A ofensiva imperialista de Trump na América Latina (Parte 1)

Os subservientes lambe-botas representantes políticos das burguesias vassalas da América Latina assistem o representante da burguesia imperialista dos EUA assinar seu novo pacto colonial (de novo tipo). Na foto: Irfaan Ali (Guiana), Bukele (El Salvador), Bessent (Secretário do Tesouro dos EUA), Abinader (República Dominicana), Kast (Chile), Persad-Bissessar (Trinidad e Tobago), Hegseth (Secretário da Guerra dos EUA), Mulino (Panamá), Trump (EUA), Milei (Argentina), Peña (Paraguai), Paz (Bolívia), Chaves (Costa Rica). Ficaram fora da foto, mas estavam presentes nessa vassalagem, Noboa (Equador) e Asfura (Honduras).

 

Cem Flores

14.09.2026

 

E lembremos sempre que não se pode confiar no imperialismo,

mas nem um tantinho assim. Nada!

Che Guevara

 

O sistema imperialista mundial é constituído por um complexo e contraditório conjunto de tendências e contra-tendências, com violentas disputas (econômicas, ideológicas, políticas e militares) por hegemonia entre as potências imperialistas, concorrência entre os grandes monopólios transnacionais e dominação sobre a absoluta maioria dos países. O atual e prologado cenário de crise do imperialismo agrava ainda mais essas contradições, com impactos diferenciados da crise nas distintas potências imperialistas e nos países dominados. Tendo como pano de fundo essa crise, desdobra-se a principal contradição interimperialista dos nossos tempos, a que opõe os EUA, a principal potência imperialista mundial, porém em declínio relativo, à China, potência imperialista ascendente, que desafia a hegemonia dos EUA em todos os terrenos.

Ao declínio relativo dos EUA no sistema imperialista mundial corresponde uma (desesperada) ofensiva dos seus monopólios e do seu estado e governos para manter/retomar sua hegemonia. Essa ofensiva se radicaliza e se torna mais autoritária e agressiva com a ausência de evidências do alcance dos seus objetivos. Os EUA lideram globalmente o processo no qual o imperialismo recorre a políticas internas e externas de extrema-direita, cada vez mais repressivas e violentas – sobretudo contra as classes trabalhadoras de seus próprios países e as dos demais países dominados. De forma crescente, e novamente, o imperialismo adota o fascismo como sua política.

Essa ofensiva imperialista dos EUA em meio à crise e contradições interimperialistas crescentes também é uma ofensiva burguesa na sua luta de classes contra o proletariado e as demais classes dominadas, tanto nos países imperialistas quanto nos dominados. Essa ofensiva do capital visa rebaixar cada vez mais os salários e as demais condições de vida dos trabalhadores, atacando conquistas históricas, buscando aumentar seu grau de exploração, elevando a taxa de mais-valia, para buscar assegurar as condições de retomada das taxas de lucro e de acumulação de capital. Embora tenhamos ao redor do mundo diversos casos exemplares de resistência operária e popular (manifestações, greves etc.), no geral o proletariado encontra-se com poucas condições de se opor às ofensivas burguesa e imperialista, considerando as mudanças na organização/estrutura do mercado de trabalho, sua baixa organização sindical e política e, principalmente, a ausência, generalizada, de organizações e partidos comunistas, revolucionários, com influência nas massas trabalhadoras ao redor do mundo.

Esse é o contexto mais geral no qual se deve analisar a atual política imperialista dos EUA no segundo governo Trump em relação à América Latina e ao Brasil em particular.

 

  1. América Latina sob o domínio imperialista dos EUA desde o século 19

A atual América Latina foi integrada a uma economia mundial em formação com a expansão do capital comercial a partir do século 16. As características fundamentais desse processo foram o genocídio das populações nativas em todo o continente, os mais de três séculos de escravismo, sobre os povos indígenas e, principalmente, sobre milhões de africanos, e o colonialismo, igualmente multissecular. Nesse período colonial e escravocrata, a região era dominada pelas potências da época, Portugal e Espanha, cuja hegemonia era contestada por França e Holanda.

A resistência ao invasor e ao senhor de escravos também caracterizou todo esse período, do Quilombo de Palmares à Revolução no Haiti. No século 19 houve o processo de independência da região, liderado pelas burguesias nacionais nascentes, com importante participação popular, especialmente nas guerras de libertação da América Hispânica. E, no entanto, mostrando os limites de classe desse importante processo histórico revolucionário, todos os países da América Latina que se tornaram independentes imediatamente passaram a ser países dominados pela potência imperialista do século 19, a Inglaterra. A independência nacional dirigida pelas classes dominantes locais foi concomitante à cooperação e à subordinação com o imperialismo.

Os EUA tiveram seu processo de libertação nacional burguês no final do século 18 e passaram toda a primeira metade do século 19 em guerras de conquista de territórios contra sua população originária, contra o vizinho México, e contra os impérios coloniais da Inglaterra, França e Espanha. Essa “conquista do oeste”, alicerçada no interesse econômico de sua burguesia e na ideologia do “destino manifesto”, triplicou o tamanho dos EUA, que adquiriu suas atuais dimensões continentais, de um oceano a outro, no final daquele século. Esse processo também marcou os primeiros passos da ascensão dos EUA à condição de potência imperialista.

Em 1823, os EUA formalizaram e explicitaram pela primeira vez essa sua ambição imperialista com a Doutrina Monroe, de “América para os americanos”, ao mesmo tempo rechaçando intervenções colonialistas europeias e buscando assegurar toda a região como sua zona de influência. Menos de um século depois, consolidada a expansão territorial, garantido o mercado interno que lhe assegurou a posição de maior economia mundial, o então presidente Theodore Roosevelt criou, em 1904, o Corolário Roosevelt à Doutrina Monroe. Nele, o imperialismo dos EUA da virada do século afirmava que “no Hemisfério Ocidental a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, embora com relutância, em casos flagrantes de tais transgressões ou impotência, a exercer um poder de polícia internacional”. A política externa dos EUA desde então passou a ser conhecida como a do “grande porrete” (big stick).

Nos vinte anos de 1891 a 1912, os EUA realizaram intervenções militares e chantagens econômico-financeiras no Haiti (1891) e no Chile (1891), na Nicarágua (1895, 1899, 1909, 1912), em Porto Rico (1898) e Cuba (1898, 1903, 1912), Venezuela (1902), República Dominicana (1903, 1904, 1907, 1912), Colômbia (1903), Guatemala (1904), Honduras (1910). Muito significativa da expansão imperialista dos EUA no começo do século 20 foi a Emenda Platt, imposta pelos EUA a Cuba, que na prática a tornava um protetorado colonial dos EUA, incluindo na sua constituição o “direito” (sic!) dos EUA de realizarem intervenções unilaterais do país e manterem enclaves coloniais em seu território (Guantánamo). A partir da construção do canal, o Panamá também se tornou um protetorado colonial do imperialismo dos EUA por quase um século.

Depois da Segunda Guerra Mundial, os EUA assumiram a liderança inconteste do mundo capitalista e reforçaram sua hegemonia imperialista em termos diplomáticos, políticos, culturais e econômicos sobre os países da América Latina, seus governos e suas burguesias nacionais. Isso não impediu, é claro, intervenções militares ou apoio a ações militares nesses países sempre que os EUA achassem necessário: Guatemala (1954), Equador (1960), Baía dos Porcos, em Cuba (1961), Guiana (1961), Brasil (1964), República Dominicana (1965), Chile (1973), Argentina (1976), Nicarágua (1981), Granada (1983), Panamá (1989) e Venezuela (2026).

O imperialismo dos EUA na América Latina (e no mundo inteiro) é uma política de estado, política externa permanente, não importando se o governo de plantão esteja em mãos “republicanas” ou “democratas”. Secularmente sobre a região recaíram – além da exploração e da opressão pelas próprias classes dominantes internas – a ação imperialista dos EUA: atuação dos seus monopólios transnacionais, exportações de capitais, relações econômicas preferenciais ou exclusivas, estrangulamento econômico com dívida externa, remessas de lucros e sanções econômico-financeiras; bloqueio econômico-militar; sustentação política, financeira e organizativa da quinta-coluna interna, principalmente de frações burguesas e pequeno burguesas; apoio a golpes de estado e a ditaduras; e invasões militares.

Contra o imperialismo dos EUA sempre ocorreram protestos, resistência e lutas em toda a região. Marco inquestionável é a Revolução Cubana (1959) e a declaração do seu caráter socialista (1961). Sob a inspiração revolucionária cubana e contra as ditaduras burguesas sustentadas pelo imperialismo, os anos 1960 e 1970 foram marcados por movimentos armados – os verdadeiros combatentes antiimperialistas daquele período – em toda a América Latina. Em 1979, triunfou a Revolução na Nicarágua. Neste século, os movimentos antiimperialistas e os partidos e organizações comunistas decresceram em relevância no movimento de massas, mas permanece a contradição que opõe, de maneira inconciliável, o imperialismo dos EUA e as classes dominantes locais, suas sócias e aliadas, ao proletariado e os povos latino-americanos, explorados por ambos.

 

  1. América Latina no quadro das disputas interimperialistas atuais

A América Latina sempre foi uma região dominada na divisão internacional do trabalho do sistema capitalista/imperialista mundiais. Seu papel sempre foi, e continua a ser, o de fornecedora de matérias-primas e demais produtos primários (commodities agropecuárias, minerais, energéticas) para os países imperialistas, contribuindo para o barateamento da acumulação/reprodução de capital no exterior, e local de reprodução ampliada para os capitais monopolistas das potências imperialistas (exportações de bens, serviços e capitais, investimento e endividamento). Tal subordinação ao imperialismo, embora com atritos e concorrências, é vista pelas classes dominantes locais como a melhor fonte de lucro; forma sob a qual elas reproduzem, concomitantemente, a hegemonia imperialista e a dominação burguesa contra as massas exploradas locais.

Mas neste século há uma diferença relevante para os EUA na América Latina. Após muitas décadas em que a região era tida como o seu “quintal” na divisão do mundo entre cartéis e países dominantes, essa partilha está sendo direta e fortemente contestada pela potência imperialista em ascensão. A China está crescentemente superando os EUA nas relações econômicas com a América Latina em termos comerciais e de exportação de capitais. Mais recentemente, a disputa também está sendo travada nos terrenos político, militar, diplomático e cultural.

Considerando essa principal contradição interimperialista da atualidade, podemos interpretar a ofensiva imperialista de Trump sobre a América Latina também como uma violenta tentativa, por parte do imperialismo dos EUA, de retomar sua hegemonia sobre a região, em disputa aberta contra o imperialismo chinês.

Neste século, a China passou a ser o principal parceiro comercial da maioria dos países do mundo (e da América do Sul), derrubando a hegemonia comercial dos EUA. Essa ofensiva econômica chinesa força uma nova partilha do mundo entre potências imperialistas e gera, como consequência necessária, a resistência dos EUA, potência imperialista desafiada.

A atual reação do imperialismo dos EUA para contrarrestar seu declínio relativo combina eliminar quaisquer restrições à livre acumulação de seus capitais interna (revogar normas ambientais e restrições/controles aos mercados financeiros, reduzir impostos para os ricos e suas empresas) e externamente com a imposição de restrições crescentes à acumulação de capitais concorrentes (tarifas para exportações aos EUA, sanções econômico-financeiras globais, chantagens diversas). Também, arrancar acordos comerciais e de investimentos para os capitais dos EUA, se possível em condições de monopólio (como no caso do petróleo na Venezuela). E, claro, recorrer a cercos (Cuba) e ataques militares (Venezuela) ou guerra aberta (Irã). O objetivo de obter um “exclusivo metropolitano”, uma espécie de fidelidade vassala das burguesias locais e uma relação colonial (de novo tipo) é explicitado na estratégia de segurança nacional do governo Trump:

Os termos dos nossos acordos, especialmente com os países que mais dependem de nós e, portanto, sobre os quais exercemos maior poder de influência, devem ser de contratos de exclusividade para as nossas empresas. Ao mesmo tempo, devemos empenhar todos os esforços para excluir as empresas estrangeiras que constroem infraestrutura na região”.

É na América Latina que essa ofensiva dos EUA para barrar a expansão chinesa e retomar sua hegemonia na região, em todos os níveis, tem sido politicamente mais efetiva do ponto de vista do imperialismo dos EUA. As burguesias dominantes nos países latino-americanos são, secularmente, dominadas econômica, política e culturalmente aos EUA. Em diversos casos, a política entreguista dessas burguesias foi a de “abrir o portão”, inclusive previamente, à ofensiva dos EUA, como nos países atualmente governados por representantes burgueses de extrema-direita (de El Salvador, de Bukele, à Argentina, de Milei, e a Colômbia, de Espriella, que adotam a mesma posição do bolsonarismo no Brasil, com seu hipócrita patriotismo burguês). Outros ainda, a pretexto da defesa formal, apenas no discurso, da “soberania nacional”, propõem negociação nos termos e temas de interesse do imperialismo dos EUA, como segurança, terrorismo, terras raras e data centers (Brasil, com Lula).

Se, em termos políticos, o imperialismo dos EUA sob Trump tem obtido sucesso com as burguesias e seus governos vassalos na região, em relação aos aspectos econômicos e aos fluxos de capitais, essa ofensiva dos EUA ainda está longe de ameaçar o predomínio do imperialismo chinês na região. A estratégia de segurança nacional dos EUA reconhece que “algumas influências estrangeiras serão difíceis de reverter” e se coloca a tarefa de “garantir que as economias aliadas não se tornem subordinadas a nenhuma potência concorrente”.

A China é, de longe, o maior parceiro comercial da região, como um todo, e da maioria dos seus países, especialmente na América do Sul. Isso significa que a China é tanto o maior país de destino das exportações latino-americanas (fundamentalmente commodities primárias), quanto o maior país de origem das importações da região (principalmente produtos manufaturados, da baixa à alta tecnologia). Na sequência dessa hegemonia comercial, as exportações de capital da China na região crescem significativamente, tanto nos chamados investimentos diretos (infraestrutura, setor petrolífero e energético) quanto na dívida externa. A contrapartida necessária e observada dessa expansão imperialista chinesa no terreno econômico na América Latina é o declínio, ao menos relativo, da atuação dos capitais dos EUA.

O gráfico à direita, acima, mostra a primazia crescente das exportações da região para a China e a perda de importância relativa dos EUA nesse aspecto. O da esquerda mostra o conteúdo dessas exportações: quanto maior a participação chinesa, tanto maior a parcela extrativa (reprimarização) e menor a manufatureira (desindustrialização).

Como resumiu José Luís Fiori, este século testemunhou a “transformação da China no novo dínamo da economia sul-americana”. Além de identificar na expansão imperialista chinesa um importante fator da regressão a uma situação colonial de novo tipo, Fiori também vincula diretamente essa expansão chinesa à reação dos EUA:

E hoje, como no passado, o principal interesse dos chineses na América do Sul segue sendo seus recursos naturais e minerais … E o cenário para os próximos anos promete uma oferta excedente de produtos e capitais chineses, que deve derrubar barreiras e constituir um imenso desafio competitivo para os capitais norte-americanos e brasileiros.

Para o conjunto da burguesia latino-americana, há uma contradição entre a defesa da dominação e hegemonia políticas dos EUA na região e o crescente rebaixamento das suas relações comerciais e financeiras com os EUA, diante da primazia dos capitais chineses. Isso ficou evidente no governo Bolsonaro, que prestava explícita vassalagem à Trump, sem tomar a mínima ação para afetar as crescentes relações econômicas e financeiras entre as burguesias brasileira e chinesa. Idem para o governo Milei, na Argentina, e o iniciante mandato de Keiko Fujimori, no Peru, por exemplo.

Essa contradição político/econômica também impacta o terreno ideológico, não apenas para as burguesias diretamente, mas também entre seus representantes políticos e seus espadachins mercenários, os “economistas”. A preferência pela subordinação da América Latina a uma ou outra potência imperialista nessa disputa é uma “escolha” para as diferentes frações da burguesia e seus representantes políticos. Economistas burgueses “liberais” prefeririam os EUA, enquanto economistas igualmente burgueses, porém “desenvolvimentistas”, optariam pela China. Idem para a clivagem política entre Bolsonaro (ou Caiado, por exemplo) e Lula. O que os segundos fingem esquecer é que:

mesmo os países que mais haviam avançado no aumento da participação de produtos manufaturados nas exportações sucumbiram rapidamente ao extrativismo. …. A América do Sul consolidou, assim, seu papel como fornecedora de bens de baixo valor agregado para redes de produção chinesas”.

A ascensão do Brasil como curral do mundo esteve estreitamente ligada à ascensão da China como superpotência econômica … A partir dos anos 2000, o Brasil consolidou sua integração subordinada na divisão internacional do trabalho como exportador de commodities primárias”.

Ao contrário do que defendem os economistas burgueses “desenvolvimentistas” e os reformistas dos mais variados matizes, não cabe ao proletariado nem aos comunistas, em sua luta consequente contra o imperialismo, defender a subordinação do nosso país a uma ou outra potência imperialista. Como afirmamos na Declaração Política do nosso 4º Encontro de Organização, no final do ano passado, “Os Comunistas não devem escolher qual inimigo de classe apoiar”!

 

  1. A nova/velha política externa do imperialismo dos EUA com Trump 2

Como afirmamos em fevereiro de 2025, um mês após a posse de Trump 2, “O governo Trump é sintoma e consequência direta da atual condição dos EUA, de declínio relativo enquanto potência imperialista e da necessidade de buscar contrarrestar essa trajetória. Para isso, sua tendência é “se tornar ainda mais autoritário, repressivo, agressivo e destruidor, externa e internamente”, ou seja, “o imperialismo descarado parece estar de volta”!

Dentro dessa tendência geral do imperialismo dos EUA (que reúne igualmente Bush, Obama, Trump e Biden, para ficarmos apenas neste século), o governo Trump representa um grande apodrecimento adicional do imperialismo dos EUA, um governo assumidamente corrupto e autoritário, que se pretende uma “presidência imperial”, governando por decretos executivos, passando por cima do congresso (ao iniciar guerras) e da suprema corte (contornando a proibição do tarifaço). Além disso, o governo Trump 2 representa um movimento organizado de extrema-direita, racista e fascista (que podemos resumir no movimento MAGA, “make américa great again”, faça os EUA grandes novamente), que lidera/integra uma “nova internacional fascista” que se expande principalmente na Europa e na América Latina.

Não obstante significativos protestos anti-Trump nos EUA, essa oposição permanece limitada, fragmentada e sem uma posição proletária na luta de classes. Assim, sua principal forma é puramente institucional, buscando se refletir nas eleições de meio de mandato para renovação do congresso, que ocorrerão em novembro. Essa oposição a Trump aparece principalmente na contínua queda de sua popularidade.

A partir dessa caracterização do governo Trump, podemos afirmar que

Na esfera internacional, as políticas de Trump de afirmação do poder imperialista dos EUA expressam e reforçam o agravamento de todas as contradições interimperialistas, em especial a principal delas, a que opõe os EUA e a China, potência imperialista ascendente, mas também as com os países imperialistas ‘aliados’, fundamentalmente europeus. Em relação aos países dominados, a política de Trump é de agravar essa dominação, unilateralmente, extraindo a maior quantidade possível de benefícios para os capitais monopolistas dos EUA”.

Especificamente para a América Latina, “a estratégia de Trump é reforçar a submissão ao imperialismo dos EUA”, mediante a justificativa ideológica da nova versão da doutrina Monroe, que também deve ser entendida como um novo pilar da estratégia anti-China que … tem sido perseguida tanto por governos democratas quanto por republicanos”. A ofensiva imperialista dos EUA na América Latina deve, necessariamente, ser entendida nesse contexto mais geral da principal contradição interimperialista da atualidade.

A principal formulação do projeto imperialista dos EUA sob Trump 2 está na “estratégia de segurança nacional”, divulgada em 2025, complementada pela “estratégia de defesa nacional”, deste ano. Na sua essência, essa estratégia coloca a contradição que o imperialismo dos EUA enfrenta atualmente: a constatação de não ser mais a única potência imperialista mundial (diante da crescente contestação do imperialismo chinês em ascensão) e a necessidade de buscar, a todo o custo, recuperar essa posição.

Quanto à primeira parte, a estratégia de segurança “informa” que “acabaram-se os dias em que os EUA sustentavam toda a ordem mundial como Atlas”. O governo Trump passa a assumir explicitamente que os EUA são incapazes de atuar simultaneamente no mundo inteiro, buscam forçar seus aliados e dominados a gastar mais com sua própria defesa, e definem suas áreas de atuação prioritária. Em suma, MAGA também significa admitir que os EUA não são tão “grandes” quanto já foram: “A principal consigna de campanha de Donald Trump … já é por si mesma, um reconhecimento tácito de que os EUA estão enfrentando uma situação de crise ou declínio que precisa ser revertida”.

A estratégia de defesa explicita seu principal oponente, o mais importante risco e, por que não, o maior medo: “O Indo-Pacífico logo representará mais da metade da economia global. … Caso a China… domine essa região vasta e crucial, ela seria capaz de vetar efetivamente o acesso dos EUA ao centro de gravidade econômica do mundo”. Em suma: “nosso objetivo é simples: impedir que qualquer um, inclusive a China, consiga nos dominar ou dominar nossos aliados.

Referindo-se à América Latina, a estratégia de defesa reconhece que “passamos a considerar nossa posição dominante como algo garantido, mesmo quando ela começava a nos escapar”. Como resultado, para o governo Trump “os interesses americanos também estão sob ameaça em todo o Hemisfério Ocidental”, isto é, a América Latina.

Diante desses diagnósticos, os documentos estratégicos de segurança e defesa nacionais do imperialismo dos EUA buscam fundamentar um projeto estratégico a partir de uma política reativa e violenta ao diagnóstico, que propõe algo impossível: “uma aposta ainda mais radical na conquista unipolar de um império militar global, capaz de impor pela força as regras do jogo e a arbitragem final dos Estados Unidos”.

Nesses termos, a política de Trump para a América Latina é, não apenas um retorno a políticas externas do século 19 (Doutrina Monroe) e do século 20 (Corolário Roosevelt), mas uma radicalização das agressões imperialistas na região. Esse é o sentido do autoproclamado Corolário Trump:

Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão valer a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger nossa pátria e nosso acesso a áreas geograficamente estratégicas em toda a região. Impediremos que concorrentes de fora do Hemisfério posicionem forças ou outras capacidades de ameaça, ou que detenham a propriedade ou o controle de ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”.

Explicitando seu caráter bélico, a estratégia de defesa detalha que “o ministério da guerra restaurará a dominância militar dos EUA no Hemisfério Ocidental”, visando proteger “nosso acesso a áreas estratégicas em toda a região” e “defender os interesses dos EUA”. Para o imperialismo dos EUA, trata-se de restabelecer as “prerrogativas dos EUA neste hemisfério, em consonância com os interesses dos EUA. Ou seja, a visão do imperialismo dos EUA para a América Latina permanece a mesma historicamente, a de mero “quintal” dos seus interesses, conforme afirmaram com todas as letras tanto o secretário de estado, Rubio, quanto o da guerra, Hegseth.

O caráter colonial, ou mais precisamente imperialista, dessa proposta de retomada da hegemonia na América Latina é explicitado sem meias palavras na estratégia de segurança nacional: o objetivo é “garantir o acesso a cadeias de suprimentos e materiais críticos” e a América Latina “possui muitos recursos estratégicos”. Trump determina, então, que o conselho de segurança nacional, com toda a comunidade de inteligência dos EUA, trabalhe para “identificar pontos estratégicos e recursos no Hemisfério Ocidental” para que “os EUA jamais dependam de qualquer potência externa para componentes essenciais — desde matérias-primas e peças até produtos acabados … Isso exigirá ampliar o acesso dos EUA a minerais e materiais críticos”.

A estratégia prevê que “os EUA devem ser proeminentes no Hemisfério Ocidental como condição para a nossa segurança”. Isso significa ignorar países, soberanias e interesses nacionais outros que não os dos EUA: “as condições para nossas alianças … devem estar condicionadas ao encerramento das influências externas antagônicas — abrangendo desde o controle de instalações militares, portos e infraestrutura crítica até a aquisição de ativos estratégicos em sentido amplo”. Ou seja, tudo para os EUA e nada para quem quer que seja: “queremos um Hemisfério que permaneça livre de incursões estrangeiras hostis ou da propriedade estrangeira de ativos-chave… e queremos garantir nosso acesso contínuo a locais estratégicos fundamentais”.

Além de ataques militares, cercos, sanções econômico-financeiras e chantagens, esses objetivos também podem ser alcançados com a instalação de governos vassalos ao imperialismo dos EUA nos países latino-americanos. “Nós vamos listar amigos estabelecidos no Hemisfério”, “listar campeões regionais”, e “Nós recompensaremos e incentivaremos os governos, partidos políticos e movimentos da região que estejam amplamente alinhados aos nossos princípios e à nossa estratégia”. E quando isso não der certo, “nós estaremos prontos para adotar medidas focadas e decisivas que promovam concretamente os interesses dos EUA” – como na invasão à Venezuela.

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