CEM FLORES

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Conjuntura, Destaque, Imperialismo, Internacional

Ação Comunista Europeia: Dois anos da guerra imperialista na Ucrânia

Cem Flores

01.03.2024

A guerra na Ucrânia completou 2 anos no dia 24 de fevereiro. Centenas de milhares de trabalhadores e de trabalhadoras, soldados e civis, ucranianos e russos, já morreram no conflito. Trata-se do maior conflito militar em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial, cujos riscos de escalada continuam reais.

Como o Cem Flores tem afirmado em um conjunto de publicações, essa guerra é expressão direta da caraterística central da conjuntura mundial hoje: o aprofundamento das contradições entre países e blocos imperialistas no mundo, em contexto de estado depressivo do imperialismo. Nesse caso, uma violenta disputa entre os interesses dos EUA e seus aliados, de um lado, e os da Rússia e seus aliados de outro.

Por se tratar de uma guerra de caráter imperialista, não cabem às classes dominadas e às organizações comunistas se colocarem a reboque de um ou outro polo imperialista e de seus capitais; mas sim denunciar a ampliação da barbárie nesse período de crise imperialista, organizar e construir a luta do proletariado a partir de seus verdadeiros interesses e avançar na perspectiva revolucionária.


Sobre a guerra na Ucrânia, leia também as seguintes publicações do Cem Flores:

– A Conjuntura Internacional no Começo de 2022, de 25/02/2022.

– A Guerra na Ucrânia é uma guerra entre potências imperialistas! A guerra dos comunistas é contra o imperialismo!, de 02/03/2022.

– Guerra da Ucrânia: “Os custos serão pagos pelos trabalhadores” – por Coletivo CVM, de 15/04/2022.

– A guerra inter-imperialista na Ucrânia e as armadilhas para uma posição proletária, de 19/04/2022.

– Guerra na Ucrânia: preparação de conflitos interimperialistas ainda maiores!, de 25/05/2022.

– Panorama da conjuntura internacional, por Ana Barradas, de 04/02/2023.

– A Conjuntura Internacional no começo de 2023, de 11/02/2023.

KKE: Sangue e lágrimas para os povos – Lucros para o capital, de 28/02/2023


Divulgamos agora a declaração da Ação Comunista Europeia (ACE) sobre os 2 anos da guerra na Ucrânia. A ACE é uma aliança de partidos e organizações revolucionárias europeias fundada no final de 2023, após a dissolução da eclética Iniciativa Comunista Europeia (2013-2023), que incluía apoiadores do bloco imperialista russo e chinês. A ACE significa uma recente e importante depuração no movimento comunista europeu, constituindo-se em um bloco que defende claramente as concepções leninistas de imperialismo, a derrubada do capitalismo e o combate à fascistização, ao reformismo e ao oportunismo.

Em sua Declaração de Fundação, a ACE afirma:

Os nossos Partidos avaliam que o imperialismo não é apenas uma política agressiva. É o capitalismo monopolista, o capitalismo na sua era mais reacionária, isto é, na sua fase mais elevada. É essencialmente inerente à estagnação, ao grande fosso entre o potencial produtivo e a satisfação das necessidades contemporâneas dos trabalhadores, devido à exploração de classe, às contradições entre os monopólios e os estados burgueses que conduzem às guerras imperialistas.

Acreditamos que as intervenções e guerras imperialistas, como a que eclodiu na Ucrânia em 2022, onde os interesses e planos dos EUA, da OTAN e da UE colidem com a Rússia capitalista pelo controle dos mercados, das matérias-primas e das redes de transporte da Ucrânia e a aquisição de vantagens geopolíticas, são também resultado da competição imperialista.

Já em sua declaração sobre mais um ano de guerra na Ucrânia, a ACE começa considerando a guerra como um desdobramento da dissolução da antiga União Soviética. “Foi o derrubamento do socialismo que preparou o terreno para esta guerra”. O Cem Flores critica tal posição, pois ela não identifica as principais causas do conflito, assim como distorce a realidade das últimas décadas da União Soviética, baseadas no revisionismo e na restauração capitalista. A atual burguesia e liderança estatal russa possui diversas ligações com a classe dominante da antiga União Soviética em decadência.

Para a superação da crise do movimento comunista, é fundamental uma rigorosa avaliação marxista-leninista das experiências de construção do socialismo no século passado e de suas derrotas. Realizar uma defesa acrítica dos antigos “países socialistas”, sem o devido combate aos desvios e às posições burgueses que saíram vitoriosas na luta de classes dessas experiências, é correr o risco de praticar revisionismo, e não marxismo-leninismo.

A declaração da ACE também contém outro erro ao afirmar que, independente da Rússia estar sob ameaça, ela poderia simplesmente não ter iniciado a guerra. A nosso ver, essa afirmação não condiz com uma análise concreta da realidade concreta. Como os próprios fatos elencados na declaração demonstram, o acirramento das contradições interimperialistas (que inclui a potência imperialista ascendente, a China, não citada no documento) gera uma tendência, em todo o planeta, às guerras. Esse é o fator mais importante, que cria uma necessidade objetiva dos capitais e seus representantes políticos e militares a se chocarem violentamente, independente dos governos de plantão e suas preferências. Leva inclusive ao risco de um novo conflito militar de escala planetária e de consequências imprevisíveis, muito bem apontado na declaração.

A ACE destaca acertadamente que os “protagonistas” dessa guerra, portanto, são os capitalistas de todos os países envolvidos. Uma guerra que expressa o conflito de interesses econômicos e geopolíticos de blocos imperialistas. Não se trata, assim, de forma alguma, de uma guerra anti-imperialista ou antifascista.

“Embora a liderança russa afirme que seu objetivo principal em continuar a guerra seja a desnazificação da região e que aspira a romper o cerco do bloco ocidental, é evidente que a principal motivação é a proteção dos interesses da classe capitalista russa na região. Além disso, os valores que caracterizam a Rússia atual não têm nada a ver com os da União Soviética que derrotou o fascismo. A Rússia capitalista não tem nada a oferecer à humanidade em face do imperialismo euro-atlântico

Junto a essa crítica, a ACE também se opõe aos oportunistas que defendem um “mundo [imperialista!] multipolar” como uma solução para o atual contexto de guerras e barbárie. A solução e a urgência do proletariado e demais classes trabalhadoras está sim no “derrubamento do sistema capitalista, que é a causa das guerras imperialistas”. E para isso é fundamental a reconstrução do movimento comunista sob bases marxista-leninistas: com independência de classe, organização das massas exploradas e combate ao reformismo e suas ilusões.

Por fim, a declaração da ACE reforça:

Diante desta guerra, que tende à generalização, declaramos novamente que continuaremos sendo a voz das reivindicações do povo trabalhador por paz, justiça social e socialismo, mantendo uma frente inabalável contra o nacionalismo, o racismo, o fascismo e o militarismo.

Nossa guerra é contra o imperialismo e contra as burguesias, em todas as suas expressões!

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Dois anos da guerra imperialista na Ucrânia: a experiência e as conclusões dos comunistas

Declaração da Ação Comunista Europeia

Nós, os partidos comunistas e operários que constituímos a Ação Comunista Europeia, reunimo-nos na conferência organizada no segundo ano da guerra imperialista na Ucrânia para avaliar as experiências e conclusões dos comunistas no período que deixamos para trás.

Em 17 de fevereiro, seguindo a conferência realizada pelo Partido Comunista da Turquia em Istambul, declaramos agir em conjunto de acordo com as seguintes posições:

  1. A guerra imperialista na Ucrânia resultou em milhares de mortes. Milhões foram forçados a abandonar seus lares e seu país. Esta guerra imperialista é uma extensão das condições que surgiram após a dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e que têm consequências trágicas para a classe trabalhadora em todo o mundo. Foi o derrubamento do socialismo que preparou o terreno para esta guerra, na qual o sangue de dois povos que trabalharam juntos por décadas para construir uma sociedade nova sobre bases socialistas é derramado, povos estes que lutaram ombro a ombro contra o fascismo e o colocaram de joelhos.
  2. O fator mais importante a alimentar esse conflito é a luta entre os capitalistas pelo saque de todos os recursos do subsolo e da superfície e da riqueza produzida pelos trabalhadores. Na raiz desse conflito estão a competição e as contradições dentro do sistema imperialista como um todo, que neste caso se expressaram na expansão da OTAN e da UE para leste e na aspiração da burguesia russa de estabelecer novas formas de organização de estados capitalistas nos territórios da antiga URSS.
  3. A competição dentro do sistema imperialista está aumentando e as contradições estão se aprofundando. Os esforços dos EUA, da UE e de seus aliados para impor seus próprios interesses no cenário internacional, em oposição à Rússia capitalista e aos países que a apoiam, já se arrastam por anos. Nos últimos dois anos se expressou na forma de uma guerra imperialista na Ucrânia. A competição por matérias-primas e recursos energéticos, bases geoestratégicas e rotas de transporte na região está aumentando.
  4. Desde o primeiro dia da guerra, a liderança russa justificou sua intervenção militar na Ucrânia com base na ameaça à segurança da Rússia representada pela expansão de seus inimigos. Independentemente dessa ameaça ser fundamentada ou não, não pode ser usada como justificativa para a violação das fronteiras existentes e o derramamento de mais sangue dos povos. Os debates iniciados pela disputa das fronteiras existentes visam principalmente criar pretextos que legitimem a agressão imperialista e devem ser rejeitados. Além disso, nossos partidos devem lembrar que os “motivos de segurança” têm sido usados há anos pelos EUA, pela UE e pela OTAN como justificativa para operações sangrentas em inúmeros países, intervenções e ocupações de territórios sob a soberania desses países.
  5. Os protagonistas da guerra não são os povos dos dois países, mas suas classes capitalistas. Apresentar a guerra como uma guerra entre Ucrânia e Rússia obscurece os verdadeiros atores da guerra e dificulta a compreensão de seu caráter de classe. A guerra em curso está sendo travada entre a classe capitalista russa e seus aliados, de um lado, e a classe capitalista ucraniana, os EUA, a UE e a OTAN, do outro.
  6. A guerra que está ocorrendo no território da Ucrânia não é uma guerra anti-imperialista ou antifascista, como afirmam a liderança da Rússia capitalista e seus defensores; um fato que nossos partidos têm apontado desde o início e que tem sido demonstrado em inúmeras ocasiões nos últimos dois anos. Embora a liderança russa afirme que seu objetivo principal em continuar a guerra seja a desnazificação da região e que aspira a romper o cerco do bloco ocidental, é evidente que a principal motivação é a proteção dos interesses da classe capitalista russa na região. Além disso, os valores que caracterizam a Rússia atual não têm nada a ver com os da União Soviética que derrotou o fascismo. A Rússia capitalista não tem nada a oferecer à humanidade em face do imperialismo euro-atlântico; a União Soviética foi o esteio da luta dos povos pela paz e pelo socialismo, enquanto hoje a liderança russa faz declarações sobre se uma nação existe ou não, afirmando que o povo ucraniano como tal não existe.
  7. Um dos elementos mais importantes para mostrar o caráter de classe desta guerra é o anticomunismo, que está sendo aumentado intencionalmente na região. As atividades das forças fascistas na Ucrânia e seus crimes contra a humanidade, a proibição e a perseguição dos comunistas continuam. Por outro lado, a liderança russa distorce fatos científicos e históricos para justificar seus planos estratégicos e confronta o passado socialista da Rússia com afirmações falsas e distorcidas sobre Lênin, Stálin e as políticas da União Soviética. Nossos Partidos continuarão lutando de forma fecunda contra a histeria anticomunista alimentada por todos os atores da guerra, para aumentar a solidariedade com os comunistas ucranianos e russos e não permitir que o legado do socialismo seja manchado.
  8. Além disso, nossos partidos, que estão na vanguarda da luta contra bases estrangeiras e o envio de tropas e equipamentos militares, chamam os trabalhadores, que veem as contradições expressas nos blocos e organizações imperialistas, a não confiar nas proclamações de um “mundo multipolar” que supostamente deteria esta ou qualquer outra guerra imperialista e nos levaria a um mundo pacífico sem o derrubamento do sistema capitalista, que é a causa das guerras imperialistas.
  9. A guerra no território da Ucrânia, assim como os planos imperialistas no Mar Vermelho, no sudeste asiático, etc., trazem o risco de uma guerra que se espalhe rapidamente em escala mundial. Neste sentido, indicadores importantes como o aumento da tensão no Mar Negro, a proposta do Secretário-Geral da OTAN aos países europeus para aumentar a produção de armamentos e o aumento em alcance e extensão dos exercícios da OTAN indicam a escalada da confrontação militar.
  10. Estes eventos nos impõem, como partidos comunistas e operários dos países europeus, que estamos sob a influência desta tensão em diferentes níveis, a tarefa de alertar e mobilizar os povos de nossos próprios países contra a ameaça de uma guerra imperialista regional ou mais generalizada e de nos opormos aos interesses e ao papel das classes burguesas de nossos próprios países nesta tensão.
  11. Não escolhemos um lado da guerra sobre o outro. As contradições dentro do sistema imperialista, a competição e a barganha que vão de mãos dadas, as falsas polarizações que servem para ocultar o antagonismo de classe, têm demonstrado repetidamente na prática dos últimos dois anos que não podem oferecer nada aos interesses dos trabalhadores; pelo contrário, ficou claro que uma abordagem submissa aos pretextos utilizados pelos imperialistas significa um retrocesso da posição revolucionária e o desdobramento de uma atitude conciliatória de classe.
  12. Nossos partidos destacam que a escolha real não é entre os chamados polos do sistema imperialista, mas entre o povo trabalhador e a classe capitalista, lembrando-nos de que a luta da classe operária pode ser fortalecida com uma linha independente, alheia a todos os planos burgueses e imperialistas, e que os povos, através de sua luta, devem se opor às guerras imperialistas.
  13. Este é o nosso chamado. Não fazemos um apelo abstrato à paz, que não deixe claro a quem se dirige e a que sirva para exonerar a classe capitalista e os atores dentro do sistema imperialista. Num sentido genuíno de paz, apelamos à luta contra a OTAN, a UE e todo tipo de organizações e alianças imperialistas que continuam alimentando a guerra, apontando para a necessidade de denunciar o caráter de classe das alianças capitalistas, e declaramos nossa solidariedade com o movimento operário e os comunistas desses países.
  14. Continuamos a luta pela retirada de tropas estrangeiras e pelo fechamento de bases em outros países, especialmente aquelas dos EUA, começando pelos de nossos próprios países. Agimos com a tarefa de impedir que nossos países apliquem ou participem de planos imperialistas e de retirá-los das uniões imperialistas como a OTAN e a UE, com os povos assumindo o controle de sua própria nação.
  15. Diante desta guerra, que tende à generalização, declaramos novamente que continuaremos sendo a voz das reivindicações do povo trabalhador por paz, justiça social e socialismo, mantendo uma frente inabalável contra o nacionalismo, o racismo, o fascismo e o militarismo.

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- 01/03/2024