As greves no primeiro semestre de 2025
No primeiro semestre de 2025, os petroleiros e várias outras categorias paralisaram o trabalho em defesa de suas conquistas e por melhorias salariais. Apesar dos dados preliminares de greves indicarem um aumento em relação a 2024, o patamar das lutas continua baixo. Um sinal de que os trabalhadores estão com dificuldades em romper com o refluxo de seu movimento. Mas há relevantes exemplos de luta a serem seguidos!
Cem Flores
28.03.2026
De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), ocorreram 536 greves no Brasil durante o primeiro semestre de 2025. Isso representa um aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior. Tal elevação, no entanto, ainda não reverte o quadro geral e persistente de estagnação da luta sindical, concomitante a uma baixa histórica da taxa de sindicalização no Brasil. Em resumo, segundo esse indicador, os enfrentamentos nos locais de trabalho e a organização sindical ainda estão em baixa, reflexo da própria situação defensiva dos trabalhadores na luta de classes.
As 536 greves do primeiro semestre de 2025 estão abaixo dos números registrados no mesmo período em 2022 e 2023. Além disso, em relação às horas paradas, 2025 é o ano mais fraco desde 2022, o que indica a predominância de greves curtas ou de meras paralisações de advertência.
Como afirma o próprio DIEESE, “em números e qualidade, as greves desse primeiro semestre [2025] não destoam de um padrão que vem se mantendo desde 2016”. Há dez anos, no fechamento do último grande ciclo de lutas sindicais no Brasil, ocorreram 1.195 greves – mais do que o dobro do número de 2025. Já horas paradas, mais de 90 mil – ou 5 vezes mais!
Mas mesmo nesse cenário prolongado de ofensiva patronal e dificuldade de resistência dos trabalhadores, muitas categorias têm se lançado à luta, com exemplos e lições a serem seguidos e aprendidos. Afinal, a solução não virá do inimigo. Seremos nós, com nossas próprias forças, os únicos capazes a superar o quadro atual.
Exemplos de lutas sindicais e resistências no primeiro semestre de 2025
O crescimento das greves no primeiro semestre de 2025 foi puxado pelas empresas estatais e pela iniciativa privada, enquanto o funcionalismo público registrou queda de 13% em relação ao ano anterior. Porém, o setor público continuou representando a maior quantidade das horas paradas, quase 60%.
Nesse setor, onde há mais liberdade sindical (mas, também, crescente repressão!), a maior parte das 219 greves ocorreu no nível municipal, sobretudo na educação. As reivindicações giraram principalmente em torno de reajuste salarial, mais investimentos, críticas aos governos e melhores condições de trabalho.
A greve dos professores e orientadores educacionais da rede pública do DF foi um exemplo dessas greves. Ela começou a ser construída ainda em março, quando a categoria entrou em estado de greve cobrando reajuste salarial e outras pautas. Antes mesmo de iniciar a greve, no início de junho, a justiça do DF declarou o movimento abusivo e impôs multa diária de R$ 1 milhão à categoria, além de autorizar corte de ponto. Após semanas de embates contra o governo distrital de extrema-direita, a greve, que contou com adesão significativa dos professores temporários, encerrou em 25 de junho, sem nenhum aumento geral e significativo.
Outro exemplo foi a greve da rede estadual de ensino do Pará, que resultou em um movimento de relevância nacional e em uma valiosa vitória sobre o governo local. No final de 2024, o governo do Pará (MDB) retirou diversas conquistas dos trabalhadores do estado e piorou em muito as condições de trabalho e ensino nas escolas. As comunidades indígenas, que foram muito afetadas, responderam prontamente: em janeiro, a secretaria de educação foi ocupada por vários povos e protestos atravessaram o estado. Essa luta se somou à greve dos professores. Em fevereiro, demonstrando firmeza frente às ameaças e tentativas de cooptação, o movimento foi vitorioso, e a lei do governo foi revogada.
Nas estatais, as 34 mobilizações se concentraram em urbanitários, correios e bancários, com destaque para lutas em torno de condições de trabalho, contratações, segurança e protestos contra o governo. Em maio, os urbanitários de Alagoas paralisaram em protesto contra o processo de privatização da empresa de saneamento. Esse ataque envolve o governo estadual (MDB) e o federal (PT) e se encontra em contexto de avanço das privatizações. A ameaça continua, assim como a mobilização dessa categoria e de várias outras vinculadas a empresas públicas ameaçadas no país.
No setor privado, as 282 greves se concentraram nos serviços, especialmente transportes e atividades ligadas ao turismo e à hospitalidade. As pautas mais recorrentes foram salários atrasados, alimentação e reajuste salarial. A paralisação na Eaton, em São José dos Campos, foi uma dessas greves, e reivindicou o pagamento integral da segunda parcela da PLR e a implementação do vale-alimentação. Em janeiro de 2025, esses metalúrgicos entraram em greve de 24 horas, diante da ausência de resposta da empresa. Após a greve, a Eaton aceitou reavaliar as metas e elevou a segunda parcela da PLR de R$ 160 para R$ 840 – um avanço, embora não tenha sido o valor integral. Com a mobilização, os trabalhadores ainda conquistaram um vale-alimentação de R$ 250 por mês – em contexto no qual a cesta básica na capital do estado passava de R$ 800. No mesmo período, as ações dessa empresa norte-americana subiam, após o registro de lucros recordes. Para os patrões, os milhões; para os operários, as migalhas: eis o capitalismo!
Outro exemplo ocorreu na CSN-Mineração, em Congonhas (MG), em abril de 2025. Os operários fizeram uma greve de 11 dias em luta pelo pagamento da PLR, equiparação salarial e fim do banco de horas. Enfrentando a repressão patronal, a greve conquistou reajuste de até 5,85% para salários, cartão alimentação e outras conquistas reajustadas.
Ainda no setor privado, mas por fora do sindicalismo oficial a da ocupação formal, houve também mais um importante breque nacional dos entregadores de aplicativo. Em 31 de março e 1º de abril de 2025, a paralisação e os protestos ocorreram em dezenas de cidades e em quase todas as capitais do país. Após muito serem enrolados pelo governo burguês de Lula, que prometeu mundos e fundos – e volta, em mais uma eleição, a prometer –, os entregadores confiaram em sua própria força para tentar arrancar uma taxa mínima de R$ 10 por corrida entre outras pautas básicas da categoria. O iFood elevou a taxa mínima de R$ 6,50 para R$ 7,50 após a paralisação.
Protesto do breque de 2025.
Vale ressaltar que, na virada de 2024 para 2025, houve os protestos em torno da escala 6×1, que colocaram o tema da exploração do trabalho no centro do debate público e conseguiram atingir largos setores das classes trabalhadoras. No entanto, como afirmamos em outra oportunidade,
“ao invés de radicalizar esse seu caráter operário e popular e reforçar as manifestações e sua organização nos locais de trabalho, as lideranças à frente desse movimento preferiram restringir o caráter de massas dessa luta, substituindo-o por um duplo movimento institucional. Em primeiro lugar, negociar com o governo, que se manifestara contrário à pauta do fim da jornada 6 x 1 em declarações do pelego que ocupa o ministério do trabalho. Em segundo, privilegiar o congresso e o trâmite exclusivamente parlamentar do tema, a cargo do governista PSol”.
As razões da luta e a barreira do sindicalismo pelego
Ainda segundo o balanço do DIEESE, o reajuste dos salários foi a reivindicação mais presente nas greves (40%). A razão, o trabalhador sabe na pele: a combinação entre baixos salários e o alto custo de vida. Segundo dados no CAGED, o salário médio de admissão no emprego formal no primeiro semestre de 2025 ficou em torno de R$ 2.200 – cerca de 1,5 salário mínimo de 2025. Enquanto isso, naquele período, vários alimentos não paravam de subir, fazendo com que a cesta básica aumentasse não só acima da inflação geral como também acima dos reajustes do salário mínimo. O problema da carestia, que voltou após a pandemia e continua persistente e sob novas ameaças, certamente foi um fator relevante para o pequeno aumento das greves naquele período.
De acordo com uma amostra de negociações analisadas também pelo DIEESE, a maioria dos reajustes no primeiro semestre de 2025 ficou acima do índice geral da inflação (à época, em torno de 5%). Isso significa que várias categorias que se mobilizaram conquistaram aumentos reais, apesar do baixo patamar das lutas sindicais, e contribuíram assim para um crescimento real da massa salarial no país. Esse é um fator que contrasta com o cenário sindical mais amplo de estagnação, e possivelmente tem relação com a baixa histórica do desemprego (com quase 40 milhões na informalidade, ressalta-se!), que amplia o poder de barganha dos trabalhadores.
Mas se há esse contraste positivo, outros dados reforçam o cenário de refluxo da luta e difíceis condições para os trabalhadores. Adoecimento mental, acidentes de trabalho e endividamento, por exemplo, marcam a situação das classes trabalhadoras brasileiras nos últimos anos. A Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15,66% sobre 2024 e novo recorde. Já os acidentes de trabalho, aumentam ano após ano. Também em uma crescente, quase 80% das famílias terminaram 2025 endividadas, sobretudo no cartão de crédito.
Como afirmamos, no final de 2025, em nossa Declaração Política do 4º Encontro do Organização:
“A conjuntura brasileira continua extremamente difícil para a massa trabalhadora. A violência é cotidiana, causada pela repressão policial e pelo domínio crescente de facções criminosas e das milícias nas periferias das grandes cidades, além da permanente ameaça fascista e golpista. As vítimas pertencem majoritariamente às classes dominadas, principalmente jovens negros da periferia. […] As mulheres trabalhadoras também enfrentam violência crescente, com alta de feminicídios, estupros, agressões e ameaças. Nos níveis econômico e das relações de trabalho, os salários permanecem baixos e apertados pela carestia e os níveis da exploração, da jornada e da intensidade do trabalho são extremamente desgastantes física e mentalmente para as classes trabalhadoras. Os pelegos do sindicalismo oportunista são agentes dos patrões para manter essa situação.”
E de fato, durante o primeiro semestre de 2025, mais uma vez, os pelegos se mostraram uma peça fundamental para a manutenção da exploração e da subordinação das classes trabalhadoras à burguesia e aos governos. O peleguismo, hegemônico nas máquinas sindicais, há anos, deseduca os trabalhadores com ilusões eleitoreiras, institucionais e de conciliação de classe, mina sua organização autônoma e os levam, sucessivamente, a derrotas táticas e estratégicas.
Focando nos conchavos e nas reuniões de gabinete, que nunca levam a nenhuma conquista real para os trabalhadores, as centrais sindicais e os principais sindicatos serviram, ao longo de 2025, como correia de transmissão do governo burguês de Lula. Até mesmo quando puxaram atos e manifestações, como na Marcha da Classe Trabalhadora, em Brasília, o objetivo foi fazer palco para Lula e reforçar a ligação com tal governo inimigo dos trabalhadores. Em mais um fracassado e despolitizado 1º de maio unificado, no palco, havia não só um, mas três ministros do governo federal! Nesse ano eleitoral de 2026, essa subordinação deve ficar ainda mais servil – afinal, há muitos cargos e mordomias em risco.
A pelegada, de terno, na “luta” para burguês ver!
Esse sindicalismo hegemônico já está muito desacreditado pelas bases de trabalhadores, o que abre espaço para a construção de coletivos mais independentes e uma atuação sindical de fato comprometida com os interesses dos trabalhadores. É nisso que os comunistas devem apostar, pois é reforçando sua posição própria na luta de classes contra os patrões que o proletariado e os demais trabalhadores poderão revidar a exploração, que aumenta governo burguês após governo burguês.




