fora de todas essas taxas, mas na realidade estão se virando nos bicos e na informalidade, enquanto buscam alguma oportunidade de carteira assinada. A taxa de informalidade da força de trabalho está em 38%. E quase 26 milhões estão trabalhando “por conta própria” – uma massa maior do que a população do estado de Minas Gerais. Essa é a parte do retrato do mercado de trabalho que o governo quer esconder!
A exploração e a carestia também!
Como afirmamos no Boletim de março de 2025, desde a pandemia de Covid-19, a carestia está de volta com força no Brasil. Apesar da maior ocupação, o poder de compra dos trabalhadores é direta e fortemente afetado.
O suor de cada dia está valendo cada vez menos no mercado. A inflação de alimentos básicos anda acima dos índices gerais, que servem de baliza para os reajustes salariais. Um exemplo é o café, que aumentou 80% nos últimos 12 meses!
No final de 2019, em SP, com R$ 556, era possível realizar uma compra mensal de alimentos básicos no mercado, segundo o DIEESE. Hoje, para comprar os mesmos alimentos, se gasta quase R$ 910. Um aumento de 63% em cinco anos. Enquanto isso, o salário mínimo cresceu apenas 45%. A conta não fecha!
Não à toa o endividamento disparou no país e continua muito alto. Muitas famílias têm se utilizado do crédito para comprar o básico. Segundo o Serasa, hoje são mais de 76 milhões de endividados. Os juros, que não param de crescer, tendem a piorar tal realidade.
Todo esse quadro tem intensificado o adoecimento dos trabalhadores. Em 2024, o Brasil teve o maior número de afastamentos por ansiedade e depressão em 10 anos. Quase meio milhão se afastaram do trabalho por crises e transtornos mentais.
Enquanto isso, a burguesia desfruta desse arrocho, exploração e adoecimento dos trabalhadores. O mercado de consumo de luxo está com números e perspectivas promissoras, “como nunca antes na história deste país”.
Melhora só vem da luta
Eis o melhor momento em anos do mercado de trabalho brasileiro, no início do terceiro ano do governo burguês Lula-Alckmin que se diz “dos trabalhadores”: milhões ainda no desemprego, enorme informalidade, carestia, endividamento, adoecimento em massa… Isso para nós. Já para a burguesia, lucros recordes, mercado de luxo aquecido e vida mansa!
O quadro de desaceleração econômica, conforme apontam as projeções, com os juros recordes e o arrocho fiscal, indica uma previsível piora, com elevação do desemprego, por exemplo. Mas é nesse horizonte aparentemente sem saída que devemos lembrar que a história dos explorados é uma história de conquistas em meio a conjunturas difíceis. Lembrar que nossos inimigos, apesar de hoje estarem no poder, não são invencíveis.
Quem nos ajuda a lembrar isso nos dias atuais são os entregadores de aplicativo, que arrancaram 15,4% de reajuste do Ifood em mais uma greve nacional. São os operários da construção civil de Fortaleza, que saíram das construções para as ruas e conquistaram 10% de aumento. Como dizia o poeta: “De quem depende que a opressão prossiga? De nós / De quem depende que ela acabe? Também de nós”.

