Ney Nunes. O criadouro do fascismo é o capitalismo.
Pôster soviético de 1937.
Cem Flores
25.05.2026
Republicamos o texto de Ney Nunes, O criadouro do fascismo é o capitalismo, postado no blog Página 1917 no último dia 17.
Ney Nunes é um camarada com longa militância comunista na luta de classes do Brasil, tendo atuado em várias lutas sindicais e compondo desde a fundação a direção do Centro Cultural Octávio Brandão – CCOB. Nesse recente texto, Nunes analisa as raízes do crescimento de forças políticas fascistas na conjuntura brasileira – que não desapareceram com a derrota de Bolsonaro em 2022 e o fracasso de sua aventura golpista. Sobre isso, basta ver, por exemplo, a resiliência de Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, mesmo após ter sua corrupção mais deslavada exposta publicamente e ter a mesma assumida pelo bolsonarismo.
Do nosso ponto de vista, acertadamente, o camarada vincula esse avanço, parte de um movimento internacional, à ofensiva de classe burguesa e imperialista em curso nos últimos anos – econômica, política e ideológica, e implementada por todos os governos da democracia (burguesa, obviamente) brasileira. O proletariado e demais classes trabalhadoras encontram-se desarmadas nessa conjuntura, sem uma alternativa real de organização e luta, tendo em vista a crise do movimento comunista e a hegemonia do oportunismo petista e seus satélites nos sindicatos e outras entidades.
“Diante desse quadro, não é de surpreender o crescimento da extrema-direita, uma escória que reúne um amálgama de forças políticas burguesas reacionárias e mafiosas, dispostas a dar continuidade e aprofundar todos os ataques contra o povo trabalhador.”
Portanto, a resolução dessa grave situação nacional é uma e inadiável: a construção de “uma alternativa de classe e revolucionária, para não apenas derrotar a escória reacionária, mas liquidar em definitivo seu criadouro, o capitalismo”.
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O criadouro do fascismo é o capitalismo
Ney Nunes
Muitos indagam com perplexidade: como a extrema direita cresceu tanto a ponto de ganhar o peso político-social que alcançou na atual conjuntura brasileira? O que teria acontecido para favorecer tal desenvolvimento? A “democracia” instaurada com a constituição de 1988 estaria ameaçada pelo fascismo? Só poderemos responder adequadamente a estas preocupações se buscarmos as determinações estruturais por trás da superfície dos fatos da politicagem burguesa.
Já são quase quarenta anos vivendo sob o regime político democrático burguês, onde o que prevalece é a alternância de governos que funcionam como gerentes do capital e se equilibram entre os interesses das diversas facções burguesas. Essa situação é agravada pela crise capitalista que esses governos administram sempre jogando as consequências nas costas da classe trabalhadora e das massas populares.
As seguidas derrotas como as reformas da previdência e trabalhista, as privatizações e a precarização do trabalho contribuíram pesadamente para a desmoralização e ceticismo da classe trabalhadora, mergulhada cada vez mais na desorganização e no individualismo. Tudo potencializado por uma ofensiva ideológica burguesa realizada através do governo, parlamento, judiciário, empresas, escolas e oligopólios midiáticos, auxiliados pelo crescimento exponencial da influência das seitas pentecostais. Todos, de forma articulada, trabalham diuturnamente pelo retrocesso na consciência de classe e no fomento das expectativas de saídas individuais por dentro do capitalismo.
Some-se a inexistência nesse período de uma alternativa frente a hegemonia da socialdemocracia petista e seus assemelhados no movimento sindical, mais um fator de enfraquecimento da consciência de classe e da organização para levar adiante as lutas operárias e populares. Chegamos assim, a uma situação de paralisia, descrédito e esvaziamento dos sindicatos, transformados em agentes de colaboração com o empresariado e governantes.
A saída burguesa para a crise capitalista foi intensificar o grau de exploração do proletariado e, ao mesmo tempo, submeter a economia brasileira aos ditames do sistema imperialista, retrocedendo a uma condição de país essencialmente exportador de produtos primários e importador bens industrializados. Não por acaso, temos mais de quarenta por cento dos trabalhadores na economia informal, enquanto os de carteira assinada sobrevivem, em sua esmagadora maioria, recebendo até dois salários mínimos.
Diante desse quadro, não é de surpreender o crescimento da extrema-direita, uma escória que reúne um amálgama de forças políticas burguesas reacionárias e mafiosas, dispostas a dar continuidade e aprofundar todos os ataques contra o povo trabalhador. A crise capitalista e suas consequências foram o criadouro perfeito para o seu desenvolvimento, proporcionando que a expressão política majoritária da extrema-direita, o bolsonarismo, se transformasse rapidamente em um fenômeno de massa, perfeitamente integrado ao regime, arrastando consigo setores da pequena burguesia, trabalhadores assalariados, além de segmentos populares das favelas e periferias das grandes cidades.
Portando, a “democracia” não está ameaçada pelo fascismo, pelo contrário, a tendência reacionária foi gestada no seu interior, alimentada pela crise capitalista e seus gestores políticos. As medidas antidemocráticas e policialescas são recursos que o regime político democrático burguês vem aplicando para se perpetuar em perfeita sintonia com a extrema direita. Na verdade, fascistas, liberais e socialdemocratas, a despeito de suas disputas eleitorais, estão inteiramente a disposição para servir aos interesses do capital e do imperialismo.
Os milhões de brasileiros iludidos pela retórica reacionária e histérica da extrema direita são a resultante dessas determinações estruturais, que combinadas com as derrotas do proletariado impediram, até aqui, o erguimento de uma alternativa de classe e revolucionária, para não apenas derrotar a escória reacionária, mas liquidar em definitivo seu criadouro, o capitalismo.

