Sepulcro caiado: a nova/velha candidatura Bolsonaro (parte 1)
À esquerda, o novo Bolsonaro pede bênção (e mais sanções) ao patrão Trump. À direita, o velho Bolsonaro, com o mesmo Trump, em 2019.
Cem Flores
20.06.2026
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois como sepulcros caiados:
por fora parecem belos, mas por dentro estão
cheios de ossos de cadáveres e de toda podridão!
Assim também vós: por fora, pareceis justos diante dos outros,
mas por dentro estais cheios de hipocrisia e injustiça.
A candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, substituta hereditária da candidatura de Jair Bolsonaro – inelegível, condenado e preso – é a exata expressão da mesma linha política e dos mesmos setores reacionários da extrema-direita, fascista, golpista e apologista da ditadura militar, vassala do imperialismo dos EUA, defensora da ofensiva de classe burguesa e do ataque e repressão aos trabalhadores, miliciana e corrupta. Sua estratégia eleitoreira pode tentar dar uma demão de cal em toda a podridão bolsonarista, aproveitando sua juventude e sua vacinação contra a Covid, dancinhas de TikTok e frases em camisetas, na busca hipócrita de fingir uma pseudo moderação. Mas suas posições e sua trajetória política reacionária, de extrema-direita, de capacho do imperialismo dos EUA, de defensor da ditadura militar e da repressão e dos ataques aos trabalhadores, além da corrupção de muitos milhões por décadas, são sua definição mais exata.
Esse candidato Bolsonaro oscila oportunisticamente entre mostrar sua verdadeira cara e usar máscaras. “Sou esse Bolsonaro mais moderado, equilibrado e centrado”, disse à imprensa, em dezembro de 2025, após se reunir com empresários e agentes do mercado financeiro em São Paulo. Essa hipócrita encenação de Bolsonaro buscava (ainda busca) minimizar a frustração daqueles que falharam em emplacar a candidatura do atual governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atrair alas menos extremistas da direita e da burguesia, assim como se desviar de sua rejeição eleitoral, já consolidada em quase metade dos eleitores.
Mas na campanha a máscara caiu: tal qual um sepulcro caiado, o novo Bolsonaro não passa do mesmo velho Bolsonaro, fascista, pró-imperialista, miliciano, corrupto e envolvido em todo tipo de podridão. Tal pai, tal filho – que agora herda o podre espólio político do bolsonarismo e tenta coesionar seu movimento reacionário de massas para dar continuidade ao projeto golpista, fascista e de aprofundamento da posição subordinada do país aos países imperialistas, na nova conjuntura nacional e internacional.
Os Bolsonaros e toda a sua corja, incluindo as disputas intestinas e os concorrentes da mesma laia, são inimigos abertos das classes trabalhadoras do Brasil. O novo/velho Bolsonaro expressa e materializa uma via direta e sem enrolações da ofensiva de classe burguesa que transcorre em nosso país há mais de uma década. Portanto, o combate político e ideológico ao bolsonarismo neste ano se faz, mais uma vez, uma das prioridades dos Comunistas. Um combate sob posições, bandeiras e instrumentos próprios do proletariado e demais massas exploradas, hoje tão enfraquecidos pelo oportunismo, legalismo e eleitoralismo da “esquerda”. Nessa demarcação de campo, não cabe às classes dominadas, para alcançar conquistas reais nessa grave conjuntura, se subordinar a alas burguesas rivais do bolsonarismo e limitar-se à institucionalidade, integrantes que são da mesma ofensiva de classe em curso.
Não há atalhos para cortar a cabeça da serpente do fascismo, do golpismo e dos riscos de intervenção imperialista. Como afirmamos, desde de 2018:
“A fascistização não irá ser derrotada pelas instituições burguesas, pela oposição parlamentar ou pelo ‘amor’ contra o ódio, a violência e a intolerância. A tendência ao fascismo, expressão política típica da etapa imperialista do capitalismo, só se rebate com o socialismo; com a reorganização do proletariado”.
Bolsonaro e demais lideranças da extrema-direita evangélica no mesmo carro de som que Jorge Messias, advogado-geral da União e indicado (derrotado) ao STF do governo Lula, em 4 de junho, em São Paulo. “Fariseus hipócritas” para todos os gostos…
- O novo Bolsonaro é o agravamento da velha ofensiva burguesa e do Programa Hegemônico da Burguesia na nova conjuntura
Chamamos de Programa Hegemônico da Burguesia (PHB) o núcleo comum da ampla ofensiva de classe burguesa no Brasil, reforçada a partir da histórica crise econômica de 2014-16. Esse programa visa retomar e ampliar a taxa de lucro, abrir novos espaços de acumulação e elevar o patamar de exploração das classes trabalhadores, a partir de um conjunto de “reformas” e medidas, sobretudo econômicas, coordenadas pelo estado capitalista brasileiro e seus gestores.
O PHB expressa o consenso entre as várias frações burguesas e seus representantes partidários e governamentais, do PT à extrema-direita, e vem há mais de uma década sendo implementado, apesar das resistências das classes trabalhadoras. As “reformas” trabalhista (2017), da previdência (2019), tributária (2023), os tetos de gastos (2016 e 2023), as inúmeras privatizações etc., sem contar demais ataques da burguesia no âmbito repressivo e ideológico, têm resultado na ampliação da taxa de lucro – objetivo central a ser mantido pelo próximo governo central, qualquer que seja!
A conjuntura que se abre a partir de 2027 tende a se caracterizar pelos seguintes fatores: ofensiva imperialista dos EUA – visando ampliar o déficit comercial do Brasil com os EUA, facilitar os investimentos e ampliar os lucros dos monopólios dos EUA no Brasil e arrancar concessões em áreas estratégicas para o governo e os monopólios dos EUA (terras raras, data centers, segurança, “combate ao terrorismo” etc.) –; desaceleração econômica e aumento do desemprego, com aperto ainda maior das restrições fiscais e juros extremamente elevados; e riscos para a trajetória de retomada da taxa de lucro. Esse cenário, somado à baixa resistência e organização das classes trabalhadoras e à legitimação burguesa do vencedor das eleições, aponta para uma nova ofensiva burguesa contra as conquistas da classe operária, buscando reduzir salários e aumentar a exploração, diminuir os demais custos do capital e aumentar os lucros.
As propostas econômicas e os formuladores que começam a surgir nas articulações da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro estão bem alinhados e cientes dessa tarefa maior. Mesmo sem um plano fechado e formalizado, tudo aponta para uma radicalização da ofensiva burguesa e mais especificamente do Programa Hegemônico da Burguesia, com um conjunto de “reformas” e medidas “pró-mercado”, sem mediações ou meias palavras, a ser conduzido provavelmente pelas mesmas figuras do velho Bolsonaro (como Adolfo Sachsida, Rogerio Marinho, Daniella Marques e cia).
Em 24 de março, Flávio Bolsonaro resumiu o seu novo/velho programa econômico da seguinte maneira: “todo mundo sabe que eu vou dar continuidade ao que o Paulo Guedes começou a fazer com o país”. E, para quem não se lembra, esse é o resumo do trabalho e da visão de Paulo Guedes, pelo próprio:
“As torres do inimigo que a gente tinha que derrubar: uma era o excesso de gasto na previdência, derrubamos assim que entramos. A segunda torre era o juros. Os juros tão descendo e vão descer mais ainda. O Campos tem o mapa já. […] Nós já botamo a granada no bolso do inimigo. Dois anos sem aumento de salário. […] Banco do Brasil a gente não consegue fazer nada e tem um liberal lá. Então tem que vender essa porra logo.”
“Reforma” da previdência e administrativa, obediência completa ao mercado financeiro e às ordens de Trump, arrocho fiscal sobre os trabalhadores e aposentados, avanço das privatizações, congelamento de salários… eis a obra do chicago boy Paulo Guedes, eis o caminho do novo Bolsonaro.
Bolsonaro planeja iniciar 2027 com um forte e bilionário corte de gastos públicos. Os focos desse “tesouraço” seriam os pisos constitucionais de gastos com educação e saúde e os benefícios básicos do INSS e do BPC, que ficariam congelados. Cortar na pele dos trabalhadores para reverter a tendência de déficit nas contas públicas – música para os ouvidos da burguesia e de seus formuladores de políticas (dos mais radicais aos mais moderados)! Para consolidar esse arrocho fiscal, a campanha tem falado também em redefinição das regras fiscais, tornando o atual teto de gastos, já reformado, ainda mais rígido e, ao mesmo tempo, com menos vinculações do orçamento (saúde e educação, repasses para estados e municípios, despesas com servidores públicos etc.). Mais liberdade para investir verba pública onde for mais proveitoso para a burguesia – outra música para os ouvidos dessa classe!
Concomitantemente, o plano de Flávio Bolsonaro é seguir em medidas de reorganização da administração pública e privatização, para enxugar gastos públicos e abrir novos espaços para a exploração do setor privado. Seu outro lema, dito no evento anual do banco BTG, é: “onde puder privatizar, nós vamos privatizar”. Nesse sentido, informou ainda que é possível privatizar 95% das estatais. Lembremos que, apesar de ter avançado na privatização e no desinvestimento de estatais (subsidiárias da Petrobrás, Eletrobrás, entre outras menores), o governo do Bolsonaro pai não conseguiu privatizar uma lista grande de empresas como Correios, Porto de Santos, EBC, Serpro… Tarefa para Bolsonaro filho!
Flávio Bolsonaro em almoço com burgueses no banco de investimentos suíço UBS, em São Paulo, dezembro de 2025. Além de banqueiros, estavam presentes Flavio Rocha (Riachuelo), Alexandre Ostrowiecki (Multilaser), Richard Gerdau (Gerdau), Helio Seibel (Duratex), Mario Araripe (Casa dos Ventos) e Filipe Sabará (filho de industrial). Um candidato a prestar contas com sua classe.
Mas não para por aí. Segundo o coordenador de campanha, Rogerio Marinho, as próprias “reformas” da previdência e trabalhista, já aprovadas, serão revisadas. Isso porque, ou não estão dando o resultado ideal para a burguesia, ainda mais em contexto de novas tecnologias e formas de trabalho, ou têm sido mitigadas em seus efeitos pró-patrão por conta de conflitos e decisões judiciais. Segundo Marinho, a “reforma” tributária também precisará ser revista em alguns pontos, atendendo sobretudo às queixas do setor de serviços. Afinal, a melhor forma de apoiar o PHB é não só implementá-lo, mas atualizá-lo e ajustá-lo a tempo e a contento do patrão.
Em relação ao avanço da pauta da jornada de trabalho no congresso, decorrente dos protestos contra a jornada 6×1, Marinho deixou claro que qualquer alteração de jornada benéfica aos trabalhadores precisará ser acompanhada de compensação às empresas, como por meio da desoneração da folha de salários. Como dizia o Bolsonaro pai, é difícil ser patrão no Brasil (sic!), então que o estado compense ainda mais essa “vítima” do sistema!
Outros aspectos do plano de governo de Bolsonaro para aprofundar a ofensiva burguesa por meio de mais “reformas” econômicas podem ser identificados no Projeto Brasil, recém-publicado pelo ex-ministro e atual advogado de Bolsonaro, Adolfo Sachsida. O projeto possui dois pilares: “responsabilidade fiscal permanente” e “reformas pró-mercado e produtividade”. Abaixo, um compilado de propostas do documento realizado pela Folha de São Paulo:
Vejamos o caso do arrocho fiscal. A primeira medida é limitar o crescimento da dívida pública. Como ela cresce principalmente pelos juros altos (e nisso ninguém mexe!), a regra fiscal de Bolsonaro deve ser mais dura que o Teto de Gastos de Lula. Como Bolsonaro quer reduzir os impostos dos patrões, a conta só fecha com um corte absurdo de gastos com programas sociais e outras despesas mais voltadas para os trabalhadores, como previdência, saúde e educação.
Também fazem um “combo” para o capital a promessa de mais privatizações com redução da regulamentação estatal (“desburocratização” e “livre mercado”). Por um lado, mais espaços para acumulação de capital, por outro, menos restrições e impostos, taxas e multas. Para ficar “perfeito”, some-se o incentivo à destruição ambiental, bem claro no “atualizar leis de mineração e Margem Equatorial”.
Uma das áreas que se pretende atrair investimentos, segundo o Projeto Brasil, é a de “minerais críticos”, os mesmos que Flávio Bolsonaro, no palco da Conferência da Ação Política Conservadora (CPAC), ofereceu aos EUA como uma “solução” a essa potência imperialista no atual contexto de acirramento de disputa com a China. Palco já pisado por seu pai para defender entreguismo semelhante.
CPAC de 2026 e CPAC de 2023. O novo e o velho Bolsonaro se espelhando, de novo.
- O novo Bolsonaro é a velha e completa vassalagem ao imperialismo dos EUA
No primeiro ano de governo do Bolsonaro pai, em 2019, afirmamos:
“para Bolsonaro e sua corja, o Brasil deve estar acima de tudo, menos dos interesses do ‘grande irmão’ (sic!) do norte. Não basta à Bolsonaro prestar continência/obediência à bandeira dos EUA (antes da eleição) e ao conselheiro de segurança nacional do EUA, John Bolton (depois). Suas primeiras declarações como presidente eleito foram de propor aos americanos instalar uma base militar no Brasil – no que, pelas notícias da imprensa, seus próprios militares governistas foram contra; tentar tornar o Brasil um dos pouquíssimos países do mundo a seguir a paranoia religiosa/geopolítica de Trump de mudar a embaixada do país em Israel de Tel Aviv para Jerusalém; e igualmente seguir Trump na retirada do país do acordo de Paris sobre o clima global. Nenhuma das três ações se efetivaram até agora. Mas a fidelidade canina aos EUA e a Trump restou comprovada nessas declarações de intenções…”
Ao longo daquele governo, tal fidelidade canina se expressou em diversas ocasiões, como no reconhecimento do autoproclamado presidente fake da Venezuela, Juan Guaidó, e nas ameaças de mobilização de tropas contra aquele país; em acenos, visitas e eventos de extrema-direita, ligados ao trumpismo; na designação do Brasil como aliado prioritário não pertencente à Otan; na abertura da Base de Alcântara (MA) para lançamento de foguetes ou satélites dos EUA… A principal inspiração bolsonarista para suas ações criminosas durante a pandemia de Covid-19 também veio da postura negacionista de Trump. Houve ainda, é claro, a busca por apoio externo dos EUA à aventura golpista de 2022-23.
A vassalagem bolsonarista ao imperialismo dos EUA também incluiu críticas à China, a principal oponente no campo do imperialismo. O arremedo de crítica “ideológica” ao “comunismo chinês”, no entanto, teve que ceder aos interesses do grande capital que os Bolsonaros buscavam representar, incluindo o agronegócio e a mineração, considerando que a China é a maior compradora mundial de commodities exportadas pelo Brasil. Assim, mesmo o maior capachismo teve que manter inalterada a crescente influência da China. Na conjuntura atual, a subordinação do Brasil ao imperialismo dos EUA também reflete as contradições causadas pela ofensiva econômica, financeira e diplomática do imperialismo chinês.
Essa posição política servil do bolsonarismo está longe de ser apenas uma bizarrice (entre tantas…) dos fascistas. Trata-se da continuidade do alinhamento geopolítico subordinado de décadas do estado brasileiro, inclusive por meio do combate a países socialistas e forças revolucionárias da região; expressa a ideologia hegemônica nas forças armadas e nos grupos políticos de direita; por fim, mas não menos importante, representa o interesse de diversos capitais do país, que buscam se manter ou se tornar sócios privilegiados e protegidos da maior potência imperialista do mundo e de seus monopólios, desde a América do Sul. Em contexto de acirramento das contradições interimperialistas, o servilismo aos ianques aponta ainda para uma escolha estratégica do bolsonarismo pelo bloco imperialista dominante, liderado pelos EUA.
À esquerda, o novo Bolsonaro mostra seus bonecos de Bolsonaro pai e Trump; à direita, o velho Bolsonaro bate continência à sua bandeira.
A história de submissão do bolsonarismo aos EUA não só continuou após a derrota eleitoral de 2022 como também se aprofundou. Em 2025, após o fracasso do golpe bolsonarista e do indiciamento dos golpistas, e diante do retorno de Trump ao governo dos EUA, o bolsonarismo dobrou a aposta de sua vassalagem: iniciou uma campanha aberta, que permanece até os dias atuais, por intervenções ianques no Brasil. Eduardo Bolsonaro, há quase um ano refugiado nos EUA, e outros de sua corja fascista conspiraram e continuam a conspirar abertamente contra o país, a ponto de defenderem, no limite, uma intervenção militar ianque.
Nesse contexto, em 9 de julho de 2025, com apoio dos bolsonaristas e em defesa dos mesmos, Trump anunciou a imposição de tarifas de 50% sobre todos os produtos brasileiros exportados para os EUA, entre outras medidas e ameaças, parcialmente revogadas após negociações entre representantes das duas burguesias em defesa dos seus interesses comerciais. Esse ataque imperialista também contou à época com a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil, que só agora apresentou um desfecho: a proposta de aplicação de um novo tarifaço, de 25%. O relatório que embasa a recomendação aponta, inclusive, o PIX como um mecanismo prejudicial ao comércio dos EUA – o que foi prontamente reforçado por Eduardo, agora defensor do ianque Zelle, em mais um ato inédito de viralatismo.
À esquerda, a bancada do PL levanta bandeira de Trump, dias após o tarifaço de julho de 2025. À direita, ato bolsonarista, no dia da independência do Brasil, com uma bandeira gigante dos EUA.
A linha política da pré-candidatura de Bolsonaro segue esse reforço da fidelidade canina com os EUA, já tantas vezes comprovada pelo bolsonarismo. Em março de 2026, no discurso que ele fez na CPAC, o novo Bolsonaro se colocou como continuador do velho e seguidor de Trump. Como o vendilhão que é, fez propaganda do Brasil e dos seus recursos como fatores fundamentais para os EUA darem passos em sua disputa interimperialista. Por fim, acusou o ex-presidente democrata Biden de ter interferido nas eleições brasileiras de 2022, em prol do “socialismo” (sic!), e pediu “pressão diplomática” dos EUA para que as instituições “funcionem corretamente” durante as eleições deste ano, colocando nas mãos de Washington o papel de garantir eleições “livres e justas baseadas em valores de origem americana”. Ou seja, o “moderado” (sic!) novo Bolsonaro não apenas retomou o mote bolsonarista de preparação golpista, a desconfiança com o processo eleitoral, como abertamente pediu a Trump uma tutela externa sobre o regime político brasileiro, em prol projeto bolsonarista de poder e de submissão nacional. Um orgulho para o Bolsonaro pai!
Nesse discurso, Flávio Bolsonaro ainda afirmou que o Brasil vive hoje uma crise nacional com a expansão de narcoterroristas. A utilização desse termo, desde o ano passado, não é ao acaso: ela se relaciona com um dos artifícios usados pela atual ofensiva ianque sobre a América Latina e Caribe, apoiada pelo bolsonarismo. Em outra ocasião, diante das ações preparatórias da invasão à Venezuela e ao recente cerco à Cuba, o novo Bolsonaro postou em suas redes sociais, em inglês, seu desejo de ver ataques militares dos EUA também na Baía de Guanabara (RJ), contra embarcações supostamente com drogas. Dias depois, seu aliado, o governador fascista e corrupto Cláudio Castro (PL), realizaria a maior chacina policial da história, nas favelas dos Complexos da Penha e do Alemão, também sob a alegação de combate ao “narcoterrorismo”.
Postagem de Flávio Bolsonaro em outubro de 2025 pedindo intervenção militar dos EUA no Rio de Janeiro.
Em maio de 2026, semanas após mais um “romântico” encontro entre Lula e Trump, Bolsonaro, na busca por se comprovar um presidenciável ainda mais submisso, também foi à Casa Branca. No dia seguinte, reuniu-se com o vice-presidente dos EUA, Vance, e com o secretário de estado, o gusano Marco Rubio em Washington. Pouco depois, também sob apoio do bolsonarismo, o governo Trump anunciou a designação do PCC e do CV como organizações terroristas. Se os impactos políticos e econômicos de tal medida ainda estão em aberto, ela se soma, explícita e inquestionavelmente, ao contexto maior de ameaças e intervenções à soberania nacional brasileira, sempre com o apoio de Bolsonaro.
Também neste ano, os governos de direita e extrema-direita da América Latina e os EUA conformaram a coalizão “Shield of the Americas” (Escudo das Américas), uma iniciativa imperialista com o mesmo artifício de combate a cartéis de drogas e o “terrorismo” na região. Na realidade, seus objetivos são, principalmente, expandir o poder e a influência ianque em seu “quintal”, ampliar a repressão a seus inimigos políticos e fomentar regimes burgueses autoritários no continente. A cúpula conta com líderes como Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador), Daniel Noboa (Equador), Santiago Peña (Paraguai), Rodrigo Paz (Bolívia), entre outros, além do apoio do atual presidente chileno José Antonio Kast. Essa coalizão já tem ampliado acordos estratégicos e operações militares norte-americanas na região. E, como não poderia ser diferente, Flávio Bolsonaro já se antecipou e informou que, se eleito, o Brasil integrará essa aliança.
Destroier argentino navega ao lado do porta-aviões nuclear USS Nimitz, da Marinha dos EUA, no Oceano Atlântico, em 29 de abril de 2026. O sabujo Milei acompanhou a operação militar a bordo do navio ianque. Em maio, foi a vez do Brasil participar da operação, no Rio de Janeiro.
O “nacionalismo” do novo/velho Bolsonaro se ratifica, assim, como um hipócrita patriotismo burguês, alinhado de forma servil aos EUA. A recente radicalização desse servilismo é uma arriscada tentativa, seja de salvar os seus das condenações em curso, sobretudo Jair Bolsonaro, seja de ganhar as eleições, pois gera atritos com setores burgueses e conta com a rejeição de parte significativa da população. Mas, apesar das contradições, segue conduzida no fundamental pelos Bolsonaros e seu movimento de extrema-direita, seja porque seu chefe maior está ao norte, seja porque há a expectativa de que esse servilismo radical se converta em intervenções imperialistas mais proveitosas no período eleitoral, como ocorrido recentemente na Argentina e em Honduras. Em ambos países, as chantagens de Trump foram relevantes para a vitória parlamentar do governo de Milei e para a eleição do presidente Nasry Asfura respectivamente.









