CEM FLORES

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Conjuntura, Destaque, Lutas, Movimento operário, Nacional

Greves e sindicalização no Brasil em 2024

O “showmício” de 1º de maio de 2024 das centrais sindicais pelegas: no palco, inimigos dos trabalhadores de várias cores partidárias; na plateia, funcionários de várias máquinas sindicais, numa encenação vexatória e esvaziada – embora muito bem paga!

 

Cem Flores

19.12.2025

 

No final de 2025, duas importantes estatísticas sobre a luta sindical no Brasil foram publicadas: o balanço de greves do DIEESE e os dados sobre sindicalização do IBGE, em ambos os casos referentes ao ano de 2024. Tais informações auxiliam na análise da situação da luta proletária e dos demais trabalhadores em mais um ano do governo burguês de Lula e de crescimento econômico acima do esperado. E, nesse sentido, nos fornece elementos para definir os caminhos mais justos da resistência nos locais de trabalho na atual conjuntura nacional.

Essa análise já se encontra em curso no site do Cem Flores. Ano passado, a partir dos dados de sindicalização de 2023, constatamos a baixa histórica da taxa de sindicalização no Brasil, resultado tanto da forte ofensiva do patronato e do estado nas relações de trabalho e na repressão à luta sindical quanto da pelegagem predominante no movimento sindical, cuja expressão mais destacada é a governista CUT. Ao mesmo tempo, essa baixíssima filiação aos sindicatos pelegos não se converteu em construção de instrumentos alternativos de luta em larga escala, embora tenham surgido nesse período coletivos e lutas importantes, como os protestos pela redução da jornada de trabalho por fora das centrais sindicais.

Também no ano passado, identificamos que os dados de greves do primeiro semestre de 2024 apontavam para uma estagnação na luta sindical no país. Uma situação igualmente negativa para a resistência dos trabalhadores, tendo em vista a breve e frágil recuperação das greves no pós-pandemia – período no qual se atingiu o “fundo do poço” da luta sindical, com as limitações sanitárias, a explosão de desemprego e a ofensiva patronal apoiada pelo governo fascista de Bolsonaro.

Nesse contexto, temos ressaltado a necessidade de continuar os esforços de retomada da organização e da luta independentes dos trabalhadores, a partir de suas demandas concretas. Ora, mais um governo petista tem se mostrado um consolidador da ofensiva burguesa, além de um agente de sabotagem e cooptação da luta e da organização dos trabalhadores. Por isso, não podemos ter qualquer ilusão ou demonstrar qualquer apoio ao mesmo, que, por conta da proximidade das eleições, volta a ter cínicos discursos em prol dos “pobres” e contra os “ricos”.

Como veremos, as estatísticas recém-lançadas só reforçam esse difícil panorama da luta dos trabalhadores e essa diretriz para fazer avançar a organização e força dos explorados no Brasil.

Greves em 2024

Houve 880 greves no ano de 2024, uma queda de 22% em relação ao ano anterior. O número de horas paradas foi de 35 mil, o que também representou uma queda, de 16%. Tais resultados demonstram uma queda na luta sindical do país e o enfraquecimento do pequeno ciclo de greves após o pico mais baixo da pandemia.

Esse pequeno ciclo de greves pós-pandemia (2021-2024), importante destacar, está muito aquém do ciclo histórico de greves vivido uma década atrás, entre 2013-2016. A média de greves daquele ciclo foi o dobro da atual, chegando a 2 mil greves por ano, várias delas ofensivas e vinculadas a movimentos de resistências mais amplos como os protestos de 2013 e contra os megaeventos esportivos e seus impactos.

As greves de 2024 foram bem repartidas entre setor público e privado, cada um representando 50% das greves totais. O setor público foi responsável por impulsionar o aumento das greves nos dois últimos anos, mas agora caiu para o patamar do setor privado que, por sua vez, vive uma estagnação nas greves desde a pandemia.

64% das greves de 2024 foram encerradas no mesmo dia, sendo assim basicamente curtas paralisações. As pautas defensivas, por manutenção de condições de trabalho vigentes e descumprimentos de direitos conquistados, representaram 80% das reivindicações. Isso significa a continuidade do caráter bastante defensivo da luta sindical dos últimos anos.

Dentre as pautas ofensivas, a mais comum foi a de reajuste salarial. 36% das greves apresentaram essa reivindicação. Por conta do contexto geral de desaceleração da inflação e menor desemprego, os resultados das datas-bases avaliadas pelo DIEESE foram positivos nesse aspecto: 85% das negociações resultaram em aumentos reais em 2024, o melhor resultado em vários anos.

Mas em termos de pautas gerais das greves, o atendimento das reivindicações não foi tão positivo: a maioria das greves teve atendimento apenas parcial ou prosseguimento das negociações. Além disso, constata-se o alto custo de vida hoje, consumindo boa parte dos pequenos avanços dos salários. Realidade agravada, por sua vez, pelo alto endividamento das famílias.

No setor público, categorias de professores de educação básica continuam representando grande parcela das greves, em lutas por pisos e reajustes salariais, assim como contra os ataques dos governos e do legislativo e a deterioração das condições de trabalho. Esse foi o caso da resistência dos professores do estado do Pará na virada de 2024 para 2025, abordada aqui no site.

Na esfera privada, o setor de serviços representou 63% das greves, sobretudo em empresas terceirizadas e com lutas mais defensivas, como por pagamento de salários atrasados. Na indústria privada, ocorreram 153 greves, com os metalúrgicos e os operários da construção civil sendo os mais mobilizados. Em 2024, em plena catástrofe climática do Rio Grande do Sul, tivemos o caso da greve na TDK de Gravataí, abordada pela Rádio Fala Peão.

Sindicalização em 2024

Em 2024, dos 101 milhões de trabalhadores ocupados do país (formais e informais), 9,1 milhões estavam filiados a algum sindicato. Ou seja, uma taxa de sindicalização de 8,9%. Isso significa um pequeno aumento em relação ao ano anterior, cuja taxa foi de 8,4%. No entanto, o patamar já estava muito baixo, afinal, 2023 registrou a pior taxa de sindicalização da série histórica iniciada em 2012, quando o país tinha 16% dos trabalhadores ocupados filiados em algum sindicato.

Nesse sentido, o aumento da sindicalização em 2024 não alterou o quadro geral de baixa histórica, que atinge a totalidade das categorias e setores econômicos. Assim como não alterou o fato dos sindicatos hoje organizarem uma parcela minúscula das massas trabalhadoras, mesmo em termos meramente burocráticos e legais.

No gráfico acima, nota-se uma queda significativa da sindicalização em praticamente todos os setores desde 2012. Essa queda é explicada tanto pelo peleguismo dos sindicatos, que afasta e desmobiliza os trabalhadores, quanto por recentes alterações e ataques no mercado de trabalho, via novas tecnologias, legislações, repressão patronal, informalidade etc.

Diante da ausência de organizações paralelas aos sindicatos que substituam esses instrumentos, a nível nacional, tal queda histórica representa um quadro de baixo grau de organização dos trabalhadores na luta econômica, um período de baixa nos enfrentamentos aos patrões, o que é reforçado com os mais recentes dados das greves.

A pequena elevação na sindicalização em 2024 foi comemorada pelas centrais pelegas, que não perderam a oportunidade e a cara de pau de lançar uma nota com autoelogios: “ela [a nova taxa] é resultado de muito trabalho. Mesmo diante do desmonte institucional e dos cortes impostos ao movimento sindical, as ações de base não apenas resistiram, como se intensificaram. A presença constante nos locais de trabalho, a capacidade de organização e as estratégias de mobilização estão promovendo um reencontro entre trabalhadores e seus sindicatos”. Os trabalhadores bem sabem o quanto de “trabalho” essa corja tem, nos palácios do governo; o quanto estão sempre presentes nos locais de trabalho – para ficar de conchavos com os patrões!

Reconstruir a força e a organização dos trabalhadores a partir dos locais de trabalho e de suas lutas concretas!

As duas estatísticas sobre a luta sindical no Brasil analisadas indicam um quadro geral de contínua ofensiva dos patrões, domínio do peleguismo e dificuldade das bases dos trabalhadores de reagirem e avançarem em sua organização e luta. Mesmo o patamar de greves de hoje sendo melhor do que no período da pandemia, resultando inclusive em ganhos salariais reais, e a taxa de sindicalização encerrando anos seguidos de queda, a luta sindical se mostra, por vários outros fatores, ainda muito recuada.

Mas, como dizia o poeta, quando nossos inimigos dizem que a luta acabou, nós dizemos que ela apenas começou!

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- 19/12/2025