A posição dos comunistas diante da conjuntura política nacional
Lula, Motta e Haddad em recente evento do governo federal sobre a regularização da reforma tributária. Poucos dias depois da encenação feita pelo governo para anunciar o veto à anistia aos golpistas – conduzida por Motta – todos voltam a se afagar, tanto para consolidar e fazer avançar, de forma unitária, o programa hegemônico da burguesia, quanto para intensificar os conchavos em ano eleitoral. Os comunistas não devem escolher qual inimigo de classe apoiar!
Cem Flores
19.01.2026
Neste início de ano, a conjuntura política nacional é marcada por movimentações de todas as facções burguesas com vistas às eleições gerais de 2026, nas quais sairão os novos governadores, deputados, senadores e presidente da república. Todos os integrantes desse sistema político apodrecido – partidos de governo e de oposição, aliados e rivais, dos níveis federais, estaduais e distrital – preparam-se para abocanhar a maior quantidade possível de cargos, estruturas estatais e verbas públicas para atender aos seus interesses próprios e servir às classes dominantes. Políticos da situação calculam o uso da máquina estatal para angariar o máximo de popularidade e apoios para a reeleição. Políticos de oposição ou sem cargos articulam as melhores alianças, táticas e nomes para vencerem seus rivais nas eleições.
Esse processo eleitoral, neste estado e regime burgueses, representa fundamentalmente um momento privilegiado de disputa em torno do comando político da exploração dos trabalhadores no país. Em vez de “festa da democracia”, as eleições são um episódio escrachado de cretinismo político burguês, cheio de ilusões, promessas vazias e corrupção, e uma tentativa das classes dominantes de legitimar sua opressão sobre as massas. Não à toa, há muito os comunistas denunciam as falácias dos reformistas e oportunistas em torno das eleições burguesas: as soluções para os trabalhadores e o centro de suas lutas não estão nessa disputa por cargos políticos burgueses, mas na organização e na luta revolucionária, contra a burguesia e suas instituições.
Nas eleições brasileiras de 2026, ao que tudo indica, a principal disputa ocorrerá mais uma vez entre o petismo e o bolsonarismo. O petismo liderado por Lula, favorito nas pesquisas eleitorais e que conclui o seu terceiro, e mais à direita, governo. O bolsonarismo, apesar do cenário mais fragmentado e incerto, liderado por Flávio Bolsonaro, que recebeu o espólio de seu pai, agora presidiário. Ambas as forças políticas são representantes e gestoras da burguesia, já experimentadas no governo central do país, e há meses disputam o apoio do empresariado e dos partidos políticos com mais peso, o chamado “centrão”. Guardadas suas diferenças na forma de governar, ambas se colocam como os gestores capazes de realizar os interesses da burguesia entre 2027 e 2030 e de manter a exploração e a opressão sobre os trabalhadores. E, como não poderia ser diferente na política burguesa, ambas as forças e seus respectivos aliados estão mergulhados nos mais abjetos esquemas de corrupção. Tratam-se de nossos inimigos de classe!
Como nas últimas eleições, o petismo e seus aliados de primeira e segunda ordem da dita “esquerda” buscam não apenas esconder seu caráter e papel burguês com discursos eleitoreiros de “giro à esquerda”, mas também se vender aos trabalhadores como a única saída diante da fascistização em curso no país. Esse engodo e essa chantagem já foram desmascarados, governo petista após governo petista, e certamente não devem cegar o proletariado e demais trabalhadores de sua verdadeira prioridade nessa conjuntura de acirramento das contradições do sistema imperialista: rejeitar a subordinação à burguesia e firmar-se em sua própria posição, organização e luta. Pois só assim poderemos vencer e acumular forças frente à ofensiva burguesa interna, aos crescentes ataques imperialistas e à persistente fascistização. Não há alternativas ou atalhos diante de tal quadro!
Para dar continuidade a tal debate, reproduzimos abaixo os tópicos de nossa Declaração Política do 4º Encontro de Organização que abordam essa conjuntura política nacional e a posição comunista frente a ela.
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TRECHO DA DECLARAÇÃO POLÍTICA DO 4º ENCONTRO DE ORGANIZAÇÃO
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O atual governo burguês de Lula consolida o programa hegemônico da burguesia e avança na sua implantação
- Na conjuntura brasileira da luta de classes atual, um aspecto central de demarcação de campo entre comunistas e oportunistas é o reconhecimento do caráter burguês do governo Lula. Mais do que uma mera definição formal, cabe aos comunistas tirar todas as consequências desse fato para a definição de sua posição política, para a construção de sua atuação no seio do proletariado e das massas e para travar, de uma posição justa, as lutas de classes sindicais, econômicas, políticas e ideológicas em curso no país. Como aprendemos com Marx e Engels, os comunistas devem ter sempre em mente que além de lutarmos pelos interesses e objetivos imediatos da classe operária, defendemos e representamos, no movimento atual, o futuro do movimento, a luta pela derrubada do poder burguês e pela criação do Poder Proletário, único caminho para a construção do Socialismo e do Comunismo.
- Pelo menos desde que assumiu a presidência pela primeira vez, em 2003, o PT se conformou enquanto partido da ordem burguesa, o principal gestor dos interesses do capital no Brasil no século 21. Ao longo de mais de 16 anos no governo federal, os governos do PT mantiveram as maiores taxas de juros reais do mundo e o pagamento dos juros da dívida pública, beneficiando o capital bancário e financeiro, nacional e internacional, inclusive dispensando esses últimos do pagamento de imposto de renda sobre os seus lucros. Mantiveram aberta a conta de capital, permitindo ingressos de centenas de bilhões de dólares do capital financeiro internacional na forma de investimentos dos monopólios transnacionais, endividamento externo com os grandes bancos estrangeiros e especulação financeira. Também atenderam ao agronegócio e à indústria extrativa e reforçaram a reprimarização do país e de sua pauta exportadora, com os maiores planos safra da história e com subsídios estatais crescentes, sendo coniventes com o desmatamento e a destruição ambiental, consequências da expansão da fronteira agrícola, das pastagens, do garimpo e da mineração e exploração de petróleo. A burguesia industrial também foi beneficiada com diversos programas governamentais (PAC, Plano Brasil Maior, Nova Indústria Brasil etc.), destinando verbas públicas a juros reais negativos para infraestrutura, construção civil, indústria automobilística, exportação etc., o que, no entanto, não foi suficiente para reverter a trajetória de desindustrialização. Os capitais aplicados no comércio e nos serviços também tiveram seus ataques aos trabalhadores consolidados nos governos petistas, por exemplo, na expansão da terceirização. Como resultado, a burguesia colheu tanto as maiores taxas de lucro quanto a maior recessão do século.
- Um importante diferencial do PT na comparação com os outros partidos da ordem burguesa na tarefa de gerenciar os interesses dos patrões é sua capacidade de cooptar as lideranças sindicais e populares, mediante espaços de enrolação (conselhos, congressos, grupos de trabalho etc.), oferta de cargos públicos, acesso a verbas, editais e programas e outros mecanismos de cooptação. Além disso, a capacidade de dirigir as principais centrais sindicais e movimentos populares em uma linha pelega e oportunista, na qual passam a servir de correias de transmissão dos interesses do governo e do PT. O PT no governo também demonstra ampla capacidade de paralisar o movimento de massas, seja pela cooptação, seja, quando necessário, recorrendo a chantagens e sabotagens. Dessa forma, os governos do PT procuram limitar a luta de classes proletária a uma mera disputa institucional e eleitoreira, na qual buscam manter, a todo o custo, os interesses da classe operária e da massa trabalhadora subjugados aos interesses dos patrões e dos seus governos.
- O atual governo burguês de Lula-Alckmin, por suas políticas e sua composição de classe, consegue ser ainda mais à direita do que os anteriores. A começar pelo antigo quadro tucano, conservador, repressor e de direita, na vice-presidência. A composição ministerial e de sua base no congresso nacional, sob a continuidade da corrupção aberta das emendas parlamentares, inclui partidos abertamente de direita e próximos do bolsonarismo, como o Republicanos (partido do governador de São Paulo e do presidente da câmara), PSD, União Brasil e Progressistas. Os ministros mais relevantes e quadros principais do PT no governo, como Haddad e Rui Costa, comandam o arrocho fiscal, a privatização e o atendimento aos interesses dos empresários.
- O governo burguês de Lula-Alckmin é um governo de continuação, consolidação e avanço da ofensiva de classe burguesa, agravada no país desde a crise econômica e política iniciada em 2013-14. Essa ofensiva se materializa sobretudo no programa hegemônico da burguesia, um conjunto de “reformas” e ataques contra os trabalhadores, que visa ampliar a acumulação capitalista e elevar a taxa de lucro, com concomitante piora das condições de trabalho e de vida das massas trabalhadoras. O atual governo manteve todos os avanços obtidos pela burguesia nesse programa (“reformas” da previdência e trabalhista, privatizações, deterioração dos serviços públicos, como educação e saúde, elevação da repressão etc.), avançou em outros ataques (novo teto de gastos, “reforma” tributária, mais privatizações, restrições a benefícios sociais etc.) e promete novos ataques para o próximo mandato, como parte da campanha eleitoral junto à burguesia, pela manutenção da “frente ampla” (novas rodadas de cortes de gastos e de “reformas”). Para atender ao teto de gastos de Lula e ampliar os fartos volumes de capital para o rentismo (uma das maiores taxas de juros do mundo) e outras frações da burguesia (planos safras recordes e benefícios à indústria), o governo tem intensificado cortes bilionários em despesas públicas com programas sociais e intensificado as privatizações em todas as áreas. O resultado dessa contínua implementação do programa hegemônico da burguesia não poderia ser outro: sob o atual governo, o país registrou, em 2023, a maior taxa de lucro do século 21. Eis o objetivo, plenamente atingido, desse governo burguês!
- Essa ofensiva de classe patronal representada e coordenada pelo governo burguês de Lula-Alckmin se expressa para além da esfera econômica. Ela está presente na educação, com a continuidade da “reforma” do ensino médio, o fortalecimento das fundações empresariais no ministério da educação e na formulação das políticas educacionais, a crescente militarização das escolas públicas, o descumprimento do piso constitucional da educação com a inclusão de outros gastos (como o Pé de Meia), a situação crítica das universidades e centros de pesquisa públicos, entre outros. A repressão necessária à ofensiva de classe dos patrões também se mantém no atual governo burguês, com a crescente letalidade policial, além do peso das corporações militares no país. A política ambiental também é definida pelos interesses do capital na exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, na continuidade da devastação de biomas, sobretudo pelo estímulo ao agronegócio e indústria extrativista. Na saúde há cada vez mais atividades do SUS sob gestão de capitais privados. O mesmo padrão de gestão burguesa pode ser encontrado em todas as demais áreas (cultura, ciência e tecnologia, urbanismo, direitos humanos, diplomacia etc.). Em todas as frentes, esse governo burguês se mostra útil para gerir os interesses empresariais e neutralizar e combater os interesses proletários e sua força.
“Ricos contra pobres”, “defesa da soberania nacional” e “segurança pública” como temas eleitoreiros do governo burguês de Lula
- Com a proximidade das eleições de 2026 e a baixa popularidade do terceiro mandato (embora com pequena melhora no segundo semestre deste ano), e diante do acirramento político frente a outras facções burguesas, o governo burguês de Lula-Alckmin tem aproveitado todas as oportunidades da conjuntura para deslanchar cínicas e hipócritas campanhas de marketing eleitoreiras. Essas campanhas visam recuperar popularidade, com relativo sucesso, e ativar a militância de “esquerda” para oportunistas mobilizações eleitoreiras.
- Uma dessas campanhas é a tal de “ricos contra pobres”. O governo originalmente anunciou mais um corte de gastos sociais, de R$ 31 bilhões, e o aumento do imposto sobre operações financeiras (IOF). O congresso aceitou a primeira medida e rejeitou a segunda. Pressionado pelo teto de gastos e por sua baixa popularidade, o governo propôs trocar o aumento do IOF por um pequeno aumento de imposto de renda aos mais ricos, em tese compensando a isenção desse imposto para que ganha entre R$ 3 mil e R$ 5 mil. Igualmente buscando benefícios eleitoreiros, a direita se alinhou ao governo e o projeto foi aprovado por unanimidade no congresso. Para o governo burguês e seus aliados oportunistas, aí estava a “luta de classes” – ignorando os lucros recordes da burguesia, os maiores juros do mundo, os subsídios bilionários ao agronegócio e à indústria, os ataques aos trabalhadores e o conhecido fato de que a burguesia tem mil e uma formas de escapar da tributação. A propaganda é tão mais hipócrita quando se considera que o governo continuou na busca de mais cortes, como a redução do piso constitucional da educação (inclusão do Pé de Meia), limitação do auxílio incapacidade e do seguro defeso, e não desistiu de atacar o BPC e o Fundeb.
- Outra bandeira oportunista e eleitoreira atual do governo burguês de Lula-Alckmin é a da “soberania nacional”, como uma pseudo resposta ao ataque do imperialismo dos EUA ao Brasil, marcado pelo tarifaço e por sanções econômico-financeiras. Também nesse caso – ao contrário de qualquer “anti-imperialismo” – o estado e o governo se colocaram, como não poderia ser diferente para estado e governo burgueses, mais uma vez como comitês de defesa dos interesses comuns do capital. Sob a liderança de Alckmin, o governo estimulou negociações entre capitalistas brasileiros e dos EUA para voltar ao status anterior de relações submissas e mais “harmoniosas”. A “vitória” foi conseguir isentar quase metade das exportações brasileiras aos EUA da tarifa adicional de 40%, posteriormente ampliada para as demais commodities da pauta exportadora do país. Já ocorreram dois encontros presidenciais entre Lula e Trump, e algumas ligações telefônicas, com vários afagos recíprocos. O governo brasileiro já anunciou sua disposição a ceder aos EUA em temas como minerais críticos e terras raras, data centers e outros temas de interesse dos monopólios dos EUA. O tema provocou um racha na direita. Sua ala de extrema-direita, bolsonarista, incentivou a adoção do tarifaço e das sanções e fez pressão por seu aumento, falando mesmo em ataques diretos dos EUA ao Brasil. Seu auge simbólico foi a manifestação de 7 de setembro, dia da independência do Brasil, com os manifestantes em torno de uma enorme bandeira dos EUA. O bolsonarismo foi derrotado nessa disputa com a revisão do tarifaço e das sanções por decisão de Trump. Os demais representantes da direita se dividiram entre o apoio ao bolsonarismo e uma posição mais pragmática de apoio ao capital. A cínica e hipócrita campanha governamental em defesa do “povo brasileiro” e da “soberania” é, na verdade, uma aposta eleitoreira para se diferenciar do bolsonarismo, os capachos que defendem abertamente a intervenção imperialista dos EUA. Os comunistas sabem que uma consequente luta anti-imperialista e o combate ao fascismo não podem ser conduzidos por um governo burguês e seus aliados oportunistas. Ambas as lutas, para serem verdadeiras e irem até o fim, exigem que o proletariado e as demais classes exploradas, principais atingidas por esses ataques e ameaças, se levantem de forma independente em defesa de seus interesses de classe.
- O terceiro tema eleitoreiro da conjuntura brasileira atual é o da “segurança pública”. O capitalismo brasileiro é caracterizado pelos enormes níveis de exclusão, desigualdade, racismo, repressão, opressão e violência – que se mantém tanto nos períodos de crescimento quanto nas recessões, seja em governos de direita, seja nos de “esquerda”. Com isso, o medo é instrumento de dominação, sentimento constante da população pobre e trabalhadora da periferia das grandes cidades, acossada pelas péssimas condições de trabalho e de vida, pela carestia e pelo controle e disputas entre polícias, milícias e facções criminosas. Quase 30 milhões de brasileiros afirmam viver em áreas controladas por facções e milícias. Mais de 40 mil pessoas são assassinadas por ano, das quais 6 mil pelas polícias (com destaque para a da Bahia, estado governado pelo PT há quase 20 anos), com a absoluta maioria composta por homens negros jovens e pobres, e 1,5 mil feminicídios, principalmente de mulheres jovens trabalhadoras – sem contar com a crescente violência contra crianças e adolescentes.
- Esse é o contexto da mais recente e maior das muitas dezenas de chacinas policiais, no final de outubro, nos Complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, deixando oficialmente 121 mortos. Sua motivação mais específica foi a de criar um factoide eleitoreiro para a extrema-direita, explicitado com o apoio e a reunião dos governadores de extrema-direita, buscando uma pauta política que tende a favorecê-la, em detrimento da “esquerda” governista. Efetivamente, os ganhos de popularidade do governo estancaram. A tentativa de resposta institucional e eleitoreira do governo foi no congresso, com uma proposta de emenda constitucional (PEC) da segurança pública, um projeto de lei antifacções, sanção por Lula do projeto de endurecimento penal proposto por Moro etc. A extrema-direita tentou se unificar e reagir com a nomeação do fascista secretário de segurança do governo de São Paulo para relatar a PEC. Sua incapacidade de formular um projeto próprio e seus ataques à polícia federal permitiram o governo retomar protagonismo no tema. Ao final, houve aprovação por unanimidade no congresso, confirmando o caráter eleitoreiro da proposta. Os comunistas devem ter claro que as disputas entre as alas “esquerda” e (extrema-) direita da burguesia não visam a “segurança pública” e os interesses das classes trabalhadoras, mas apenas a disputa eleitoreira pela sua própria permanência na condição de gestores do capitalismo brasileiro e a manutenção da trégua possível entre polícias, milícias e facções criminosas, controlando, submetendo, subordinando e reprimindo a população pobre e periférica pela violência, controle territorial, venda monopolista de bens e serviços nas áreas controladas, corrupção etc.
Diante das eleições de 2026, todas as disputas políticas institucionais burguesas já estão marcadas por essa disputa eleitoral
- Nesse quadro de intensificação de conflitos entre facções políticas burguesas, o apodrecido sistema político se prepara para as eleições gerais de 2026, momento central de disputa em torno da gestão do estado capitalista no país e do comando da exploração política e econômica dos trabalhadores. Os diversos representantes políticos da burguesia e seus partidos – “esquerda”, direita e extrema-direita – estão em plena corrida por alianças eleitoreiras, financiamentos patronais e nomes para as chapas. A disputa concreta no cenário atual para as eleições de 2026 é, por um lado, sobre qual arco de alianças burguesas Lula e o PT serão capazes de construir (tentando reeditar ou mesmo ampliar, ainda mais à direita, a tal da “frente ampla”) e, por outro, qual será o candidato da extrema-direita. A disputa entre “esquerda” e extrema-direita é, portanto, sobre qual desses polos eleitoreiros conseguirá atrair majoritariamente as diferentes frações burguesas e seus representantes políticos (a direita, o chamado “centrão”). Nessa disputa, ambos os lados, com todas as suas diferenças, estão comprometidos com a gestão do capital e seu programa hegemônico, inclusive com a perspectiva de ampliar o arrocho sobre os trabalhadores a partir de 2027. Portanto, na atual conjuntura da luta de classes no Brasil, as eleições – mecanismo pelo qual a burguesia busca legitimar sua dominação de classe – não são momentos de democracia real para as massas exploradas, pois não há qualquer possibilidade de seus interesses próprios se concretizarem por meio das instituições da classe inimiga. Assim, essas são eleições da e para a burguesia e não do povo!
- O julgamento pelo STF de Bolsonaro e sua corja de chefes militares por tentativa de golpe de estado, suas condenações e prisões, deve desempenhar importante papel eleitoreiro em 2026. Do ponto de vista do proletariado revolucionário, esse julgamento, embora importante e inédito na história do país, foi parcial (não incluiu a maior parte dos crimes cometidos por Bolsonaro durante sua vida política e seu governo) e limitado (voltado à defesa das próprias instituições burguesas). O STF é um importante órgão de repressão do estado capitalista, que não tem hesitado em ratificar todos os ataques da burguesia aos trabalhadores. Todo esse processo, desde o seu começo até o seu desfecho judiciário, foi uma disputa entre facções burguesas utilizando a estrutura repressiva burguesa (polícia federal, procuradoria-geral e STF), sem quase nenhuma manifestação/pressão popular significativa, muito ao gosto da “esquerda” institucional. Assim, por um lado, esse processo elimina um oponente eleitoral e permite ao governo o discurso de “defesa da democracia” (burguesa). Por outro, a extrema-direita, não obstante debilitada por essas derrotas e seus erros políticos, mantém capacidade de mobilização nas ruas, como no último 7 de setembro, e nas instituições, como o bloqueio dos trabalhos do congresso no começo do semestre, a conquista de posições na CPI do INSS, a mobilização pelo projeto de anistia para esses criminosos e a aprovação da redução das penas dos golpistas na câmara, e a própria chacina da Penha-Alemão. Na realidade, do ponto de vista comunista, nessa disputa eleitoreira que impacta fortemente os trabalhadores, eles se encontram sem sua posição própria e independente de classe com força de massas.
- O cenário para 2026 aponta para a candidatura de Lula à reeleição, com favoritismo diante das candidaturas da extrema-direita e da direita. Nesse outro campo, a situação é de fragmentação. Flávio Bolsonaro informou que foi escolhido candidato pelo pai de dentro da prisão, apenas para em seguida afirmar que sua candidatura tinha um preço, a negociação da anistia. O centrão continua preferindo Tarcísio de Freitas, o bolsonarista governador de São Paulo, que nega a candidatura em meio a juras de fidelidade a Bolsonaro e só vai decidir de fato no limite do prazo, em abril de 2026. Nesse cenário de incerteza, Caiado e Zema, governadores de Goiás e de Minas Gerais, se lançam como candidatos de si mesmos, enquanto Kassab lança Ratinho Júnior, governador do Paraná, como seu “plano B”, no cenário sem Tarcísio. Pela “esquerda”, o discurso eleitoreiro do “giro à esquerda” oculta a busca pela ampliação da aliança com a burguesia e seus representantes políticos, inclusive os de direita e do campo do bolsonarismo (“frente amplíssima”). Com isso, e como já indicaram membros da equipe econômica, um governo Lula 4 aponta ainda mais para a direita, com mais “reformas” e arrocho para cumprir as exigências de lucro da burguesia. Já a candidatura da extrema-direita busca se equilibrar somando as bandeiras próprias do bolsonarismo (anistia, submissão aos EUA, maioria no senado para impeachment de ministros do STF etc.) às gerais da burguesia, como o aumento da repressão e da violência, privatizações, arrocho etc. para, uma vez definida, buscar atrair a burguesia e seus representantes políticos. Um eventual novo governo da extrema-direita representaria o retorno dessa tendência fascista e golpista ao topo da direção do estado capitalista no país, com toda a sua carga de repressão e opressão. Em ambos os casos, seriam governos de reforço do programa hegemônico da burguesia, da ofensiva da classe dominante, sem representar os interesses do proletariado e das classes trabalhadoras.
- Como em 2018 e em 2022 (e, com poucas variações, em todas as eleições presidenciais desde 1989), a absoluta maioria da “esquerda” deve se subordinar ao governismo e à candidatura de Lula. A autoproclamada “esquerda radical”, que normalmente lança candidatos de primeiro turno, já confirma a natureza faz de conta dessas candidaturas ao ratificar de antemão o voto em Lula no segundo turno. No entanto, como já se comprovou na prática inúmeras vezes, esse não é o caminho para enfraquecer nem o fascismo, nem a ofensiva burguesa, que continuaram sob o petismo, muito menos o de fortalecer a posição proletária na luta de classes, tendo em vista que essa posição representa subordinação à burguesia. Nessas condições, os comunistas não devem cair nessa velha armadilha eleitoreira e na chantagem de terem que escolher um inimigo de classe para se apoiar institucionalmente.
As lutas e a resistência da classe operária e das massas trabalhadoras nesse contexto de ofensiva burguesa no Brasil
- Se a burguesia comemora lucros recordes, as classes trabalhadoras enfrentam precárias condições de vida e trabalho no Brasil. Além da extrema violência contra os trabalhadores, a população pobre das periferias, as mulheres e os negros, especialmente mais jovens, as crianças e adolescentes, indígenas e LGBT, o mercado de trabalho segue com sua enorme exploração. Apesar da mínima histórica da taxa de desocupação (5,4%), são 15,8 milhões de trabalhadores desempregados/desalentados e quase 40 milhões na informalidade, enfrentando intensa exploração e incerteza de salário. Em alguns estados, mais da metade da população ocupada está na informalidade, mesmo com o crescimento do emprego após a pandemia. Jovens, negros e mulheres são os que mais sofrem com o desemprego e a pobreza, em todas as regiões, reforçando a opressão sobre tais parcelas das classes trabalhadoras. Quase 60 milhões precisam do Bolsa Família para sobreviver.
- As massas trabalhadoras sofrem anos seguidos de ofensiva burguesa – cuja gestão se alterna entre “esquerda”, direita e extrema-direita – com graves dificuldades em termos de organização e mobilização, com as suas entidades sindicais e populares majoritariamente na mão do oportunismo governista, sem um Partido Comunista com força de massas e, portanto, sem a sua posição própria e independente na luta de classes contra os patrões. Nessa realidade, a quantidade de greves no país continua baixa, com pautas majoritariamente defensivas, de manutenção de conquistas ou contra seu descumprimento. No campo, vive-se a violência aberta do estado, do latifúndio, do crime organizado e dos empresários contra camponeses, quilombolas, indígenas e demais trabalhadores. Mesmo apesar de tudo isso e contra a ofensiva dos patrões e do aparelho repressivo do estado, cujo poder judiciário tende a criminalizar e punir qualquer indício de resistência, há lutas significativas da classe operária e dos demais trabalhadores, que devemos participar, analisar e tirar lições.
- As manifestações contra a jornada de trabalho 6 x 1, no final de 2024 e começo de 2025, foram nacionais e massivas, com o tema da exploração do trabalho, conseguindo atingir largos setores das classes trabalhadoras. No entanto, ao invés de radicalizar esse seu caráter operário e popular e reforçar as manifestações e sua organização nos locais de trabalho, as lideranças à frente desse movimento preferiram restringir o caráter de massas dessa luta, substituindo-o por um duplo movimento institucional. Em primeiro lugar, negociar com o governo, que se manifestara contrário à pauta do fim da jornada 6 x 1 em declarações do pelego que ocupa o ministério do trabalho. Em segundo, privilegiar o congresso e o trâmite exclusivamente parlamentar do tema, a cargo do governista PSol. Como consequência, a mobilização operária e popular contra a jornada 6 x 1 foi enterrada, como tende a acontecer sempre que o oportunismo e o institucionalismo tomam a frente do movimento de massas. Agora, já em clima eleitoreiro, o senado aprova um projeto em uma comissão, para disputar com o da câmara, e o governo propagandeia que vai passar a apoiar a pauta em sua campanha para o próximo mandato.
- As manifestações lideradas pelos povos indígenas, durante a COP30, em Belém, não apenas deixaram a nu toda a hipocrisia dos governos federal e estadual, mas também colocaram milhares de pessoas nas ruas contra o desmatamento, a exploração de petróleo na foz do Amazonas, e os acordos e conchavos de cúpula que ignoram os mais afetados pelo colapso ambiental em curso. Alguns desses povos demonstraram disposição de luta por conta própria em defesa dos seus interesses, a partir de sua auto-organização e contra o oportunismo majoritário que marcou a mal chamada “cúpula dos povos”. Neste último caso, mais uma vez se constatou a cooptação pelos governos de grande parte dos movimentos populares presentes na COP30, com críticas à ocupação da entrada da “blue zone” na COP, discursos governistas, promessas de financiamento e ilusões com as negociações diplomáticas no fórum da ONU. Tudo isso regado com fartos recursos e patrocínio público e privado.
- Os povos indígenas também tiveram participação ativa na greve da educação no Pará no começo do ano, juntamente com a categoria dos trabalhadores na educação, que impuseram derrotas ao governo e revogação dos ataques à educação, aos trabalhadores e aos indígenas. Também no Pará ocorreu uma significativa greve na construção civil contra a exploração dos operários nos megaprojetos bilionários para a COP30. Operários terceirizados seguiram em luta na região Sul. Em Pernambuco, os metroviários e os urbanitários grevaram contra o programa de privatização que alia a governadora do PSD, o governo federal e o BNDES, ambos dirigidos pelo PT. Na Bahia, os operários que constroem a fábrica da chinesa BYD entraram em greve contra as péssimas condições de trabalho – um ano depois de centenas de casos de trabalho escravo – e foram duramente reprimidos pela PM do governo petista. Mais um breque dos aplicativos mobilizou os entregadores em vários estados.
A posição dos comunistas diante da conjuntura doméstica da luta de classes
- A conjuntura atual da luta de classes no Brasil se apresenta muito dura e difícil para a classe operária e a massa trabalhadora. Enfrentamos a ofensiva burguesa e seus ataques sem uma posição e uma organização próprias e independentes com expressão de massa. Esses são os principais limites que os comunistas devem trabalhar incansavelmente para romper. Para isso, é imprescindível reforçar, fortalecer nossa organização. Devemos nos inserir na vida e na luta da classe operária e das massas, a partir de seus problemas e pautas concretas (como carestia, exploração, jornada de trabalho, condições de vida e de trabalho, precariedade dos serviços públicos, violência etc.). Partindo desses pontos, apontar para a construção efetiva na classe, organizadamente e com posição própria e independente de classe, (re)construindo e fortalecendo organismos próprios do proletariado e das massas. Essa construção aproveita as pautas e as lutas existentes e a experiência acumulada a cada momento, como é o caso das recentes greves operárias no Sul, no Nordeste e no Norte do país, dos breques de entregadores no Sudeste, das mobilizações lideradas pelos povos indígenas contra a farsa da COP30 e das mobilizações nacionais pelo fim da jornada 6×1 no ano passado.
- Uma demarcação de campo fundamental para os comunistas, nos diferenciando do oportunismo, é que não pode ser posição dos comunistas apoiar setores da burguesia, do inimigo de classe, para escolher de qual patrão queremos ser escravos. Os comunistas devem combater tanto as posições burguesas quanto os seus defensores oportunistas. Na conjuntura atual, essa posição de princípio comunista é válida para as diferentes candidaturas burguesas nas eleições de 2026, assim como para combater conjuntamente os ataques imperialistas dos EUA ou o reforço a uma dependência econômica do imperialismo chinês, sem escolher campos imperialistas ou um pseudo “multilateralismo”. Pelo contrário, o que a conjuntura exige dos comunistas é o reforço de sua posição revolucionária, a crítica radical ao imperialismo, à burguesia e ao oportunismo, a reconstrução do Partido Comunista em nosso país no seio do proletariado e das massas trabalhadoras. Estejamos à altura dessas imensas tarefas!

