Manifestação da Juventude Comunista da Grécia (KNE) em apoio às mobilizações estudantis francesas em frente à embaixada da França em Atenas, em 18 de outubro: “Solidariedade com as lutas da juventude na França! A esperança está na luta dos povos!”.
Cem Flores
03.11.2026
O Partido Comunista da Grécia (KKE) divulgou em seu jornal, no dia 27 de outubro, um pequeno artigo com a avaliação do KKE sobre o resultado das eleições presidenciais burguesas no Brasil. O artigo foi traduzido do grego para o inglês pelo site In Defense of Communism. O Cem Flores publica, a seguir, a tradução para o português.
O KKE define os governos de Lula e do PT como representantes da “estratégia de um setor do capital”, de uma fração da burguesia brasileira. A essa definição, nós, do Cem Flores, acrescentamos: Lula, o PT e seus governos têm, concretamente, a ambição – e propostas políticas concretas – de representar o conjunto dos interesses das classes dominantes brasileiras, adotando medidas em benefício do capital financeiro (juros altos), nacional (empréstimos subsidiados e isenção de impostos) e internacional (que não pagam imposto sobre seus investimentos no mercado de capitais); do agronegócio (planos safra recordes); da burguesia industrial (nova indústria brasil) etc.
Coerente com sua linha política comunista de denunciar as políticas de colaboração (na verdade, de subordinação) de classes, que subordinem os interesses do proletariado e das classes trabalhadoras aos interesses da burguesia, e de não dar nenhum apoio a partidos burgueses, o KKE definiu essa nova eleição de Lula como o começo de “mais uma rodada de ilusões socialdemocratas sobre a possibilidade de um capitalismo mais humano”. Essas ilusões são causadas por discursos e políticas do PT e de seus partidos-satélite na “esquerda” que visam apenas “suavizar as arestas mais agudas de políticas pró-monopólios e contrárias ao povo”.
Avaliamos que essa posição política do KKE está, no geral, alinhada com a que definimos em nossos documentos como, entre outros, a Declaração Política do nosso 4º Encontro de Organização, “Os Comunistas não devem escolher qual inimigo de classe apoiar”, de dezembro de 2025, e “Uma Posição Comunista sobre as Eleições Burguesas de 2026 no Brasil”, de setembro de 2026.
O site In Defense of Communism também publicou um artigo sobre a posição do PCB e do PCBR de apoio ao “socialdemocrata” Lula no segundo turno, que termina por destacar, concretamente, as diferenças políticas entre o KKE e o PCB/PCBR. O PCBR defendeu uma “luta eleitoral unificada contra o Bolsonarismo”, não obstante “as políticas social-liberais de Lula, suas concessões ao capital monopolista e suas alianças com setores da burguesia”. Já o PCB atribui o crescimento da extrema-direita no Brasil, parcialmente, aos próprios governos do PT, às “consequências da colaboração de classes e de políticas social-liberais que priorizaram concessões ao grande empresariado, ao capital financeiro e a interesses conservadores em detrimento das demandas dos trabalhadores”. O artigo destaca a convergência entre PCB e PCBR no “mesmo objetivo eleitoral imediato”.
Quanto a nós, avaliamos que a conjuntura brasileira deste ano, especialmente as campanhas e os resultados do primeiro e do segundo turnos das eleições gerais burguesas, respaldam e confirmam nossa avaliação de dezembro de 2025, na Declaração Política do 4º Encontro de Organização do Cem Flores:
“O atual governo burguês de Lula consolida o programa hegemônico da burguesia e avança na sua implantação
16. Na conjuntura brasileira da luta de classes atual, um aspecto central de demarcação de campo entre comunistas e oportunistas é o reconhecimento do caráter burguês do governo Lula. Mais do que uma mera definição formal, cabe aos comunistas tirar todas as consequências desse fato para a definição de sua posição política, para a construção de sua atuação no seio do proletariado e das massas e para travar, de uma posição justa, as lutas de classes sindicais, econômicas, políticas e ideológicas em curso no país…
Diante das eleições de 2026, todas as disputas políticas institucionais burguesas já estão marcadas por essa disputa eleitoral
27. Nesse quadro de intensificação de conflitos entre facções políticas burguesas, o apodrecido sistema político se prepara para as eleições gerais de 2026, momento central de disputa em torno da gestão do estado capitalista no país e do comando da exploração política e econômica dos trabalhadores. Os diversos representantes políticos da burguesia e seus partidos – ‘esquerda’, direita e extrema-direita – estão em plena corrida por alianças eleitoreiras, financiamentos patronais e nomes para as chapas. A disputa concreta no cenário atual para as eleições de 2026 é, por um lado, sobre qual arco de alianças burguesas Lula e o PT serão capazes de construir (tentando reeditar ou mesmo ampliar, ainda mais à direita, a tal da ‘frente ampla’) e, por outro, qual será o candidato da extrema-direita. A disputa entre ‘esquerda’ e extrema-direita é, portanto, sobre qual desses polos eleitoreiros conseguirá atrair majoritariamente as diferentes frações burguesas e seus representantes políticos (a direita, o chamado ‘centrão’). Nessa disputa, ambos os lados, com todas as suas diferenças, estão comprometidos com a gestão do capital e seu programa hegemônico, inclusive com a perspectiva de ampliar o arrocho sobre os trabalhadores a partir de 2027. Portanto, na atual conjuntura da luta de classes no Brasil, as eleições – mecanismo pelo qual a burguesia busca legitimar sua dominação de classe – não são momentos de democracia real para as massas exploradas, pois não há qualquer possibilidade de seus interesses próprios se concretizarem por meio das instituições da classe inimiga. Assim, essas são eleições da e para a burguesia e não do povo!
29. O cenário para 2026 aponta para a candidatura de Lula à reeleição, com favoritismo diante das candidaturas da extrema-direita e da direita…
30. Como em 2018 e em 2022 (e, com poucas variações, em todas as eleições presidenciais desde 1989), a absoluta maioria da ‘esquerda’ deve se subordinar ao governismo e à candidatura de Lula. A autoproclamada ‘esquerda radical’, que normalmente lança candidatos de primeiro turno, já confirma a natureza faz de conta dessas candidaturas ao ratificar de antemão o voto em Lula no segundo turno. No entanto, como já se comprovou na prática inúmeras vezes, esse não é o caminho para enfraquecer nem o fascismo, nem a ofensiva burguesa, que continuaram sob o petismo, muito menos o de fortalecer a posição proletária na luta de classes, tendo em vista que essa posição representa subordinação à burguesia. Nessas condições, os comunistas não devem cair nessa velha armadilha eleitoreira e na chantagem de terem que escolher um inimigo de classe para se apoiar institucionalmente”.
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Partido Comunista da Grécia (KKE)
Brasil: Lula derrota o Bolsonaro, de extrema-direita, e alimenta ilusões socialdemocratas
Artigo publicado no Rizospastis, órgão do Partido Comunista da Grécia (KKE), na terça-feira, 27 de outubro de 2026.
No segundo turno da eleição presidencial no Brasil, realizado em meio a uma polarização política extrema, o vencedor foi o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de 80 anos, um socialdemocrata que obteve 51,8% dos votos (64,2 milhões de votos), derrotando o candidato da extrema-direita neoliberal Flávio Bolsonaro, de 45 anos, filho mais velho do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, que recebeu 48,21% (59,8 milhões de votos). O resultado inaugura mais uma rodada de ilusões socialdemocratas sobre a possibilidade de um capitalismo mais humano.
Em oposição a Bolsonaro, que é abertamente pró-EUA, Lula apresentou a estratégia de um setor do capital que prioriza alianças com a União Europeia, a China e a Rússia em nome do “interesse nacional”, supostamente visando salvaguardar os recursos naturais do país e proteger o meio ambiente. Lula, que tira proveito de sua origem na classe operária, como um ex-sindicalista metalúrgico, serviu-se dessa estratégia ao longo de seus três mandatos presidenciais anteriores e continuará a fazê-lo em seu quarto mandato, recorrendo, em certos momentos, a conhecidas políticas keynesianas para suavizar as arestas mais agudas de políticas pró-monopólios e contrárias ao povo.
Em seu discurso de vitória, o presidente reeleito declarou que deseja representar todos os 205 milhões de brasileiros e prometeu mudar “a forma como o país é governado”.
Lula e as diversas forças socialdemocratas e neoliberais que o apoiam estão fomentando uma nova rodada de ilusões sobre “um sistema de exploração mais humano”. Ao fazê-lo, eles buscam manipular o povo, apresentando-se como um baluarte contra a extrema-direita e o fascismo. No entanto, como tem sido demonstrado repetidamente, essas mesmas forças abrem caminho para os elementos reacionários do sistema, aproveitando-se da fraqueza temporária das forças revolucionárias comprometidas com a ruptura com o poder do capital e da ausência de um Partido Comunista forte.
Por sua vez, Flávio Bolsonaro recusou-se a reconhecer o resultado da eleição e anunciou que buscaria a sua anulação, argumentando, principalmente, que a votação foi estendida por duas horas adicionais em certos distritos eleitorais — uma decisão que, segundo ele, beneficiou seu oponente.
De acordo com uma análise inicial dos resultados feita pelo jornal O Globo, a taxa de comparecimento às urnas atingiu 81%. Lula e a aliança liderada pelo seu partido socialdemocrata, o Partido dos Trabalhadores (PT), tiveram um desempenho particularmente bom nas regiões mais pobres do Nordeste, onde programas de subsídio para a compra de alimentos são amplamente utilizados, bem como nas grandes cidades, como Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.
Reações internacionais refletem rivalidades geopolíticas
As reações internacionais à reeleição de Lula são bastante reveladoras, especialmente considerando que a América Latina se tornou, recentemente, um ponto central do confronto entre os Estados Unidos e a China pela supremacia imperialista.
Uma eventual vitória de Bolsonaro, que contava com o apoio dos EUA, teria fortalecido ainda mais a formação do “Escudo das Américas”, uma aliança promovida por Washington com os governos burgueses da Argentina, Chile, Peru e Colômbia. Essa iniciativa faz parte dos esforços dos EUA para consolidar seu domínio sobre o que chamam de “Hemisfério Ocidental”, em meio à disputa com a China e a Rússia.
Nesse contexto, Donald Trump Jr., filho do presidente dos EUA, Donald Trump, criticou a extensão de duas horas na votação da eleição presidencial brasileira, comentando:
“Se um governo conservador no Brasil fizesse isso, todos na grande mídia americana perderiam a cabeça; mas imagino que eles simplesmente optam pelo silêncio, porque tudo isso está sendo feito em nome da causa.”
Dmitry Peskov, porta-voz do presidente russo, afirmou que Lula “faz muito não apenas para desenvolver as relações bilaterais, mas também para promover processos dentro do BRICS e de outras organizações, além da cooperação com a Rússia no nível internacional”.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, parabenizou Lula, declarando que “a China está pronta para trabalhar com o Brasil a fim de avançar ainda mais na construção de uma comunidade China-Brasil com um futuro compartilhado”.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou, em uma publicação na rede social X, entre outras coisas, que “a parceria da Europa com o Brasil está prosperando” e que a cooperação entre o Brasil e a aliança imperialista continuará em prol de um “comércio livre e aberto. Uma ordem global baseada em regras. E fortes ambições para o nosso clima”.
Vários presidentes latino-americanos também expressaram, por meio de publicações no X, o desejo de dar continuidade à cooperação com o Brasil.
A presidente peruana, K. Fujimori, falou sobre o fortalecimento da aliança estratégica entre os dois países, bem como sobre a promoção da “integração, cooperação e desenvolvimento sustentável da Amazônia que compartilhamos”.
Mensagens semelhantes foram emitidas pelo presidente boliviano Rodrigo Paz, pelo presidente panamenho José Raul Mulino, pelo presidente equatoriano Daniel Noboa, pelo presidente paraguaio Santiago Peña e pelo presidente uruguaio Yamandú Orsi.
Na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner parabenizou Lula pela sua vitória, enquanto o atual presidente de extrema-direita do país, Javier Milei, ainda não fez comentários.
