O governo burguês de Lula está onde sempre esteve: contra o fim da jornada 6×1
O ministro do trabalho e do emprego de Lula, Luiz Marinho, se alinha aos patrões em entrevista ao c-level – site “com foco em investidores e executivos”: “É evidente que a redução da jornada de trabalho gera impacto no custo das empresas”.
Cem Flores
12.03.2026
No dia 28 de fevereiro, o ministro do trabalho e do emprego, Luiz Marinho, foi entrevistado no c-level, um site do jornal Folha de São Paulo que se apresenta como “Produto voltado aos principais temas econômicos do Brasil, com foco em investidores e executivos”. O tema era a posição do governo sobre o fim da jornada 6×1. Marinho foi defender a posição dos patrões no site voltado aos patrões.
Luiz Marinho é um pelego com larga trajetória no movimento sindical petista. Foi presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (1996-2003) e da CUT (2003-05). Também é um experimentado gestor dos interesses da burguesia no estado capitalista brasileiro, como ministro do trabalho e do emprego (2005-06) e da previdência (2007-08), e prefeito de São Bernardo (2009-16). Voltou ao ministério do trabalho e do emprego no governo burguês de Lula 3.
A seguir analisamos as posições burguesas e pelegas que o ministro defende na entrevista, disponível em vídeo e na transcrição da imprensa, sobre a luta dos trabalhadores pelo fim da jornada 6×1.
- Impor aos patrões, via constituição (proposta de emenda constitucional, PEC), o máximo de dias trabalhados por semana (4×3 ao invés de 6×1)? O governo burguês de Lula é contra!
Marinho nem quer ouvir falar em determinar na constituição o número máximo de dias trabalhados por semana. Segundo ele, é só a “jornada máxima do Brasil [que] é a prioridade do debate”. Menos de duas semanas depois, no dia 10 de março, Marinho detalhou ainda mais a posição do governo burguês de Lula em audiência pública na câmara dos deputados: “Não considero adequado constitucionalizar escala de trabalho específica. Colocar escala na Constituição pode engessar relações que deveriam ser negociadas”. Como fica claro, o governo burguês de Lula e do PT se mantém firme na pauta dos patrões, que são contra o fim da 6×1, e querem manter a capacidade de explorar os trabalhadores o máximo de dias por semana.
Para Marinho, “a grade, com dois dias de descanso na semana, deve ser definida pelas negociações” (entrevista) e “O que deve estar na Constituição é o limite máximo da jornada, não necessariamente a forma como cada setor organiza seus turnos“ (audiência pública). Portanto, para esse governo burguês, ao invés de fixar na constituição o máximo de dias trabalhados na semana, deve-se deixar essa bandeira dos trabalhadores de lado, fragmentando a luta em cada sindicato, categoria, cidade.
Isso quando sabemos que o sindicalismo no Brasil não apenas está majoritariamente dominado pelo peleguismo e pelo oportunismo, servindo de correia de transmissão para o PT e o governo burguês de Lula e para os conchavos com os patrões – mas também que o movimento dos trabalhadores está enfraquecido diante da ofensiva burguesa, especialmente após a “reforma” trabalhista de 2017 e a ação do aparelho repressivo judiciário contra os interesses dos trabalhadores. Reforma essa que tem como um de seus motes o famoso “negociado (mesmo e sobretudo quando prejudicial ao trabalhador!) acima do legislado”, forma rebuscada de dizer: desmonte de conquistas dos trabalhadores e reforço da chantagem e do poder patronal.
No mundo mágico desse pelego, as coisas acontecem automaticamente e sem lutas. Ou seja, os patrões concordarão em reduzir a jornada de trabalho sem a necessidade de legislação geral para isso, a ser arrancada pela luta dos trabalhadores. Para o pelego, uma jornada semanal de 40 horas, “8 horas diárias, dá, em dias da semana, 5×2. Na prática, fim da 6×1”. No mundo real da exploração capitalista, se não houver previsão constitucional ou legal de número máximo de dias trabalhados por semana – e, principalmente, a força dos trabalhadores conquistar também sua aplicação concreta –, na maioria absoluta dos casos, “na prática”, vai acontecer uma dessas coisas: ou os patrões simplesmente vão descumprir, ou ajeitam horários e escalas para manter a jornada 6×1, ou ainda manterão a 6×1 com horas extras, bancos de horas etc.
Apesar dos discursos e propagandas eleitoreiras do PT e seus aliados, que tendem a aumentar esse ano, Marinho e o governo burguês de Lula 3 se mantêm na mesma posição desde que esse tema ganhou força nas ruas e entre os trabalhadores. Em novembro de 2024, a posição do ministro já era contra a PEC: “a questão da escala de trabalho 6×1 deve ser tratada em convenções e acordos coletivos de trabalho”.
As postagens de rede social do ministro, de novembro de 2024, contra a PEC pelo fim da jornada 6×1.
Essa é a mesma posição de Lula, reiterada no começo de março deste ano: “Mesmo que você aprove uma jornada de trabalho, seja lá de quantas horas for, você vai ter que levar em conta a especificidade de cada categoria”. Em sua defesa da burguesia, Lula não só descarta o fim da jornada 6×1, como não defende explicitamente sequer qual a quantidade de horas trabalhadas na semana, e mantém a defesa da fragmentação do tema por categoria, sindicato e cidade.
- Reduzir a jornada semanal de trabalho para 36 horas, como está proposto na PEC? O governo burguês de Lula é contra!
Marinho mantém sua posição contrária desde novembro de 2024: “a redução da jornada para 40H semanais é plenamente possível e saudável, quando resulte de decisão coletiva”. Na entrevista para os “investidores e executivos”, no mês passado, o ministro foi para uma ofensiva ainda mais explícita contra os interesses dos trabalhadores: “Apesar de as PECs … falarem em 36 horas, na prática, não há desejo, por parte do governo, de falar em 36 horas. Podemos falar daqui a sei lá quantos anos. Para toda a economia brasileira, reduzir de 44 para 36 horas não seria plausível, recomendável ou de bom senso. As 40 horas estão precificadas há bastante tempo”. E reiterou na audiência pública: “O que cabe neste momento é redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais, jornada máxima … [pois] nós não desejamos asfixiar a economia”. Ou seja, Marinho não só é contra o fim da 6×1, como descarta a jornada de 36 horas semanais por falta de “bom senso” ou para não “asfixiar” a economia, quer dizer, os lucros das empresas – tudo inteiramente uma óbvia defesa patronal.
E fala isso depois de admitir que a “redução da jornada não pegou” e ainda acusar os pelegos de radicalismo!: “Quem perdeu essa oportunidade foram as lideranças das centrais sindicais, que queriam exigir tudo de uma vez” (!). A defesa da pauta dos patrões, claro, também está na entrevista: “tem empresas que topam discutir, empresas que já implantaram. Mesmo as empresas que rechaçam, sabem que é plenamente possível reduzir para 40 horas semanais”. Na audiência pública, o ministério afirmou que 66,8% dos celetistas já fazem a 5×2. Assim se comprova, mais uma vez, como se ainda fosse necessário a característica principal do peleguismo: a luta operária e sindical só pode ir até o limite do que as “empresas topam discutir” ou mesmo do que elas já praticam em sua maioria!
Lula também criticou diretamente os interesses dos trabalhadores, dizendo que quem defende o fim da 6×1 vende um “discurso de facilidades”. Para Lula, os trabalhadores têm que se dobrar ao que seja aceitável para os patrões: “Nós não iremos contribuir para prejudicar os trabalhadores. E também não queremos contribuir para o prejuízo da economia brasileira. … Qual é a jornada ideal?”
Ou seja, o governo burguês de Lula não apenas é contra o fim da jornada 6×1 como defende, para a quantidade de horas trabalhadas na semana, o número que os patrões acharem aceitável! Se as 40 horas já foram implantadas em diversas empresas, Lula e Marinho não topam forçar redução adicional para beneficiar os trabalhadores. Para as empresas que têm suas “especificidades” e estão na 6×1 com 44 horas ou mais por semana, Lula e Marinho topam não “engessar” os limites para a jornada e, assim, facilitar que os patrões o descumpram, legal ou ilegalmente. E vamos lembrar que os setores mais característicos da 6×1 são comércio, bares e restaurantes, serviços de alojamento e serviços em geral – que têm alta rotatividade no emprego e baixos salários, e tendem a ter menor nível de sindicalização e sindicatos relativamente mais fracos (que os da indústria e do setor público, por exemplo).
Em suma, sobre a jornada de trabalho, assim como sobre diversos outros temas, a posição do governo burguês de Lula 3, assim como a dos governos petistas anteriores, é a de buscar limitar e institucionalizar a luta dos trabalhadores na defesa de seus interesses próprios de classe, em meio a construção de ilusões sobre quem são os seus verdadeiros amigos e inimigos. Isso para não afetar os interesses dos patrões, cinicamente definidos como os da “economia” ou mesmo do “país”. Em defesa do lucro dos patrões, restringir as pautas dos trabalhadores ao que for aceitável pela patronal, após muita conversa e conchavos.
Como cereja do bolo, esse governo burguês também defende arquivar as PECs pelo fim da 6×1 e substituí-las por “encaminhar um projeto [de lei] com urgência”. Isso não só permite tirar da pauta legislativa o limite à quantidade máxima de dias trabalhados por semana (mantendo a 6×1), mas permite também que Lula faça sua tradicional festa com seus bajuladores no palácio do planalto, visando faturar com as cenas explícitas de marquetagem eleitoreira.
- Por que esse governo burguês é contra essas duas pautas que são defendidas pelos trabalhadores? Por defenderem o lucro das empresas!
Temos defendido e comprovado em nossas publicações que o objetivo fundamental da política econômica dos governos petistas é maximizar as taxas de lucro para o capital e as taxas de exploração para as classes trabalhadoras, que são os dois lados da mesma moeda. E Lula tem sido bem-sucedido nesse aspecto: em 2023, seu primeiro ano de governo, a taxa de lucro/exploração bateu o recorde do século!
Não é diferente a posição do governo no tema do fim da 6×1. De acordo com Lula: “Estamos tentando construir um conjunto de propostas que interessa a empresários e trabalhadores, que interessa ao país”. Marinho vai na mesma linha: “Temos que olhar qual é o interesse da sociedade, como está o mercado de trabalho, o que isso agregaria na economia”. Para o ministro do trabalho e do emprego (sic!), o importante é ”chamar os empresários para trabalhar junto”, pois as “empresas têm que ajudar” e deve-se “perguntar às empresas o que elas precisam”!!!
Eis aí, completamente desmascarada (como se ainda fosse necessário!), a risível e hipócrita falácia do “PT antissistema”, que denunciamos em nosso Boletim Que Fazer de fevereiro de 2026. Da mesma forma, não existe qualquer pauta de “ricos x pobres”, nem neste governo burguês nem no PT, que não seja pura marquetagem eleitoreira, como analisamos na Declaração Política do 4º Encontro de Organização do Cem Flores.
Os Comunistas devem denunciar esses governos burgueses, governos de exploração do proletariado e das demais classes exploradas e de defesa dos interesses patronais. Devem denunciar concretamente, com base nos discursos e nas ações e omissões, como fazemos neste texto.
Mas também devemos criticar aqueles que aceitaram passivamente trocar a luta de classes junto as massas trabalhadoras e nas ruas pelo fim da 6×1, substituindo-a pelas vãs (e às vezes lucrativas!) promessas governamentais e pelo brilho falso das ilusões parlamentares e seu desejo de juntar-se a esse cretinismo apodrecido.


