Fotos das manifestações da extrema-direita entreguista bolsonarista no dia da independência do Brasil, em São Paulo, em 7 de setembro de 2025 (esquerda) e 2026 (direita). A existência e o fortalecimento de governos vassalos ao imperialismo dos EUA na América Latina também fazem parte da ofensiva imperialista de Trump na região.
Cem Flores
17.09.2026
A ofensiva imperialista de Trump 2 na América Latina é ampla, múltipla, direta e explícita, atropelando qualquer princípio da diplomacia ou norma internacional e deixando de lado os hipócritas floreios retóricos liberais. Composta por diversas e sucessivas ameaças, chantagens, campanhas ideológicas, intervenções e ações nos âmbitos militar, econômico-financeiro e político, essa ofensiva visa, de forma abertamente declarada, expandir ainda mais o poder e a influência dessa potência imperialista e de seus capitais em todo o continente.
Dobrar todas as nações da América Latina aos pés dos EUA e seus atuais interesses, com o apoio interno das classes dominantes desses países dominados e de governos submissos e alinhados política e ideologicamente ao trumpismo, eis o objetivo maior do imperialismo dos EUA nesse novo round de competição interimperialista com a China na região.
Logo no início desse segundo governo, a postura de Trump sobre o canal do Panamá demonstrou de forma cristalina sua política para o continente. O canal é uma hidrovia de 82 quilômetros que liga os oceanos Pacífico e Atlântico, trajeto comercial estratégico para o mundo. Durante quase um século, ele foi controlado diretamente pelos EUA. Desde os anos 2000, a China vinha ampliando sua presença no canal. Assim que retornou ao poder, Trump afirmou que “a China está operando o Canal do Panamá, e nós não o demos à China. Nós o demos ao Panamá, e vamos tomá-lo de volta”. Em poucos meses, por meio de pressões e ameaças, os EUA enquadraram o governo do Panamá, que cancelou acordos com a China e permitiu o reforço da presença militar ianque no canal e condições mais proveitosas para os seus capitais monopolistas – o que tem sido revidado pelo imperialismo chinês.
As intervenções imperialistas ianques recentes mais graves na América Latina, as de caráter militar mais intenso, no entanto, voltaram-se contra Venezuela e Cuba, ambas ainda em curso. Tais intervenções buscam derrotar e subjugar (com sucesso no caso da Venezuela) o que até então eram os governos mais abertamente de esquerda da região, com destaque para o regime cubano, exemplo de Revolução vitoriosa no continente e de tentativa de construção do Socialismo ao longo de décadas. Concomitantemente, busca jogar sobre toda a região a ameaça de intervenção militar e ingerência externa extrema, um alerta para qualquer povo latino-americano que não se curvar aos interesses imperialistas dos EUA.
- A “mudança de regime” na Venezuela
A intervenção militar na Venezuela ocorreu após anos de ameaças, sanções e tentativas internas de golpes contra os governos bolivarianos, intensificadas em 2025 com saques, cercos e ataques militares pontuais. Na madrugada de 3 de janeiro de 2026, os EUA bombardearam o território venezuelano e sequestraram o presidente e a primeira-dama do país – até hoje presos nos EUA. Na ocasião, Trump afirmou abertamente que ia colocar na Venezuela as “grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos”, e para isso iria “governar o país até que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa”. Uma ação imperialista nua e crua!
De fato, desde a invasão de janeiro, são crescentes a expropriação e o controle das riquezas venezuelanas – especialmente as receitas multibilionárias do petróleo – e do próprio governo local pelos EUA. Apesar da manutenção de alguns membros do antigo governo Maduro, as mudanças institucionais e as medidas do governo de Delcy Rodríguez mostram-se inteiramente alinhadas aos interesses dos EUA e sob o aval, supervisão e elogio ianque. Por exemplo, ainda em janeiro, o novo governo venezuelano modificou a legislação do setor petrolífero, com diminuição do controle estatal e estímulo para o investimento estrangeiro. Desde então, o tesouro dos EUA tem gerenciado as receitas do petróleo exportado, se apropriando, diretamente, da principal riqueza do país. Em seguida, ocorreu uma reforma na lei da mineração, no mesmo sentido, incluindo a questão de minerais estratégicos. Uma cronologia detalhada e a análise dessa rendição podem ser encontradas aqui.
Concomitantemente, as relações diplomáticas, comerciais e militares entre EUA e Venezuela, há anos rompidas, foram reatadas e fortalecidas. “O mais importante é que as empresas dos Estados Unidos estão retornando”, disse Delcy à revista Time. O mesmo tem acontecido com Israel, cujas relações diplomáticas estavam rompidas desde 2009. Ambas reaproximações têm gerado críticas e protestos, inclusive de setores chavistas.
O ataque militar dos EUA à Venezuela e a derrubada do seu governo, a explícita tutela do novo governo venezuelano pelo imperialismo dos EUA e a imposição aberta dos interesses dos monopólios ianques no país são fatores que comprovam a derrota sofrida pelo regime “bolivariano”. Essa derrota também comprova os limites de um modelo de busca de um desenvolvimento capitalista “autônomo”, sem alteração da estrutura produtiva do país, com a manutenção da propriedade capitalista e da classe dominante burguesa.
À esquerda, o secretário do interior dos EUA visita Delcy Rodríguez, em Caracas, em março de 2026. À direita, dois meses depois, general do Comando Sul dos EUA e responsável pela captura de Maduro realiza um exercício militar na Venezuela.
- Os ataques imperialistas cada vez mais ferozes contra Cuba
A intervenção ianque em Cuba ocorre sobretudo por meio do reforço sem precedentes do criminoso bloqueio econômico à ilha e de ameaças e cercos militares. O objetivo imediato é sufocar e desestabilizar Cuba, provocando uma crise humanitária em larga escala. Como afirmou cinicamente o fascista Trump: “acho que Cuba não vai sobreviver”. Com a severa escassez de combustíveis, oriunda do bloqueio imperialista, a economia de Cuba está travada e há longos e constantes apagões e falhas crescentes em sua rede elétrica. Os impactos nas já duríssimas condições de vida do povo cubano são imensos: a miséria cresce, os serviços públicos pioram, o acesso a alimentos e a água potável estão cada vez mais restritos. Em recente entrevista, o presidente cubano Díaz-Canel afirmou: “já são mais de 64 mil crianças com seus esquemas de imunização atrasados, o que nunca aconteceu. A mortalidade infantil, que era de quatro a cinco mortes a cada mil nascidos vivos — uma taxa de países desenvolvidos — mais que dobrou”. Os demais países latino-americanos, mesmo os com governos “de esquerda” como o Brasil e o México, limitam-se à retórica e a diminutas ajudas humanitárias para não se contraporem de fato aos interesses de Washington.
Nesse cenário, o regime cubano implementou um amplo conjunto de reformas no sistema político e econômico. Apesar de serem declaradas oficialmente como medidas necessárias para o avanço do socialismo, na prática, são recuos que reforçam características privadas, mercantis e capitalistas do regime (maior liberdade econômica para o setor privado, o mercado financeiro e o capital estrangeiro; flexibilização de salários etc.) e, por isso mesmo, podem enfraquecer a força operária e popular necessária tanto para um enfrentamento a uma possível invasão ianque à ilha como para o aprofundamento de um caminho ao socialismo.
Independentemente desses recuos – não apenas táticos, mas possivelmente também, em alguma medida, estratégicos, e na direção oposta à do reforço da construção socialista – é tarefa dos comunistas a defesa intransigente da Revolução Cubana e da sua resistência aos ataques brutais do imperialismo dos EUA. Os comunistas devem se juntar a todos os interessados em ações de solidariedade internacionalista a Cuba, ajudas humanitárias para envio de recursos, medicamentos, energia, alimentos etc. e em manifestações anti-imperialistas e em defesa do povo cubano!
Cubanos protestam contra o cerco dos EUA na tradicional Marcha das Tochas.
Além da Venezuela e de Cuba, outros países da região estão sofrendo com sanções, tarifaços e pressões econômicas e políticas constantes por parte do imperialismo dos EUA. Um exemplo é o México, que tem sido constantemente chantageado para atender aos interesses dos EUA de redução do fluxo migratório e maior militarização na região sob a desculpa de combate ao tráfico de drogas.
- As burguesias latino-americanas são serviçais do imperialismo dos EUA
Outra forma de intervenção imperialista ianque nas nações latino-americanas tem sido a distribuição de apoios e recompensas a aliados regionais mais submissos aos interesses dos EUA e àqueles mais alinhados política e ideologicamente ao trumpismo.
Dois exemplos são a Argentina e El Salvador. Os EUA têm apoiado abertamente (e com dezenas de bilhões de dólares) o governo de extrema-direita de Milei, que conduz uma forte ofensiva de classe contra os trabalhadores para recuperar as condições de acumulação capitalista no país. Em outubro de 2025, o tesouro dos EUA e o banco central da Argentina fecharam um acordo de 20 bilhões de dólares para ampliar reservas locais e estabilizar o mercado financeiro argentino. Conforme disse Trump, “estamos dando ao presidente da Argentina nosso total apoio e endosso”. Esse apoio, inclusive, é utilizado abertamente para intervir na política interna argentina, por meio de chantagens: “se ele [Milei] perder [nas eleições parlamentares], não vamos ser tão generosos com a Argentina”.
O governo de Milei também vem reforçando as relações diplomáticas e os acordos comerciais com os EUA. Enquanto a Argentina entrega sua soberania e seus recursos, os EUA entregam algumas vantagens, como redução de tarifas comerciais. Como prova de fidelidade ideológica de Milei a Trump e à extrema-direita, a Argentina também reforçou seus laços diplomáticos com Israel.
Subserviência semelhante tem ocorrido em El Salvador, governado pelo ditatorial Bukele. Nesse caso, o país disponibilizou seus campos de concentração para receber os prisioneiros e imigrantes deportados de Trump. Barreiras a produtos ianques e taxações às big techs têm sido removidas. Em troca, os EUA reduziram tarifas comerciais relacionadas ao país – e também para Argentina e Equador, entre outros.
O gusano secretário de estado dos EUA encontra o ditador Bukele em El Salvador, 2025.
Conjuntamente às ameaças e agressões, essas medidas têm alimentado uma verdadeira onda de governos de extrema-direita, fascistas, na América Latina, região onde há muito se observam ciclos políticos eleitorais bastante sincronizados. Exemplos mais recentes dessa onda são o Peru, com a filha do genocida Fujimori assumindo a presidência e decretando estado de sítio, e a Colômbia, com Espriella, ambos alinhados com o trumpismo – que já receberam a visita do secretário de estado Marco Rubio para tratar de novos acordos benéficos aos EUA nos dois países.
Domínio de governos de direita e extrema-direita vassalos ao imperialismo dos EUA na América do Sul. O infográfico identifica erroneamente o atual governo da Venezuela.
Esses e demais governos de direita e extrema-direita da América Latina conformaram junto aos EUA a coalizão “Shield of the Americas” (Escudo das Américas), uma iniciativa imperialista com o artifício de combate a cartéis de drogas e o “terrorismo” na região. Na realidade, seus objetivos são, principalmente, expandir o poder e a influência ianque em seu “quintal”, ampliar a repressão a seus inimigos políticos e fomentar regimes burgueses autoritários no continente. Essa coalizão já tem ampliado acordos estratégicos e operações militares norte-americanas na região.
No entanto, mesmo diante dessa ampla e intensa ofensiva de um ano e meio do segundo governo Trump, a presença chinesa na região segue bastante expressiva e crescente, com a manutenção de acordos, investimentos estratégicos e peso comercial. O capital chinês encontra-se enraizado em setores de infraestrutura, indústria extrativista e de energia elétrica da região, e avança em setores high tech. Segundo a Bloomberg, “o comércio de bens com a América Latina cresceu de pouco mais de US$ 14 bilhões em 2000 para mais de US$ 500 bilhões em 2024”. Hoje, a China é, por larga vantagem, o principal parceiro comercial da América do Sul. A Argentina de Milei, assim como vários países da região, convive com a expansão dos carros elétricos da gigante chinesa BYD e a compra massiva de recursos e commodities latino-americanas por parte da China. Em El Salvador de Bukele, perto do palácio presidencial, encontra-se um complexo de prédios em construção com apoio de capital chines. No Peru, a China realizou o que é possivelmente o maior investimento individual do país na região, o megaporto de Chancay, o maior da região, ao custo de quase R$ 20 bilhões. Esses indícios apontam para a continuidade do conflito interimperialista na região, em razão da presença chinesa hoje não ser fácil nem rapidamente substituída – o que a própria estratégia de segurança nacional dos EUA reconhece.
Xi Jinping discursa no fórum China–Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), em Pequim, 2025. O encontro resultou na elaboração de um Plano de Ação Conjunta para fortalecer a cooperação em áreas estratégicas entre 2025 e 2027.
- Ofensiva do imperialismo dos EUA sobre o Brasil e a ausência de reação anti-imperialista
Desde sua formação colonial, o Brasil nunca abandonou sua posição subordinada, de país dominado. As transformações econômicas, sociais e políticas ocorridas neste território ao longo de 5 séculos, mais notadamente, sua independência política, no século 19, e a consolidação do modo de produção capitalista, no século 20, não alteraram tal posição e característica – de forma semelhante aos demais países latino-americanos. Ciclo econômico após outro, metrópole/potência imperialista dominante após outra (Portugal, Inglaterra, EUA, agora desafiados pela China), luta anticolonial/anti-imperialista após outra, a posição do país na divisão internacional do trabalho e nas atuais cadeias globais de valor do sistema imperialista mundial permaneceu a mesma: fundamentalmente, um produtor de matérias-primas e dos insumos necessários aos monopólios dos países dominantes.
Neste século 21, a partir de estímulos e mudanças externas e por meio de ajustes ativos da burguesia local às novas condições da economia mundial, o Brasil tem passado por um processo de regressão a uma situação colonial de novo tipo, marcada pelo reforço da condição dominada e pela desindustrialização e reprimarização da estrutura econômica. Esse processo é concomitante, não por coincidência, ao crescimento da presença chinesa na economia brasileira, principalmente pelas exportações de soja, minério de ferro, petróleo e outras commodities primárias, e importação de produtos industrializados. Internamente, tais transformações concretas tanto desarticularam cadeias industriais instaladas no país quanto articularam outras, no sentido de ampliar o papel do país de fornecedor de insumos primários com baixo valor agregado, o que, por sua vez, gerou inúmeros impactos nas bases materiais da luta de classes locais e na devastação dos recursos naturais e biomas brasileiros.
Nessa adaptação subordinada, porém ativa (porque lucrativa!), do capitalismo brasileiro às demandas e interesses de potências imperialistas, o papel da burguesia local de aliada ao capital externo se fez mais uma vez presente, explicitamente. Não há, portanto, qualquer espaço para ilusões de um possível caráter “anti-imperialista” da burguesia brasileira, seu estado e seus governos. Como afirmamos no nosso Documento Base:
“Pelo menos desde a independência, o capital externo sempre esteve solidamente aliado às classes dominantes locais, que também sempre aceitaram sua posição de sócio menor. Assim, constitui uma ilusão reformista e oportunista ver qualquer papel “anti-imperialista” na burguesia brasileira e tratá-la como aliada do proletariado e das massas trabalhadoras. Isso não passa de uma ideologia burguesa para defender a subordinação da classe operária e manter a escravidão capitalista”.
A ausência de qualquer papel anti-imperialista das variadas frações da burguesia no Brasil foi comprovada novamente diante das suas respostas e de seus representantes à atual ofensiva do imperialismo ianque ao país e aos países vizinhos.
Em prosseguimento à ofensiva comercial e geopolítica global e após tarifar o aço e o alumínio importado em 25%, Trump anunciou uma tarifaço aos demais produtos da maioria dos países, em 2 de abril de 2025. Na ocasião, o Brasil foi incluído no grupo da tarifa base, de 10%, fato visto com alívio pelo governo Lula. Posteriormente, o vice-presidente Alckmin chegou a minimizar que “10% global é para todos. Nós não perdemos competitividade, se é 10% geral”. Porém, como sabemos, esse só foi o primeiro e mais tímido episódio do tarifaço contra o Brasil…
Em 9 de julho do mesmo ano, em uma agressão imperialista escancarada ao país, Trump elevou para 50% as tarifas sobre todos os produtos brasileiros exportados para os EUA. A virulência desse ataque só foi superada pelo tarifaço imposto (e respondido) pela China. Como afirmamos à época:
“Trump alegou como justificativas a suposta perseguição judicial a Bolsonaro e ao seu movimento, após a tentativa fracassada de golpe de estado; a defesa dos grandes monopólios de tecnologia e de redes sociais dos EUA, também impactados pelas investigações contra o bolsonarismo; e a atuação dos BRICS (articulação encabeçada pelo seu rival imperialista central, a China), cuja cúpula ocorreu dias antes no Brasil. Alegou ainda, de forma mentirosa, um suposto déficit dos EUA nas transações comerciais com o Brasil. Dias depois, os EUA revogaram os vistos de membros do STF e da PGR, além de prosseguirem com novas ameaças. O ataque foi intensificado com a abertura de uma investigação comercial contra o Brasil, que pode resultar em ainda mais sanções por parte dos EUA”.
Daquela vez, o alívio se transformou em desespero, mas a reação dos empresários e do governo brasileiro, além de uma ou outra bravata eleitoreira sobre “soberania nacional” (que continua até hoje…), foi uma não-reação, de tão limitada e dócil. A lei de reciprocidade econômica, aprovada por unanimidade no congresso, e outros instrumentos de uma eventual soberania burguesa para tais situações nunca foram usados. Seguindo a tradicional submissão dos capitais nacionais ao patrão ianque, a resposta do capitalismo brasileiro ao ataque imperialista foi basicamente insistir na negociação, inclusive com atitudes humilhantes e contrapropostas que aprofundam, ainda mais, a submissão nacional. Alckmin foi o encarregado de coordenar esse esforço nacional da burguesia, juntamente com várias entidades patronais e representantes estatais. Além do governo representar diretamente os interesses dos patrões nesse caso (e em todos os demais), o bilionário brasileiro Joesley Batista foi diretamente a Trump defender seus interesses e obter a redução de tarifas para exportações de carne.
À esquerda, governo escuta empresários em primeira reunião após o tarifaço de julho de 2025. Segundo o presidente da confederação nacional da indústria à época, “o mais importante agora é intensificar as negociações e o diálogo para reverter essa decisão”. À direita, após meses de negociações, Lula aperta a mão de Trump, reforçando a “química” e a “petroquímica” da dupla – o que, segundo o próprio PT, evidenciou o “pragmatismo do presidente Lula ao superar barreiras ideológicas” (!).
Entre julho e outubro de 2025, foram organizadas diversas reuniões e comitivas de políticos empresários do Brasil e dos EUA para reduzir as tarifas. Nessas rodadas, numerosas exceções à regra foram aplicadas ao tarifaço, sobretudo aquelas benéficas aos capitais ianques. O resultado foi uma redução bastante significativa do impacto econômico geral desse ataque imperialista de julho de 2025, apesar de o mesmo não ser verdade para alguns setores específicos.
No entanto, as rodadas de negociação, que continuaram após a implementação das exceções, serviram para ampliar e atualizar a pauta dos interesses dos EUA no Brasil. Ou seja, não apenas o tarifaço não foi por completo revertido (nem contido de vez) como também possibilitou ao imperialismo ianque reforçar uma agenda de maior submissão nacional da maior economia da América Latina. Nessa agenda, destacam-se: a) “cooperação” sobre segurança continental, de fronteiras e combate ao crime organizado, com treinamento e reforço de operações militares conjuntas etc.; b) acesso e exploração de terras raras brasileiras, que contêm recursos naturais centrais para a concorrência interimperialista atual; c) implementação de data centers e outros interesses das big techs ianques. Em todos esses pontos, os empresários e governos locais, por meio da ação ou da omissão, têm dado passos no sentido de garantir os interesses dos EUA.
A negociação da soberania brasileira entre Lula e Trump, na charge de Claudio Hebdô.
Concomitante a essa ampla unidade capitalista nacional submissa, na tentativa de reatar laços estremecidos com a potência imperialista dominante, o governo e os empresários também aproveitaram a turbulência comercial para jogar qualquer impacto nas costas dos trabalhadores. Como dissemos à época:
“Conforme antecipam os anúncios já realizados pelo governo, além de dinheiro barato para as empresas, com linhas de crédito específicas em bancos públicos e compra de mercadorias atingidas via estado, haverá também medidas que atingem diretamente os trabalhadores, que podem envolver redução de jornada e salário, lay-off (suspensão de contrato), férias coletivas, banco de horas, contrato intermitente, retrabalho e antecipação de feriados”.
A típica humilhação e entreguismo das classes dominantes locais e do seu governo em 2025 e início de 2026, que também incluiu a inação frente a uma invasão militar e sequestro do presidente de um país fronteiriço (Venezuela), não foi suficiente para segurar mais uma onda de ataques dos EUA ao Brasil. Aliás, foi o terreno pelo qual a potência ao norte conseguiu permanecer em ofensiva.
Em junho e julho de 2026, os EUA realizaram uma nova rodada de pressões, ameaças, chantagens e tarifas contra o Brasil. Esse ataque foi composto por três eixos principais: a) classificação do PCC/CV como grupos terroristas internacionais, com risco de ações militares estrangeiras e impactos possíveis em futuras sanções – algumas empresas brasileiras já foram sancionadas, sob acusações de comporem rede de lavagem de dinheiro do PCC; b) investigações comerciais sobre Pix e outros e um tarifaço de 25%, menos abrangente, mas que atinge cerca de 20% da pauta exportadora brasileira; c) tarifaço adicional de 12,5% contra a importação de bens supostamente fabricados com trabalho forçado. Somadas, a previsão é que essas sanções e tarifas possuam novamente um impacto limitado na economia brasileira como um todo, porém alguns setores serão mais prejudicados, como antes, e o Brasil continuará na defensiva frente aos movimentos agressivos e pouco previsíveis do imperialismo ianque.
Nessa nova rodada de ataques, que contou ainda com uma cereja do bolo, a prorrogação “simbólica” do tarifaço de 2025 (50%), anulado há alguns meses pela justiça dos EUA, os movimentos da burguesia brasileira e do governo foram similares à rodada anterior. De um lado, alguns discursos com bravatas – falando inclusive em aplicação de reciprocidade, sobretudo visando retornos eleitorais. De outro, e na prática, a insistência na via da negociação submissa e do apoio direto ao empresariado.
Alckmin foi à imprensa nacional acalmar a burguesia, lembrando que uma política “olho por olho” pode deixar “os dois cegos”(!). Lula foi à imprensa ianque representar os interesses do capital nacional sócio dos EUA. Em publicação no Washington Post, Lula considerou Trump e ele próprio como “líderes das duas maiores democracias e economias das Américas” e que ambos “podem buscar relação mutuamente benéfica entre nossos países”. Disse ainda que “as novas tarifas são um erro estratégico: elas prejudicam a economia dos Estados Unidos” (!) e citou a gestão de Bush filho como exemplo de diplomacia e política externa (!!!).
Para socorrer mais uma vez os empresários brasileiros impactados com o novo tarifaço, o governo disponibilizou um novo pacote de benesses: R$ 18,5 bilhões de crédito barato aos patrões. E, dessa vez, o programa de auxílio nem mesmo exige que as empresas atendidas garantam os empregos de seus funcionários. O “povo brasileiro” da campanha eleitoreira do governo é só um: os empresários!
Em agosto, novamente ele, Joesley Batista (JBS) se encontrou com Trump e o convenceu de reduzir a tarifa sobre a carne brasileiro. O argumento “nacionalista” (sic!) foi que isso reverteria em mais oferta de carne nos EUA e ajudaria a reduzir os preços para o consumidor de lá. Importante lembrar um dos braços empresariais desse mesmo burguês “patriota” doou US$ 5 milhões para a cerimônia de posse de Trump. Em seguida, Lula e Trump conversaram por telefone, e alguns passos foram dados para uma retomada das negociações – que, até o momento, foram benéficas exclusivamente à potência imperialista.
Como é sabido, o atual ataque do imperialismo ianque é apoiado e organizado também por meio da extrema-direita nacional, inclusive desde o solo norte-americano. Em matéria de servilismo e vassalagem, os Bolsonaros e o seu movimento de extrema-direita, fascista, são vanguarda, como recentemente abordamos na publicação sobre a nova/velha candidatura de Bolsonaro. Entre 2025 e 2026, as principais lideranças bolsonaristas (isto é, os filhos do golpista preso) pediram intervenção militar ianque nos EUA; defenderam, mais de uma vez, o tarifaço para vingar o pai; reuniram-se com Trump pela designação do PCC/CV como organizações terroristas internacionais; colocaram à disposição o possível governo de transição para Rubio; sugeriram o abandono do Pix e a construção de um novo acordo de livre-comércio entre Brasil e EUA.
- Derrotar a ofensiva trumpista passa por fortalecer o proletariado e demais explorados na América Latina na luta de classes!
O dramático caso venezuelano e a atual rodada de rebaixamento e engodo do petismo no Brasil demonstram, mais uma vez, que não há atalho para se combater de fato à ofensiva do imperialismo ianque e seus serviçais da extrema-direita. Ou a resistência a essa realidade se centra na luta e organização do proletariado e demais trabalhadores, contra as classes dominantes locais subordinadas e contra todo esse sistema que nos leva à barbárie e a uma nova colonização, ou continuaremos acumulando derrotas.
Como afirmamos em nossa Declaração Política do 4º Encontro de Organização:
“Uma demarcação de campo fundamental para os comunistas, nos diferenciando do oportunismo, é que não pode ser posição dos comunistas apoiar setores da burguesia, do inimigo de classe, para escolher de qual patrão queremos ser escravos. Os comunistas devem combater tanto as posições burguesas quanto os seus defensores oportunistas. Na conjuntura atual, essa posição de princípio comunista é válida para as diferentes candidaturas burguesas nas eleições de 2026, assim como para combater conjuntamente os ataques imperialistas dos EUA ou o reforço a uma dependência econômica do imperialismo chinês, sem escolher campos imperialistas ou um pseudo ‘multilateralismo’. Pelo contrário, o que a conjuntura exige dos comunistas é o reforço de sua posição revolucionária, a crítica radical ao imperialismo, à burguesia e ao oportunismo, a reconstrução do Partido Comunista em nosso país no seio do proletariado e das massas trabalhadoras. Estejamos à altura dessas imensas tarefas!”







