CEM FLORES

QUE CEM FLORES DESABROCHEM! QUE CEM ESCOLAS RIVALIZEM!

Conjuntura, Destaque, Nacional

Sepulcro caiado: a nova/velha candidatura Bolsonaro (parte 2)

À esquerda, os irmãos Bolsonaro visitam Netanyahu em Israel, no final de 2025. À direita, Bolsonaro pai recebe o líder israelense, no final de 2018.

Cem Flores

25.06.2026

A crítica radical à extrema-direita, fascista – nos dias de hoje em nosso país principalmente o bolsonarismo – é um dever de primeira ordem dos Comunistas. Essa facção radicalizada da burguesia é, como toda a burguesia, inimiga de classe do proletariado e das classes trabalhadoras. Historicamente, sempre foram os Comunistas que estiveram na linha de frente do combate ao fascismo e daqueles que o derrotaram – e esse desafio permanece atualmente.

Não será uma disputa eleitoreira entre distintas facções burguesas, fascistas e não fascistas, que representará os interesses mais profundos da classe operária e das massas exploradas. Pelo contrário, deixar o combate ao fascismo ser hegemonizado por posições burguesas e ser travado unicamente nos meios institucionais significa a continuidade da ofensiva de classe da burguesia sobre os trabalhadores, sob uma ou outra forma; a continuidade do baixo nível de organização e da falta de uma posição política proletária própria e com força de massas; e a continuidade da sujeição da nossa classe aos patrões, com toda a exploração e o sofrimento que isso traz.

É preciso nos opormos a isso e construir o caminho das resistências e das lutas!


Leia os textos do Cem Flores sobre o combate ao bolsonarismo

Sepulcro caiado: a nova/velha candidatura Bolsonaro (parte 1), de 22.06.2026

Sobre o julgamento de Bolsonaro e outros golpistas e o necessário combate proletário à extrema-direita, fascista, no Brasil, de 06.09.2025

O indiciamento de Bolsonaro e de (alguns) militares golpistas pelo aparelho repressivo capitalista, de 06.12.2024

O capitólio bolsonarista: novo passo na escalada golpista da extrema-direita, fascista, no Brasil, de 24.01.2024

O governo Bolsonaro: ofensiva burguesa e resistência proletária, de 2019.


  1. O novo Bolsonaro é o velho autoritarismo brasileiro e a velha facção burguesa de extrema-direita

Desde a ascensão do bolsonarismo no Brasil, como força eleitoral nacional e movimento de massas reacionário, não hesitamos em designá-lo de autoritário, de extrema-direita, fascista. Tal designação parte da análise concreta da nossa realidade e é fundamental para termos nitidez sobre o caráter desse inimigo burguês na luta de classes e sobre todos os riscos que ele representa. Isso também é necessário para traçarmos a melhor e mais eficaz tática de combate a ele – e, como já adiantamos e vimos na prática, esta não é a tática hegemônica na “esquerda” de ficar a reboque das instituições e das forças eleitorais burguesas rivais ao bolsonarismo.

O fascismo não é uma “exceção” que surgiu uma única vez na história, nem serve apenas para barrar um processo revolucionário em curso. Na era do imperialismo, ele é uma tendência constante, mais ou menos intensa, pois vinculada a essa fase do próprio capital, que tende à guerra e à degeneração social. Como dizia Lênin, no aspecto político o imperialismo é, em geral, uma tendência para a violência e para a reação”. No mundo, após a crise de 2008, o fascismo tem ressurgido em todos os poros da sociedade burguesa e servido de instrumento da burguesia para impor uma violenta ofensiva do capital, desfazer conquistas na limitada democracia burguesa, destroçar as resistências e organizações proletárias e revolucionárias, canalizar demagogicamente a revolta difusa na massa para objetivos reacionários e mobilizar setores inteiros para a corrida armamentista e os esforços de guerras imperialistas que atravessam o mundo.

Como no passado, o reformismo convive, alterna e mesmo se alia com tais forças na gestão burguesa. Além disso, o reformismo e o oportunismo são, eles próprios, jogados cada vez mais à direita por essa tendência do sistema imperialista, inclusive dirigindo com louvor a mesma ofensiva de classe que o fascismo visa cumprir sob formas específicas. Não por acaso, também como dizia Lênin, “a luta contra o imperialismo é uma frase oca e falsa se não for indissoluvelmente ligada à luta contra o oportunismo”.

Mais especificamente no Brasil, o bolsonarismo, suas lideranças e ideólogos, possui uma longa linhagem reacionária e autoritária e representa uma continuação, sob novas formas organizacionais, de forças fascistas presentes no Brasil desde as décadas de 1930-40. Além disso, herda e se vincula aberta e organicamente ao golpismo e à herança ditatorial das corporações militares e de alas burguesas e pequeno-burguesas que construíram a ditadura militar de 1964-85. Suas marcas políticas e ideológicas são um radical anti-comunismo e uma oposição feroz às conquistas e organizações dos trabalhadores, a proteção sem rodeios dos interesses da burguesia, a submissão ao imperialismo ianque, além da defesa de formas mais autoritárias e repressivas de dominação burguesa e de valores reacionários e racistas.

Lideranças bolsonaristas comemorando o assassinato de Marielle Franco em evento de campanha no Rio de Janeiro, em 2018. Em 2004, Flávio Bolsonaro condecorou o policial e miliciano Ronald Pereira, um dos responsáveis pelo assassinato de Marielle.

Os objetivos do bolsonarismo não são meras vitórias eleitorais e governos burgueses “normais”, mas a criação de bases para rupturas institucionais e de regime político, sob apoio de um movimento de massas reacionário, para impor uma ditadura do capital ainda mais sangrenta e destrutiva. Foi isso o que vimos na prática na última década no país: o bolsonarismo explicitamente lançando mão da conspiração, do choque com as instituições burguesas, de campanhas de desestabilização, da militarização de cargos civis e da politização militar, da organização armada e do uso da violência política direta, na cidade e no campo… Fora o estímulo à devastação ambiental e ao morticínio dos considerados “matáveis” – dos morros cariocas à barbárie da pandemia, passando pela terra Yanomami etc. E a derrota do golpe bolsonarista e a prisão de lideranças e militantes não colocou um ponto final nesses objetivos, nem mudou a posição do bolsonarismo: ele segue sendo o que sempre foi e buscando novas oportunidades políticas – como é o caso da nova candidatura Bolsonaro!

À esquerda, Bolsonaro, Zema e outros “brindam” com uma taça de leite puro, em campanha em evento do agronegócio. À direita, Bolsonaro faz o mesmo gesto, em 2020, em live presidencial. Trata-se de um símbolo do supremacismo branco, uma mensagem direta a esses grupos racistas radicais.

O novo Bolsonaro representa a continuação direta desse aspecto do velho Bolsonaro, em sua posição política autoritária e golpista e em suas relações com o campo mais amplo da extrema-direita nacional e internacional. Durante os preparativos golpistas do Bolsonaro pai, Flávio Bolsonaro agiu como senador e liderança fascista para reforçar as investidas contra o processo eleitoral e mobilizar as bases bolsonaristas em defesa do governo de seu pai. Frente aos atos e acampamentos golpistas após o resultado das eleições de 2022, o Bolsonaro filho se manifestou da seguinte forma: “Aplausos de pé a todos os brasileiros que estão nas ruas protestando, espontaneamente, contra a falência moral do nosso país! Confiem no Capitão!”. Em fevereiro de 2023, após o capitólio bolsonarista, Flávio afirmou que nunca houve tentativa de golpe – discurso que mantém até hoje, na defesa dos golpistas julgados.

Outra repetição pai/filho é a relação não só com os EUA e seu governo fascista, mas também com outro polo central da extrema-direita mundial: Israel. Desde 2023, diante da ofensiva genocida de Israel sobre a Faixa de Gaza, o novo Bolsonaro interveio sistematicamente em prol de Israel, do sionismo e do genocídio palestino. Naquele mesmo ano, ele passou a integrar o Grupo Parlamentar Brasil-Israel no senado. Um dos primeiros atos de sua candidatura foi uma longa agenda em Israel, como convidado de honra do genocida Netanyahu. Assim como o pai, visitou o muro das lamentações e foi batizado no rio Jordão. Ao longo das atividades políticas, prometeu “retomar integralmente as relações comerciais com Israel” a partir de 2027 e transferir a embaixada brasileira para Jerusalém, velha promessa do pai. Na visita à Israel, Eduardo Bolsonaro, na companhia do irmão presidenciável, falou da pretensão de integrar os chamados Acordos de Isaac, uma iniciativa entre Israel e Argentina para fortalecer a presença israelense (econômica, política, diplomática, cultural, acadêmica etc.) na América Latina e ampliar a cooperação entre forças de extrema-direita dos dois lugares. Por trás dos acordos, há a atuação de associações e fundos que já estão em movimento em vários países da região.

Flávio Bolsonaro com o irmão e o militar e político israelense de extrema-direita, Yossi Dagan, na Cisjordânia ocupada. Dagan é uma das lideranças do avanço da colonização e do apartheid israelense nas terras palestinas.

O que está em jogo aqui é a explicitação do apoio e de um programa comum da extrema-direita brasileira com o que é atualmente uma das pontas de lança mais avançadas da extrema-direita e do fascismo mundial. Israel executa uma política assumidamente genocida contra a Palestina, e agora também contra o Líbano, com o apoio não apenas do imperialismo dos EUA, mas também das demais potências imperialistas, a suas políticas genocidas, racistas e coloniais.

Além das visitas aos governos fascistas de Israel e dos EUA, Flávio Bolsonaro também já marcou presença em outro estado de exceção e exímio construtor de campos de concentração: El Salvador, dirigido pelo fascista Bukele. Esse país possui um longo histórico de terrorismo de estado, com mortes e desaparecimentos em massa. No governo atual, uma das “inovações” repressivas é a política de encarceramento massivo, que tem levado o país a bater recordes mundiais de porcentagem de população presa. Em 2023, Bukele inaugurou a maior prisão de segurança máxima das Américas, com capacidade para 40 mil prisioneiros, o CECOT (Centro de Confinamento do Terrorismo). Rapidamente, este se tornou a nova “disney” dos fascistas do continente, além de prisão reserva para o governo Trump e sua polícia terrorista ICE.

Flávio visita a ala “vitrine” do CECOT. Lá, os prisioneiros ficam amontoados em celas iluminadas 24h por dia. Nessas prisões salvadorenhas, há inúmeras denúncias de prisões ilegais e tortura contra os prisioneiros. Eis o aprimoramento das masmorras brasileiras que o bolsonarismo quer exportar, sob o novo lema de combate ao terror.

Flávio Bolsonaro é o velho fascista Jair Bolsonaro, sem dúvidas, buscando se colocar na posição daquele que conduzirá roteiro similar de autoritarismo, apoio a ditaduras e repressão. Mas ele também herdou do pai suas alianças com as milícias cariocas (e além) e seu apego e apetite por verbas públicas…

  1. O novo Bolsonaro é o velho aliado das milícias

Os Bolsonaros sempre se colocaram contra os “bandidos” e o “crime”, em defesa do “cidadão de bem” – mais um aspecto do seu discurso cínico, hipócrita e demagogo. Em primeiro lugar, para essa corja, bandidos e criminosos só são os pobres, os de periferia, ou aqueles que possam ser, de alguma forma, vinculados à esquerda – aos quais se deve aplicar as punições mais severas e todo tipo de estado de exceção. Já para os ricos e aqueles vinculados ao clã e ao movimento deles, como policiais criminosos, milicianos, corruptos, defendem a impunidade total. Em segundo lugar, esse hipócrita discurso bolsonarista visa iludir, com promessas de fácil solução, o grave problema de segurança pública do país, e trabalhar com o desespero de parte crescente da massa que se encontra refém do crime organizado.

Eduardo Bolsonaro em 2018 (sem familiar na prisão) e em 2025 (prestes a ter familiar preso por Alexandre de Moraes).

Por trás dos discursos e das ilusões que o bolsonarismo tenta propagar, o fato é que seus objetivos políticos principais com esse tema da criminalidade em nada visam de fato solucionar os problemas concretos de violência vivido pelos trabalhadores. O que o bolsonarismo pretende é: justificar a atual ofensiva burguesa na sua dimensão repressiva, no já violento capitalismo brasileiro; reforçar e dar privilégios ao aparelho repressivo desse estado, em todas as suas esferas, oficiais e semiclandestinas (milícias, esquadrões de morte, pistoleiros etc.); e, com isso, rumar para uma ditadura burguesa mais aberta e intensa, como foi na ditadura militar. Na realidade, são defensores de seus criminosos armados e do terrorismo de estado contra as classes trabalhadoras!

O bolsonarismo e seu autoritarismo nasceu e se fortaleceu no bojo do aparelho repressivo brasileiro, herdeiro direto da chamada “linha dura”, dos “porões” da ditadura militar. Bolsonaro pai foi capitão do exército formado na ditadura, preso, processado e expulso por, entre outros, planejar atos terroristas como a explosão de uma adutora do Rio de Janeiro, e prestes a perder a patente militar por indignidade e com desonra em processo no superior tribunal militar, após sua condenação e prisão por tentativa de golpe de estado. Após a expulsão do exército, a carreira política de Bolsonaro foi forjada como representante de militares, policiais e funcionários do sistema penitenciário, visando atender seus interesses específicos e corporativos, mas também os defendendo quando agiam na ilegalidade para reprimir os trabalhadores e defender os interesses da burguesia. Uma das propostas de seu governo era aprovar um “excludente de ilicitude” para policiais; na prática, uma licença para matar (maior e mais escancarada do que a existente na prática hoje). Como o próprio Bolsonaro falou em 2017: “Se alguém disser que quero dar carta branca para policial militar matar, eu respondo: quero sim”.

Esse apoio ao aparelho repressivo continuou na vida política de seus filhos. Por exemplo, em recente entrevista, Flávio Bolsonaro, afirmou: “eu foquei muito a minha atuação nos militares estaduais, por isso a minha militância, o meu trabalho muito voltado para polícia, bombeiro, agente penitenciário… É um público que eu foquei em complementar meu pai [com foco maior nas forças armadas]”. Na sua carreira de deputado estadual do Rio de Janeiro, esse Bolsonaro condecorou pelo menos 23 policiais militares, civis e do exército réus e/ou condenados por chefiar, organizar e participar de milícias, executar chacinas e assassinatos, extorsão, contravenção com caça-níqueis e outros casos de corrupção e lavagem de dinheiro, incluindo o responsável pela tortura, morte e desaparecimento do pedreiro Amarildo, na Rocinha, em 2013.

Tal relação dos Bolsonaros com os agentes repressivos inclui também as milícias e outros grupos armados mais ou menos clandestinos que agem como forças auxiliares do aparelho repressivo oficial no Brasil. No estado de origem dos Bolsonaros, o Rio de Janeiro, há anos as milícias dividem e disputam o controle econômico e militar de territórios e populações inteiras com facções criminosas e o tráfico de drogas. O que é defendido, também há anos, pelo clã. Em março de 2008, o então deputado federal Jair Bolsonaro, defendeu a legalização das milícias. “Elas oferecem segurança e, desta forma, conseguem manter a ordem e a disciplina nas comunidades. É o que se chama de milícia. O governo deveria apoiá-las, já que não consegue combater os traficantes de drogas. E, talvez, no futuro, deveria legalizá-las”. Já em seu governo, houve uma ampliação do armamento de membros das corporações militares e de grupos como caçadores, colecionadores e clubes de tiro, vários deles ligados ideologicamente a seu movimento. A maior liberação de armas fomentou, por sua vez, tanto as milícias urbanas quanto as milícias do latifúndio, que se articularam e hoje estão mais consolidadas, como no caso do movimento invasão zero.

Explosão do número de armas de fogo registradas pela Polícia Federal no Brasil, que também aumentou o arsenal clandestino de milícias e organizações criminosas.

Desde o início de sua carreira política, Flávio Bolsonaro também foi defensor das milícias. Em 2007, quando deputado estadual, ele afirmou na tribuna: “Não se pode, simplesmente, estigmatizar as milícias, em especial os policiais envolvidos nesse novo tipo de policiamento entre aspas”. Em sua descarada defesa, Flávio também disse que não se importaria de pagar 20 a 40 reais por proteção miliciana. Mas os moradores dessas áreas sabem que tal “proteção” custa bem mais caro: assim como o tráfico e as outras facções criminosas, os milicianos controlam o comércio e impõem taxas e preços abusivos; realizam agiotagem, grilagem e extorsão; exploram a venda e locação de imóveis e monopolizam serviços essenciais – além de promoverem ameaças, sequestros, torturas e assassinatos. Já em 2011, o mesmo Flávio se posicionou da seguinte forma sobre o assassinato da juíza Patrícia Acioli por milicianos: “Que Deus tenha essa juíza, mas a forma absurda e gratuita com que ela humilhava policiais nas sessões contribuiu para ter muitos inimigos”. Anos antes, ele havia homenageado o PM que seria o mandante desse assassinato.

Mas o apoio de Flávio Bolsonaro às milícias envolve mais do que discursos. É amplamente conhecida sua relação com o ex-capitão, expulso do BOPE por indisciplina e violência extremada, segurança de bicheiros, membro de esquadrão da morte e chefe miliciano Adriano Magalhães da Nóbrega, morto como queima de arquivo em 2020. Adriano era um dos líderes do Escritório do Crime, grupo de extermínio e milícia da zona oeste do Rio de Janeiro. Em 2003, Flávio fez uma menção de louvor a Adriano na assembleia legislativa do Rio; em 2005, concedeu a Medalha Tiradentes ao miliciano, já preso à época por homicídio – detalhe: o novo Bolsonaro fez questão de ir pessoalmente entregar a medalha a Adriano no presídio. Em seguida, Flávio nomeou a esposa e a mãe de Adriano como assessoras de seu gabinete, funcionárias fantasmas que entregavam boa parte de seus salários, mais de 1 milhão de reais, no crime de peculato, conhecido como “rachadinha”. Esse dinheiro alimentou o milionário esquema de corrupção da família Bolsonaro e para o financiamento de atividades milicianas, operados por Fabrício Queiroz, ex-parceiro de Bolsonaro pai no exército, ex-PM e outro assessor de Bolsonaro filho. Em 2020, Fabrício Queiroz foi preso na casa do advogado dos Bolsonaros, Frederico Wasseff, e hoje é político no mesmo partido de Bolsonaro – combatendo os “criminosos” e defendendo a “família de bem” (sic!).

À esquerda, Flávio com Queiroz. À direita, o miliciano condecorado, Adriano, preso.

“O crime do rico a lei o cobre”, já dizia o hino internacional do proletariado. E como era de se esperar, todo esse esquema corrupto e miliciano envolvendo Flávio Bolsonaro deu em pizza, sob as bênçãos do judiciário e de Gilmar Mendes. Os pobres, que Flávio Bolsonaro quer encarcerar, torturar e matar ainda mais, não têm a mesma sorte…

E, de acordo com novas investigações, os Bolsonaros não possuem “preconceitos” e também se relacionaram com gente ligada ao Comando Vermelho (CV). O aliado de Flávio Bolsonaro, deputado estadual e ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (União Brasil), foi recentemente indiciado pela Polícia Federal sob suspeita de repassar informações sigilosas a integrantes do CV. Isso logo após a prisão do ex-deputado TH Joias (MDB), protegido de Bacellar e apontado como membro do braço político do CV.

  1. O novo Bolsonaro é a velha corrupção do sistema político brasileiro

Toda a família Bolsonaro, que se pinta cinicamente de paladino contra a corrupção e a velha política, enriqueceu por meio do dinheiro público desviado e dos privilégios típicos de todo político burguês. Os Bolsonaros se tornaram, todos, milionários depois de décadas de atividade política, no legislativo e no executivo, seja pelos salários, verbas astronômicas e pelas infinitas mordomias, seja principalmente pelos esquemas corruptos de “rachadinhas”, de apropriação ilegal e lavagem de dinheiro. Do pai ao filho, estão mergulhados até o último fio de cabelo na velha corrupção intrínseca ao capitalismo e ao seu estado.

Durante quase trinta anos de vida parlamentar, o pai e os filhos Bolsonaros empregaram quase 300 “assessores de gabinete”, incluindo mais de 100 aparentados entre si. Na verdade, eram funcionários fantasmas dos quais os Bolsonaros roubavam até 90% dos salários mensais (crime de peculato), acumulando dezenas de milhões de reais. A principal forma de lavagem desse dinheiro ilícito era a compra de imóveis (em nome próprio ou de um laranja), pagando centenas de milhares de reais em dinheiro vivo por cada imóvel. Por esses crimes, Flávio Bolsonaro foi investigado pelo grupo especializado de combate à corrupção do ministério público do Rio de Janeiro e pelo COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e só não foi condenado por decisões liminares de Luiz Fux e Dias Toffoli, do STF, quando seu pai já era presidente.

Em levantamento de patrimônio da família Bolsonaro em imóveis, em 2022, o UOL identificou 107 propriedades, compondo um valor total de R$ 25 milhões. Desses inúmeros imóveis legalmente registrados, pelo menos 51 foram adquiridas total ou parcialmente com uso de dinheiro vivo (indício de lavagem de dinheiro, prática comum entre os bolsonaristas) e 25 deles foram comprados em situações que se tornaram investigações do ministério público do Rio de Janeiro e do Distrito Federal.

Entre os mais novos imóveis dos Bolsonaros está a mansão de R$ 6 milhões comprada por Flávio em 2021, na área mais nobre de Brasília. O 20º imóvel dele em 16 anos! A casa possui quase 1.100 m² e é equipada com academia, brinquedoteca, sauna integrada à piscina, forno de pizza, além de varandas em mármore. Bolsonaro filho deu quase 3 milhões de entrada e o resto foi financiado, com juros camaradas, pelo Banco de Brasília (BRB), cujo presidente da época está preso no caso do Banco Master.

Mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília.

Mas esse não é o único caso que liga Flávio Bolsonaro e tantos outros Bolsonaros e bolsonaristas à uma das maiores fraudes financeiras do país e a seus agentes. Como tem revelado o Intercept, Flávio Bolsonaro era amigo próximo e “irmão” do chefão do Banco Master, Daniel Vorcaro. Negociou diretamente com ele R$ 134 milhões, chegando a fazer uma visita de solidariedade após a primeira prisão de Vorcaro. Até onde se sabe, conseguiu mais de R$ 60 milhões do dinheiro roubado do Master. A forma de lavagem desse dinheiro corrupto usava como desculpa o financiamento do filme bolsonarista sobre Jair Bolsonaro, Dark Horse. Um de seus objetivos reais, no entanto, era cobrir os custos de Eduardo Bolsonaro, hoje sem cargo público para mamar, em suas atividades conspirativas e antinacionais nos EUA.

Mansão de Eduardo Bolsonaro em Southlake, nos EUA.

Mas essa história “cinematográfica” não para por aí. A Entre Investimentos e Participações, empresa utilizada por Vorcaro para movimentar o dinheiro para os Bolsonaros, compartilhava o mesmo fundo de investimento (Gold Style) que a BK Bank e outras empresas investigadas por envolvimento com a facção criminosa PCC. Além disso, em 1º de junho, a polícia civil de SP realizou uma operação que teve como alvo o Instituto Conhecer Brasil, de propriedade de Karina Ferreira da Gama, também dona da produtora Go UP Entertainment – responsável pelo filme bolsonarista. A investigação apura fraudes (superfaturamento, notas falsas, não cumprimento do serviço etc.) em contrato de R$ 108 milhões com a prefeitura de São Paulo, para instalação de pontos de acesso à internet na cidade. E essa está longe de ser a primeira falcatrua dessa agente cultural bolsonarismo. O filme mais caro da história do cinema nacional (risos) também recebeu vários milhões de reais de emendas parlamentares de deputados bolsonaristas… Ou seja, quanto mais mexe, mais fede!

Esse filme sobre Bolsonaro pai, cheio de toda podridão (e nem toda ela ainda revelada…), ainda não tem data de lançamento. Até lá, a tentativa emergencial da candidatura de Flávio Bolsonaro é esconder e justificar mais esse mega escândalo de corrupção e enriquecimento ilícito envolvendo ele, sua família e seus aliados.

  1. Combater a extrema-direita, fascista, a partir de uma posição de classe proletária, Comunista

O bolsonarismo, velho ou novo, pai ou filho, é a expressão predominante do persistente setor de extrema-direita, fascista e golpista da burguesia brasileira, com força institucional e eleitoreira e capacidade de mobilização de massas. Sua atual candidatura presidencial, envolta em todo tipo de podridão, se alinha de forma servil aos recentes ataques imperialistas ianques e é acompanhada da busca por eleger uma maioria no senado federal, pela manutenção da maior bancada parlamentar na câmara dos deputados, assim como pela composição de palanques para governadores e deputados estaduais.

Diante dessa ofensiva e dessa ameaça de nossos inimigos de classe, reafirmamos nossa posição de combater o bolsonarismo como tarefa indispensável aos Comunistas e aos trabalhadores do país. Transcrevemos abaixo a conclusão de nosso texto “O fascista Bolsonaro é amigo dos patrões e inimigo das classes trabalhadoras!”, de agosto-setembro de 2022, que integra nosso livro físico e digital “Quem são os nossos inimigos? Quem são os nossos amigos? A conjuntura econômica e política brasileira e a posição comunista”. Avaliamos que ela mantém integralmente sua validade neste meados de 2026, já iniciado mais um processo eleitoreiro para presidente no país:

[…] Bolsonaro significa, por um lado, a continuidade e o aprofundamento da ofensiva burguesa na luta de classes contra o proletariado e as demais classes dominadas e, por outro, a estruturação da extrema-direita, fascista, como organização política com iniciativa e capacidade de mobilização virtual e nas ruas.

Dessa caracterização decorrem duas conclusões necessárias, do ponto de vista dos e das comunistas:

    • Derrotar Bolsonaro nas próximas eleições de outubro não resolverá nenhuma dessas duas características. Não impedirá a continuidade da ofensiva burguesa – que passará a ser assumida pelo novo presidente, Lula nesse caso, com os ajustes de praxe – e não representará a desorganização da extrema-direita, fascista.
    • O inimigo de classe, a burguesia – seja sua vertente de extrema-direita, fascista, seja sua vertente reformista e oportunista, e seu aparelho de estado – somente poderá ser golpeada e posteriormente derrotada pela força majoritária da classe operária e das demais classes exploradas em luta, nas greves, nas ocupações, nas ruas, fortalecendo sua consciência, sua organização e criando seu instrumento para a construção do caminho revolucionário, o Partido Comunista.

[…]

A negação ou o adiamento dessas tarefas fundamentais, sua substituição pelo eleitoralismo, pela conciliação/subordinação de classes, apenas continuará contribuindo para a desorganização da massa trabalhadora, para que ela não tenha uma política própria e independente, de classe, para o prolongamento da escravidão assalariada.

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- 25/06/2026