Manifestação do PCM sob o lema: “O Comunismo é a juventude do mundo”
Cem Flores
05.11.2026
O Primeiro Secretário do Comitê Central do Partido Comunista do México (PCM), Pável Blanco, publicou um artigo no jornal do seu partido, no dia 23 de outubro, portanto, antes do segundo turno, sobre as eleições presidenciais burguesas no Brasil e os falsos dilemas que ela representava. O texto também defende uma posição comunista tanto para o Brasil quanto para o México. A seguir, o Cem Flores publica a tradução para o português do artigo do camarada Pável.
Podemos resumir o falso dilema político e eleitoral de que trata o camarada nos seguintes termos: os comunistas devem manter uma postura comunista e revolucionária, uma postura de classe proletária, própria e independente, ou abrir mão dela em prol do apoio a um dos candidatos ou partidos burgueses – que ele chama de socialdemocrata – pelo critério do “menos pior”?
A candidatura burguesa do PT não apresenta, ou não deveria apresentar, surpresas para os comunistas quanto ao seu caráter de classe. Afinal, “por mais de 20 anos, puderam governar e é possível tirar conclusões”. A conclusão do PCM sobre os governos petistas e seu papel é clara e direta, sem deixar margem para dúvidas: “objetivamente, consolidou-se o poder dos capitalistas”.
Essa avaliação está no mesmo campo que a nossa, que afirma que o PT é um Partido da Ordem burguesa no Brasil e o principal gestor do capitalismo brasileiro neste século. Além de seus governos contribuírem para consolidar o poder dos capitalistas, Lula e o PT também reforçaram a posição dominada do país na divisão internacional do trabalho do sistema imperialista mundial – que nós temos conceituado de regressão a uma situação colonial de novo tipo. Ao longo de quase duas décadas, também consolidaram e avançaram na implementação do programa hegemônico da burguesia, com a efetivação das “reformas”, privatizações, juros altos, arrocho fiscal etc.
Na avaliação do PCM, as duas candidaturas burguesas, não obstante todas as suas diferenças, compartilhavam um aspecto comum, o de defesa da ordem burguesa e da exploração das massas trabalhadoras pelos patrões: “certamente, quem quer que vença, qualquer uma das duas opções do capital aprofundará a precarização e a desvalorização da força de trabalho, assim como a deterioração das condições de vida dos trabalhadores e de suas famílias”.
A partir dessa sua posição de classe proletária, comunista e revolucionária, o Primeiro Secretário do PCM critica os comunistas brasileiros, por aqui também autodenominados “esquerda radical”, mostrando como eles se enredaram no falso dilema:
“escolhem que um caminho capitalista é melhor do que outro, ou menos pior, e que a linha de resistência à reação não é a luta revolucionária da classe operária e dos comunistas, mas que deve ser depositada na socialdemocracia, a mesma que pavimentou o caminho para essa situação”.
Esse falso dilema é o mesmo quando transplantado para o cenário internacional: “se iludem acreditando que existe um bloco de países capitalistas melhor do que outro”.
Também nesse aspecto, a posição política do PCM está, no geral, alinhada com a que definimos em nossos documentos como, entre outros, a Declaração Política do nosso 4º Encontro de Organização, “Os Comunistas não devem escolher qual inimigo de classe apoiar”, de dezembro de 2025, “Uma Posição Comunista sobre as Eleições Burguesas de 2026 no Brasil”, de setembro de 2026, e nossa avaliação sobre as eleições presidenciais burguesas, “A mobilização das massas estudantis e populares derrotou a extrema-direita. Nenhuma ilusão com o governo burguês eleito de Lula/Alckmin. Reforçar a organização e a luta proletária e popular”, de 30 de outubro.
Em relação aos Bolsonaros, os líderes da extrema-direita brasileira, discordamos de sua não caracterização, pelo PCM, como lideranças fascistas de um movimento fascista, inclusive com participação internacional. Essa nossa avaliação a mantemos desde o começo do governo Bolsonaro, em 2019, inclusive criticando as sucessivas propostas de frentes amplas, multiclassistas, sob liderança da burguesia para combater o bolsonarismo. Em relação à nova/velha candidatura Bolsonaro, e suas características fascistas, publicamos uma extensa avaliação em julho deste ano.
Na análise do capitalismo brasileiro sob os governos burgueses de Lula e do PT, o camarada Pável afirma que neles o “desenvolvimento capitalista do Brasil continuou sua marcha acelerada, e o país foi melhorando sua posição dentro do sistema imperialista. Por meio da exportação de capitais, percebe-se que os monopólios brasileiros fortaleceram suas posições. O Brasil é uma das dez principais economias capitalistas do mundo e a primeira entre os países da América Latina”.
Como já afirmamos, estamos de pleno acordo em caracterizar o PT como o principal gestor do capitalismo brasileiro neste século. No entanto, ao invés de “melhorar” sua posição no sistema imperialista, o Brasil agravou sua posição dominada, com forte influência da ascensão chinesa à condição de potência imperialista, desindustrializando e reprimarizando a estrutura econômica do país. Além disso, desde 2025 a economia passa por uma desaceleração, que tende a se agravar em 2027, agravando as condições concretas de vida das massas trabalhadoras.
Por fim, achamos imprescindível reforçar a conclusão do camarada Pável e do PCM:
“O caminho é concentrar forças para a luta anticapitalista, antimonopolista e pelo socialismo. Esse caminho é desvalorizado quando, ainda que por um período muito breve, são depositadas na socialdemocracia ou em qualquer outra opção burguesa as tarefas que cabem ao partido da classe trabalhadora: o Partido Comunista”.
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Partido Comunista do México (PCM)
Falsos dilemas nas eleições do Brasil
Pável Blanco Cabrera
Primeiro Secretário do Comitê Central do Partido Comunista do México
23 de outubro de 2026
Editorial · El Machete
Decidi escrever antes do segundo turno no Brasil, pois é um dever tomar posição previamente, e não esperar comodamente o desenrolar dos acontecimentos. Além disso, porque uma situação semelhante pode ocorrer no México.
Insiste-se em apresentar como um dilema entre um governo progressista e o fascismo, representados, respectivamente, por Lula e Bolsonaro. E, sem exceção, as forças se alinharam nessa direção, sacrificando a posição classista dos trabalhadores, que acaba não sendo expressa. Ao estudar as posições dos comunistas brasileiros, constatamos que todos decidiram apoiar Lula. Mas será isso correto? É o que nós faríamos em uma situação semelhante no México?
Depois de Chávez, o governo de Lula foi o seguinte a ficar nas mãos do progressismo, logo no início do século 21. Desde então, já houve vários mandatos, alternados com os de sua correligionária Dilma Rousseff, e também com o de Bolsonaro. Por mais de 20 anos, puderam governar e é possível tirar conclusões. O desenvolvimento capitalista do Brasil continuou sua marcha acelerada, e o país foi melhorando sua posição dentro do sistema imperialista. Por meio da exportação de capitais, percebe-se que os monopólios brasileiros fortaleceram suas posições. O Brasil é uma das dez principais economias capitalistas do mundo e a primeira entre os países da América Latina. Objetivamente, consolidou-se o poder dos capitalistas. Diferentes intelectuais que inicialmente tinham expectativas de transformações explicaram que os programas sociais do estado, o assistencialismo, foram absolutamente funcionais à dominação de classe da burguesia.
Como país capitalista, alinhou-se ao campo da multipolaridade, aos BRICS, também denominados bloco de países capitalistas emergentes. Se alguns se iludem acreditando que existe um bloco de países capitalistas melhor do que outro, a realidade diz o contrário.
Lembramos como foi duramente criticado pelos comunistas brasileiros pela sua participação na missão militar da ONU no Haiti, e nada se pode dizer sobre qualquer confronto de sua parte com a política de Trump em matéria de asfixia energética contra Cuba.
Vários comunistas brasileiros demonstraram detalhadamente o caráter capitalista de seu governo e seu distanciamento dos interesses populares e dos trabalhadores. Bolsonaro é um reacionário, da mesma linhagem de Bukele, em El Salvador, Milei, na Argentina, e De la Espriella, na Colômbia. Reacionários, sim, mas, falando com seriedade, não se pode concluir que se trate de fascismo, sem desconsiderar que o fascismo é uma força contrarrevolucionária à qual o capital não hesitará em recorrer em um momento de ascensão revolucionária da classe operária. Trata-se de outro debate, mas, quando se faz uma caricatura do fascismo, só se pode fazer também uma caricatura da luta antifascista.
Foram os socialdemocratas, as gestões progressistas, que abriram as portas para a ascensão dessas correntes políticas reacionárias. Isso ocorreu no Brasil com Bolsonaro pai, no Equador, em El Salvador, onde inclusive Bukele surge das fileiras da FMLN, na Argentina e no Chile. É possível buscar nuances, mas, em essência, os socialdemocratas e os conservadores seguem um caminho de continuidade do capitalismo, anti-operário e antipopular. Um círculo vicioso que já dura algum tempo.
Ao longo dos anos, no Brasil, foram sendo impostas reformas anti-operárias, e nunca foi implementada uma reforma agrária. Com a guerra imperialista, o confronto cada vez mais intenso entre as economias capitalistas dos Estados Unidos e da China, sobretudo na região, a carestia de vida, o aumento dos preços da energia e o ciclo de crises da economia capitalista, é alheio à realidade esperar qualquer reforma positiva. E, certamente, quem quer que vença, qualquer uma das duas opções do capital aprofundará a precarização e a desvalorização da força de trabalho, assim como a deterioração das condições de vida dos trabalhadores e de suas famílias.
Isto que escrevo é descrito melhor e com maior profundidade por destacamentos de comunistas revolucionários do Brasil. No entanto, eles optaram por apoiar Lula no segundo turno, para continuar, caso ele vença, a luta contra ele, colocando como prioridade a derrota de Bolsonaro.
Ou seja, escolhem que um caminho capitalista é melhor do que outro, ou menos pior, e que a linha de resistência à reação não é a luta revolucionária da classe operária e dos comunistas, mas que deve ser depositada na socialdemocracia, a mesma que pavimentou o caminho para essa situação.
Não vamos dizer o que eles devem fazer, muito menos às vésperas da decisão, mas devemos tirar lições no curso da elaboração de uma estratégia revolucionária e também do que faríamos no PCM ao enfrentar um cenário semelhante, algo altamente provável, dado que existe uma tendência à construção de um Bolsonaro/Milei/Bukele/De la Espriella mexicano, que é o corrupto empresário Ricardo Salinas Pliego.
Com sinceridade e partindo de posições da luta de classes, o expressamos: não nos submeteríamos a tal dilema, não cederíamos a essa pressão que insiste em atribuir aos revolucionários a responsabilidade pelo fracasso da socialdemocracia, que é arquiteta de seu próprio destino. O caminho é concentrar forças para a luta anticapitalista, antimonopolista e pelo socialismo. Esse caminho é desvalorizado quando, ainda que por um período muito breve, são depositadas na socialdemocracia ou em qualquer outra opção burguesa as tarefas que cabem ao partido da classe trabalhadora: o Partido Comunista.
https://elmachete.mx/index.php/2026/10/23/falsas-disyuntivas-en-las-elecciones-de-brasil/
