Uma Posição Comunista sobre as Eleições Burguesas de 2026 no Brasil

A mobilização dos operários da construção civil da região metropolitana de Belém é um exemplo de luta dos trabalhadores em plena eleição burguesa. Ao contrário da posição reformista e eleitoreira de ignorar, secundarizar, travar ou mesmo sabotar essa e outras lutas, os comunistas devem estar juntos aos trabalhadores, apoiando e construindo as greves e sua organização e mobilização cada vez maiores. Esse é o caminho central pelo qual o proletariado e as classes exploradas podem revidar às ofensivas de todos os seus inimigos de classe, internos e externos.

 

Cem Flores

25.09.2026

 

O Brasil atravessa, neste ano, mais um ciclo eleitoral geral burguês, com votações para presidente e governadores, um terço dos senadores, para deputados federais e estaduais no próximo dia 4 de outubro. Para presidente e governadores haverá segundo turno, três semanas depois, no dia 25. Assim como fizemos nas eleições presidenciais de 2014 (aqui e aqui), 2018 (aqui e aqui) e 2022 (aqui e aqui), neste documento analisamos, novamente, o caráter concreto das eleições burguesas no Brasil atual, a conjuntura específica em que elas ocorrem, seus limites do ponto de vista da classe operária e das demais classes exploradas e a posição de classe dos principais candidatos. A partir do debate coletivo e sob as diretrizes da Declaração Política do 4º Encontro de Organização, definimos nossa posição comunista sobre essas novas eleições burguesas.

O Brasil é, e sempre foi, um país dominado no sistema imperialista mundial e na sua divisão internacional do trabalho. As principais funções do país nesse sistema são a produção e exportação de commodities primárias, agropecuárias e minerais, para servirem de insumo barato à produção e acumulação dos países imperialistas; servir de destino das exportações de capitais, principalmente financeiros, dos países imperialistas e de plataforma para sua remuneração e remessa de lucros; e de local de realização das manufaturas “excedentes” da produção imperialista.

Afirmamos que essa posição dominada do Brasil se agravou neste século e denominamos esse fenômeno de “regressão a uma situação colonial de novo tipo”. Esse agravamento está diretamente ligado à ascensão da China à condição de potência imperialista e sua crescente participação na economia global, especificamente como principal importadora mundial de commodities primárias. Na última década, a China tornou-se a principal parceira comercial da maioria dos países do mundo e de quase toda a América do Sul, concentrando suas compras em insumos primários de baixo valor agregado e exportando um amplo conjunto de manufaturas, com cada vez mais tecnologia. Dessa forma, a China é o principal fator externo da tendência de reprimarização (e sua concomitante devastação ambiental) e de desindustrialização desses países. Cada vez mais, as relações com a China incluem exportações de capitais, na forma de investimentos e endividamento.

Esse agravamento da posição dominada e as consequentes alterações na estrutura produtiva e espacial/regional brasileira também impactaram as classes, tanto dominantes quanto dominadas. Em relação à burguesia, reforçou a hegemonia da fração financeira e monopolista; cresceu a participação do capital estrangeiro; ampliou a importância relativa do agronegócio e da indústria extrativista, que realizam sua produção principalmente no exterior, e do capital comercial; e reduziu a da indústria de transformação.

Faz muitas décadas que não existe no país nenhuma fração burguesa nem nenhuma representação burguesa (partidos, movimentos sociais, intelectuais) que representem qualquer tipo de posição minimamente anti-imperialista. Todos esses burgueses e todos os representantes políticos da burguesia, incluindo o reformismo, trabalham efetivamente, na prática, para a manutenção e o aprofundamento de nossa condição de país dominado. As posições “desenvolvimentistas” defendidas por boa parte da “esquerda” são posições de classe burguesas que privilegiam frações e setores específicos da burguesia e dos capitais estrangeiros e vendem ilusões de desenvolvimento e soberania nacionais capitalistas para confundir as massas trabalhadoras e mantê-las imobilizadas na conciliação/subordinação de classe à burguesia e ao sistema imperialista como um todo.

A conjuntura do sistema imperialista mundial é de agravamento de todas as contradições interimperialistas. Destacadamente, entre as duas maiores potências imperialistas da atualidade e os seus respectivos monopólios: os EUA, potência imperialista hegemônica, mas em declínio relativo, e a China, potência imperialista ascendente. Esse confronto por poder e lucro significa mais uma rodada de barbárie sobre a vida das massas exploradas: guerra, destruição, fascistização e crise.

Desde a posse do governo de extrema-direita, fascista, de Trump 2, no ano passado, os EUA radicalizaram seu caráter imperialista, autoritário, repressor e agressivo, tanto interna quanto externamente. Os principais marcos dessa ofensiva militar são os ataques diretos ao Irã e a coparticipação no genocídio em Gaza, cujos exemplos de resistência se destacam para os povos de todo o mundo. No campo econômico, a escalada de tarifaços e sanções juntamente com o estímulo à acumulação desenfreada dos monopólios transnacionais dos EUA, o que está inflando uma bolha potencialmente gigantesca nos mercados financeiros dos EUA e do mundo. Diplomaticamente, as ofensivas e chantagens geraram, até agora, duas dezenas de acordos favoráveis aos interesses geopolíticos dos EUA e de seus capitais, com União Europeia, Reino Unido, Japão, Coréia, Groenlândia e vários países da Ásia e da América Latina.

Na América Latina, após anos de avanço da potência chinesa na região, essa ofensiva imperialista dos EUA é particularmente aguda. A Venezuela sofreu seguidos ataques militares, de bombardeios de embarcações e assassinato de seus tripulantes até o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, resultando na conversão do “bolivarianismo”, que nunca representou um caminho ao socialismo, em um governo títere do imperialismo que está entregando todas as riquezas do país. Contra Cuba, o imperialismo dos EUA levou o bloqueio a níveis não vistos desde a Revolução Cubana, em 1959, buscando derrubar seu governo e dobrar o seu povo – que resistem! Do plenário da ONU Trump ameaçou atacar militarmente todos os países da região, explicitando o significado do chamado Corolário Trump à velha doutrina imperialista dos EUA do século 19 (Monroe).

A ofensiva do imperialismo dos EUA, em sua versão trumpista, já conta com o apoio majoritário das burguesias apodrecidas e vassalas de uma ampla maioria de países da América Latina. Bukele propõe transformar El Salvador em presídio para imigrantes expulsos dos EUA; Espriella entrega as terras raras da Colômbia para os EUA; Peña pede base militar dos EUA no Paraguai; o povo argentino é chantageado quando Trump condiciona bilhões de dólares ao país à vitória de Milei nas eleições, entre outros diversos exemplos. Mais recentemente, Trump reuniu toda essa corja de vassalos no “Escudo das Américas” para uma declaração conjunta de defesa dos interesses do imperialismo dos EUA na região, garantia de sua cadeia de minerais críticos e outras e ameaças de ataques armados dos EUA na região com apoio interno.

Apesar desse realinhamento político continental, a presença chinesa segue com peso na região, o que indica a continuidade de conflitos e choques interimperialistas com efeitos internos variados.

No Brasil, os Bolsonaros, lideranças maiores da extrema-direita local, não apenas se alinham com toda essa vassalagem das burguesias do continente como propõem e aplaudem o tarifaço e as sanções ao país. Seus apoiadores chegam ao cúmulo de desfilarem bandeiras dos EUA no dia da independência. Já a política externa de Lula 3, longe das bravatas de palanque, é definida pelas frações burguesas e seus interesses de acumulação de capital: são contra as tarifas, pois reduzem suas exportações e seus lucros, mas se opõem ainda mais a qualquer medida que busque dar uma resposta aos EUA e, consequentemente, abale suas posições de sócias menores da potência imperialista hegemônica. A posição do governo burguês brasileiro então é de não retaliar em nenhum nível, de cobrir os prejuízos da burguesia brasileira com mais arrocho aos trabalhadores, de buscar negociações envolvendo empresários de ambos os países e de oferecer cada vez mais temas em busca de “acordos” com o imperialismo (segurança de fronteiras, combate ao tráfico, terras raras, data centers etc.), também confiando na “química” e na “petroquímica” dos seus dois presidentes burgueses. Na prática, não apenas reforçando a subordinação do país aos EUA como também confundindo e desarmando qualquer resistência a partir de uma posição dos trabalhadores e consequentemente anti-imperialista.

Fora da propaganda governamental e do marketing das campanhas eleitorais, nessa conjuntura de acirramento das contradições do imperialismo, as condições de vida das massas trabalhadoras no capitalismo brasileiro são de exploração exacerbada nas relações de trabalho, seja pelos patrões ou pelos algoritmos; de perdas de conquistas trabalhistas históricas; de forte violência e repressão dos aparelhos repressivos estatais, com quantidades absurdas de assassinatos por policiais e feminicídios; de carestia e endividamento corroendo o poder de compra; e de serviços públicos deficientes… Em suma, seguem muito duras as condições de vida das massas no Brasil, após anos consecutivos de uma violenta ofensiva burguesa em prol da elevação da taxa de lucro e da ampliação da acumulação de capital.

No mesmo sentido, a capacidade de resistência dos trabalhadores, após mais quatro anos de engodo petista, encontra-se também precária. Nas cidades, continua o quadro geral e persistente de estagnação da luta sindical, concomitante a uma baixa histórica da taxa de sindicalização no Brasil. No campo, as ocupações estão paradas, assim como a reforma agrária, e o terror patrocinado pelos grandes proprietários, com apoio do aparelho repressivo estatal, continua alastrado. Enquanto isso, os ministérios e os palácios estão cheios de “lideranças” cooptadas cujo papel é aprofundar essa desorganização na resistência dos trabalhadores.

Por outro lado, Lula enche a boca para repetir o principal objetivo de mais um governo do PT (o 5º nesse século): “O sistema financeiro nunca ganhou tanto dinheiro como ganha no nosso governo. Os empresários nunca ganharam tanto dinheiro como ganham no nosso governo”. E mais recentemente: “Se dependesse de dinheiro do governo, eles [agronegócio] deveriam não só votar, mas se ajoelhar para mim”.

Desde o ano passado, esse cenário de dureza para os trabalhadores vem se agravando com a desaceleração da economia, apesar do pacote eleitoreiro de Lula 3 de centenas de bilhões de reais. A criação de novos postos de trabalho também está desacelerando, indicando tendência de alta do desemprego no futuro próximo – e, portanto, de piora nas condições já ruins de luta por melhores salários. Essas condições concretas da maioria da população ajudam a explicar as elevadas taxas de desaprovação deste governo burguês.

Exceto por um breve período, em julho, a desaprovação do governo sempre superou sua aprovação ao longo deste ano. A partir de agosto a desaprovação voltou a crescer, apesar dos impactos esperados de mais um pacote eleitoreiro.

É nesse cenário internacional e nacional que se desdobra mais uma rodada de eleições da democracia burguesa brasileira. Como ocorrido em 2018 e 2022, a disputa presidencial segue polarizada entre as mesmas facções burguesas, o reformismo burguês de Lula, atual governante, e a extrema-direita, fascista, de Bolsonaro, agora na oposição após um golpe fracassado. Trata-se, fundamentalmente, de mais uma disputa sobre qual facção será a responsável pela gestão do capitalismo brasileiro, de acordo com os interesses da burguesia e a posição dominada do país, pelos novos avanços na implementação do programa hegemônico da burguesia, e pela repressão e desorganização das massas trabalhadoras e de suas lutas.

Na conclusão de uma gestão medíocre, voltada para os interesses dos grandes capitais – de “centro-direita”, como definiu José Dirceu –, sem qualquer marca própria, a candidatura burguesa de Lula e seu ex-rival de direita Alckmin busca alianças cada vez mais à direita. Seu ministro da fazenda promete ao capital financeiro mais aperto fiscal em 2027, repetindo afirmação do ano passado da latifundiária que foi ministra do planejamento de Lula e é a atual candidata ao senado em São Paulo na chapa do PT. Seu programa eleitoral é um puro credo autoproclamatório e em prol das instituições burguesas, constituindo um amontoado retórico e cínico para agradar sua militância e seus partidos e organizações satélites em seu desejo por ser, novamente, iludidos. As medidas eleitoreiras deste ano vêm sendo tomadas conforme as pesquisas apontam uma disputa mais apertada, ou seja, são feitas na correria e a contragosto e seguidas de promessas de novas medidas para compensar seus impactos fiscais.

A prática desse governo burguês revela a verdade por trás de seu discurso eleitoreiro: em vez de soberania, aprofundamento da regressão econômica e rendição às potências; em vez de defesa do povo, lucros recordes aos burgueses e migalhas cada vez menores às massas; em vez de democracia, convivência e aliança com os setores mais apodrecidos e reacionários do sistema político e do estado e aperfeiçoamento do letal e golpista aparelho repressivo brasileiro.

Na busca por surfar na frustração das massas trabalhadores com mais um governo burguês e alinhada à onda de extrema-direita que atravessa o continente, a candidatura Bolsonaro se constrói com as hipocrisias típicas do fascismo brasileiro. O grande corrupto apontando o dedo para a corrupção; o prócer autoritário posando de defensor da liberdade; o machista e misógino inveterado fingindo apoiar as mulheres; o mais reles entreguista se passando por patriota. Seu objetivo de fato, além do dinheiro e poder para si e seu clã (é claro!), continua a ser aprofundar a repressão e a exploração do capitalismo brasileiro sobre as massas trabalhadoras, estimulando a acumulação sem limites do capital brasileiro e estrangeiro no país. Para isso, em continuidade à obra de seu pai, pretende realizar um brutal arrocho fiscal, ainda mais mudanças na legislação trabalhista e avançar na construção de um estado de exceção, expandindo e aprofundando o aparelho repressivo do estado capitalista.

Bolsonaro disputa com Lula o apoio da direita fisiológica (“centrão”) que tende a ser majoritária nos estados e no congresso. E, apesar de tudo, ainda consegue manter em algum nível a retórica de antissistema que caracterizou a candidatura e o governo de Bolsonaro pai, mobilizando assim seu movimento de massas fascista.

Novamente, em um grave cenário externo e interno, a classe operária se vê sem organização política com força de massas que expresse sua posição própria e independente nessa arena institucional e nos demais campos da luta de classes contra a burguesia e seus representantes. A luta operária e as lutas populares encontram-se em momento de baixa, sendo majoritariamente defensivas. O reformismo e o peleguismo seguem amplamente dominantes na organização política, popular e sindical dos trabalhadores, embora sua influência real, sua capacidade de mobilização efetiva, nunca tenha estado tão baixa.

Nessas condições concretas da conjuntura e da luta de classes proletária no Brasil atual, as eleições burguesas não constituem processo que leve a alguma conquista tática real na luta de classes, ou à maior consciência, formação política, organização e lutas do proletariado e das massas trabalhadoras a partir de sua posição própria e independente de classe. Pelo contrário, tanto a posição envergonhada do voto no “menos pior”, quanto a defesa do voto na democracia (burguesa) contra o fascismo/autoritarismo ou da soberania (sic!) contra o entreguismo, ou ainda o apoio “crítico”, seja no primeiro ou no segundo turnos, todas essas justificativas ideológicas contribuem para as mesmas coisas: são um desvio no urgente caminho da construção proletária revolucionária, semeiam ilusões reformistas nas classes trabalhadoras, desorganizam nossa classe política e ideologicamente. Ilusões essas que não param de se revelar enquanto tais, tanto no Brasil quanto em nossos vizinhos – afinal, não foi sob os governos ditos progressistas ou de esquerda que o ovo da serpente do fascismo atual foi chocado e as mais escancaradas intervenções do imperialismo têm ocorrido?

Nosso lugar continua na resistência concreta contra todas as ameaças e todos os inimigos de classe da atual conjuntura, internos ou externos; pela reconstrução do instrumento político que recoloque na luta de classes, contra toda barbárie e podridão reinantes, a perspectiva da Revolução Socialista, de uma soberana República dos Trabalhadores e uma verdadeira democracia.

Não existe uma “estrada real” para o processo revolucionário, e só se não temermos o esforço de escalar suas veredas escarpadas é que teremos a chance de alcançar os cumes luminosos da luta proletária e Comunista!

Imagem da vitoriosa ocupação dos povos indígenas na Cargill, em Santarém (PA), no início do ano, contra a privatização de rios amazônicos.

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