Imediatamente após o primeiro turno, Rio de Janeiro, Pará, Paraná e outros estados tiveram grandes manifestações contra o avanço eleitoral da extrema-direita. Mais manifestações estão marcadas ao longo deste mês. O papel dos comunistas é o de se juntar a tais resistências concretas, para além do calendário eleitoral, enfatizando que só com a luta e a organização das classes trabalhadoras conseguiremos barrar a ofensiva burguesa, o fascismo, o entreguismo e os demais ataques da atual conjuntura.
Cem Flores
10.10.2026
O primeiro turno das eleições gerais burguesas de 2026 resultou numa significativa vitória da extrema-direita, política e eleitoral, para presidente, para os governos estaduais, para a câmara dos deputados e o senado federal. Liderando um governo burguês – de “centro-direita”, como afirmou o ex-presidente do PT, José Dirceu – e uma aliança governista burguesa (a chamada “frente amplíssima”), Lula e o PT foram surpreendidos com o crescimento da velha/nova candidatura Bolsonaro, o fascismo brasileiro da atualidade, que venceu a primeira etapa presidencial. A extrema-direita garantiu um terço dos governos estaduais já no primeiro turno, incluindo os mais populosos e economicamente relevantes, como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina – estados que concentram mais da metade da população e dois terços da economia do país. No congresso, o bolsonarismo vai ter, sozinho, em torno de metade do senado e um terço da câmara, além de várias dezenas de adesistas de direita dos partidos do centrão.
O governo Lula 3 se caracterizou, na política econômica, pela dupla juros altos (Galípolo no banco central) e arrocho fiscal (Haddad no ministério da fazenda), gerando nível recorde de endividamento, que atingiu mais da metade da população adulta do país. Em relação à carestia, especialmente os preços dos alimentos, não foi capaz de retomar o poder de compra do salário mínimo, ainda mais de 15% abaixo do valor pré-pandemia em relação ao custo da cesta básica. Com isso, apesar do pacotão eleitoreiro de quase R$300 bilhões, a economia teve forte desaceleração justamente no semestre eleitoral. Combinado a isso, Lula 3, assim como os demais governos do PT, foi um governo de gestão do capitalismo brasileiro a serviço principalmente da grande burguesia brasileira, e o PT se constituiu neste século como um Partido da Ordem capitalista no país, com profundos efeitos na desorganização das classes trabalhadoras.
O cenário que se apresenta para a luta proletária e comunista no Brasil, portanto, é extremamente duro e difícil. 2027 deverá ser um ano de arrocho fiscal agravado, de crescimento ainda menor, de redução dos pequenos ganhos salariais conquistados pelas classes trabalhadoras e de aumento do desemprego, de continuidade da carestia e do endividamento, e de aumento da repressão às lutas e à organização das massas. Nesse cenário, reafirmamos nossa posição comunista do documento anterior às eleições:
Nosso lugar continua na resistência concreta contra todas as ameaças e todos os inimigos de classe da atual conjuntura, internos ou externos; pela reconstrução do instrumento político que recoloque na luta de classes, contra toda barbárie e podridão reinantes, a perspectiva da Revolução Socialista, de uma soberana República dos Trabalhadores e uma verdadeira democracia.
Não existe uma “estrada real” para o processo revolucionário, e só se não temermos o esforço de escalar suas veredas escarpadas é que teremos a chance de alcançar os cumes luminosos da luta proletária e Comunista!
Leia as análises e os documentos do Cem Flores sobre esta conjuntura eleitoral:
– Sepulcro caiado: a nova/velha candidatura Bolsonaro, de junho de 2026.
– O pacote eleitoreiro do governo burguês de Lula 3: entre a desaceleração da economia e o maior arrocho fiscal pós-eleitoral (parte 1 e parte 2), de julho de 2026.
– A ofensiva imperialista de Trump na América Latina (parte 1 e parte 2), de setembro de 2026.
– Uma Posição Comunista sobre as Eleições Burguesas de 2026 no Brasil, de setembro de 2026.
- Os resultados do 1º turno das eleições burguesas de 2026
No primeiro turno, Bolsonaro (PL) fez 47,03% dos votos e Lula (PT), 45,16% – diferença de 1,87 ponto percentual. Esses percentuais foram calculados sobre 119,3 milhões de votos válidos. Ocorre que o Brasil registrou 158,7 milhões de eleitores aptos a votar em 2026. Desse total, em 4 de outubro, 33,5 milhões não compareceram, 3,7 milhões anularam o voto e outros 2,3 milhões votaram em branco. Ou seja, mesmo sendo o voto obrigatório no Brasil, quase 40 milhões de pessoas, um quarto dos eleitores, não votaram em ninguém. Considerando o conjunto do eleitorado brasileiro, Bolsonaro teve 35,34% e Lula, 33,94%. Nenhum, portanto, sequer chegou perto de atingir a maioria dos eleitores.
Em 2022, Lula obteve no primeiro turno 57,3 milhões de votos, e em 2026, 53,9 milhões – uma queda de 3,4 milhões, quase 6% a menos. Com os Bolsonaros ocorreu o inverso, de 51,1 milhões em 2022 (Jair) para 56,1 milhões em 2026 (Flávio). Ou seja, Bolsonaro ficou 2,2 milhões de votos à frente de Lula, mas com os números completos, considerando a perda de um (Lula) e o ganho dos outros (Bolsonaros), houve uma virada de 8,4 milhões de votos entre os primeiros turnos de 2022 e de 2026.
É importante recordar que nas eleições municipais de 2024, o PT e a “esquerda” governista já haviam sofrido derrotas importantes, tanto na votação nacional quanto na sua principal candidatura, a de Boulos, atual ministro de Lula, para prefeito de São Paulo, que realizou uma campanha claramente de direita e foi derrotado pelo candidato bolsonarista. Naquelas eleições a “direita centrão” foi a vitoriosa, baseada nas oligarquias regionais, e o bolsonarismo cresceu 50% em número de prefeituras e acumulou politicamente em várias capitais, mesmo quando seus candidatos foram derrotados por outros de direita.
Na maior parte dos estados, as eleições para governador deste ano repetiram o cenário de apenas dois candidatos principais. A diferença foi que em geral não houve disputa direta entre PT e bolsonarismo. Se o bolsonarismo lançou candidatos competitivos em quase todos os estados, os candidatos do PT foram uma minoria, com Lula apoiando candidatos a governador da “direita centrão” em diversos estados. Como resultado dessa concentração e da vitória eleitoral da extrema-direita, em 21 dos 27 estados a eleição foi decidida no primeiro turno, um recorde na história das eleições brasileiras.
Desses 21 estados, o bolsonarismo levou 9, incluindo todo o Sul e a maior parte do Sudeste (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro). O “centrão” fez outros 9, com destaque para o Centro-Oeste (Goiás/MDB e Mato Grosso do Sul/PP) e Pernambuco (PSD). Como em 2022, os governadores petistas permaneceram apenas no Nordeste (Bahia, Ceará e Piauí) – tendo sido eleitos os candidatos petistas mais à direita, como o trio baiano Jerônimo para o governo e Rui Costa e Jaques Wagner (mencionados na corrupção do banco Master, o segundo abertamente sionista) para o senado; Elmano, no Ceará, com o apoio decisivo de Camilo Santana; e o privatista Rafael Fonteles no Piauí.
Mais relevante do que a análise meramente quantitativa é considerar que os seis estados com governadores bolsonaristas acima citados representam mais da metade da população e dois terços da economia do país. Além disso, em todos esses casos, o PT ou foi vencido por uma larga margem ou sequer participou das eleições. Em São Paulo, Tarcísio teve 62,7% dos votos válidos, batendo o ex-ministro Haddad (que já foi prefeito de São Paulo, derrotado no primeiro turno quando tentou a reeleição, e candidato a presidente em 2018) por mais de 6 milhões de votos. Em Minas Gerais, o atual senador Cleitinho teve mais do dobro dos votos do ex-ministro de Lula, Patrus Ananias. No Rio de Janeiro, o PT apoiou o candidato do “centrão” (Eduardo Paes/PSD) que passou a campanha negando Lula e cortejando o bolsonarismo, mas acabou derrotado pelo candidato do PL – investigado pelo ministério público por lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa (ligação com o comando vermelho e as milícias). Em Santa Catarina, o candidato bolsonarista a reeleição teve o quádruplo dos votos do segundo colocado (PSB), no Rio Grande do Sul a candidata derrotada pelo bolsonarismo foi Juliana Brizola (PDT) e no Paraná, Sérgio Moro se elegeu com 50,1%, somando mais que os dois candidatos seguintes (PSD e PDT).
Para o senado, a vitória eleitoral foi ainda maior. Em 2027 o bolsonarismo terá 39 senadores, quase metade do total. Para atingir o quórum de impeachment de ministros do STF (54 senadores), bastará “convencer” 15 dos 27 senadores do “centrão”, incluindo nomes como Arthur Lira, o ex-ministro de Lula André Fufuca, vários do União Brasil e do PP que já declararam apoio a Bolsonaro no segundo turno etc. Lembrando que para mudar a constituição bastam 49 votos no senado. O PT deverá permanecer com 9 senadores, alcançando 15 somado aos demais partidos da “esquerda”. Nomes expressivos do PT e de sua base aliada foram derrotados nas urnas: ex-ministros como Simone Tebet e Marina Silva (São Paulo), Gleisi Hofman (Paraná), Paulo Pimenta (Rio Grande do Sul) e Jorge Viana (Acre); os senadores Randolfe Rodrigues (Amapá), Fabiano Contarato (Espírito Santo) e a ex-senadora Benedita da Silva (Rio de Janeiro); além de Manuela D’Ávila (Rio Grande do Sul).
O PL bolsonarista também será o maior partido na câmara dos deputados, elegendo 121 deputados federais – recorde desde 1986 –, crescendo em relação aos 99 de 2022. Somado aos demais partidos bolsonaristas (Republicanos e Novo), irão dominar um terço da câmara em 2027 (172 deputados). O PT elegeu 70 deputados, um pouco mais que os 68 de 2022. Com os partidos que orbitam o lulismo (PSB, PSOL, PCdoB, PV, PDT e Rede) chegarão a 124 deputados, similar aos 125 de 2022 – destacando que PSOL/Rede e PDT não atingiram a cláusula de barreira e perderão os multimilionários recursos públicos do Fundo Partidário no ano que vem. A maior bancada continua com o conjunto de partidos de direita denominados “centrão” (com os maiores sendo União Brasil, PSD, PP e MDB). Foi sobre esse bloco de direita que o bolsonarismo cresceu, pois o “centrão” encolheu de 241 deputados em 2022 para 216, em 2026 – ainda assim, mais de 40% da câmara. Com esse resultado, a soma do bolsonarismo com o “centrão” fica com uma sobra de 80 deputados em relação ao quórum necessário para alterar a constituição.
Esses números comprovam que o primeiro turno das eleições gerais burguesas de 2026 resultou numa significativa vitória da extrema-direita, tanto em termos políticos quanto eleitorais, seja nas eleições para o executivo federal e estaduais, seja para o parlamento. Esse resultado mostra também que a extrema-direita, o bolsonarismo, o fascismo brasileiro, continua com uma ampla base de massas, sobretudo na pequena burguesia e nas camadas médias. Não obstante mobilizar uma parcela significativa da população, após décadas de engodos promovidos pela “esquerda” reformista, o bolsonarismo serve, fundamentalmente, para implementar a ofensiva de classe e o projeto repressivo, autoritário e entreguista, da grande burguesia contra a classe operária e as massas trabalhadoras.
- As disputas institucionais das duas facções burguesas até o segundo turno
O segundo turno das eleições presidenciais e de alguns poucos estados ocorrerá em duas semanas. Enquanto a campanha de Bolsonaro já comemora antecipadamente, debatendo a composição dos ministérios e anunciando informalmente suas primeiras medidas no governo, a candidatura de Lula parece afundada numa crise, com disputa entre grupos internos, desânimo e desorganização e, nesse contexto, busca mudanças no comando de campanha e no discurso.
A votação bolsonarista foi atraída pelo cínico e hipócrita discurso “antissistema” e “anticorrupção”, pela necessidade de mais segurança da população, que “justificaria” maior repressão e da atuação miliciana, pelo conservadorismo nos costumes e na organização familiar e religiosa, e por um arraigado “anticomunismo”, habilmente trabalhado para se voltar contra um Partido da Ordem burguesa (PT) e uma gestão do capital (governos Lula). Como dissemos anteriormente:
“a candidatura Bolsonaro se constrói com as hipocrisias típicas do fascismo brasileiro. O grande corrupto apontando o dedo para a corrupção; o prócer autoritário posando de defensor da liberdade; o machista e misógino inveterado fingindo apoiar as mulheres; o mais reles entreguista se passando por patriota”.
Se eleito, o real programa bolsonarista será um arrocho ainda maior sobre os trabalhadores (já amplamente anunciado perante os patrões), ampliação das “reformas” (previdenciária, trabalhista, administrativa, tributária) e das privatizações e regressão das conquistas dos trabalhadores, avançando na implementação do programa hegemônico da burguesia – tudo para garantir maiores lucros para o capital. Essa ofensiva de classe burguesa também inclui, inexoravelmente, o aumento da repressão e do autoritarismo do estado capitalista brasileiro. Por fim, em linha com as ações da extrema-direita pelo continente latino-americano – um tsunami conservador, de extrema-direita, autoritário e fascista, que ganhou Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, entre outros – o bolsonarismo representa a subserviência total da burguesia brasileira ao imperialismo dos EUA, à ofensiva Trump para garantir acesso exclusivo e barato a matérias-primas e demais insumos por parte dos monopólios transnacionais dos EUA e reduzir ou mesmo tentar barrar a presença do rival imperialismo chinês na região.
De acordo com o senso comum da imprensa, a candidatura de Lula a um quarto mandato sofre de fadiga de material e pesa contra ele sua idade avançada. A consequência seria um desejo (genérico) de mudança. Já a propaganda petista defende que Lula 3 foi o melhor de todos os governos do PT. O programa oficial, institucional e eleitoreiro para um governo Lula 4 o define como “o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema”, mas ao mesmo tempo propõe reformas para “recuperar a confiança da sociedade no sistema político”(sic!).
Como pode se vender como “antissistema” e enganar as massas trabalhadoras do país a mesma pessoa que assumiu incorporar a defesa e a gestão do sistema capitalista em discursos no exterior? Vejamos o trecho mais relevante do mais famoso desses discursos de Lula, em Barcelona, na “mobilização progressista global”, em 18 de abril de 2026 – nem seis meses atrás:
“Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema”.
Quanto ao “melhor de todos os governos”, a realidade nos mostra que, em pleno ano eleitoral, que deveria contar com a maturação dos projetos do governo, e a despeito do pacote eleitoreiro, a avaliação de Lula 3 esteve quase sempre no terreno negativo, o que significa desaprovação maior que aprovação.
Essa desaprovação popular se reflete nas pesquisas eleitorais e no resultado das eleições. O agregador de pesquisas da BBC, abaixo, mostra que a candidatura de Lula sempre teve por volta de 40% das intenções de voto ao longo de 2026, subindo ligeiramente com a divulgação da corrupção de Bolsonaro com o banco Master e Daniel Vorcaro, declinando com a crise institucional do STF, aquele apodrecido e corrupto tribunal burguês, e recuperando sua tendência na véspera das eleições. A nova/velha candidatura de Bolsonaro teve oscilações opostas, porém mais intensas, acelerando decisivamente na reta final eleitoral, estimulada por suas críticas ao STF.
A primeira pesquisa divulgada após o primeiro turno, pelo DataFolha, acentuou as tendências acima, trazendo Bolsonaro com 49% das intenções de voto e Lula com 45% – a maior diferença a favor de Bolsonaro nestas eleições. Estimando esses percentuais apenas para os votos válidos, a vantagem seria de 52% a 48%.
Ao contrário do discurso petista, o sentimento das massas trabalhadoras em 2026 foi o de piora objetiva nas suas condições concretas de vida (emprego e renda, transportes, segurança, serviços públicos etc.). Dois indicadores econômicos presentes no discurso eleitoreiro e triunfalista de Lula ilustram bem esse ponto: 1) o crescimento da economia, que ao contrário do discurso governista vem desacelerando desde 2025 e 2) a renda dos trabalhadores corroída pela carestia e o Bolsa Família arrochado pelo Teto de Gastos de Lula.
Depois da pandemia, a economia brasileira cresceu ao ritmo de 3,2% ao ano, mas apenas por três anos, de 2022 a 2024. Já em 2025 houve uma desaceleração importante, para 2,3%. Nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, última atualização do IBGE, esse percentual já estava em 1,9% contra os 12 meses anteriores (até junho de 2025). Ou seja, em um ano e meio, o ritmo de crescimento do país caiu quase pela metade. A situação é ainda pior se compararmos períodos mais recentes, para avaliar o ritmo de crescimento “na ponta” (ou na margem). Para isso utilizamos o IBC-Br, calculado pelo banco central. O gráfico abaixo mostra, para todos os meses de 2026, a média móvel de três meses contra os três meses anteriores. Não apenas o crescimento despencou no último semestre como se tornou negativo em julho! Na sua experiência concreta cotidiana, as massas trabalhadoras sentem essa realidade, e não a da propaganda governamental.
Em relação à carestia, a pandemia elevou os preços dos alimentos no Brasil e no mundo – e eles nunca mais voltaram aos níveis anteriores. O que interessa, então, é ver quanto na realidade o salário dos trabalhadores consegue comprar no supermercado. O Dieese calcula o valor da cesta básica há décadas, para diversas cidades do país. No gráfico abaixo, dividimos o salário-mínimo pelo custo da cesta básica de São Paulo. No pré-pandemia, o salário comprava 2,14 cestas básicas. Em janeiro de 2023, no começo do governo burguês de Lula, também devido às políticas genocidas de Bolsonaro, essa relação havia se reduzido a 1,53. A recuperação do poder de compra com Lula 3 se limitou ao primeiro ano, 2023. De 2024 em diante, essa relação salário-mínimo/cesta básica permaneceu basicamente estável, oscilando em torno de 1,76 – ou seja, ainda 18% abaixo do nível pré-pandemia.
O recente aumento eleitoreiro de 15% do Bolsa Família, a partir de outubro, tenta esconder a realidade de congelamento total dessas transferências às famílias mais pobres desde a chamada “PEC da Transição”, em 2023. A razão para essa expropriação dos despossuídos é o Teto de Gastos de Lula. Com dados da secretaria do tesouro nacional, corrigidos pela inflação, vemos que os gastos com o Bolsa Família tiveram um pico em fevereiro de 2024, R$ 192 bilhões. Com o esgotamento dos efeitos da “PEC da Transição” e o congelamento, o total dos gastos públicos com o Bolsa Família passou a cair mês após mês. Pelo último dado publicado, a política burguesa de ajuste fiscal aplicada por Lula 3 já havia roubado R$ 36 bilhões da população mais pobre do país.
Atrás na votação de primeiro turno e nas pesquisas eleitorais, a campanha lulista tenta se reorganizar, mas expõe ainda mais suas divisões entre grupos internos se digladiando e explicita suas preferências de classe. Já houve propostas de uma nova “carta aos brasileiros” – para a burguesia brasileira, na verdade – e o governo segue prometendo mais arrocho para 2027. Além disso, ocorreram pelo menos duas reuniões entre o candidato e os patrões: uma reservada, para duas dezenas de bilionários no final de agosto e outra, mais ampla, com quase 800 burgueses, organizadas por lobistas, no final de setembro. Apesar disso, as tentativas de ampliar a frente já amplíssima até agora têm sido frustradas, com boa parte da “direita centrão” declarando apoio a Bolsonaro. A opção por sabotar a luta de massas em defesa do fim da escala 6×1 e a opção pela via exclusivamente institucional, dos acordões e conchavos com o “centrão” está cobrando seu preço e a aprovação dessa medida no senado é bastante incerta.
A “esquerda”, “radical” ou não, vende o seu apoio à reeleição de Lula como uma luta (institucional) contra o fascismo e aproveita para embalar essa posição com um conjunto de propostas “radicais” que nem sequer chegam a ser recebidas pela campanha – como eles obviamente sabiam que aconteceria. Dessa forma, a “esquerda” acaba por iludir o proletariado, as massas trabalhadoras e o povo em relação ao real caráter de classe burguês da candidatura de Lula, do PT e de seu governo, e ao caminho para barrar, de fato, a fascistização.
- O caminho das massas trabalhadoras e dos comunistas é de organização, resistência e lutas!
Assim como ocorreram nas eleições de 2018, com o Movimento #EleNão, e durante os anos do governo de Jair Bolsonaro, com os protestos da educação e dos antifascistas e antirracistas, começam a surgir manifestações contra o avanço da extrema-direita no país. Tais manifestações ocorrem na sequência de algumas greves nacionais, como a dos bancários e dos carteiros, e têm se ampliado na juventude de vários estados. Trata-se de uma mobilização fundamental nessa conjuntura, algo a ser estimulado e desenvolvido pelas forças comunistas e proletárias.
Um dia após o primeiro turno, uma grande assembleia dos estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, transformou-se numa passeata pela cidade. O Centro Acadêmico Evaristo da Veiga, em sua convocação, afirmou que “o abalo e o espanto com o resultado de domingo precisam se transformar em movimento. O avanço do Flávio ao segundo turno é um perigo, para nós e para o Brasil, que já está batendo à nossa porta. […] Vamos para o enfrentamento. O recuo não é e nunca foi uma opção.”
Na noite de 5/10, os estudantes da UFF reergueram a bandeira antifascista, a mesma que foi censurada em 2018 e replicada em várias outras universidades.
No dia 7/10, outras entidades estudantis e movimentos convocaram manifestações no Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife, Belém e outras cidades. Dezenas de milhares de pessoas compareceram a tais manifestações, com destaque à do Rio de Janeiro, “Juventude na Rua pela Democracia”, que seguiu em grande marcha da Candelária à Cinelândia.
Ato chega na Cinelândia.
Nos dias 8 e 9, mais mobilizações aconteceram em vários estados, como uma expressiva em Curitiba. Outras manifestações estão marcadas para os dias seguintes. Uma marcha na cidade de São Paulo está prevista para o dia 11, com concentração no vão do MASP. Nas redes sociais, as críticas ao bolsonarismo também têm se expandido.
Manifestação em Curitiba.
A reação do bolsonarismo vem ocorrendo tanto por parte de suas lideranças nas redes sociais quanto por meio de suas hordas. Os estudantes, suas lideranças e as universidades têm recebido várias ameaças dos fascistas. Em Aracaju, um policial militar de folga realizou disparos para o alto em meio a manifestantes. Houve um incêndio, ainda em investigação, na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), horas após uma manifestação e ameaças anônimas de um fascista. A intimidação, a violência política e a realização de atentados, por meio de agentes oficiais ou paramilitares, são a norma do fascismo e devemos estar preparados para enfrentar a essa realidade.
O bolsonarismo também convocou uma ação estudantil de extrema-direita no dia 14/10, na histórica rua Maria Antônia, onde ocorreu um confronto armado entre estudantes da USP e o Comando de Caça aos Comunistas (CCC), em 1968.
Como ocorreu nas lutas dos anos anteriores contra o bolsonarismo, as atuais manifestações são intensamente disputadas pelo governo, pela campanha de Lula e pelos seus satélites, com o objetivo claro de restringi-las ao calendário eleitoral e à defesa da chapa Lula-Alckmin. E, diante da ausência de um campo revolucionário firme e com influência de massas, de fato, parte expressiva dessas manifestações tem aderido à defesa mais ou menos crítica de Lula e focado meramente na próxima eleição.
No entanto, o caráter central dessas manifestações, que surgiram por fora do comando da campanha de Lula, está no combate ao bolsonarismo: a forma de extrema-direita da ofensiva de classe da burguesia no país, o atual representante máximo do fascismo brasileiro, trazendo o aumento da repressão e do autoritarismo, e o entreguismo absoluto ao imperialismo dos EUA sob Trump; está no rompimento da paralisia institucional e eleitoreira e na disposição para se organizar, a partir dos locais de estudo, e tomar as ruas em protesto. Além disso, outras bandeiras de luta e pautas concretas têm surgido nas manifestações, em oposição ao programa burguês de Flávio (nos pontos centrais, compartilhado por Lula): pela redução da jornada de trabalho, por mais recursos para serviços públicos, contra a agressão imperialista dos EUA etc. Todas elas são e serão fundamentais, agora e no ano seguinte, independentemente de qual facção política burguesa saia vitoriosa no segundo turno.
Cartazes produzidos pelas bases estudantis.
Nosso papel de Comunistas é de participar ativamente de tais manifestações, auxiliar e fortalecer a organização da juventude, fazer a crítica justa de seus limites e buscar superá-los e estimular a construção de suas pautas. Além disso, é fundamental que se busque articular tais organizações e lutas com as resistências em curso de categorias de trabalhadores. Pois esse é o caminho mais relevante para reconstruir a força dos trabalhadores na luta de classes e barrar a nova onda de ataques que se aproxima.








